Prosa

 

 

Uma janela para o mar - Pedro Abrantes - Abril 2003

10 e 17 e ele teima em não chegar. Apesar de uns longos 30 metros separarem os nossos departamentos, ele trabalha numa nesga precisamente acima da fotografia do meu cão, entre o ecrã do computador e as pilhas de trabalho que me esperam impacientemente. Só neste momento, com a sua ausência, tenho a plena consciência de que esse pequeno cubículo de campo livre na minha atafulhada e exígua secretária se tornou, nas últimas semanas, uma janela para um sonho distante. Talvez seja a última e, por isso, eu a tenha guardado religiosamente, mesmo quando os computadores, os manuais, os relatórios e os dossiers ameaçavam devorar todo o espaço disponível.

Respondi aos e-mails, passei os olhos pelas edições electrónicas dos principais jornais económicos e estou a terminar um relatório já atrasado. Mas os meus olhos desviam-se constantemente dos números do ecrã, perdendo-se no horizonte, encontrando-se naquela secretária vazia, convertida, hoje, em janela para a desilusão, reflexo negro de uma vida também ela vazia. A minha. Sinto-me tensa e frágil, como um copo numa mesa inclinada. Debato-me com uma cabeça prestes a explodir e um estômago em acesa convulsão. Repito apenas, não sejas estúpida, é só um colega de trabalho, como se o facto de o ter que repetir não fosse já uma prova irrefutável do contrário.

A princípio foi apenas uma coincidência — não será sempre assim? — uma figura anónima entre centenas de outras que trabalham na empresa e que, por acaso, eu podia vislumbrar poucos centímetros acima da referida fotografia canina. Parecia pouco competente e distraído e, por vezes, chegava a sair antes das 7 da tarde. Não era especialmente atractivo. Apenas mais um jovem yuppie, igual a tantos outros, ainda desajeitado e encolhido dentro do seu fato completo, com a gravata a condizer. Além disso, os sentimentos dentro da empresa eram muito desencorajados, somente permitidos mediante autorização expressa da direcção, e eu tinha grandes planos para mim, não queria ser humilhada ou colocada de lado.

Algumas semanas volvidas tive oportunidade de o conhecer, junto à máquina do café. Uma nova escala determinava que tinhamos o S.B.F.C. (Small Break for Coffee) à mesma hora, entre as 10 e 50 e as 10 e 55. Ao contrário das restantes salas, naquele compartimento abafado e enevoado pelo fumo dos cigarros era suposto socializarmos, apenas durante 5 minutos. Circulávamos, então, entre conversas de circunstância, comentando o tempo, contando anedotas, falando da programação televisiva da véspera ou trocando felicitações em ocasiões especiais. Um dia, aproximei-me dele e, no meu tom forçadamente jovial, disparei:

— Bom dia. Julgo que ainda não fomos apresentados. Eu sou a S.V.D. (Second Vice-Director) do Marketing.

— Olá. Eu sou o J.O.A.O. da Programação — respondeu-me num tom neutro e passaram ainda alguns embaraçosos segundos até que eu percebesse a ironia e soltasse uma gargalhada. Fez-se silêncio na sala e os olhos recaíram sobre mim. Recuperei o olhar indiferente e, no percurso de regresso à secretária, lembro-me de ter pensado: este tipo tem piada, não se vai aguentar muito tempo por aqui.

Desse dia em diante começámos a conversar, enquanto esperávamos que o café arrefecesse. Ao perto, parecia ainda mais franzino e pálido, com o cabelo pastoso a cair sobre a testa. Além disso, revelava-se pouco sociável, permanecendo, quase sempre sozinho, a um dos cantos da sala. Tinha um ar genuinamente perdido, nas antípodas do meu ideal de homem, o galã quarentão, descontraído e bem humurado, cheio de amigos e de sucesso, um pouco inspirado na figura de Richard Gere. Demonstrava-se desinteressado ou até aborrecido com as conversas triviais, sobre a televisão, o tempo ou pormenores do trabalho. As nossas conversas eram estranhas, povoadas de referências difusas e silêncios inesperados. O estado do cabelo, um concerto recente, a ideia para um romance nunca escrito, umas férias na nossa adolescência. Falávamos sobretudo sobre nós e isso é que soava estranho naquele compartimento de lugares comuns. As palavras — e os silêncios — que trocávamos tinham um leve sabor a dias entretanto esquecidos, noites quentes em esplanadas animadas, condimentadas por sorrisos doces e lágrimas salgadas, motivados por inesperados encontros e incontáveis aventuras. Um tempo em que as horas não existiam e a vida desenrolava-se como as ondas que avançam suavemente pela praia numa madrugada de Verão. Um tempo em que o chão que pisávamos era real, tal como o sol que nos queimava as pálbebras e as sensações que nos guiavam. Tão distante e irremediavelmente perdido que parecia esse mundo, neste 22º andar, de luzes artificiais, ar sempre condicionado e sorrisos sempre amarelos.

Era frequente João falar da Joana, com quem mantinha um namoro errante, movido por ânimos leves e impulsos momentâneos. Ouvia as peripécias com atenção, como quem segue uma novela. Por vezes, eram duas crianças, genuínas nos seus sentimentos e caprichos. Outras vezes, eram dois adultos da minha idade, dispostos a viver a vida até às últimas consequências, com a coragem suficiente para admitir que não conhecem o terreno que pisam, nem sabem para onde caminham.

No mês seguinte, a escala do S.B.F.C. voltou a mudar, pois a política da empresa é não encorajar amizades duradouras entre funcionários. Utilizamos cantinas, corredores e elevadores diferentes, sendo por isso muito improvável nos encontrarmos. Na altura estava também a braços com um projecto de grande responsabilidade, que me ocupava 14 horas por dia e do qual dependia a minha promoção na empresa. Limitava-me a olhar, de vez em quando, pela nesga entre o computador e os montes de documentos, certificando-me da sua presença, adivinhando o seu estado de espírito, ora  com um sorriso de alegre esperança, ora com uma expressão de tristeza e enfado. Envolto no seu mundo de experiências estranhas e emoções fortes,restituía o equilíbrio de que necessitava para me dedicar totalmente ao trabalho.

Comecei a sentir uma vontade imperiosa de falar com ele. Provoquei-o com um e-mail e sorriu-me discretamente pelo lado do computador. Passámos a trocar correspondência electrónica pela rede interna, ainda que isso fosse expressamente proibido pela empresa. Sentíamo-nos como piratas, revolucionários clandestinos, adolescentes depois da meia noite, trocando pensamentos íntimos e comentários diversos no espaço virtual. Às vezes, cruzávamos olhares conspiratórios, que nos isolavam da massa humana anónima que enchia a enorme superfície onde trabalhávamos.

Foi nessa altura que a palavra downsizing começou a ecoar pelos cantos da casa, primeiro como um assobio distante, depois como um fantasma cada vez mais presente e assustador. Falava-se de programas de re-estruturação, departamentos que iriam fechar, trabalhadores que seriam despedidos. O ambiente tornou-se tenso, os empregados controlam-se uns aos outros, tentando salvaguardar a sua posição e adivinhar quem vai sair. Os olhares apreensivos, os murmúrios constatantes, os gestos forçados conferem à sala uma atmosfera de catástrofe iminente, desolação colectiva. O meu lugar está relativamente seguro, mas já várias vezes me apercebi, em conversas cruzadas, que o departamento de programação vai ser reduzido e o João é a presa mais fácil. Com seu estilo distante e irreverente, foi semeando pequenos ódios e invejas, que esperam silenciosamente uma oportunidade para o colocarem fora do jogo.

10 e 18 e ele teima em não chegar. Provavelmente recebeu em casa uma carta fria e telegráfica, assinada por um qualquer membro anónimo da administração. Já oiço os suspiros de alegria dos meus colegas. A esta hora estará de pijama à procura de um novo emprego ou talvez deitado na cama a pensar o que se faz quando não há nada para fazer, quando o tempo sobra e o dinheiro ameaça faltar, como dizer à Joana que o seu namorado foi despedido e se encontra no desemprego, por tempo indeterminado.

Que altruista e contestatária que estou, tão preocupada com o destino deste jovem errante! Que especialista me tornei em dissimular as minhas próprias fragilidades, inventando artefactos para não reconhecer que não consigo mais alimentar os sonhos que eu própria criei, sem que aquele rapaz franzino e incompetente ocupe o lugar que lhe é devido no cubículo de espaço livre entre o computador e a pilha de papelada, sobre a fotografia do meu pobre cão, que já nem sequer reconhece a dona!

Talvez esteja simplesmente a descansar, depois de uma noite animada com os amigos e a namorada, preparando-se para novas experiências e projectos profissionais. Talvez planeie uma viagem com Joana até paragens distantes — a tal viagem sempre adiada — ou escreva um romance ou constitua uma empresa de assistência informática. Talvez o seu despedimento até seja uma dádiva, uma libertação de um mundo ao qual não pertence e nunca deverá pertencer, aonde aterrou por acaso, seduzido por um bom ordenado, e do qual agora hesitava em sair.

O problema — que eu andei sempre a esconder — é o meu lugar em toda esta estória, refugiada atrás dos relatórios urgentes, dos cafés instantâneos, das mensagens secretas. O que sobra de mim, agora que se torna evidente que preciso de o ter naquele cubículo de espaço livre para prosseguir os meus afezeres quotidianos, a minha carreira de sucessos. Em quem me tornei? Será que a minha carreira profissional está prestes a desabar como um castelo de cartas? O que é feito daquela rapariga que passava os serões de Verão com os amigos na praia, narrando aventuras, cantando ao som de uma guitarra, rindo de um passado ingénuo, troçando de um futuro incerto?

O problema — não vale a pena continuar a escondê-lo — é que, sem eu dar por isso, deixei que esta empresa se tornasse a minha vida. Entusiasmo-me com os grandes contratos assinados, a subida na bolsa, os progressos financeiros. Sofro com os projectos fracassados, as vitórias das firmas concorrentes, as derrapagens nos orçamentos. Os meus amigos ficaram, progressivamente, remetidos para um canto obscuro da memória, doces recordações, algo de inapropriado nos dias atarefados que correm. Foram atirados para o fundo do armário como fazem as raparigas de 12 anos com as suas bonecas preferidas, quando os laços que as unem ameaçam destruir a sua imagem adolescente. O pior é esta sensação de ser demasiado tarde.

É verdade que tenho o meu namorado, um rapaz bonito e bem sucedido, a trabalhar na maior consultora do país. Conheci-o numa formação avançada para novos gestores e apaixonámo-nos com a velocidade e a intensidade com que trabalhávamos. Ele parecia tão irrealmente belo, no seu fato cinzento, com o seu modo altivo de andar e os seus ditos espirituosos acerca dos mercados financeiros. Íamos passar fins-de-semana a Paris e a Veneza, comprávamos roupa de marca um ao outro, divertíamo-nos em jantares intermináveis nos restaurantes mais luxuosos da cidade e, num abrir e fechar de olhos, mudámo-nos para um apartamento duplex, com o qual nem ousávamos sonhar alguns anos antes. O passar do tempo trouxe, contudo, dias menos radiosos. Prosseguimos vidas profissionais de sucesso e, sem darmos conta, a nossa relação foi-se reduzindo a conversas cada vez mais telegráficas antes de cairmos cansados na cama. Com viagens de trabalho pelo meio, passam semanas sem nos vermos.

Certo dia, num sábado de manhã em que fora trabalhar, acerquei-me do refrigerador da água enquanto dois directores murmuravam atrás da máquina, sem se aperceberem da minha presença. Referiam-se ao “novo SPA” (Sistems Programming Assistant) que eu compreendi, de imediato, tratar-se de João.

— Não é que, na reunião do outro dia, o tipo tem a lata de contrariar o projecto da direcção e propor um novo conceito? E o mais grave é que eu estive a conferir e a proposta dele é mesmo melhor…

— Esse tipo é perigoso, Jorge. Ouve o que eu te digo. Nunca diz nada, não se dá com ninguém… pensa que é esperto. Eu conheço estes tipos. Se o deixamos, um dia destes passa-nos a perna…

Nesse momento, algo se apagou dentro de mim. Guardava o momento em que o meu director me conduzira, pela primeira vez, pelos corredores da empresa, até me apresentar a minha secretária como um dos mais felizes da minha existência. Era, então, uma finalista universitária, confusa e insegura, em quem uma multinacional reconhecida em todo o mundo decidira apostar. O salário do primeiro mês tornava ridículo as modestas poupanças amealhadas na década anterior. Mas, ao contrário daquilo que muitos julgam, não fora o salário que me seduzira. Do topo deste arranha-céus no centro da cidade, sentimo-nos protegidos, imúnes à nossa própria fragilidade. Podemos ver as pessoas que passam na rua, quase como formigas caminhando com receio de serem pisadas. Mas, aqui em cima, tudo está no lugar certo e nos saúda com o seu brilho. As secretárias de design, os fatos finos, os jovens empregados dinâmicos,tudo parece adornado a ouro. 

Claro que, com o tempo, fui-me apercebendo que as exigências de trabalho eram imensas e as relações entre os funcionários nem sempre eram as melhores. Mas eu tinha ambições, a exigência era um voto de confiança na minha responsabilidade. Além do mais, gostava de trabalhar, mantendo a minha privacidade, evitando grandes intimidades com os colegas. Dedicava-me ao trabalho, sem me envolver em esquemas ou confusões, e isso tinha-me valido já, em apenas três anos, várias promoções e elogios. No ano passado, fui inclusivamente a Nova Iorque com os directores para ser apresentada ao principal accionista da multinacional, um dos 10 homens mais ricos do mundo, que teceu apenas alguns comentários de gosto duvidoso acerca dos meus atributos físicos.

Naquela manhã, com o copo de água a transbordar até me encharcar as mãos, um arrepio trespassou-me a espinha. A empresa a quem tinha dedicado os últimos anos da minha vida surgia aos meus olhos, pela primeira vez, como um monstro, pronto a engolir todas as boas intenções e réstias de integridade com que se deparava. De repente, todos os meus dias de trabalho, repletos de sucessos aparentes, se afiguraram como um desperdício monumental de oxigénio, uma longa caminhada para o vazio, uma conspiração contra as memórias longínquas de um passado mais honesto e genuíno.

O regresso à minha secretária trouxe, todavia, a reconciliação com o sonho que me animava. Recordei a alegria que sentira nos primeiros dias de trabalho. Pensei em tudo aquilo que já tinha conquistado e em todas as responsabilidades que depositavam em mim e senti verdadeiro orgulho. Nas semanas seguintes, procurei continuar a ser a funcionária competente e dedicada. No entanto, a dúvida permaneceu dentro de mim, adormecida, irrompendo em momentos inoportunos, obrigando-me a parar o trabalho, até quase me sufocar. Nessas ocasições, procuro, com todas as minhas forças, juntar as peças que restam de mim e não pensar que algo pode estar irremediavelmente errado. Comigo.

Especialmente hoje, sinto-me vazia e desorientada, sem conseguir compreender em quem me tornei, nem escolher entre um sonho recentemente corrompido e as memórias difusas de um mundo mais genuíno, mas ao qual já não pertenço. Um psicólogo diagnosticou-me recentemente stress resultante de “excesso de trabalho” e colocou-me de baixa durante uma semana. No entanto, naquela fatídica manhã de segunda-feira, não permaneci mais de duas horas em casa. Esperavam-me cinco dias a enfrentar sozinha o desespero, obrigada a asssumir o fracasso face ao meu namorado, aos meus pais, aos meus patrões. Voltei, imediatamente, ao trabalho, com uma expressão e uma energia de quem nunca tinha sido tão feliz.

10 e 19 e ele teima em não chegar. Num impulso, levanto-me da cadeira determinada a tomar o destino nas minhas mãos. Em meio minuto, posso destruir tudo aquilo que construí nos últimos anos. Vou comunicar à administração o meu despedimento, descer ao mundo real das ruas e das emoções, voltar a entrar no arranha-céus do outro lado da rua, anunciar ao meu namorado que há meses que sei do seu romance com uma colega do trabalho chamada Elisa e que nunca mais quero ver o seu rosto arrogante e presunçoso em toda a minha vida.

Avanço rapidamente para o gabinete do director da empresa, ainda que a secretária da direcção me grite aos ouvidos e me tente agarrar, repetindo que está a decorrer naquela sala uma reunião com a administração. Abro a porta de rompante, no preciso momento em que directores e administradores apertam as mãos, reunem os papéis e se levantam das cadeiras. Revelam-se algo surpreendidos com a minha entrada, mas o director da empresa caminha rapidamente na minha direcção e anuncia com um ar feliz:

— Parabéns. Entrou no momento certo, ia agora mesmo pedir para a chamarem. Como deve saber, estivémos aqui a discutir com a administração as estratégias de re-estruturação da empresa. E queria, em primeira mão, apresentar à administração a nossa nova directora do marketing.

O meu coração disparou, oiço aplausos ruidosos e comentários lisonjeiros relativamente à minha juventude e ao currículo que já tenho. Todos me apertam a mão, tecem elogios e me desejam boa sorte. Pela maneira como me olham, rapidamente percebo que, neste preciso momento, me aceitaram como um deles. Estou tão atordoada que apenas consigo alternar esgares de surpresa com sorrisos de agradecimento.

Rapidamente, todos partem para as suas vidas atarefadas e eu fico a sós com o director, nesta sala enorme e luxuosa. Ele está radiante, contando-me como se tinha batido para que o meu nome fosse o escolhido, contra outros gestores bem mais experientes e conceituados. Em seguida, descreve minuciosamente os pormenores do novo contrato, que inclui um aumento significativo do salário, gabinete próprio, um BMW da empresa e outras regalias. O meu coração bate com tanta força que eu nem sequer consigo ouvir a proposta de contrato que me faz. Pergunta-me finalmente se tenho alguma reparo ou exigência a fazer. Nos segundos seguintes revejo os últimos meses da minha existência. Depois respondo-lhe calmamente:

      Que o gabinete tenha uma janela para o mar.

 

 

 

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