MEM�RIAS DA IMPRENSA

Este espa�o ser� o local onde, periodicamente, ser�o apresentados alguns artigos da nossa imprensa musical. O crit�rio de selec��o das pe�as ser� o da relev�ncia que essas pe�as poder�o ter para o contexto musical actual. E isso cabe-me a mim decidir... :-)))))

Como no pr�ximo dia 17 de Junho se apresentam pela primeira vez em Portugal ( e desta espero que seja de vez :-)) ) os R.E.M. escolhi transcrever uma pe�a de entrevista, feita a quando da desloca��o dos R.E.M. ao nosso pa�s, em car�cter promocional. O �lbum em quest�o era "Green" de 1988. A entrevista foi realizada por S�rgio Noronha e publicada no extinto jornal LP, no seu n� 5 de 30 de Novembro de 1988.

REM .jpg (12962 bytes)

R.E.M. - H� MITOS QUE N�O SE ABATEM

Coisas da vida. Quando ouvi os R.E.M. pela primeira vez, h� quatro anos atr�s, nunca imaginei vir a entrevistar um dos seus membros. Foi o Jo�o Lisboa que me gravou uma cassete com os grupos que considerava mais promissores e importantes do panorama do novo "rock" americano, ent�o a passar por uma fase de revitaliza��o sem precedentes desde os anos 60. Ainda Hoje tenho a cassete (e considero-a mesmo como uma das coisas que mais influenciou e renovou a minha paix�o pelo "rock" americano) com os grupos de que o Jo�o n�o parava de falar e afirmava superarem os que eu conhecia - Green On Red e Dream Syndicate - por provarem-se detentores de ideias melhor elaboradas e indicadoras de um futuro mais promissor: LONG RYDERS, LOS LOBOS, JOHNNY THUNDERS E R.E.M..

Na altura preferi imediata e precocemente os Los Lobos a qualquer um dos outros grupos. Os mexicanos eran inegavelmente mais acess�veis e melodiosos (consequ�ncias �bvias da heran�a latina) e se era o car�cter inovador que o Jo�o pretendia que eu notasse, foi principalmente neles que o notei: a inebriante e aparentemente espont�nea mistura do "rock'n'roll" com a tradi��o mexicana tinha um encanto invulgar e ex�tico, atributos que n�o descobri nos outros logo � primeira. A seguir aos Los Lobos foram os Long Ryders que despertaram a minha aten��o, obrigando a minha fam�lia e vizinhan�a a acordarem semanas a fio ao som de "Tell It To The Judge On Sunday". O corte de cabelo � "tigela", os coletes de cabedal e tecido de textura funer�ria, as botas de salto limado para a frente e, principalmente, o "cowboy rock'n'roll" que tocavam, tomaram conta de mim protestando contra a cega venera��o que se prestava aos nevoeiros irlandeses e � m�sica dos U2. Regressava aos tempos em que os livros aos quadradinhos versando as �picas aventuras do faroeste preenchiam consider�vel parte das minhas op��es liter�rias, com o Tonto e Lone Ranger a servirem-me de exemplo moral e o S�timo de Cavalaria como futuro horizonte profissional. Johnny Thunders � que nunca me caiu no goto. O seu "Garage Trash Rock", agressivo, prim�rio e virulento n�o me agradou nunca, soando-me a um assustador cruzamento entre "punk", "rockabilly" de Presley e Ramones.

Hesita��es Perante o Misticismo

Dos R.E.M. ficou-me logo � partida a curiosidade. O seu "rock" en�rgico mas limpo, com trabalhosos arranjos exclusivamente criados pelas guitarras ac�sticas e r�tmicas e pelas el�ctricas e "lead", provocaram-me, simultaneamente, uma estranheza e confusa atrac��o. De temas como "Harbourcoat" e "Pretty Persuasion" ficava-me a ideia de que o grupo n�o estava assim t�o afastado do "Mainstream Pop" como a imprensa especializada dizia. Com "Don't Go Back To Rockville" veio-me a certeza de que o "rock'n'roll" n�o era a �nica fonte de inspira��o do quarteto de Athens e com a magnifica balada "Camera" nasceu uma opini�o s�lida: os R.E.M. pegavam no "rock'n'roll", no "country", no "rythm'n'blues" e no "pop" e criavam um som entre os Byrds e os anos 80, acedendo � imagem, criada pela imprensa, de grupo m�stico e distante. Todos colocavam os R.E.M. num pedestal e eu n�o encontrava motivos suficientes para tal. Hesitante, vi os trabalhos seguintes, convenceram-me de intelig�ncia da sua m�sica e da acutil�ncia c�nica das letras de Stipe. E o culto que lhes prestava �s escondidas transformou-se em algo bem maior, assumido e defendido com garras e dentes perante a invas�o da nova "pop" brit�nica igualmente recuperadora das guitarras.

Confirma��es Perante O Misticismo

Com o passar dos anos, de todos os grupos de ent�o sobraram precisamente os R.E.M.. Os Los Lobos caem num revivalismo tradicionalista rid�culo e piroso, os Long Ryders repetem-se, os Dream Syndicate oscilam irreverivelmente entre os "Mainstream" e da falta de ideias e dos Green On Red j� quase nem ou�o falar. No ano passado, Peter Buck, Michael Stipe, Bill Berry e Mike Mills editaram um dos melhores trabalhos do ano, um dos melhores discos da sua carreira, um dos melhores LP's da Am�rica, um dos melhores �lbuns de todo o sempre. �cido das guitarras �s letras, "Document" criticava o mundo, as pessoas, os governos, enfim: seguia a linha c�nica, acutilante, rebelde e protestante que sempre caracterizou o grupo de Athens. Um dos temas, "The One I Love", subiu ao Top 10 da Am�rica e acendeu o rastilho. Se antes eram um grupo de culto t�o venerado na Am�rica como na Europa os R.E.M. viram-se subitamente transformados em estrelas, mantendo o mito mas conquistando a "Platina", no seu pr�prio pa�s. Quando em meados deste ver�o se falou na transferencia da independente I.R.S. para a multinacional WEA por uma soma avaliada em seis milh�es de d�lares, todos fic�mos apreensivos relativamente ao futuro pr�ximo dos R.E.M.. Em entrevistas anteriores o grupo afirmara n�o ter inten��es de abandonar a I.R.S. por n�o necessitar de mais p�blico e por n�o acreditar que outra editora lhes oferecesse condi��es iguais ou melhores. Mas a verdade � que mudaram.

Abalos do Misticismo

"Havia 17 editoras atr�s de n�s depois do sucesso de "Document". Opt�mos pela WEA porque vamos continuar a controlar tudo o que nos diz respeito, desde as m�sicas que devem entrar nos discos �s capas e entrevistas". Se isso � mesmo verdade - o facto de sempre terem tido o mais completo controlo sobre todas as facetas da sua carreira - como � que se explica a recente edi��o pela I.R.S. da colect�nea "Eponymous"? � quase simult�nea com a edi��o do vosso novo �lbum. Voc�s quiseram-na? "N�o... N�o foi bem isso..." Michael Stipe est� sentado ao meu lado, numa escura sala de estar de um hotel da Baixa. A sua face n�o deixa transparecer qualquer emo��o mas, os seus olhos e a sua hesita��o provam que o apanhei de surpresa. "Deixamos que editassem o "Eponymous" porque quer�amos provar que sa�mos da I.R.S. numa boa; a separa��o foi amig�vel e, ali�s, a capa � feita por mim e as notas da capa interior tamb�m foram feitas por n�s".

Desmistifica��es

Michael Stipe � um homem s�rio e frio. Durante a entrevista nunca ri ou sorri, desfaz-se em desculpas por "d� c� aquela palha", talvez por ter chegado meia-hora atrasado � entrevista. Pensa bem no que diz, n�o v� cair noutra d�bia hesita��o, bebe �gua sem g�s, fuma cigarros e d�-me lume, olha para mim analiticamente e fala baixo e para dentro. T�o baixo e t�o para dentro que o gravador tem s�rias dificuldades em registar metade da entrevista. Disparo outra pergunta. Num passado n�o muito distante voc�s afirmaram n�o tencionarem mudar de editora porque o p�blico que tinham era mais do que suficiente. A passagem para uma multinacional n�o vai radicalmente contra essa afirma��o? "Vai e o facto � que queremos mesmo ser ouvidos pelo maior n�mero de pessoas poss�vel. Mas tamb�m � um facto bem reconhecido que se o fizemos foi porque o quisemos. Somos um grupo que se rege pelas suas pr�prias regras". Isto cheira-me a "clich�" por todo o lado mas n�o o interrompo. "Estarmos numa multinacional n�o afectou a nossa maneira de pensar ou agir. Antes pelo contr�rio: por precisarmos de uma distribuidora maior e queremos chegar a um p�blico cada vez maior, opt�mos pela WEA". J� tinha ouvido "Green" antes de falar com o letrista e vocalista dos R.E.M.. O facto de s� um outro disco substituir no prato durante estes �ltimos dias - o "Ao Vivo" dos Xutos e Pontap�s (eh leitores! N�o perco uma oportunidade, h�!?) - n�o me impede de ser pertinente nas quest�es. "Green" � o �lbum mais comercial de sempre dos R.E.M. e evidentemente, o que os far� explodir definitivamente n�o s� na Am�rica, como em todo o mundo, vantagens de uma poderosa rede de distribui��o multinacional. Can��es como "Stand" ou "Popsong89" s�o t�o acess�veis como qualquer pe�a "pop" dan��vel, contando, � claro, com o som de marca das arrega�adas guitarras (aqui menos) de Buck. � estranho afirmares que nada se alterou. "'Green' � um �lbum bem disposto e pensado em termos de animar as pessoas. � feito para dan�ar, se quiseres, coisa que tem desaparecido muito no "rock" nos �ltimos 10 anos. N�o o � por oposi��o a "Document", apesar de o poderes considerar a "irm� bonita" de "Document". � tamb�m um facto que depois do sucesso de "Document" quisemos fazer uma viragem e produzir um disco sem a marca nitidamente de R.E.M.". Estou com instintos t�o mauzinhos que lhe digo logo n�o acreditar nessa possibilidade porque a guitarra de Buck soar� sempre a Buck e a sua pr�pria voz mant�m-se inalter�vel desde "Reckoning". Se queriam fazer a tal viragem n�o seria melhor acabar com o grupo? J� pensaste alguma vez nisso? "Sim, mas � passageiro". Tento sacar-lhe uma afirma��o que desmistifique totalmente a aur�ola dos R.E.M. mas Michael Stipe defende-se bem. J� anda nisto h� mais anos do que eu. "� claro que tivemos press�es mas foram auto-impostas. "Green" foi gravado em tr�s meses porque quisemos experimentar ter um tempo estipulado e maior. Mas connosco n�o resulta. Depois do primeiro m�s provou-se uma 'seca'. Mas n�o nos foi imposta por ningu�m exterior a n�s os quatro".

Renascer Um Mito das Cinzas (da entrevista)

Insisto. "Green" conta ainda com a produ��o de Scott Litt, o mesmo de "Document". Se tivessem usado outro produtor, aceitava mais facilmente a ligeira mudan�a sonora que faz R.E.M. um grupo mais acess�vel hoje do que h� tr�s anos tr�s. Se queriam fazer can��es comerciais como "Popsong89" ou "Stand" n�o teria sido melhor escolher um produtor que transformasse realmente o vosso som? "N�o tem nada a ver uma coisa com a outra. Quando ouvi 'Popsong89' achei que era a m�sica mais est�pida que j� tinha ouvido, mas, resolvi alinhar e fazer uma letra igualmente est�pida". Resolvo atacar por outro lado: os concertos e a pr�xima tourn�. Actualmente o grupo que mais multid�es arrasta para os concertos s�o os U2... "Eu diria que s�o os ABBA..." Mas os ABBA j� acabaram!!! Como resposta tenho apenas o sil�ncio e um rosto inexpressivo e fico sem saber se Stipe meteu novamente o p� na po�a ou se est� a gozar comigo. Sigo em frente. Confunde-me o facto de, em apenas dois ou tr�s anos, os U2 se terem transformado no maior nome do circuito de est�dios da Am�rica e os R.E.M. n�o se aproximarem sequer dos seus calcanhares em termos de lota��es de recintos. Isso � deliberado ou nunca surgiram oportunidades? "Houve muitas oportunidades, n�s � que a nossa m�sica n�o deve ser tocada em est�dios e eu pr�prio n�o iria ver um grupo de que gostasse, a um local com quarenta mil pessoas. Ali�s, na nossa tourn� americana, que vai come�ar em Fevereiro, estabelecemos um tecto de vinte mil pessoas e s� nos dois primeiros concertos. Os outros ter�o de ter de dezoito mil para baixo". Voc�s tamb�m t�m "groupies"? "H� sempre gente..." E ent�o? "N�o ligo muito a isso. It's a bore!" N�o parece prestar aten��o, n�o s� a isso, como tamb�m � imagem dos R.E.M.. "Pois n�o. Entro em palco tal como ando na rua. Sou talvez um pouco mais teatral". Importas-te de falar de pol�tica? "N�o, apesar de tamb�m n�o ser um dos meus t�picos preferidos. Ali�s, quando decidi fazer esta viagem de promo��o, decidi n�o falar de pol�tica, mas toda gente me pergunta". � natural. Voc�s tiveram elei��es e n�o te esque�as que � o governo da Am�rica que manda no Ocidente. �, natural que queiramos saber o que os pr�prios americanos pensam. "Tudo bem. Odeio o Bush, acho que � um criminoso. Tamb�m n�o gosto do Dukakis - afinal s�o todos pol�ticos - mas do mal o menos. N�o s� votei nele como dei dinheiro para a campanha. A pol�tica na Am�rica � uma coisa incontrol�vel n�o s� porque o pa�s � grande mas tamb�m porque os "media" s�o muito poderosos e facilmente control�veis. Num pa�s pequeno � muito mais f�cil saber o que se passa. Sabes que o  "Green" saiu exactamente no dia das elei��es e que est�vamos para fazer an�ncios com uma fotografia do �lbum e outra de Dukakis? S� uma legenda: h� duas coisas boas apara fazer hoje. Acab�mos por desistir porque rece�mos que houvesse gente que, ao ver uns cabeludos apoiarem o Dukakis, optassem pelo Bush". A entrevista j� ia longa e eu j� com receio que a directora me chamasse � aten��o para os cortes obrigat�rios. No seu decorrer o mito desmistificou-se e renasceu, mais expl�cito, mais aberto e ainda maior. Soube que Michael Stipe quer visitar os pa�ses de Leste; que R.E.M. n�o significa nada Rapida Eye Movement e que isso n�o passou de uma inven��o da imprensa; soube que R.E.M. tem tanto significado como S�rgio Noronha; soube que apesar de Athens ter s� setenta mil habitantes, o grupo ainda consegue passar despercebido; que s�o membros activos do Greenpeace; que se dedicam � preserva��o de edif�cios antigos; que Stipe gosta de Tracy Chapman, 10000 Maniacs e Hugo Largo, apesar de concordar que a cena americana n�o anda na melhor das ebuli��es; que j� escreveu dois livros; que dirige uma companhia de filmes especializada em document�rios; que Peter Buck l� 12 livros...por dia; e muito, muito mais. Por outro lado, descobri que "Green" � um disco rico, evidenciando um grupo maduro em constante muta��o e evolu��o, assumindo sem vergonhas (e algumas contradi��es) a vontade de ser ouvido por mais gente, sem se importar que o mito caia. Descobri tamb�m que ele n�o caiu.

S�RGIO NORONHA

 

 

1

Home  Hall Sala de Musica  Escritorio  Sala de Fotografia  Biblioteca  Cozinha  Dispensa

Hosted by www.Geocities.ws

1 1