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O 19 e o chumbo
 
    O Manuel deu um toque leve aos seus inseparáveis óculos, e foi com a mesma finura de gestos que começou a afixar as pautas do exame numa languidez irritante. Para quê ter pressa? Estes caloiros podem sempre esperar mais um pouco, e afinal agora sou assistente da cadeira mais importante do primeiro ano, no fundo isto de ser assistente é fazer o trabalho todo: dar as aulas, preparar o material para os exames práticos... Mas um dia serei regente da cadeira, vou poder mover-me no mundo daqueles que agora mandam em mim, mundo esse que só alguns atingem e onde a mediocridade não existe! Por falar em medíocre, este ano, por acaso, até houve menos chumbos...
    - As notas já saíram?- perguntou um aluno.
    - É claro que já. O que é que achas que estou a afixar?
    O João, um tipo franzino, bem que tentava encontrar o seu nome na folha branca, mas o sono provocado pela noite passada a estudar Bioquímica tinham-no deixado de rastos.
    -Então, João? Passaste? Tenho que avisar a minha afilhada que as classificações já saíram.
    O António, aluno do 4º ano, era um daqueles tipos que para além de usar as cordas vocais para se expressar também gostava de dar palmadinhas nas costas de toda a gente enquanto ia desenhando formas circulares no ar com as suas peculiares expressões gestuais.
    O João detestava o António, talvez porque este tinha aquele dom de deixar as colegas a balbuciar pequenos vocábulos, enquanto  se vangloriava da última actuação da tuna.
    E assim, passados breves minutos, todo o primeiro ano se amontoava para ver os resultados de Anatomia. O cenário visível aos pacientes que passavam perto do Teatro Anatómico é um lugar comum nesta altura agreste de Julho: havia alguns que pulavam, literalmente, de alegria, mas a maioria, após um olhar de ave de rapina sobre os números e nomes, continha com um profundo suspiro aquilo que lhes ficara no pensamento “porque é que eu não tive a melhor nota?”.
 

    O Sr. Nuno era funcionário da Universidade há tanto tempo que perdera a conta aos anos passados, tinha aquela serena paciência que a idade ajuda a criar, e que lhe permitiam aturar os devaneios constantes do Sr. Professor. No entanto, nunca deixava de  sorrir constantemente, mesmo para aquelas caras fechadas que esvoaçavam pelos corredores com as suas sinistras batas brancas.
    - Então, Sr. Nuno? Que tal as notas?
    - Não foram muito más... Mas só agora é que vem? Os seu colegas já aqui estiveram de manhã.
    - Ninguém me avisou. Também não podiam, é que o meu telemóvel não resistiu a um banho de água salgada... Ontem, a praia estava um espectáculo!
    Ao mesmo tempo que o banhista Pedro trocava impressões sobre qual a praia do Norte com as melhores ondas, o colega Bruno aproximava-se, em passos largos, mas algo indecisos, do placar aterrador.
    Eu já devia ter chegado... Perdi uma manhã inteira de estudo dentro do autocarro, no meio do trânsito infernal do Porto... Pois é, da próxima vez levo sempre comigo os livros da faculdade...
    O funcionário do serviço de anatomia sentou-se placidamente num dos bancos do corredor, apreciando os dois colegas da Faculdade que tinham apenas em comum o facto de frequentarem o curso de Medicina. De facto, o Bruno vestia uma camisa às riscas, com os botões todos selectamente apertados, com a cor azul repetindo-se das calças até aos sapatos reluzentes. O Pedro, tinha um ar descontraído de quem acabou de acordar com a brisa do mar a fazer-lhe ondas no cabelo loiro, já de si rebelde e despenteado.
    Após ambos verem as respectivas notas, a inexpressividade do Bruno e o sorriso aberto do Pedro, pareceram ao Sr. Nuno transmitir a boa prestação do surfista.

(mas a verdade apenas se revela com o mais íntimo dos pensamentos)

    Que se lixe! – pensou o Pedro – tenho sempre Setembro para passar à cadeira, agora vou dar uma volta na mota, e vou-me ocupar do ensaio da banda. O Verão ainda agora começou, e aquela rapariga de ontem à noite é fantástica! Se ela aparecer no bar, dedico-lhe uma das canções...
    O Bruno dirigiu-se, em silêncio, à casa de banho da Associação, e olhou fixamente o seu reflexo no espelho baço, e como já era normal discursou para si na terceira pessoa. Enfim, Bruno, tiraste a melhor nota do primeiro ano, mas não te esqueças que ainda tens Bioquímica para fazer. A mãe vai ficar contente. Talvez venha a ser como o assistente Manuel, e começar a seguir os passos do pai.
    O telemóvel tocou. Não era nenhuma chamada, mas sim o alarme a recordar ao futuro médico, que estava na hora de tomar os comprimidos que o pai fazia questão de lhe receitar nesta época de exames.
    Enquanto saía do exterior do imenso, e cinzento hospital ainda viu o colega surfista dar informações a um doente que procurava o departamento de cirurgia geral. Enfim, uma “completa perda de tempo, vê-se logo que não estuda nada”.
    Num automatismo há muito adquirido abandonou a sombra artificial do edifício, e quando se viu na rua cerrou os olhos com força perante a luz doirada e quente, “afinal, quando é que parou de chover?”.

 
 
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