
Nunca um sistema filosófico influenciou tanto uma época, como o criado por Immanuel Kant (1724-1804) e que dominou todo o século passado. Imaginemos um homem de pequena estatura, apenas de metro e meio, com um corpo disforme. Dominava este pobre corpo uma formosa cabeça, de olhos inteligentes e cabelo abundante. Mas tinha uma alma muito grande e um coração alegre e afável. Gozava sempre de excelente humor.
Todo o ano, de verão a inverno, se levantava sempre às cinco horas. As nove sentava-se à sua mesa de trabalho, para levantar às treze. Comia fora de casa, mudando com freqüência de local de refeições, porque sempre o seguia um grupo de curiosos. Demorava-se longo tempo à sobremesa, pois gosta de conversar com seus amigos até muito tarde. Depois passeava invariavelmente durante uma hora, fizesse bom ou mal tempo, e à noite tornava os seus livros. Gostava muito de palestra com os marítimos e os viajantes; lia muitas narrações de aventuras e interessava-se muito especialmente pela geografia.
Todavia este homem de hábitos tão simples reconstruiu toda a filosofia operando uma verdadeira revolução intelectual. Sua vida foi tão simples como seus talentos tão elevados. Kant começou por fazer uma crítica do nosso conhecimento e de nossa faculdade de conhecer. Ele estimou o papel do nosso espírito na formação das idéias, e sustentou que "o nosso conhecimento experimental é um composto do que recebemos por impressões e do que a nossa própria faculdade de conhecer tira de si própria por ocasião dessas impressões".
Os que crêem que tudo o que pensamos vem dos sentidos, como Locke, não tem, pois razão; e os que crêem que tudo o que pensamos vem de nós, como Berkeley, também não tem razão. Quanto ao tempo e ao espaço eles não existem em si, são apenas formas da nossa sensibilidade, moldes, por assim, em que as coisas se fundem para poderem ser percebidas pelo nosso espírito. Alguma coisa há, segundo Kant, que vem de nós, e que é puramente humana. Alguma coisa em nós diz: tu deves proceder de tal ou tal maneira; tu deves proceder bem. Donde vem este tu deves? Da natureza? Não, na natureza há fatos, não há nenhum tu deves. Do entendimento? O entendimento conhece idéias, não conhece mandamentos, imperativos. A multidão chama a esse tu deves a voz da consciência; e Kant dava-lhe o nome de "Imperativo categórico".
Nós conhecemos outros imperativos, mas muito diferentes deste,. Sentimo-nos comandados pela prudência, por exemplo, quando nos diz: não desças a escadas correndo que podes partir uma perna. Mas a consciência não nos diz assim; ela diz-nos tu deves simplesmente, sem consideração pelo que possa acontecer ou deixar de acontecer, e é seu caráter próprio desprezar mesmo toda consideração de conseqüência. Ela dir-nos-ia
: desce a escada a correr para salvar aquela criança, mesmo que tenhas de partir uma pena. Em virtude desta diferença capital, Kant chama a todos os outros imperativos que nos são dados, imperativos hipotéticos, a ao da consciência, a esse só, imperativo categórico ou absoluto.
A moral é, pois, a lei mesma do homem, como a lei da árvore é dilatar-se em raízes e em ramos. Bem, mas para que o homem possa obedecer à sua lei, é preciso que seja livre. A lei moral é, pois, o sinal de que nós somos livres; todas as outras provas de liberdade são nulas ao lado desta. Mas o conceito da moralidade está inseparavelmente ligado ao da felicidade. Se depende, porém de nós, praticarmos ações que nos tornem dignos da felicidade, não depende de nós que essa conseqüência se produza, porque a felicidade depende também do mundo exterior. Para que a lei moral não seja, pois uma quimera é necessário que a harmonia da virtude e da felicidade possa ser realizada. Para isso é preciso que exista um outro mundo, diferente deste, e que a nossa alma seja imortal. A lei moral é, pois, o sinal de que nós somos imortais. Todas as outras provas da imortalidade são nulas ao lado desta.
Mas para que a justiça se faça um dia, é necessária a existência dum supremo juiz, necessária uma inteligência e uma vontade superiores à natureza e aos homens. Esse juiz, essa inteligência, essa vontade, é Deus. Deus deve existir para que o mundo seja moral. A lei moral é, pois o sinal de que Deus Existe. Todas as outras provas da existência de Deus são nulas ao lado desta. Da existência de lei moral, que caracteriza o homem e constitui o seu próprio fundo, Kant conclui pois a liberdade e a imortalidade da alma e a existência de Deus. São concepções sublimes, que jamais filósofo algum excedeu. O ensino moral de Kant foi elevadíssimo. è dele este conceito lapidar: "Procede da tal maneira que trates sempre a vontade livre e razoável, isto é, a humanidade, em ti e em outrem, como um fim e não como um meio". E este outro: "Procede de tal maneira que a razão da tua ação possa ser erigida em uma lei universal". A pessoa humana era, para Kant, um objeto de respeito absoluto.
Kant revolta-se, também contra o estado de guerra em que vive a humanidade. Foi um dos primeiros pensadores que surgiu a decisão das questões entre as nações por meio de tribunais e arbitragem. Com esse fim escreveu um Projeto de paz perpétua, onde defende a extinção de exércitos permanentes, a constituição republicana de cada Estado, uma confederação de Estados independentes e a aliança de todos os povos. Esse ideal da paz é quimérico? Não, responde Kant, pois que é obrigatório. Será realizado cada vez mais à medida que o tempo passa? Sim, e isso não só pelo inevitável progresso do direito, mas pelo próprios interesses. Os interesses econômicos acabarão por tornar a guerra impossível.
"A natureza garante, pois a paz perpétua pelo próprio mecanismo das paixões humanas". Os republicanos da Alemanha moderna tiveram, pois em Kant, um ilustre precursor. Os ideais de fraternidade humana preconizados, são uma robusta afirmação de que em muito avançou o espírito humano através de um dos grandes e luminosos vultos que semelhantes a meteoros iluminam a noite de trevas em que o pessimismo e a maldade humana jazem mergulhados. Se esses ideais se concretizarem terão pago de sobra a vida de sacrifícios e intenso labor intelectual do sublime e modesto Kant, professor de Konigsberg e grande cidadão do mundo.
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