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Crónica |
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Segunda-feira
Hoje é segunda-feira, mas apenas a razão me leva a concluir que estou no início de uma semana... De resto, desde que saí da Faculdade que as terças, quintas ou sábados passaram a ter o mesmo significado: trabalho. Porque a profissão é apenas um meio, pensava eu. Mas quando é que, afinal, se tornou num fim? Talvez quando a espiral da loucura, como eu lhe chamo, me enredou no escritório, que passou a ser a minha verdadeira residência. A bola de neve explica-se em poucas palavras, a Nucha estava habituada a um determinado nível que os “papás sempre me deram, querido”. E então o “querido” teve de passar a fazer horas extraordinárias a resolver os processos mais comezinhos e, porque não dizê-lo?, muito pouco remunerados. Até que surgiu um caso de crime daqueles que ninguém quer pegar dado o resultado à partida desfavorável, mas a que eu estoicamente me agarrei. Resultado: a fama do sucesso faz quase tudo num mercado tão repleto de oferta, e assim passei a ter processos que pagam as despesas para uns largos meses, e a partir daí os anos de trabalho repetiram-se numa cadência sem grandes novidades. No entanto, o que mudava, ou melhor crescia (exponencialmente) eram os gastos da família, que entretanto aumentou com o Rui e a Carolina. Precisou-se de nova casa: trabalha-se. Um carro maior: trabalha-se ainda mais. Extravagâncias da Nucha: aí vou eu fazer noitadas para pagar uns sapatos “chiquérrimos” que ela viu em Roma. E depois ainda há os putos (hoje já têm mais de 20 anos): actividades exóticas estilo ioga + a night + as prendinhas para os namorados + os CD`s + as calças da marca não sei quê que toda a gente usa + a Internet que parece ser um poço de informação absolutamente inútil (tão cheia de nada quanto a cultura da geração rasca) + o carro em que cada um fez a questão de exigir ser da marca X, não fossem os amigos rirem-se à custa da carolice do pai. E eu juro que ninguém ouvia um queixume meu por mais razão que pudesse ter: afinal estava a dar as condições necessárias àqueles que me estão mais próximos. No entanto, há uma semana, caiu a bomba no tribunal: o Manuel Fonseca tinha acabado de falecer repentinamente, sem sintomas visíveis “fizemos tudo o que estava ao nosso alcance” disseram, secamente, os tipos de batas brancas. O meu velho amigo da faculdade, o “surfista” como nós lhe chamávamos na tuna, desapareceu sem aproveitar a vida que, ultimamente, parece passar ao lado de todos nós, sem qualquer contemplação. Mas ontem foi a última gota de água, perante os berros mimados da família que exigia que eu reservasse viagens de primeira classe para as férias de Verão, que eles displicentemente já tinham planeado, repeti as últimas palavras que o meu velho companheiro, pouco antes de morrer me tinha confessado em tom de desabafo
Estou farto disto!
E a explosão deu-se de forma tão acelerada que ninguém respirou durante o meu discurso
Eu não sou escravo de ninguém! Não estou para desperdiçar a pouca saúde que me resta em merdas que vocês querem comprar, gastar, usar. A partir de hoje acabou. Acabou!
Mas querido não se exalte, os vizinhos podem ouvir
Eu quero que os vizinhos se lixem! Ouçam-me todos muito bem porque eu não vou repetir! Tu que foste incapaz de me apoiar ao longo dos anos podes esperar por um divórcio em que nem um cêntimo te vai ser dado para o teu luxo: se quiseres Versace vais ter de suar e desenterrar o teu canudo que pela primeira vez vai ser usado. Rui e Carolina: das duas uma, ou acabam a porcaria dos cursos rapidamente, ou ponho-vos fora de casa.
Mas, paizinho
Não há mas nem meio mas. Já são maiores de idade: desenrasquem-se!
AdeusPortanto hoje é segunda-feira. E que agradável manhã de Verão! Por trás de mim ouço o ruído leve daqueles que se preparam para another manic monday. À minha frente tenho o oceano largo, e a brisa afaga-me o cabelo e traz-me o cheiro fresco das ondas. Agora que me decidi a deixar a advocacia e a abraçar uma paixão antiga: a fotografia, não sei explicar esta sensação de bom senso, numa decisão aparentemente louca.
Talvez tenha redescoberto a maior das verdades
Para apontar o caminho da felicidade àqueles amamos, é preciso saber o que é vivê-la.Luís M