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Crónica |
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Apontamentos de viagem
Eu já devia estar habituado a viagens longas (não era a primeira vez que fazia aquele trajecto) mas tenho que reconhecer que, depois de três horas dentro de um comboio que se desloca a uma velocidade de cruzeiro, até o espírito mais sereno se impacienta com semelhante tédio.
E de pouco me tinha valido a preocupação em ficar num lugar junto à janela. O rio, de uma placidez de ouro, há muito que tinha sido engolido pelo manto negro...
No banco da frente discutia-se, entusiasticamente, os benefícios de um moderníssimo sistema de aquecimento central. Mas qual moderno, qual quê! Eu e o meu cunhado Zé montámos um sistema estrangeiro (topo de gama) em três tempos! Pois fique sabendo – replicava o outro – que o Manel (aquele que trabalha na Suíça) faz tudo mais depressa e por uma pechincha, pergunte à minha Maria a ver se não é verdade...
Tento pôr o volume do Walkman no máximo, mas nem isso me vale: as pilhas estão tão fracas que a voz da Teresa Salgueiro se torna estupidamente grave. Mergulho então no livro à minha frente, e embarco na viagem da literatura, em que basta ao passageiro um mínimo de imaginação, para que as barreiras do tempo e da distância se esfumem em cada virar de página.
Era a primeira vez que lia um livro, escrito na primeira pessoa, com o drama do Holocausto como cenário de fundo, mas as palavras daquele judeu (sobrevivente dos campos de concentração) ainda flutuam na minha mente de cada vez que ouço a belíssima banda sonora da “Lista de Shindler”. Na verdade Simon Wiesenthal não escreveu propriamente sobre a 2ª Guerra Mundial, a história da vida deste advogado é feita de pequenos triunfos e muitas desilusões, em busca dos hediondos nazis que se refugiaram nos recônditos de algum país sul americano, onde o dinheiro fala mais alto do que os gritos das vítimas do genocídio (tal como o titulo do livro, eles são “Os assassinos entre nós”).
Sempre que duvido da existência de uma linha divisória entre o bem e o mal, sempre que questiono até que ponto a moral não é apenas influência do exterior, recordo a semente do ódio do nazismo. A “solução final do problema judaico” não encaixa na lógica das correntes naturalistas em que se considera que a nossa espécie apenas segue um instinto de sobrevivência inato: a crueldade desses actos estão para além do prisma biológico, em que os cientistas ainda pretendem reduzir o ser humano.
Enquanto eu reflectia nas palavras de Simon, o ruído na carruagem multiplicava-se, à medida que o espaço livre para circular se reduzia a uns míseros centímetros por pessoa.
Parece que ainda agora ouço aquela voz aguda e estridente a insultar o funcionário da CP...Isto é uma vergonha! Parecemos sardinhas em lata! Queria ver aqui esses ministros do Sul para lhes dizer meia dúzia de verdades... Onde vais tu, António?
O António devia ter uns 20 e tal anos, mas parecia conservar uma paciência com a mãe, que seria considerada ridícula pelas mentes jovens pseudo-modernas do Porto soturno. Mas saiba o leitor que eu - na altura ainda com uns 16 verdes anos - me incluía no estereótipo do grupo portuense acima descrito. Mal avistei aquela mulher com o seu saco de couves, mais o garrafão de vinho tinto e um cão rafeiro tão minúsculo que nem uma galinha assustava, apressei-me a ingressar nas palavras impressas, não fossem eles chatear-me com mais um sistema de aquecimento de última geração.
No entanto, aparentemente, eu não estava nos meus dias, e mal se sentaram deram sinais de querer falar comigo... Ainda tentei fingir ver algo super interessante na paisagem exterior, mas a noite era tão cerrada que acabei por me dar conta do ridículo. Bem, pensei eu, lá vou ter de falar do tempo (que está sempre péssimo), do atraso do comboio, e, é claro, do último episódio da novela (é que na altura o “Big Brother” figurava apenas no livro “1984", de George Orwell...).
Mas nas alturas em que julgo ter mais certezas, o inesperado acontece. A Sr.ª Fátima não só tinha lido o preciso livro que eu segurava entre as mãos, como também partilhava uma curiosidade “fascinante” por outras obras daquela colecção. Mal me recuperei do espanto vi o tempo daquela deliciosa conversa passar como uma leve brisa; e tenho os azulejos de S. Bento como testemunhas de como os meus preconceitos se desvaneceram naquela noite.
As ideias pré concebidas, baseadas no aspecto mais ou menos socialmente aceite, são mais comuns do que possamos pensar. Basta ver aquele automobilista que atira – literalmente - a moeda de 50 paus ao “coitado” do arrumador, para que se fique com uma amostra de como é mais confortável arrumar os que nos rodeiam em prateleiras estanques.
As discriminações têm como base comum a ideia de superioridade de alguns, que perigosamente se começa a sentir neste país (cada vez mais repleto de betão), em que se sujeitam imigrantes do Leste a condições de semi-escravatura, a que os cidadãos de primeira já não podem ser sujeitos.
É claro que os “brandos costumes” ainda são uma realidade, mas como conclusão desta crónica, deixo ao leitor uma pequena citação de um cartoon de Quino: “Sabes que essa coisa do racismo dos outros países nunca acontecerá em Portugal...É que nós, os portugueses, somos muito superiores aos outros povos...”.