Prosa
Sabor a ser... - Clara do Vale - Junho 2001
A cómoda antiga contava histórias de várias gerações, testemunha viva de tantos segredos de mil vidas vividas que, ciosamente, escondera na alma que não tinha.
Dentro de si, nas suas entranhas, guardava relíquias esquecidas, abandonadas displicentemente nas gavetas cor do ébano e de noites de céus sem estrelas.
Protegia-as delicadamente como um útero envolvente grávido de amor e de posse, temerosa de que mãos menos ciosas lhas furtassem, para as votarem a destino incerto.
E
acarinhava, ternamente, os pequenos lenços de cambraia, esgarçados pelo tempo e
pelo uso, com que ancestrais avós enxugaram lágrimas silenciosas, solitárias e
ocultas.
As cartas seculares permaneciam apertadas em fitas de veludo azul, não fossem soltar-se as palavras que corações haviam marcado com tinta feita de sangue e alma, reminiscências de amores vividos, de almas expostas, de alegrias sentidas e de penas afogadas, e evolarem-se no ar levando consigo o ser de muitos seres, feixes de sonhos, teias várias...
Chapéus decorados com flores ressequidas, mendigas de sol e luz, conservavam ainda etéreas redes de tule, que resguardaram do mundo olhos velados de amor ou pranto, sorrisos doces, esgares de dor.
Vários frasquinhos, de diferentes feitios, acumulavam-se deixando evolar ainda as fragrâncias que em tempos tinham contido, numa profusão de aromas subtis e exóticos, que invadiam o interior da cómoda e se exalavam para o exterior.
Vestidos antigos, que haviam marcado épocas e modas, embrulhavam-se nas suas rendas e cetins, saudosos dos corpos jovens e insinuantes que tinham adornado e cingido, talvez despertado amores ardentes e calados, respirando ainda um ar de mistério e cumplicidade...
E, havia caixas, caixinhas pequenas, repletas de objectos de proveniência incerta, como que aguardando, ao longo dos tempos, uma ocasião de utilidade efectiva.
Mariana
atravessou, lépida, o quarto e num ímpeto dirigiu-se à cómoda que sempre
conhecera e nunca abrira, que sempre olhara mas nunca vira. Inconsciente e
alheia aos segredos e enredos que ela guardava, dum tempo que não era o seu, de
pessoas de quem só vagamente ouvira falar. Um tempo tão remoto que não cabia no
seu tempo, ainda jovem de vida.
Foi abrindo as gavetas uma a uma, desvendando-lhe os segredos, e o seu imaginário inventava histórias que escorriam pelos seus dedos e se escapavam da sua alma.
Escolheu um vestido de entre muitos, de tecido acetinado e ornado de rendas, de tom malva, salpicado de florinhas ciclames como miosótis do campo acabados de colher.
Colocou na cabeça um chapéu da mesma cor, cuja rede de tule lhe encobriu os olhos, velando-lhe o mundo e o tempo. E, este retrocedeu e Mariana sentiu-se transportada para aléns nunca vividos, rodopiando em passos fáceis e leves uma valsa de Strauss, levada como uma pluma nos braços de um amor tão imaginário como desejado.
Após este momento único que a acompanharia por toda a vida, no lado recôndito e doce da memória, sentou-se no chão que encoberto pela largura farta da vasta saia do vestido cor de malva, salpicado de florinhas ciclames, se transformou num canteiro ali nascido, como que por magia.
É que esta não tem espaço nem tempo, limites ou contornos, e espraia-se num imaginário sempre eterno, em que a vida é vida e o sonho é sonho, transformando a existência breve numa aventura enigmática, profunda e inacabada...
Mariana abriu a última gaveta da cómoda e o seu olhar dirigiu-se, em atracção súbita e irreprimível, para uma caixinha de madeira e marfim. Abriu-a, com urgência, e uma música suave, quase etérea, invadiu o quarto e o seu ser, ao mesmo tempo que uma bailarina vestida de tule bailava em pontas num rodopio constante sem, contudo, sair do mesmo sítio, aprisionados os pés à base da caixinha de marfim.
Só o seu corpo dançava! Os olhos, esses, mantinham uma expressão fixa e nostálgica, como os de quem é ausente da vida...
Mariana pousou o seu olhar vivo neste olhar inexpressivo e sentiu que o seu coração se comprimia e ficava pequenino, tão pequenino que a bailarina ficou lá dentro bem apertadinha em laços de sangue e de luz. Ela era demasiado exígua para encher os dedos mas enchia um coração. O seu, que nunca pulsara, era um coração entrelaçado em lágrimas de desesperança e desfuturo, um não-ser escondido dentro da sua própria vontade de ser.
Com muito cuidado, Mariana libertou os pés agrilhoados da bailarina e esta, qual borboleta saída da crisálida, esvoaçou leve e harmoniosamente em pontas de pés no soalho encerado e deslizante, num bailado sublime de neve, com sabor a liberdade.
Mariana olhava este espectáculo ímpar, extasiada, com o fascínio espelhado nos seus olhos espantados de cor e brilho.
E a bailarina pousou ,docemente, no seu ombro e dançou sobre o seu corpo, transformando-o num palco imenso iluminado pelas luzes da ribalta e impregnando-lhe a alma de música celestial.
As horas foram-se escoando, num ápice, e esgotada de tanto bailar, liberta das grilhetas de uma prisão imposta, já remotas agora na sua memória, a pequenina bailarina deitou-se no canteiro que era o vestido da Mariana, pousou a sua minúscula cabeça numa florinha ciclame e adormeceu, docemente, num sono profundo de êxtase e paz, com a alma trémula de esperança e crença, unidas em acto de fé as suas mãos de flor.
E o mundo subiu as escadas do mistério e do deslumbramento, e o dia esqueceu-se de anoitecer...