A DIFÍCIL DECISÃO DE IMIGRAR

      A partir de 1825, com as notícias do sucesso da Colônia de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, fundada no ano anterior, aumentou na Alemanha o interesse na emigração para o Brasil. Os agentes brasileiros intensificaram a propaganda, com grandes vantagens e promessas, e muitas famílias prepararam-se para a aventura em direção à América.
      Entre eles estavam Matthias Joseph Back, então com 47 anos, casado com Katharina Gertrud Göllen e seus sete filhos. No dia 8 de outubro de 1846, como inúmeros outros habitantes da região do Hunsrück, abandonaram sua aldeia natal, Briedel, em carroças puxadas por cavalos, abarrotadas de baús, rumo ao rio Reno, onde embarcaram num vapor e seguiram até a cidade de Colônia (Köln). No dia seguinte, em 10 de outubro de 1846, tomaram num trem para Ostende, na Bélgica. De lá, viajaram por terra até Dunquerque, na França.
      Era 18 de outubro, quando o brigue sardo Eridano, fundeado no porto de Dunquerque, levantou ferros e, de velas enfunadas, iniciou a longa travessia do oceano, que duraria cerca seis semanas. Com 220 pessoas a bordo, em fins de novembro de 1846, o brigue alcançou as costas da cidade do Rio de janeiro. Passados dez dias, foram os novos colonizadores desembarcados em Praia Grande, nas proximidades de Niterói, onde amargaram o abandono por parte dos agentes imigratórios responsáveis por eles. O sofrimento com as péssimas condições de alojamento e as incertezas quanto ao futuro duraram ainda muitos dias, até que seus representantes foram recebidos em audiência pelo próprio Imperador brasileiro.
      Na audiência ficou estabelecido que seriam conduzidos até terras no sul do Brasil. Da chegada ao Rio de Janeiro, passou-se aproximadamente um mês, até que embarcaram novamente, na sumaca 14 de Novembro, numa viagem que durou seis outros dias. Desta vez, com destino a Desterro, na Província de Santa Catarina. Na chegada, foram removidos para as instalações de um desabitado quartel, onde permaneceram por mais dois meses, antes de seguirem viagem novamente, rumo aos lotes coloniais.
       De Desterro, seguiram os imigrantes de lancha, desde a Baía Sul, até a foz do Rio Cubatão, de onde seguiram em carros de bois, levando seus pertences até o Barracão Comum, nas imediações do Rio dos Bugres (Buger Bach), no Vale do Rio Cubatão. Foi neste local onde, provavelmente em março de 1847, Matthias Joseph Back e cerca de 250 outros imigrantes, fundaram a Colônia Imperial Santa Isabel, uma homenagem à recém-nascida Princesa Isabel.


DESTINO: SANTA ISABEL


     Fundada em 1847 por imigrantes recém-chegados da Alemanha, a Colônia Santa Isabel foi composta, em sua maioria, por agricultores e provenientes da região do Hunsrück, no atual estado da Renânia-Palatinado. Professavam a religião católica e a luterana sendo que, nesta última, Santa Isabel tem a primazia cronológica sobre todas as colônias fundadas no estado de Santa Catarina.
     Instalada às margens do Caminho-de-Tropas que ligava o litoral catarinense ao planalto serrano, é uma homenagem prestada pelo Governo constituído à então Princesa Isabel, a denominação da colônia. Inicialmente além da sede da colônia, localizada num terreno excessivamente montanhoso e impróprio para a agricultura, foram fundadas e povoadas as linhas coloniais de Löffelscheidt e Primeira Linha.
Em 1860 o Governo resolveu remeter novos imigrantes para a Colônia, a qual desde 1851 crescia apenas pelo desenvolvimento interno de sua população, sem receber novos imigrantes. O núcleo foi ampliado e submetido ao regime colonial com a chegada de novos imigrantes resultando na fundação de nova linhas coloniais, entre elas: Segunda Linha, Terceira Linha, Quarta Linha, Quinta Linha, Rancho Queimado, Linha Scharf e Taquaras.
     Em dezembro de 1865 o Governo Imperial determinou a unificação administrativa da colônia Santa Isabel com a de Teresópolis, que lhe era contígua, ocasião em que exonerou o diretor da primeira(Joaquim José de Souza Corcoroca) e incumbiu a administração de ambas a Theodor Todeschini.(1)
     No início de 1867 o comissário do Governo Imperial, Dr. Ignácio da Cunha Galvão, visitou Santa Isabel in loco relatando detalhes de seu estágio de desenvolvimento. Na ocasião lamentou o "tão desaminador estado da colônia". Por ser esse relatório de significativa relevância no contexto histórico culminando em sua emancipação, selecionamos dele alguns fragmentos. Veja as conclusões do visitante:

     "Foi porém esta, como a colônia Teresópolis, uma tentativa malograda e o dinheiro ali gasto em pura perda. (...) Os colonos vivem todos, se pode dizer, na maior miséria... o terreno inteiramente montanhoso e pouco produtivo, não fornece o necessário para o sustento; o serviço do governo nas estradas é um elemento que não podem dispensar para subsistir; vivem principalmente destes salários e da exportação de manteiga, prestando-se o terreno sofrivelmente para pastos. (...) Grande número tem abandonado seus lotes e procurado outras colônias... Nunca se deveria ter colocado colonos em semelhantes terras. (...)
     O diretor da colônia, cometendo a mesma falta do de Teresópolis, de estabelecê-los em más terras, nem ao menos, como aquele, a atenuou com os meios que estavam ao seu alcance. No extremo oposto à energia e força de vontade, deixou os colonos inteiramente entregues à sua imprevidência, moleza e desânimo... Com os maus terrenos que possui... pouca esperança nutro sobre os resultados diretos dos esforços e dinheiro que se continuarem a empregar nesta colônia e o seu abandono ao regime comum seria o remédio mais fácil, mas não o mais prudente e eqüitativo. Como disse... uma vez que se colocaram aqueles desgraçados nas más condições em que se acham, é dever do governo fazer sacrifícios para melhorar a sua sorte. (...)
Cometido o erro da fundação da colônia Santa Isabel, é mister suportar as suas conseqüências, e considerando os colonos como recém-chegados, procurar-lhes uma melhor colocação, parecendo a mais conveniente a do Capivari (hoje São Bonifácio) e a colônia nacional Angelina".

     De posse o Governo Imperial do relatório de seu comissário e diante das sugestões de a) - promover a migração dos colonos descontentes e b) - depois emancipar a colônia, optou-se pelo "remédio mais fácil, mas não o mais prudente e eqüitativo": a emancipação da colônia. Dessa forma seu diretor Theodor Todeschini foi instruído a conceder títulos provisórios de propriedade através de "designação de lote de terras" aos imigrantes, o que procedeu em meados de 1868. Documento bilingüe, contendo inclusive as armas do império, a designação de lote de terra representou uma garantia no sentido da aquisição da propriedade definitiva depois de ter pago integralmente a sua importância, bem como tudo que dever à Fazenda Nacional e provado que tenha tido no mesmo lote um ano, pelo menos, de residência habitual e cultura efetiva. A concessão dos títulos provisórios de posse de terra era mais um passo na "preparação" para a emancipação.
     Em 28 de maio de 1869 o Ministro dos Negócios da Agricultura e Obras Públicas enviou ao Presidente da Província de Santa Catarina um "aviso" determinando ações efetivas de grande impacto entre os imigrantes, dentre elas, a emancipação da colônia e a exoneração de seus funcionários:

     "Achando-se as Colônias Teresópolis e Santa Isabel nas circunstâncias de serem emancipadas, ficando os seus habitantes sujeitos à legislação comum às demais povoações do Império, recomendo a V. Exa. que mande desde logo declarar destituídos os diversos empregados que ali serviram, cessando todos os seus vencimentos... (...) Quanto às dívidas dos colonos é mister que V. Exa. remeta à Tesouraria da Fazenda a sua liquidação pela maneira mais conveniente ao Tesouro Nacional e aos próprios colonos, cujas circunstâncias devem ser cuidadosamente atendidas. (...)".

     Após a divulgação desse "aviso" todos os funcionários da colônia foram exonerados e, obedecendo às determinações do Ministério dos Negócios da Agricultura e Obras Públicas, o Presidente da Província de Santa Catarina, Carlos Augusto Ferras de Abreu, em 11 de junho de 1869, através da lei provincial n. 628, emancipa a colônia.
     A oficialização da emancipação da colônia representou, na prática, a inviabilização de seu desenvolvimento sócio-econômico. A partir de então, ao invés de diretor, o governo passou a nomear um subdelegado de polícia para prestar serviços à população.
      Diante da "lavagem das mãos" por parte do Governo os imigrantes foram lançados à própria sorte estimulando a migração de significativa parte de seus habitantes para novos núcleos coloniais.
Entretanto a migração não possibilitou o seu desenvolvimento mas para administrá-la, Santa Isabel, juntamente com Teresópolis, foi elevada à condição de Distrito de Paz em 06 de setembro de 1886 pelo Governo Provincial através da lei n. 1.176.
     Posteriormente, a administração municipal de Palhoça em 22 de setembro de 1902 aprovou a lei n. 8 elevando Santa Isabel à condição de Distrito de Paz independente do de Teresópolis. Sua sede foi fixada, anos mais tarde, por conveniência administrativa, na localidade de Rancho Queimado.
     Contando com a estrutura administrativa da colônia Santa Isabel, Rancho Queimado alcançou relativo desenvolvimento sócio-econômico. Foi emancipado político-administrativamente do município de São José em 08 de novembro de 1962, enquanto a histórica Santa Isabel - sede da homônima e sesquicentenária Colônia - leva até hoje saudosa existência. Lá, - em Santa Isabel - um modesto monumento trazendo os sobrenomes das famílias pioneiras é a principal referência para a população, para os turistas e para os historiadores.

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