manias

Lenucha

Manias

��� Neruda viajava o mundo � cata do enriquecimento de suas cole��es de garrafas, conchas e carrancas. Seu cargo diplom�tico respaldava tais extravag�ncias e l� ia ele, em miss�o, satisfazer suas veleidades. No ir-e-vir, aumentava tamb�m, � claro, seu talento de escritor. Mas, nada mais temos em comum a n�o ser manias. Foi assim que me vali de uma viagem a�rea para desfrutar do meu j� n�o secreto entusiasmo por janelas! Esse pensamento produzia uma excita��o muito maior do que a da viagem em si. Como o sonho de agora ao pensar em conhecer, um dia, uma das mais imponentes janelas com o sofisticado nome de escotilha. L� dentro do avi�o, examinava todos os detalhes da veneziana, em seguida os do vidro, antes mesmo de constatar a identifica��o da poltrona a mim destinada. A primeira sensa��o foi de desapontamento e de um vislumbre de frustra��o por n�o poder escancar�-la e respirar fundo aquele oxig�nio, mais escasso, mas bem mais puro, l� de cima. Seria o �ltimo oxig�nio da minha vida, com certeza, e assim o conflito se desfez rapidamente.
��� Quando crian�a distra�a-me com exerc�cios visuais de fixar, alternadamente, de perto e ao longe, o nada. No �ntimo sabia que n�o era o nada, nada; recorria a um cisco no ar como ponto de refer�ncia para fixar de perto e um objeto qualquer, na mesma dire��o, para fixar ao longe. A brincadeira quase me valeu um estrabismo, mas agu�ava satisfatoriamente minha imagina��o. O perto � que parecia representar legitimamente o nada. Assim fiz naquela janela de avi�o. O perto era a textura do vidro e o longe � que era legitimamente o nada. Nesse devaneio quase filos�fico, na verdade um meio transe, aparece, bem dentro do meu nada, um enorme algod�o com o formato difuso de um ser morto. Foi s� o tempo de engolir um estrondoso grito antes do desmaio.
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��� At� hoje n�o sei se era s� uma nuvem ou se alguma janelinha havia sido quebrada e atrav�s dela nossos corpos sugados pelo nada, flutuaram rumo ao infinito.

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