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A IMPORTÂNCIA DE SER FIEL


            A SOCIEDADE POR WILDE

        "A Importância de Ser Fiel" promove uma eficiente reflexão sobre a elite inglesa do início do século XX.
        O Grupo Tapa, nesta sua primeira estréia fora de sua sede permanente (o Teatro Aliança Francesa encontra-se em reforma), volta no palco do Sesc Vila Mariana com o mesmo vigor e a qualidade artística que faz dele um dos primeiros conjuntos teatrais do País. Em 2001, o Tapa encenou "Major Bárbara", de Bernard Shaw, magnífico texto sobre a elite inglesa vitoriana do início do século 20, numa montagem precisa e bem feita. Agora, prossegue em sua reflexão sobre essa elite com um texto de Oscar Wilde, escrito em 1895, "A Importância de Ser Fiel".
        A última vez que se encenou esse texto de Wilde, no teatro brasileiro, é bom lembrar, foi em 1950, em montagem do TBC. A tradução de Guilherme de Almeida e Werner Loewenberg optou, naquela época, por outro título, que ficou registrado em nossa história teatral, "A Importância de Ser Prudente". Com direção de Luciano Salce, o elenco do TBC reunia um elenco de ótimos intérpretes, como Cacilda Becker (vivendo Lady Bracknell, com apenas 29 anos de idade), Marina Freire, Nydia Licia, Elisabeth Henreid, Sérgio Cardoso, Waldemar Wey e Freddy Kleemann. Somente agora, 52 anos depois, essa peça volta a ser apresentada ao público brasileiro.
        Nos três atos de que se compõe a peça, o autor traça um vívido painel da aristocracia inglesa do final da era vitoriana, com seu modo de vida rígido, pautado por regras morais e de convivência social absolutamente bem definidas, e o faz com um penetrante olhar crítico, com aquele humor sarcástico que o tornou, em vida, um dramaturgo popular e controvertido. O modo de vida da elite britânica serve perfeitamente bem, nesta comédia de Wilde, para se retratar a visão de mundo dessa classe social, com sua arrogância inata e sua prática maneira de resolver os assuntos que a tocavam de perto.
        Os dois casais amorosos da peça pertencem todos à mesma classe, ainda que, aparentemente, um dos apaixonados tenha vindo da classe mais baixa, abandonado pelos pais. A descoberta de sua verdadeira origem, além de divertida, serve de pretexto para revelar o pensamento da aristocracia sobre o relacionamento com os inferiores socialmente. O discurso de Lady Bracknell (que Nathália Timberg, nesta sua volta ao Tapa, faz impecavelmente) no 3º ato, é exemplar do pensamento da classe superior, na visão que dela tem o autor -- também ele um bon vivant em sua época, mas com forte consciência social, ligado que foi aos socialistas ingleses.
        Os encontros e desencontros da peça, as palavras de duplo sentido, as falsas aparências, a pompa e o esplendor do modo de vida dessa elite, as coincidências, o final que deixa todos satisfeitos, e a crítica que de tudo isso se faz, de modo divertido e leve, torna esse texto emblemático da dramaturgia inglesa e da obra do autor. Eduardo Tolentino, um diretor que tem sua marca bem definida, e que fez exemplares montagens de Tchecov e de Shaw, para não falar dos antológicos espetáculos que extraiu das obras de Nelson Rodrigues e de Jorge Andrade, recria Oscar Wilde com a inteligência e a argúcia requeridos pelo texto. O público se depara com um delicioso espetáculo, de elevada qualidade de criação artística, com belíssimos cenários, figurinos exatos e iluminação bem concebida. O elenco está perfeitamente à altura da tarefa que se impôs. Nathália Timberg, uma perfeita Lady Bracknell, Etty Fraser e Francisco Martins, ambos iluminando a cena com sua simpatia, engraçados em seus desempenhos, Brian Penido, numa ótima e bem caracterizada atuação, Dalton Vigh (excelente nessa sua volta ao Tapa, como um típico cavalheiro inglês), Bárbara Paz e Eloisa Cichowitz, atrizes convidadas mas bem integradas ao elenco e com ótimo rendimento em cena, e Guilherme Santana, num pequeno mas marcante papel.



Fonte: Site JT

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