Prosa
O dia escureceu... - Cristina Augusto - Junho 2002
Pois,
hoje quando acordei o quarto estava escuro e quando cambaleando me levantei e
corri a cortina do quarto, o dia estava cinzento. De imediato levei as mãos aos
olhos, a claridade do dia feriu-me o olhar...pensei então, que dia será hoje?
Que horas serão? E lentamente, quase a medo, rodo o meu corpo sobre os meus pés
frios, num chão de pedra gelado, e olho para a cama...e então caio em mim, neste
presente escurecido, olho para a cama, e vejo que estou sozinha...na mesa de
cabeceira, uma foto, TU, sorris-me como a dizer habitualmente “Bom dia
Princesa”...
Corro então para a cama, e num salto deito-me na minha habitual posição fetal, e fecho os olhos, quero dormir, meu amor, fecha-me os olhos, não quero acordar sem ti...
Como aconteceu? Nem eu sei bem, ainda ontem eras cinza, deitada ao mar, no sopro do vento, espalhei-te na nossa praia, e sobre as cinzas por entre a espuma do mar que gritava, lancei pétalas brancas, eram as tuas flores preferidas que tão gentilmente me oferecias, e com as quais acariciavas meu corpo, em momentos orgásticos, precedentes do acto sexual propriamente dito.
Porque te foste embora, antes de eu me fartar de ti? Como sempre me fartei dos homens da minha vida. Tenho sede de aventura e fúria de viver, entendes? Procuro sempre algo, nem eu sei o que...mas não posso estar parada, estagnada, tenho sempre este turbilhão de emoções à flor da pele, tenho sede de uma paixão, e quando esta morre, após seu período de luto, tenho de encontrar outra, e outra e outra ainda...sou assim, meu amor, sempre fui...Perdoa-me...
Eras mais novo que eu, meu amor, não sei se era esse teu sorriso que me deslumbrava, se esse teu vigor juvenil, essa tua juventude que transbordavas num simples olhar...Chamavas-me princesa, e eu amava-te...simplesmente amava-te...
Disseste-me até já....naquela madrugada de domingo, em que te apercebeste que estavas sem cigarros, ias apenas comprar cigarros...e não voltaste...devias-me ter dito adeus...para eu me poder despedir de ti, para eu te impedir de sair, PORQUE NÃO O FIZESTE? Oiço o meu próprio grito, que dilacerou aquela noite, quando o telefone tocou, e uma voz me disse...sabe...houve um acidente...Foi ali que me apercebi...que esse teu sorriso já não ia sorrir mais, o meu corpo também não se iria entregar mais ao teu, e o teu abraço, ai meu deus, como eu gostava desse teu abraço...que nunca mais tive...Foi ali que envelheci mais ainda...Deixei cair o telefone...Depois só me lembro da tua irmã tentando me consolar, eu vestida de negro, num barco...o mar picado, rosnando...eu parecia de pedra, estava fria, gelada, branca...meu amor...tenho saudades...Entregaram-me então uma pequena urna, com cinzas, o teu corpo...em cinzas...ia tocar teu corpo pela última vez...aí fechei os olhos, pedi a Deus para te receber, pedi a Deus para me vir buscar depressa, deitei meu xaile ao mar, e lancei-te entre lágrimas silenciosas, atirei-te ao vento, e murmurei....Vai meu amor, e espera por mim, guarda-me em ti, por ti, por mim...
Hoje continuo deitada, à tua espera, sempre que abro os olhos, vejo passar este filme, qual cores...a preto e branco mesmo, como slides projectados, que ferem minha alma.
Tenho saudades tuas meu amor...
O dia
escureceu...para mim já não tem luz!
