Prosa

 

 

Silêncio - Pedro Farinha - Fevereiro 2002

 

Por  vezes o silêncio é insuportável.

É mais ensurdecedor que quaisquer gritos. Olho-te e vejo a tua boca cerrada, o teu olhar preso na estrada. Fico sempre com vontade de te pedir desculpa mesmo que não saiba bem de quê. Eu sou assim. Tu és assim.

Sempre que algo corre mal eu penso que a culpa é minha. Tu também: sempre que algo corre mal pensas que a culpa é minha. O silêncio sufoca-me. Tento-me concentrar na musica em surdina que brota do auto-rádio. Os meus dedos trémulos agitam-se sobre a minha perna na esperança vã de marcar o ritmo. O ritmo de quê ?

O ritmo do silêncio.

A minha mão procura a tua que a sacode bruscamente. A mesma sensação de culpa, a mesma sensação de não saber bem o que fiz. Tudo isto me faz lembrar, quando em pequeno, a professora ralhava com toda a classe e perguntava quem tinha partido o vidro da sala a jogar à  bola. Eu acusava-me sempre. Não aguentava aquele silêncio que se seguia e pedia desculpa à professora, mão no ar e vermelhidão na cara.

Eu nunca parti nenhum vidro na escola.

O meu telemóvel toca e não quero atender. Olhas para mim de soslaio como quem diz atende ou desliga essa merda. Eu hesito e quando resolvo enfim atender já desligaram do outro lado. Esperas que eu diga qualquer coisa para que possamos soltar as palavras, entrar na discussão, magoarmo-nos e fazer de novo as pazes. Eu nada digo: eu nunca parti o vidro da escola.

Vingas-te no carro que ultrapassa perigosamente os 100 quilómetros horários dentro de uma localidade e no meio do transito semanal. Atrevo-me a subir o volume da musica no rádio apenas para não ficar quieto. Sinto-me a sufocar com o silêncio que supera a musica e grita-me aos ouvidos. Oiço os pneus a chiarem e alguém a gritar.

Depois mais nada.

Mesmo nada.

O silêncio ganhou de vez

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