Karma
por Frederico Normanha

O Décimo Quarto Dalai-Lama do Tibet ensina, em seu livro O Caminho da Libertação, o que é karma. Diz o líder espiritual tibetano que karma nada mais é do que uma relação de causa e conseqüência; assim, ações praticadas durante uma existência na Terra trazem conseqüências nas próximas existências. Ações boas (ou virtuosas) ajudam na iluminação do ser e trilham o caminho para a libertação do sofrimento; ações más (não virtuosas) acumulam-se, formando o karma e trazendo mais sofrimento, implicando em formas inferiores de existência nas próximas reencarnações (você pode vir a ser uma minhoca, por exemplo).

Mas não é preciso ter a iluminação de um Buda para saber que qualquer ato praticado traz conseqüências para o futuro, próximo ou distante. Da mesma forma, parece-me óbvio que todo fato ou situação tem uma causa originária, ainda que remota.

Em entrevista concedida ao jorna-lista Roberto D’Ávila, e exibida pela TV Cultura em 12 de setembro de 1999, o Presidente da República tentava explicar as turbulências pelas quais o seu governo tem passado recentemente e que trouxeram consigo uma drástica queda de po-pularidade. Um dos motivos seria o fato de que, no início de seu primeiro mandato, as taxas de desemprego eram consideradas "normais", ao passo que, nos últimos tempos, o País tem se deparado com taxas cada vez mais alarmantes, que obviamente não agradam a ninguém. Por isso tamanha insatisfação popular, demonstrada pela voz rouca dos sem-rumo nas ruas, e por pesquisas recentes que apontam rejeição recorde de 65% em relação ao governo.

Talvez por não acreditar em karma, ou qualquer outra relação de causa e conseqüência, o Sr. Fernando Henrique Cardoso não percebeu que desemprego não cai do céu ou é expelido da boca de um vulcão. Desemprego não é, enfim, uma ocorrência natural, como chuvas ou terremotos; tem suas causas evidentes, no caso brasileiro, na irresponsável política econômica de câmbio sobrevalorizado e de taxas de juros altíssimas, que atraiu a banca internacional mas arrasou a produção nacional. Se hoje o Governo Federal enfrenta tamanha rejeição não é por acaso do destino cruel, que colocou em seu caminho a pedra do desemprego; é porque manteve com teimosia cega e estúpida uma política econômica fadada à tragédia.

Se o Dalai-Lama fosse analista político no Brasil diria que o Presidente da República e seu governo acumularam um karma durante sua primeira existência no poder, que agora se manifesta impiedoso, nesta segunda e inferior forma de existência governamental.

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