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Breve história de uma despedida
 
 

I




Naqueles dias as amendoeiras em flor pintavam de branco os montes, e qualquer olhar que cruzasse aquela alvura mergulhava numa serenidade que hoje apenas se sente como uma memória.
Mas aquelas crianças que correm pelas ruas da aldeia estão suspensas no tempo pela inocência que a  curta idade ainda não roubou:
- Ó Zé! Anda jogar com a gente. Vamos para o campo da escola.
- Não posso, tenho de aviar um recado.
- Eu cá sei que recado é esse. Tu não enganas ninguém...
O José, filho do Manel Correia, ainda tentou disfarçar o embaraço, mas a cor escarlate que lhe percorreu a face estragou o cenário. Todos os amigos sabiam porque se apressava o Zé em guardar o rebanho ao fim da tarde, quando o sol ainda espreita, timidamente, mesmo por cima da capela antiga.
A Maria já o esperava no sítio do costume, e sem palavras trocadas foram passear pelos trilhos que riscavam o campo virgem e rude. Ele contava-lhe peripécias que o dia lhe tinha trazido nas muitas horas vagas que as ovelhas lhe davam com o seu passo lânguido, e ela sorria, simplesmente, perante a companhia do pastor.
Durante aquela tarde, no entanto, enquanto as notas saiam do realejo do Zé, a mente da Maria vagueava por outras terras que ela apenas sabia o nome, pois a geografia do mundo pertencia a um mistério que mal decifrava. Tinha recebido mais uma carta do António Ribeiro, cheia de erros ortográficos, mas repleta de um cheiro de África que ela não conseguia esquecer, o mesmo aroma que a perseguia, mesmo na Igreja, enquanto cumpria o seu dever de madrinha de guerra.
Todas as meninas da aldeia sentiam no estômago um nervosismo crescente, sempre que o homem do correio estava para chegar, afinal o que é que pode ser melhor, para vencer o marasmo, do que trocar correspondência com um soldado do ultramar?E a farda militar tinha um quê de charme inexplicável, que os homens da aldeia simples e brutos, como a terra que cultivavam, nunca poderiam ter.
- Então? O que é que achas desta música? Foi o Pedro que ma ensinou...
Implacável como um gume de uma faca a voz do Zé cortou as asas à imaginação fértil da jovem rapariga, que a fez descer violentamente ao mundo sem brilho.
 A menina balbuciou uma frase curta e concluiu com pressa:
 - Já se faz noite, o meu pai ainda se vai arreliar comigo.
 O jovem pastor não disse mais nada enquanto a acompanhava a casa, a sua forma simples de ver a vida era a suficiente para saber que aqueles momentos do dia em que podia ver os cabelos dela, negros como carvão, pousar levemente nos ombros delicados eram os únicos em que a vida podia ser doce e feliz.

 (as despedidas custam sempre aos corações plenos de amor)
 
 



II



 E mais um dia nasceu naquelas amplas terras transmontanas. Antes do galo cumprir o seu dever já o Zé comeu umas migas sentado no chão da cozinha mal iluminado pela lamparina de azeite. Os seus cinco irmãos também já se levantaram. O mais novo, com os movimentos ainda presos pelo sono, era o único que se dirigia para  a escola. O Joaquim ainda vai ser doutor!, dizia a mãe. Mas os doutores, pensava o jovem pastor, têm de nascer ricos. Como podem os livros pôr comida na mesa?
 Enquanto a família Correia ia à propriedade soltar o rebanho, e regar a hortaliça antes que viesse a hora do calor, o Sr. Arnaldo, sempre com a sua aparência pacata e pacífica, chegou ao largo central da aldeia com os envelopes e encomendas que definiram a sua vida durante décadas.
 Todas as moças da aldeia soltavam um longo suspiro, ao qual se seguia uma excitação inocente, mal ouviam  a voz calma do senhor do correio chamar pelos seus nomes. No entanto, não havia nenhum pedaço de papel para a Maria, a mesma Maria que se dedicava tanto em gastar os poucos tostões que poupava ao longo dos meses em papel e selos para que lhe enviassem, via postal, um pouco daquele mundo que ela tanto queria conhecer.
 E assim se esfumaram vários meses, sem que nenhuma carta chegasse. Até que, quando a Maria já guardara a fotografia do soldado num qualquer recanto esquecido da sua alma, e as melodias do Zé tinham voltado a ter algum encanto, alguém chamou pelo Sr.Ribeiro:
 -Sr. Ribeiro! Ó Sr. Ribeiro!
 -Quem me chama? É da guarda?
 -Tenho noticias para lhe dar. Noticias do seu filho...

III



 Naquela tarde em que o vento quente tornava a atmosfera pesada e arfante, num mau augúrio que só alguns sabem interpretar, toda a aldeia se concentrou no largo da Igreja esperando pela camioneta. Dada a importância do acontecimento ordens superiores tinham conseguido transportar o bispo para junto daquela gente que, aproveitando a ocasião santa, esperavam pacientemente na fila pela oportunidade de beijarem o anel do patriarca. Este escondia a pele clara na sombra das oliveiras, e perguntava num tom cada vez mais impaciente:
 -    Demora muito?
- O Sr. Bispo devia, pelo menos, aparentar mais calma - afirmou um homem com sotaque da capitaaal -Afinal de que é que se queixa? O povo adora-o. E é indispensável que você como representante da Igreja e eu como garante dos interesses de  Sua Excelência Dr. Oliveira Salazar não faltemos em alturas destas.
- Poupe-me o sarcasmo, por favor! Bem sei porque estamos aqui. Mas é imperativo o seu esforço e não o meu... Vocês é que têm de transformar em esquecimento a pesada factura da guerra...
- Nós, meu caro. A tarefa é nossa. Não se esqueça do que é usual nestas situações: o povo na euforia de ver o soldado António vivo vai afogar alegrias numa festa rija, e na próxima homilia sua excelência não se vai esquecer de ensinar que o regresso do filho da aldeia é mais uma dádiva da mão protectora de Salazar. Depois os nossos colaboradores farão por “silenciar” as memórias desagradáveis dos pretos que alguém tenha a infelicidade de querer lembrar.
Passada mais uma hora, a camioneta chegou depois de uma travessia tortuosa pelos caminhos que alguns chamam estrada. Enquanto a porta se abria gerou-se um clima de suspense, logo prontamente cortado pelos vivas acesos de todos os que avistaram o filho do Sr. Ribeiro. Todos queriam ver e ouvir aquele que regressara da luta acesa pela pátria na África longínqua. A verdade é que o agora ex-soldado ainda conservara alguma da postura firme e rija característica de todos os varões da sua família, mas o ferimento na perna (que o iria perseguir o resto da vida) era impossível de esconder. E assim, cambaleante, se foi aproximando dos pais e irmãs que o esperavam  há anos.
No entanto, se o leitor pudesse vaguear pelas mentes, e corações, saberia que nem todos naquela tarde sorriam perante este regresso do António Ribeiro. Por entre a multidão ruidosa o Sr. André que escondia na penumbra da noite as leituras acérrimas de Marx, incentivadas pela delegação do partido, sabia bem que PIDES, como aquele que estava à beira do bispo, só podem trazer problemas. E o nosso jovem pastor pressentia no olhar luminoso da Maria a observar o ex-soldado, um aperto no coração que não deixava a alma respirar.
 
 

IV

 A noite já caíra, negra, sombria, e tenebrosa como as horas que se seguiriam.
 Ele sabia que o tempo era cada vez mais curto. Avançou rapidamente, mas sem fazer um único barulho por entre os telhados frágeis. Sentia um misto de receio e uma coragem imensa como o oceano. Por fim cessou a corrida.
 Naquele preciso instante recordou os acontecimentos das últimas semanas: a ausência da Maria; a presença constante do António que não cabia em si com tanta arrogância (como era possível ver um herói num homem que se feriu numa guerra sem sentido?...); e, é claro, aquele Domingo em que a madrinha de guerra, seguindo silenciosamente a vontade familiar, passou a fiel esposa. Aquele casamento caiado de um branco que escurecia a esperança  do Zé, abalou as fundações de um mundo que deixara de ser simples como um sonho de uma criança.
O jovem pastor não esquecia aqueles fins de tarde em que ele fazia sorrir o seu amor. Porque é que tudo isso pertencia ao passado? Porque é que era Deus a unir o destino de Maria com aquele velho homem?
 Enquanto este turbilhão de perguntas apareciam, o José Correia espreitava timidamente entre as cortinas de uma janela... A magia daquela imagem fê-lo esquecer toda a angústia da vida. Ver a Maria a pentear docemente os seus longos cabelos negros, era o que bastava para recordar a felicidade que é amar alguém.
 Mas a sensação de deslumbramento desaparecia lentamente, perante a urgência premente de cumprir com o plano delineado por ele há dias.
E com o olhar disse adeus a tudo e todos...

 (as despedidas custam sempre aos corações plenos de amor)
 
 

V

 E pouco mais há para contar desta história. Talvez o leitor quando se aventurar pelas terras rasgadas pelos sulcos das vinhas, possa reconhecer a aldeia aqui brevemente descrita. Talvez nesse dia ao passear por entre as casas de xisto veja meninos a correr pela rua, e rebanhos a pastar calmamente pelas amendoeiras em flor.
Se procurar bem, certamente encontrará o Sr. António a chegar a casa depois de um dia de caça, sentar-se à mesa invariavelmente servida  pela D. Maria (que, por vezes, quando ouve alguma melodia rasgar o silêncio dos montes ainda sente o bater do coração há muito adormecido).
Mas, a verdade cristalina é que não encontrará o José Correia, que numa noite sombria deixou para sempre aquela aldeia.
Nos dias de hoje ele ainda recorda com saudade a terra que o viu nascer, e certamente nunca esquecerá a aventura, repleta de riscos, que foi saltar fronteiras até chegar a um país que é, agora, o seu lar.
E em cada amanhecer parisiense, a luz que entra de rompante e ilumina o rosto da sua esposa relembra-lhe que os corações plenos de amor resistem às despedidas, mas jamais sobrevivem sozinhos.
 
 

                                                            Luís M


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