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Desmistificação
da Tabela Price
(2ª parte) Na primeira parte
verificou-se que a demonstração convencional de um plano de amortização
estruturado através do Sistema Francês de Amortização, também denominado Tabela
Price, trabalha com os saldos, ocultando, assim, o
fator composto que se encontra embutido. A Tabela III da primeira parte demonstra,
em outro formato, o mesmo plano apresentado na Tabela I, porém de forma
diferente, evidenciando o fato de que para se calcular o valor comum das
parcelas o SFA(Price)
imagina as parcelas como montantes distintos de diversos capitais (menores e
que não se sabe quais são) tomados numa mesma data, à taxas iguais, porém com
um número de períodos de capitalização diferente, determinando que a soma dos
capitais relativos às parcelas seja igual ao valor total do capital tomado
inicialmente. Concluindo, a primeira parte faz, na Tabela
V, a conexão entre os saldos a amortizar apresentados nas Tabelas I e III; o
exemplo utilizado em relação ao saldo para a quinta parcela demonstra que o
saldo apresentado na Tabela I nada mais é do que o valor total do capital
inicialmente tomado (R$ 10.000,00), menos o capital atribuído a cada uma das
parcelas já consideradas (até a quinta), o que perfaz o saldo apresentado na
Tabela III, atualizado pela fórmula tradicional de juros compostos, até o
período a que se refere a parcela. Ora, uma vez que o capital, relativos a
cada parcela, foi encontrado pela aplicação de fórmula deduzida a partir da
fórmula básica utilizada para determinação de montantes —— se M=C(1+i)n [fórmula básica],
logo C=M/(1+i)n —— e a atualização sobre o saldo realizada pela
aplicação da própria fórmula básica, restou indubitavelmente provado que o SFA(Price)
se encontra totalmente estruturado segundo um preceito exponencial: (1+i) % (1+i) % (1+i) %...., multiplicação
que ocorre tantas vezes quantas forem os períodos indicados por n, assumindo assim a forma (1+i)n . Entretanto a primeira parte finaliza com a
dúvida: Será
? Em que pese da composição composta estar
explicitamente contida no SFA(Proci) e, portanto, a dúvida ser incabível, ela é
dessa forma colocada porque a simplicidade da demonstração que ocorre na Tabela
I é tão grande que é difícil ao leigo aperceber-se do que está realmente a
ocorrer. O conceito de juros compostos é tão fantástico que, apesar de ter sido
em parte abordado pelos babilônios em 300 A.C., no século VI por Aryabhata, ganho ampla análise e conhecimento com Richard Price no século XVIII, em muito auxiliado pelos métodos
desenvolvidos por Newton e Raphson e, posteriormente,
no tocante a amortizações, aperfeiçoado pelos franceses no século XIX, permitiu
que, vinte e três séculos depois dos primeiros passos, Einstein fizesse a
observação a que nos referimos na primeira parte. Se na primeira parte, quase que de forma
totalmente empírica, expôs-se a
ocorrência de juros sobre juros no SFA(Price),
esta segunda parte busca, através de
outros critérios, chegar-se à verdade. Esta busca faz-se, obviamente, de forma
científica e, dentre os métodos, o historicismo e o teleologismo são eleitos como adequados. A história e o fim
a que se presta o objeto cognoscível são elementos cuja perscrutação, pelo
menos de início, se torna imprescindível quando o sujeito cognoscitivo intui a
existência de algo que transcende a verdade imanente. Do ponto de vista histórico, que vem de
certa forma satisfazer também o lado teleológico da questão, é importante se
observar que foi Richard Price (1723-1791), quem
primeiro popularizou a distinção entre taxa simples e composta de juros, tempo
esta última, posteriormente, se tornado associada, principalmente, à teoria
populacional malthusiana[1]. A história nos mostra que Price, ministro
anglicano, matemático e atuário[2],
se empenhou na criação de um sistema financeiro auto-alimentável
(self-feeder), que permitisse ao
Reino Unido fazer face aos gastos estatais. O assunto já havia sido anteriormente abordado por Adam Smith[3],
que em seu livro The Wealth of Nations (V, iii) evidenciou o
fato da falência ser sempre o fim da acumulação de uma grande soma de débitos
que têm a tendência de se acumularem a taxas compostas. Nos anos setenta do século XVIII, quando Price e Smith escreveram, a guerra britânica com a América
havia levado a nação a um profundo débito. Foi em razão deste débito que o Reino Unido viu-se obrigado a libertar
suas colônias, hoje os Estados Unidos da América, e Price
a propor uma idéia que havia sido antecipada meio século antes por Nathaniel Gould, diretor do Banco
da Inglaterra: “um milhão de libras esterlinas, aplicadas em fundo de
investimento a ser acumulado à taxa composta de juros através do
re-investimento anual dos dividendos até o fundo crescer o suficientemente para
pagar todo o débito”. O “Apelo ao Público Sobre o Assunto do Débito Nacional”,
apresentado por Price em 1772, descrevia o que
parecia ser “a mágica” de como o dinheiro pode crescer à taxa composta de
juros. Price
inicialmente elaborou sua idéia em Observations on Reversionary Payments, primeiramente publicado em 1769 e reeditado
seis vezes até 1803. Ele se encontrava tão maravilhado com a possibilidade de,
através do crescimento exponencial do dinheiro, o Estado poder pagar seus
débitos, que falhou em considerar que nenhuma economia poderia sustentar tamanho crescimento
matemático —— aí, como acontece nos dias de hoje, um conceito imanente sucumbiu
ao ser tocado por fatores que escapam à restrita esfera científica, pela
realidade. Price não estava,
portanto, interessado em criar um sistema justo e linear ou com qualquer outro
predicado que se queira dar. Ele estava interessado era exatamente propriedade
que o sistema composto tem de mais peculiar — um poder exponencial! Entretanto, se Price
não conseguiu, através de suas teorias, alcançar seu intento, por outro lado os
franceses, no século seguinte, aprimoraram suas idéias que passou a ser de
larga utilização no mundo dos negócios, sob o título “Sistema Francês de
Amortização” — o Brasil é, talvez, o único país a utilizar a expressão “Tabela Price” para designar tal sistema de amortização; em razão,
talvez, até da confusão que a expressão causaria em inglês, já que seria
entendida como “tabela de preço”[4].
Esta exposição traz subsídios históricos à
formação de um juízo verdadeiro e satisfaz, por outro lado, a teleologia, ou
seja, a finalidade com que o sistema foi criado. A finalidade era acumular
grandes somas pela potencialização matemática dos capitais! A criação do SFA(Price) parte do princípio de que
se a fórmula para se determinar o valor futuro de um investimento realizado
mediante capitalização composta é M = C
(1 + i)n — fórmula já
vista —, supondo-se que um Capital Total (CT)
empregado, a ser amortizado em diversas parcelas (P), nada mais seja do que a
soma de diversos Capitais Menores (Cm) a serem pagos em períodos distintos,
porém com a mesma taxa de juros e periodicidade de capitalização, pode-se
desenvolver o seguinte raciocínio: [1] - Malthus, Thomas Robert (1766-1834), colocou sua hipótese de que o crescimento populacional sempre excede o crescimento dos meios de subsistência, in Essay on the Principle of Population, 1ª Ed. em 1798 — inúmeras edições posteriores. [2] - Atuário – especialista em atuaria, parte da estatística que investiga problemas relacionados com a teoria e o cálculo de seguros numa coletividade. [3] - Smith, Adam (1723 – 1790), economista e filósofo,
escreve “The Wealth of Nations” por volta de 1770, o qual é oficialmente publicado
pela primeira vez em 1776, porém já circulava nos meios econômicos como
material “altamente confidencial” – Modern Library. 1994, N. York. [4] — Price Table ou Price’s Table |
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