Prosa

 

 

O quarto do lençol branco - Pedro Farinha - Abril 2001

 

Anda, entra nesse quarto.

Fecha a porta trás de ti, devagar, sem fazeres barulho. Põe uma música se quiseres, mas baixinho, para que não abafe as palavras, mesmo aquelas que sejam ditas num sussurro.

No meio do quarto está uma cama com um lençol branco. Deita-te se quiseres. Tira a roupa, descalça-te, põe-te à vontade. No quarto há uma janela. Aproxima-te dela e olha lá para fora. Pode ser dia ou pode ser noite, o tempo está parado neste quarto.

Eu estou deitado na cama apenas de boxers e uma T.shirt branca. Podes apagar a luz, deixando o quarto numa penumbra mas que se vejam os rostos.

E agora fala ! Diz tudo: o que sentes, o que queres, o que pensas, o que lamentas. Diz principalmente o quê, o quando, o porquê e o quanto. Não tenhas medo de me magoar. A maior dor é não saber, a maior dor é imaginar. Fala.

Conta a história sem pressas, não saltes nenhuma página. Faz-me as perguntas que quiseres, e eu responder-te-ei com a mesma sinceridade. Neste quarto não há lugar para a mentira nem para os jogos. Sobre este lençol branco a verdade é dita e é nua e crua.

Deixa as lágrimas rolarem, elas têm direito a isso. Grita se te apetecer ou fala num murmúrio. Quando quiseres faz uma pausa. Aproxima-te da janela e olha lá para fora onde o tempo não parou. Pensa que a janela pode ser aberta e saíres a voar. E que se saíres estará sempre aberta para voltares. E que por vezes quando saímos é porque queremos ficar e que noutras ficamos mas na verdade não estamos.

Faz-me as perguntas todas. Não me interrompas deixa a conversa sair mesmo que seja sem nexo. Fala. Faz uma pausa. Se quiseres podemos fazer amor sobre as lágrimas ou apenas foder para quebrar a tensão. Deixa-te estar calada e não te limpes. Estar suja de amor é estar limpa.

Não tenhas pressa. Não me faças ter pressa. Diz mesmo aquilo que não compreendes. Eu dir-te-ei o que não entendo. Por fim falemos em conjunto.

E agora que já falámos tudo. Cala-te. Não agora, não neste quarto mas para sempre. Que nenhuma das frases dita neste quarto seja repetida noutra circunstância. Que se um dia entrarmos de novo neste quarto não se repitam os temas. Sai e toma um banho. Entra de novo no quarto nem que seja só para te despedires. A janela está agora aberta e sempre estará. Diz-me um até logo, um até amanhã ou um adeus.

Eu continuarei imóvel na cama. Deitado de bruços. Agora que estou só deixarei as lágrimas rolarem num rio inesgotável. E quando elas pararem vou tomar banho, sentirei a água tépida a lavar-me a alma. Olharei para a janela e ver-te-ei a voar lá fora. Então olharei nos meus braços as asas a nascerem e sem surpresa levantarei voo. Poderemos voar juntos, poderemos voar separados, ou poderemos voar por vezes juntos por vezes separados. O tempo poderá recomeçar a correr.

No quarto sobre o lençol branco restarão duas manchas e o contorno dos nossos corpos. A janela ficará aberta para sempre.

Fala.

Cala-te.

E voa … nunca mais deixes de voar …

    

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