Fotos com história - D. Teresinha  

   

Fotografia de Mena

 

 

Amigo Pedro,

Na última passagem de ano não comi passas, não pedi nada nem fiz promessas. Não sei se devido à minha permanência nos "trintas" há já algum tempo, cheguei à conclusão de que as graças têm de ser merecidas e de que as promessas, quando se é pessoa de palavra, só devem ser feitas quando acreditamos minimamente na nossa capacidade para as poder concretizar.

Curiosamente, entrei em 2001 dando um passo para trás (e com o pé esquerdo!) para deixar passar uma pessoa que nunca antes tinha visto, mas que me quis beijar e desejar "boas-entradas". Agradeci e retribuí os votos e o beijo. Naquele momento apeteceu-me ir mais longe! Apeteceu-me desejar àquele desconhecido um esplendífero Ano Novo! (palavra desconhecida pelo dicionário, mas que gostei de ouvir em Moulin Rouge), um excelente Fevereiro!, um odoroso Maio! um despreocupado Agosto! e ainda - por que não? - um "Sweet November"! Todavia não o fiz e deixei-me cair na redundância das frases feitas, talvez com medo do ridículo...

As juras e promessas feitas em noite de passagem de ano, permanecem em nós como "grilos-falantes". É preferível estabelecermos as nossas determinações numa outra data, talvez numa data menos solene e estabelecê-las em silêncio, grita-las para dentro e sem testemunhas. Isso mesmo! Sem testemunhas! É quase um truque: se não as verbalizarmos, o compromisso fica adiado e como ninguém sabe, ninguém cobra! Fica tudo entre nós e o tal "grilinho-falante" que ora nos aplaude entusiasticamente, ora nos atira para a mais profunda depressão, que é onde moram as coisas que não fomos capazes de mudar.

Deve ser louco aquele que aspira a um estádio de felicidade e bem-estar permanentes esquecendo-se de quão saborosos são os pequenos grandes momentos, as pequenas grandes atenções, as pequenas grandes alegrias, os pequenos grandes nadas ... cheios de tudo. Se subirmos um degrau de cada vez, se olharmos para trás e constatarmos que não deixámos ninguém por levantar, nada por perdoar, nenhum abraço por dar, nenhuma lágrima por derramar, nenhuma dor por consolar nem nenhuma alegria por partilhar, os degraus ainda por subir ser-nos-ão menos penosos.

A minha descoberta do valor dos pequenos grandes momentos de felicidade é recente. Descobri, acompanhada, que a felicidade (a nossa e a dos outros) pode depender de pequenos gestos e de pequenas tentativas de aproximação ou de afastamento. Basta abrirmos um bocadinho o nosso ângulo de visão: colocarmo-nos na pele do outro, pensarmos como o outro e só depois ajuizar, se é que algum dia nos podemos dar a esse direito...

Num qualquer dia de Fevereiro, decidi andar, fazer um “footing” de hora e meia duas a três vezes por semana! Inicialmente, limitava-me a olhar o mar e os barcos, as ruas, os carros, as árvores e os prédios. Caminhava pouco atenta ao que realmente interessa e que são as pessoas. A dada altura, decidi aproveitar aqueles momentos de exercício físico para exercitar, também, o meu "olhar-para-as-pessoas". Tarefa difícil esta a que me propus! Em cada tentativa sentia que deixava de pensar em linha recta e que me tornava mais tolerante às excepções e às diferenças.

E foi assim que descobri os pescadores alinhados e invariavelmente calados; os estivadores a quem não se pode pedir que moderem o tom de voz; os vendedores de time-sharing pouco preocupados com os raios U.V.A. e os turistas de perninhas vermelhas e andar autómato.

Com o passar das semanas, a minha atenção começou a centrar-se numa parte do percurso feita na zona dos hotéis. Independentemente das condições climatéricas, ali estava ela sentada, de mão estendida, pedindo esmola. Era uma velhinha daquelas muito velhinhas, de aspecto franzino e olhar perdido na mão sempre estendida. Quando não lhe davam esmola acenava com a mesma mão que pedia e sussurrava um "boa noite" quase mudo.

Depois de nos cruzarmos algumas vezes, passou a reconhecer-me e a esconder a mão que pedia e que acenava. Passou a cumprimentar-me com um "menina, que horas são?" E eu respondia sem abrandar o passo e prosseguia com a estranha sensação de que me perguntava as horas só por perguntar. Uma senhora daquelas, de aspecto quase secular, devia, com certeza, saber guiar-se pela lua, pelas estrelas e pelo vento. Que importância teria para ela saber que horas eram? Ela estava sempre ali fossem 18, 19, 20 ou 21 horas!!! Ela controlava o tempo!

Um dia faltou. Não estava sentada naquele bocado de estrada e eu parei e olhei em redor. Questionei qual daquelas casas degradadas, escondidas por entre as bananeiras, seria a sua. O que lhe teria acontecido? Por que razão eu nunca tinha parado para lhe responder, calmamente, que horas eram ... e senti medo. Nesse mesmo dia recebi o teu mail pedindo uma fotografia para pôr no site e confesso que só me ocorreu fotografar aquela senhora com quem me cruzava nas minhas caminhadas tri-semanais de hora e meia e que, na véspera, havia faltado ao "compromisso" . Voltei lá no dia seguinte.

Avistei a sua figura a cerca de cem metros de distância e enquanto caminhava em sua direcção um temor apoderou-se de mim. Questionei-me sobre qual seria a sua reacção ao meu pedido para fotografá-la e depois senti vergonha: pela primeira vez em largos meses eu ia abrandar a marcha e parar junto daquela senhora ... e por interesse!

Aparentemente não lhe tinha acontecido nada de grave, penso eu, mas reparei que trazia um curativo numa das pernas. Chuviscava. Quando me sentei a seu lado sorriu como se já soubesse ao que eu vinha e escondeu as duas mãos debaixo do casaco colocado sobre os ombros. Perguntei o seu nome. "Teresinha, menina." – respondeu. Perguntei a sua idade. "Tenho setenta e um, já viu?" – e esboçou um sorriso. Pareceu-me feliz. Perguntei se a podia fotografar e ela murmurou um "sim, menina" e voltou a sorrir.

Depois quis tocar-lhe nas mãos para agradecer, mas não consegui. Limitei-me (cobardemente?) a dizer obrigada e a prosseguir a minha caminhada sem olhar para trás. Não me senti particularmente à-vontade nesse dia. Aquela paragem já devia ter sido feita há mais tempo e sem ser por interesse. Dormi mal nessa noite!

Agora, sempre que nos cruzamos, já não vejo uma velhinha qualquer sem nome nem idade. Vejo a D. Teresinha e digo "Boa noite D. Teresinha!!" e sinto-me feliz por isso. É uma pequena grande alegria que tenho duas ou três vezes por semana. E ela, ela olha-me como dantes e continua a perguntar-me "que horas são?". E eu, eu continuo a dizer-lhe as horas, sempre com a estranha sensação de que ela não as quer saber para nada. Parece querer tão somente alertar-me para o facto de que o tempo voa. E às vezes... às vezes, desconfio que ela já sabe para quando está marcada a minha hora.

Amanhã vou perguntar-lhe quando faz anos.

Um beijo

Mena

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