Uma revolução anarquista na sociedade informacional
 

As novas estruturas de poder global inviabilizam qualquer tentativa de mudança violenta da sociedade. Essas mesmas estruturas, no entanto, são permeáveis a uma revolução anarquista.
 

"O pessimista queixa-se do vento.
O otimista espera que ele mude.
O realista ajusta as velas."
Willian George Ward

 

Já abordei no meu artigo “O Principio Federativo e a sociedade informacional” a questão da identificação entre as idéias socialistas autoritárias e o capitalismo industrial. Mencionei que as necessidades técnicas de centralização da produção condicionavam a própria construção física e política das sociedades capitalistas industrias.

Também procurei mostrar que há forte correlação entre a visão de mundo marxista e a aceitação, por parte dos intelectuais da época, da inexorabilidade de uma economia baseada em gigantescas instalações, com imensos galpões cheios de operários, controlados por exércitos de burocratas, todos acomodados o mais perto possível de enormes e dispendiosas máquinas.

Destaquei o surgimento de um novo tipo de capitalismo, chamado por muitos de “informacional” porque depende muito mais de computadores e telecomunicações do que de plantas industriais. Vimos como isso modifica completamente o paradigma, no sentido de procurar a descentralização como forma de otimização da qualidade, redução de custos, e conseqüente maximização dos lucros.

Tentarei agora demonstrar que uma possível reação à globalização neoliberal só pode ser conduzida com sucesso por meios que se adaptem a nova realidade e utilizem as vantagens das novas tecnologias em proveito de uma revolução libertária feita de baixo para cima e de dentro para fora do atual sistema.

Primeiro devemos deixar de lado, de uma vez por todas, as idéias infantis sobre uma revolução libertária mundial, dirigida por uma elite de iluminados que, a partir da conquista do poder em um país, conquistaria o mundo. Um dos motivos, é que a revolução do capitalismo informacional já está em andamento e sua vitória, por enquanto, é incontestável.

Em segundo lugar, a tomada de poder em um país, seja por meio de eleições, seja por meio de golpes de estado, dentro do novo paradigma informacional, é completamente irrelevante. Devemos lembrar que a segunda economia mundial, hoje em dia, é a da Republica Popular da China, onde o governo é exercido com mão de ferro por um partido comunista.

Isso não vem impedindo as corporações capitalistas globalizadas de se instalarem e obter enormes lucros por lá. Muito pelo contrário. A economia chinesa é cada vez mais inserida na grande rede global. O Vietnã, antigo símbolo da derrota militar do imperialismo, tem hoje a maior concentração de pessoal terceirizado da maior fabricante de tênis do mundo: A norte-americana Nike.

Por outro lado, regiões inteiras dentro de países desenvolvidos e até dentro dos EUA estão sendo sumariamente “desconectadas” por não oferecerem condições propícias ao desenvolvimento do capitalismo informacional. A reação desesperada e as vezes violenta de “patriotas” nesse pais, de nacionalistas xenófobos na Europa e do fundamentalismo islâmico só confirmam isso.

Os movimentos antiglobalização que temos visto se resumem a protestos ruidosos e criativos, que misturam grupos de pessoas ligadas a quase tudo. De defensores da ecologia a pacifistas, passando por gays, feministas, defensores dos direitos dos animais, etc. Tudo menos o que de fato importa, ou seja, o sistema de produção e a distribuição de renda.

A pergunta então é se devemos abandonar de vez qualquer idéia igualitária ou procurar algum meio alternativo de ação. A resposta está na própria configuração atual da economia global. Ao contrário do capitalismo industrial, a nova empresa globalizada não tem mais porque se preocupar em impor uma férrea disciplina e um estreito controle sobre seus empregados. Não precisa sequer de muitos empregados.

A operação de uma típica corporação moderna se assemelha muito as idéias contidas no Principio Federativo defendido por Proudhon. A diferença está em que cada “unidade federada capitalista” é organizada dentro do princípio da busca, as vezes exacerbada, pelo lucro. A ponto de em alguns casos, as condições de trabalho serem semelhantes às do século 19.

Ocorre que nada impede que uma unidade de produção seja organizada dentro do princípio do mutualismo e da solidariedade entre trabalhadores. Para a empresa em rede global isso simplesmente não vem ao caso. Elas já negociam com qualquer tipo de fornecedor, incluindo micro e pequenas empresas, negócios familiares e até atividades ilegais, em alguns casos.

Para uma empresa como a Nike, Reebok, Gap, Benetton, Ralphe Lauren, Wall Mart, Disney, Barbie, e até industrias automobilísticas e de computadores, não existe mais qualquer inconveniente em negociar com pessoas que se organizam e trabalham a seu modo. Note que tudo isso era/é impensável dentro do capitalismo industrial.

No setor de serviços, cada vez mais importante nas economias modernas, a flexibilização e a terceirização a muito já são uma regra e não uma exceção. Serviços de tele-vendas, auditoria, consultoria financeira e jurídica, desenvolvimento de software, engenharia, design, e até diagnósticos médicos, já são contratados em países como a Índia, China e mesmo no Brasil. Ninguém se importa como esses prestadores de serviços se organizam ou como e se dividem seus ganhos entre si.

As relações de trabalho são cada vez mais individualizadas chegando-se ao requinte de contratos, sistemas de remuneração, horários de trabalho e benefícios serem negociados de modo específico para cada trabalhador. Exatamente o oposto do que ocorria antes.

Então é perfeitamente possível uma organização regida por princípios libertários e igualitários se inserir nesse universo e conviver sem conflitos violentos com outras formas de organização com base no lucro e na exploração. Ai é que começa a verdadeira revolução.

A verdadeira luta revolucionária não seria travada em barricadas. Não dependeria de líderes messiânicos nem de vanguardas profissionais, sempre prontas para se tornar os tiranos do futuro. Seria uma luta promovida por indivíduos livres, contando apenas com sua capacidade de transmitir a outros suas próprias idéias. Não haveria necessidade de “centralismo democrático” nem de “partidos únicos” de triste memória.

Parece utópico? Alguns objetariam que um funcionário bem pago do McDonald’s ou da Coca-Cola nunca se interessaria em se filiar a uma organização igualitária. Esquecem que com o acentuado desmoronamento da família patriarcal, a crise irreversível dos estados nacionais e seus sistemas de bem estar social e a instabilidade cada vez maior do mercado de trabalho, essa poderá se revelar à única opção para uma vida digna e um futuro previsível.

Outros poderão lembrar que as marcas mencionadas são propriedade de uma minoria, que jamais abriria mão de seus direitos sobre elas. Ainda existe também o fato incontestável de que os bens mais valiosos do novo capitalismo serem os direitos autorais e as patentes de processos industrias, softwares, fórmulas, etc.

Ocorre que a patente de um medicamento ou o direito autoral sobre um software só tem valor por um curto período. Isso porque o próprio capitalismo informacional se mantém em constante processo de pesquisa e desenvolvimento para superá-los. Assim, com exceção de grifes de valor apenas simbólico, mantidas com grandes investimentos publicitários, as inovações estão ao alcance de qualquer organização, seja lucrativa ou igualitária.

Na prática, as grandes empresas detentoras de tecnologia de ponta, devem seu sucesso muito mais à sua capacidade de organização, em termos de produção e comercialização do que em pesquisas. As inovações quase sempre surgem a partir de indivíduos ou pequenos grupos, trabalhando em instituições acadêmicas ou mesmo por conta própria. Nada impede que sejam membros de organizações igualitárias e estejam assim dispostos a compartilhar seus conhecimentos.

A atual “guerra no ciberespaço” entre a Microsoft e os usuários do Linux é um exemplo prático dessa situação. Note que a “comunidade Linux” é formada por todo tipo de gente, de programadores solitários à IBM. Por enquanto seus objetivos são restritos apenas a questão do “código aberto” ou software livre, nada impede, e alias tudo indica, que a questão vá mais longe em termos políticos.

Tão logo uma “massa crítica” de inovações, partindo de organizações igualitárias, seja atingida, o processo atual se inverteria. As corporações com fins lucrativos se tornariam dependentes dessas tecnologias e perderiam sua capacidade de impor as regras do comércio mundial.

Em resumo, seria a realização de uma verdadeira revolução, isso porque partiria da conquista da economia para a consolidação política e não o oposto. Partiria das opções livres de milhões de indivíduos e não da imposição de uma suposta verdade revelada por um pequeno grupo de profetas.

Seria a revolução do povo, feita pelo povo e para a liberdade do povo. Uma conquista sólida e incontestável e não uma triste, sofrida e inútil aventura passageira.
   

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