As letras com imagem

Hoje morri. Não se deve morrer numa emergência e eu
ia numa emergência: fugia de mim. Sempre me disseram que, para onde quer que eu
fosse, seria lá que eu estaria ... e eu ia à procura. À procura de mim!
Perdera-me durante a tarde ao som de palavras que não queria ouvir nem
acreditar. Com as mãos tapei os ouvidos e com força cerrei os olhos, mas as
palavras entravam, entravam, entravam, inundavam e imundavam.
Entrei
no carro e fugi, fugi depressa! Sempre resultou fugir! Por que não resultaria
desta vez? Sempre fugi até me sentir bem distante, até concluir que não
precisava fugir mais, até concluir que nunca se sai do sítio de onde se partiu
antes de uma fuga.
Hoje
não tive tempo. A respiração descompassada e a estrada estranhamente mais
recta do que o habitual acelerou-me os pensamentos e eu tentava, sem êxito,
encontrar pelo menos, uma das pontas daquele emaranhado de palavras e recordações.
Quando a recta deixou de ser recta, eu parei e fez-se silêncio. Não conseguia
abrir os olhos nem movimentar-me. Senti frio, muito frio. Por fim adormeci.
Acordei
quando, vozes desconhecidas, repetiam o meu nome. Eu tentava, em vão,
responder-lhes mas as palavras não saíam. Eles falavam entre si como se me
conhecessem. Pela azáfama, apercebi-me de que estava numa sala de hospital. Os
médicos tentavam reanimar uma pessoa ligada a inúmeros tubos que, cada um e
por sua vez, estavam ligados a máquinas que soltavam sinais sonoros
descompassados. As luzes da sala ora se apagavam - e eu deixava de os ver e
ouvir -, ora se acendiam – e então eu tentava, numa voz muda, perguntar como
sair dali.
Aproximei-me
dos médicos e espreitei a vítima. Tinha a cara tapada mas as mãos ... as mãos
pareceram-me tão familiares. Senti uma vontade enorme de voltar para casa, de
falar com algumas pessoas, de agradecer e de pedir perdão. Senti que o tempo
escasseava e, de novo, senti que tinha pressa, muita pressa, mas, desta vez, não
era uma pressa de fugir. Tentava tão somente encontrar pessoas, algumas
pessoas...urgentemente.
Fechei
os olhos e respirei fundo. Quando os abri chovia copiosamente e ali, mesmo à
minha frente, estavam as pessoas que eu procurava. Eram poucas, muito poucas.
Umas doze, e choravam. Alguém morrera.
Senti
de novo muito frio e, temendo o pior, aproximei-me de cada uma delas e
segredei-lhes ao ouvido o quando as amava e pedi-lhes perdão pelas
vezes em que falhei.
Senti
que me despedia.
Chorei
e deixei-as a sós.
Mena