MODERNIZAÇÃO
EXCLUDENTE
DENISE ELIAS e JOSÉ LEVI FURTADO SAMPAIO (Orgs.)
COLEÇÃO PARADIGMAS DA AGRICULTURA CEARENSE
PREFÁCIO
É auspiciosa a atitude dos professores universitários do Ceará, Denise Elias e Levi Furtado Sampaio, organizando um livro sobre a agricultura cearense no momento atual, contando com a colaboração de outros colegas, como Aldiva Sales Diniz, Illona Maria de Brito Sá, Maria Soares da Cunha, Mônica Dias Martins e Hidelbrando dos Santos Soares. Obter uma colaboração de cinco autores que tenham pontos de vista convergentes, em um momento como o que ora vivemos, quando o estímulo e a competitividade tanto dificultam os trabalhos coletivos, é uma grande vitória.
Importante também é que os trabalhos, apesar de convergentes, não se desenvolveram em torno de fórmulas matemáticas e estatísticas, nem se filiaram a modelos elaborados em outros países e aplicados, de forma arbitrária, à nossa realidade.
É um trabalho que reflete preocupações com problemas os mais diversos, visando alcançar uma totalidade, abordando fatos ligados ao que chamam de modernização excludente, analisando políticas públicas e problemas locais.
Ele estuda a evolução da agricultura nas últimas três décadas e o esforço feito no sentido de enquadrá-la ao modelo político e econômico que domina o país, modelo que dificulta a sustentabilidade e acentua as desigualdades e as exclusões; analisa o processo de reprodução do território, de territorialidade e reterritorialidade no sertão, levando em conta os problemas provocados pela frequente incidência das secas. Analisa também os problemas ligados à biodiversidade e ao seu empobrecimento e aqueles ligados à acentuação da pobreza e da fome, bem flagrantes no território cearense; a implantação de culturas novas, com preocupações inteiramente comerciais, como da cana-de-açúcar, muitas vezes sem consultar a vocação ecológica de cada região. Salienta a decadência de culturas tradicionais, como a do caju, complementado com estudos de comunidades rurais, o processo de agravamento provocado pela modernização ambiental e agrícola, feita sem obedecer a parâmetros ecológicos.
É um livro que contrasta com outros que procuram dar ênfase à análise da modernização agrícola, levando em conta apenas o custo/benefício, estritamente econômico, sem procurar verificar os impactos sociais e ecológicos, negativos, que esta modernização possa acarretar. Enfrenta com energia e competência o problema do destino da produção, se, prioritariamente, para atender à demanda do mercado externo ou com preferência pelo atendimento às necessidades da população. Este problema já preocupava a Celso Furtado, quando, em 1961, como superintendente da SUDENE, apresentou um projeto de Lei de Irrigação, ao Congresso Nacional. Projeto que contrariava os interesses de grupos econômicos mais fortes, e, entre estes, os dos chamados “industriais da seca”, que o deixaram dormir nas gavetas da Câmara, até o golpe de 64, e depois dando o golpe de morte, arquivando-o.
É um trabalho que deve ser lido por todos os que se interessam pelos problemas da região, enfatizando a importância da ação do Estado, contrariando os corifeus do neoliberalismo, que procuram transferir os recursos do Estado, de alguma forma, para empresas que executem programas em benefício, naturalmente, delas próprias.
Não somos daqueles que condenam uma política de estímulo à irrigação, mas convém lembrar que ela só pode atender a uma pequena parcela do semi-árido nordestino – cerca de 10% da área regional – e que, feita por processos inadequados, provoca a salinização do solo; um problema, em si, de difícil solução, devido aos custos da dessalinização. Desse modo, ao lado de uma política de irrigação, pode ser desenvolvida uma política, bem orientada, do cultivo de lavouras secas, apelando-se, inclusive, para vários vegetais de ciclo vegetativo curto.
De parabéns está também a editora cearense, por dar apoio a pesquisadores que vivem e trabalham no Estado, valorizando-os e possibilitando a sua divulgação em escala nacional. Um dos fatos auspiciosos que constatamos foi o do crescimento da importância das editoras que estimulam a produção científica fora dos grandes centros populacionais e econômicos, antigamente batizados como “eixo Rio/São Paulo”.
Livros como este servem para desenvolver a preocupação com a região, para consolidar a cidadania e para fazer com que os nordestinos compreendam que a região é viável e pode caminhar com os próprios pés.
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