Prosa
11 de Setembro - Pedro Farinha - Outubro 2001
Olho nos teus olhos marejados de lágrimas secas e escuto os ecos de uma explosão permanente. Para ti não morreram cinco mil pessoas, ninguém atacou a América e o mundo não está em guerra, mas sim, eles têm razão numa coisa, nunca nada mais será como dantes.
Para ti, que me olhas sem me veres, não há retaliação que te conforte e desesperas perante o desespero que tal acção possa causar em mais pessoas como aconteceu contigo. Para ti não há guerra, mas para ti não há paz também. Ele morreu. O homem que amavas e que te amava e pai do filho que trazes no ventre e que já é órfão antes de nascer, morreu.
Não,
não morreram cinco mil pessoas, morreram apenas duas: Ele e tu. Ele que morreu
calcinado pelo fogo ou pela queda de um monstro metálico e tu que morreste por
ele ter morrido. E é essa morte em vida que vejo nos teus olhos que me olhem mas
não me vêem. Mas olho para ti e digo-te: Não. Tu não morreste porque não tens
esse direito porque dentro de ti existe uma vida que não conhecerá pai mas terá
que conhecer a mãe e que terá que conhecer o pai através da mãe. E essa mãe tem
de estar viva ainda que marcada pela dor ....
E os teus olhos mudos, abertos de horror, ouvem-me mas não fazes um sinal, nem de concordância, nem de discordância. E pensas nele, no homem que amavas, e ainda amas, e que admiravas pela sua luta incansável contra o racismo e pela tolerância. E pensas que com ele, morreste tu e morreu a tolerância. E não desculpas ninguém, não desculpas os criminosos que cometeram o atentado, não desculpas os criminosos que preparam novos atentados e não desculpas acções de retaliação que farão sofrer mais gente e que matarão ainda mais a tolerância e os valores que Ele defendia.
Eu estou parado na tua frente e queria fazer algo, estendo-te uma mão que não pegas e que recolhe envergonhada ao bolso das calças. Olho para a proeminência da tua barriga, antes inchada de orgulho e agora de horror. De repente olhas para mim e entreabres os lábios como se quisesses falar mas as palavras não te saiem facilmente da boca. Os teus olhos voltam a chorar deixando dois rios na tua face coberta do pó que cobre essa ilha.
É então que me estendes a tua mão, que agarro docemente, e me dizes: É preciso retaliar. Percebo-te mas não concordo, não compreendo como e porque mudaste de opinião, mas nada digo. Penso em argumentos, penso que sim que é preciso acabar com o terrorismo, que é preciso acabar com quem faz dele arma política, quem o financia mas que nada disso se faz numa acção de retaliação deste tipo. Olho nos teus olhos que olham para mim e vejo que tens algo mais para me dizeres, e as palavras saiem firmes na tua voz:
- É preciso retaliar, é preciso lutar e não baixar os braços, é preciso acabar com a guerra, com o crime, é preciso ensinar a tolerância, é preciso falar , é preciso dar as mãos, é precisa a poesia, é preciso o amor. É preciso combater a ignorância, é preciso respeitar os outros, é preciso não confundir indivíduos com nações, é preciso flores e velas acesas e dar apoio a quem sofre. É preciso criar um mundo melhor para o meu filho que vai nascer ...
E
eu que já vi tanta coisa, tanta solidariedade, tantas preces, nunca tinha visto
tamanha homenagem a um homem amado como fazer dos princípios dele, os nossos
valores e abracei-te deixando as minhas lágrimas misturarem-se com as tuas e com
as de todos os outros que sofrem para num rio infinito lavar a cara ao mundo e
regar as flores que nascem nos recantos mais escondidos de cada nação.