|
OTHON BASTOS
MAIS FORTES SÃO OS PODERES DO ATOR BRASILEIRO
(por Carlos Alberto Mattos)
A Jornada Internacional de Cinema da Bahia n�o tem o h�bito de cortejar
autoridades. A n�o ser um comandante, um coronel, um
soberano do palco e das telas como o ator Othon Bastos, o homenageado
especial desta 27a edi��o. Desde que rodopiou no ch�o pedregoso de
Cocorob� como o memor�vel cangaceiro Corisco, em Deus e o Diabo
na Terra do Sol, a autoridade c�nica do baiano Othon tomou de
assalto a dramaturgia brasileira. Criou a partir dali um padr�o de
dom�nio e precis�o que torna suas performances inesquec�veis, mesmo
quando a lembran�a do filme em si n�o ultrapassa a primeira noite
de sono.
Aos 67 anos de idade, 38 de cinema e 48 de teatro, Othon pode ser
visto atualmente como o Coronel Mendes da s�rie de televis�o Aquarela
do Brasil ou como um t�pico manda-chuva do interior no filme A
Terceira Morte de Joaquim Bol�var, de Fl�vio C�ndido. H� pouco
estava em cartaz como o inescrupuloso deputado Praxedes na pe�a S.O.S.
Brasil, um libelo contra o descaso e a corrup��o na sa�de p�blica
escrito pelo empres�rio-dramaturgo Antonio Erm�rio de Moraes, Dentro
em breve, voltar� �s telas no primeiro longa-metragem da jovem La�s
Bodanzky, Bicho de Sete Cabe�as, como um pai diante de uma
espinhosa realidade familiar, e tamb�m no pr�ximo trabalho de Walter
Salles, onde ele tem um participa��o afetiva como um prefeito nordestino.
A diversidade de seus projetos testemunha o cuidado de Othon Bastos
com o conjunto de sua carreira.
Um ator tem que ser um arauto do seu tempo. Precisa ter dentro
dele uma coer�ncia, uma verdade, uma obriga��o social. N�o se trata
de sair apoiando qualquer causa s� para se mostrar participante. O
ator precisa ser sobretudo generoso. Infelizmente, vivemos num pa�s
que n�o respeita seus artistas, por isso temos que fazer 70 coisas
ao mesmo tempo para sobreviver. Mas, mesmo quando fa�o televis�o,
fa�o com dignidade, n�o pelo emprego ou pelo merchandising.
Othon Bastos � uma prova viva de que � poss�vel fazer 70 coisas
ao mesmo tempo e ainda assim manter-se �ntegro e preservar sua
imagem. O Corisco de Glauber o projetou nacionalmente, mas deixou
em troca a impress�o de que Othon s� se prestava a personagens �picos,
de voz tonitroante e presen�a avassaladora. Donos de algum tipo de
poder.
Isso n�o passa de uma lenda. O carma do Corisco eu tive que
tirar para n�o me tornar um ator med�ocre. Na verdade, tenho mais
voca��o para comediante. Meu sonho de iniciante era trabalhar em teatro
de revista, dan�ar, cantar, fazer sketches. Mas o destino me empurrou
para outro lado. Viajei para estudar em Londres e, na volta, S�rgio
Britto chamou-me para o Grande Teatro Tupi, enquanto F�bio Sabag convidava-me
para o Teatrinho Trol. Nesse �ltimo, eu vivia personagens como o vento,
o sapateiro etc. Ali fiz meu �nico gal�, o Pr�ncipe da Bela Adormecida.
Nos quatro anos que se seguiram a Deus e o Diabo na Terra do Sol,
Othon ficaria longe do cinema para n�o se repetir nem ficar marcado
por aquele tipo de personagem. Cangaceiro nunca mais, jurou e cumpriu.
Recusou, entre outros, o papel de Jas�o, um imigrante nordestino em
A Grande Cidade, de Cac� Diegues, em parte porque n�o queria
ser o nordestino de plant�o no Cinema Novo. Curiosamente, esse personagem
viria a ser confiado a Leonardo Vilar, um paulista que se notabilizou
no cinema por pap�is de nordestino como Z� do Burro e Matraga. N�o
que Othon n�o se orgulhe de suas origens no alto sert�o baiano. Pelo
contr�rio, faz quest�o de sempre se apresentar como um tucanense de
boa cepa, que venceu por seu talento e pela capacidade de n�o se banalizar.
Esta � a primeira vez que, por iniciativa do her�ico Guido Ara�jo,
recebo uma manifesta��o de carinho e respeito na minha terra. Infelizmente,
nunca sou chamado para espet�culos e eventos na Bahia. Digo isso n�o
para me queixar, mas para deixar claro como acho importante esta homenagem
da Jornada.
Muito antes de Corisco chispar na tela, Othon Bastos j� se impunha
na cena art�stica do Rio e da Bahia. Para quem pensava em ser aviador
ou dentista, sua carreira come�ou meio por acaso. J� nos testes para
a escola da aeron�utica, ele cometeria um primeiro ato falho: firmou
seu nome numa reda��o que deveria permanecer an�nima. Foi reprovado
pela incontin�ncia em assinar a obra. Fazendo o ponto num espet�culo
escolar, num s�bado qualquer, ele galgou o palco para substituir Walter
Clark no papel de Iago numa s�tira ao Othelo de Shakespeare. Acabou
sendo apresentado a Paschoal Carlos Magno, que o chamou para ser aluno-ouvinte
do Teatro Duse.
Essa foi a minha grande escola. Aprend�amos o of�cio desde os
bastidores. Quando cheg�vamos ao palco, j� t�nhamos um dom�nio completo
de todo o trabalho no teatro. A import�ncia do Paschoal n�o � devidamente
reconhecida nem pela pr�pria classe teatral neste pa�s.
O primeiro retorno � Bahia se deu em 1956, quando Martim Gon�alves
chamou-o para a Escola de Teatro da Universidade da Bahia. Salvador
vivia ent�o um verdadeiro renascimento cultural com a implanta��o,
pelo reitor Edgar Santos, das escolas de m�sica, teatro e dan�a, subvencionadas
pela Funda��o Rockefeller e apelidadas de as pupilas do senhor
reitor. Nomes como Lina Bo Bardi, Hans Koellreutter, Walter Smetak,
Pierre Verger e Yanka Rudzka somavam-se � prata local para dar um
choque intelectual e de modernidade � vida cultural baiana. Na Escola
de Teatro, Othon fez, entre outros textos, Um Bonde Chamado Desejo,
de Tennessee Williams (com Maria Fernanda), O Auto da Compadecida,
de Ariano Suassuna, e As Tr�s Irm�s, de Tchecov.
Ao sair da Escola de Teatro, em 1960, Othon empenhou-se na cria��o
do Teatro Vila Velha, que surgiria somente em 1964, dirigido pelo
cr�tico e professor Jo�o Augusto de Azevedo. Nesse �nterim, sua companhia,
a Sociedade Teatro dos Novos, fazia conv�nios com a prefeitura de
Salvador para encenar espet�culos populares e religiosos em adros
de igrejas e logradouros p�blicos, em datas festivas como o 2 de Julho
e o Natal.
Quem mais nos ajudou nessa �poca foi o prefeito Virgild�sio
Sena, depois cassado pela Revolu��o, e o governador Juracy Magalh�es,
que nos cedeu o terreno de um antigo zool�gico e a estrutura met�lica
para construirmos o Teatro Vila Velha. Os artistas pl�sticos colaboravam
doando quadros que lev�vamos a leil�o. Foi nessa campanha que conheci
a minha mulher, a atriz Martha Overbeck. Inauguramos com uma programa��o
ecl�tica que ia da Escola de Samba do Garcia a corais franciscanos.
Nosso repert�rio era did�tico sobre as v�rias fases da dramaturgia
mundial, de pe�as medievais a leituras de Brecht nas universidades.
Nem no Rio ainda se falava em Brecht naquele momento. O mais importante,
contudo, era o teatro de cordel. Nada mais brechtiano que encenar
hist�rias de cordel. Voc� narra e faz todos os personagens.
Foi esse tipo de experi�ncia que levou Othon a colaborar decisivamente
para a composi��o do seu Corisco. O personagem foi elaborado a quatro
m�os a partir das leituras brechtianas do grupo de Othon, algumas
delas assistidas por Glauber. Ao chegar para substituir o ator Adriano
Lisboa, originalmente escalado para o papel, Othon prop�s a Glauber
dar uma dimens�o brechtiana � figura de Corisco.
Teorias sobre a composi��o do Corisco existem muitas, mas poucos
me perguntam como chegamos �quela maneira de representar. No roteiro,
Corisco introduzia cenas de flashback de Lampi�o. Eu sugeri que, em
vez de ter outro ator para fazer o corpo do Lampi�o, coloc�ssemos
o pr�prio Corisco contando a hist�ria. No jipe a caminho de Monte
Santo, ambos fomos decupando as cenas. A economia era grande, mas
n�o foi esse o motivo da experi�ncia, e sim uma conseq��ncia. Da mesma
forma, o jeito do cangaceiro entrar na cena rodando, como um corisco
mesmo, foi improvisada por mim de uma maneira muito pouco stanislavskiana.
Sem mod�stia nenhuma, eu moldei o personagem e o Glauber foi criando
em cima. Ele era muito inteligente na maneira de absorver o que vinha
dos outros, dar a volta por cima e rapidamente chegar num plano al�m.
Sua cabe�a ia a 360 km por hora.
Othon n�o se considera um ator propriamente brechtiano nem stanislavskiano.
Talvez seja um aut�ntico othonbastiano.
Para chegar ao Brecht, voc� precisa passar pelo Stanislavski.
O brechtiano n�o precisa abandonar o Stanislavski. Voc� pode estudar
em profundidade o personagem e depois elabor�-lo brechtianamente.
Gosto de observar a realidade, mas s� at� o ponto de n�o me confundir
com o personagem. Na verdade, eu escolho o m�todo adequado a cada
papel e sempre evito criticar o personagem. Eu dou a verdade dele.
O p�blico que o critique.
A carreira cinematogr�fica de Othon Bastos come�ou um pouco antes
do convite de Glauber. Ele j� havia feito, no Rio, um curta institucional
de alerta contra a tuberculose quando Alex Viany intuiu pela primeira
vez que as c�meras haveriam de se apaixonar por aquele ator de rosto
panor�mico e tom de voz infinitamente modul�vel. Em Sol sobre a
Lama (1962), drama de den�ncia sobre o fim da feira de �gua de
Meninos, financiado pelos pr�prios barraqueiros, ele vivia o caminhoneiro
Moreno. Tem boas lembran�as dessa primeira experi�ncia, como o cuidado
de Alex com a perspectiva cr�tica da hist�ria e, sobretudo, o palavr�o
com que seu personagem, em big close, surpreendia o p�blico da �poca.
Acorda, filho da puta!
Othon chegou ao cinema j� com s�lida base teatral. O cinema baiano
explodia com Glauber, Roberto Pires, Trigueirinho Neto etc. Nelson
Pereira dos Santos (Mandacaru Vermelho), Anselmo Duarte (O
Pagador de Promessas), Ruy Guerra (Os Fuzis) e Viany escolhiam
filmar na Bahia, beneficiando-se principalmente do forte material
dramat�rgico dispon�vel e do prest�gio das loca��es baianas. Segmento
importante do Cinema Novo nascia nesse cen�rio.
A Bahia tornou-se a partir da� uma meca do cinema brasileiro
e tamb�m estrangeiro. Salvador era um centro cultural imenso, de onde
saiu toda uma gera��o que inclu�a Caetano, Gil, Bet�nia, Gal, Glauber,
Paulo Gil Soares e tantos outros. Fiquei ali at� 1968, quando abri
m�o da minha parte na sociedade do Vila Velha e fui com a Martha para
o Teatro Oficina, no Rio.
Othon aproveita para corrigir a rec�m-lan�ada Enciclop�dia do Cinema
Brasileiro e o CD-Rom Anos 60, da Riofilme, onde consta seu nome no
elenco de Tocaia no Asfalto, de Roberto Pires. Falha deles.
Othon esclarece que n�o convivia com o vetor do cinema baiano representado
por Roberto Pires, Rex Schindler, Antonio Pitanga, etc. Tampouco se
deixou envolver pelas falsas pol�micas que situavam O Pagador de
Promessas como um filme reacion�rio, contr�rio aos princ�pios
do Cinema Novo.
Essas brigas apareciam apenas nos jornais. Se o filme ganhou
a Palma de Ouro foi porque mereceu. Vidas Secas, por exemplo, ser�
que foi realizado segundo os princ�pios do Cinema Novo? O Pagador
de Promessas, para mim, n�o � nem deixa de ser Cinema Novo. � um filme
nacional. N�o entro nessa pol�mica.
O Drag�o da Maldade contra o Santo Guerreiro voltou a reunir
Glauber e Othon, este agora no papel de um intelectual, um professor
b�bado em que o ator colocou o gestual e a maneira de falar do pr�prio
diretor. Glauber s� percebeu mais tarde, quando Luiz Carlos Barreto
identificou a blague. A amizade entre os dois resistiu a essa e outras
brincadeiras.
O Glauber era uma pessoa inteligent�ssima, pensando sempre �
frente de sua gera��o, de uma maneira que eu s� comparo ao Z� Celso
no teatro. Eles tinham uma premoni��o, estavam sempre adiante. A esquerda
massacrou o Glauber e agora vemos acontecer tudo o que ele previu:
a desintegra��o da esquerda, sua acomoda��o no lado do governo etc.
Pessoalmente, ele era uma pessoa agradabil�ssima. � claro que a gente
precisava entender aquele vulc�o. Era pensamento demais, energia demais.
Ele expelia tudo para a cabe�a n�o explodir.
O Bentinho de Capitu, que fez para Paulo C�sar Saraceni, foi um papel
interiorizado que Othon aceitou justamente porque contrastava diametralmente
com os tipos �picos que lhe vinham oferecendo. Ao preparar-se para
um papel como esse, pr�-existente em obra liter�ria, Othon n�o se
limita a estudar o roteiro, mas recorre ao livro e, se necess�rio
for, interfere como um poss�vel cr�tico da adapta��o. Ele acha que
o ator deve ser ouvido, uma vez que dele vir� a verdade do personagem.
Quando Leon Hirszman o chamou para interpretar Paulo Hon�rio, o fazendeiro
consumido por dilemas morais de S�o Bernardo, Othon a princ�pio
n�o se reconheceu no homem de cabelo sarar�, nariz largo e m�os enormes.
Um personagem liter�rio j� est� descrito, o ator n�o o est�
criando pela primeira vez como num filme de autor. Mas nesse caso,
o Leon logo me convenceu de que n�o queria o Paulo Hon�rio f�sico,
mas a mim como ator pol�tico. Ele queria o Paulo Hon�rio por dentro,
um homem violento que lutava para ser civilizado. Eu entrei, ent�o,
no personagem a ponto de escrever cartas de verdade naquelas cenas
em que ficava na mesa rabiscando. O Leon teve a coragem de fazer aqueles
sil�ncios. Acho que foi o meu melhor papel no cinema.
Outra performance de que Othon se recorda com entusiasmo � a do aventureiro
sem nome de Os Deuses e os Mortos, filmado em Ilh�us, em 1970.
Ali Ruy Guerra o colocou no centro de um del�rio hiperrealista. Levava
tr�s horas para maquiar metade do rosto com uma enorme cicatriz, chafurdava
na lama em longos planos-seq��ncia, citava Ricardo III etc. Othon
considera esse um filme "injusti�ado, esteticamente lind�ssimo". Completa
sua tetralogia preferida com o Padre Antonio Vieira de Os Serm�es.
Dizer o texto do Vieira, transformar aquilo em coisa cotidiana
foi uma responsabilidade enorme. Eu ensaiava sozinho, usando o meu
m�todo habitual da mem�ria fotogr�fica, memorizando as linhas do texto.
Costumo ensaiar com ru�dos de televis�o, r�dio, pessoas. O sil�ncio
me dispersa. Na hora da filmagem, o poeta Humberto de Campos me ouvia
corrigindo a maneira de dizer as palavras ou algum anacronismo. Quando
ele considerava "lexicamente bom", passava para o crivo do Julinho
(Bressane). Ap�s concluirmos cada tomada, sent�amos algo como o �xtase
de Santa Teresa D��vila. O �xtase da intelig�ncia do texto. O J�lio
me abra�ava, me beijava. Ele � um gentleman, muito culto, com uma
velocidade mental intensa.
�s vezes uma pequena participa��o lhe traz tanto prazer quanto um
papel protagonista. Foi o caso de O Homem do Pau-Brasil, de
Joaquim Pedro de Andrade, onde Othon divertiu-se a valer na pele do
comandante do navio. Lembra-se, por exemplo, de quantas vezes o diretor
teve que gritar "Corta!" porque elenco e equipe n�o cessavam de vomitar
com o balan�o da embarca��o. Joaquim Pedro chegou a consider�-lo para
fazer o Oswald de Andrade, assim como Geraldo Sarno o chamou para
fazer o Coronel Delmiro Gouveia. Em ambos os casos, outros compromissos
o impediram de aceitar. Em Das Tripas Cora��o, Othon fazia
uma ponta como o professor de Filosofia, pela primeira vez dirigido
por uma mulher.
A Ana Carolina n�o teve medo de me chamar para uma participa��o,
numa linha muito diferente de tudo o que eu j� tinha feito. Gosto
muito desses convites. Erra quem pensa que eu s� gosto de fazer protagonistas.
N�o costumo me impor sobre a vontade do diretor. Ele tem toda a liberdade
de dizer como quer o personagem. Acontece que na maioria das vezes
o diretor aceita minhas sugest�es para real�ar este ou aquele detalhe.
O tour de force interpretativo de A Grande Noitada foi talvez
o papel onde Othon mais se exp�s e onde mais padeceu fisicamente.
J� no in�cio das filmagens, levou um tombo e teve que operar o ombro.
Tr�s dias depois de filmar a cena em que o industrial e mel�mano Trist�o
Roque Brasil, seminu, sofre uma parada card�aca num quarto de motel,
Othon teve um enfarte de verdade. A produ��o parou um m�s at� que
ele se recuperasse. Na volta, ironicamente, rodou as cenas do personagem
depois de morto.
O Denoy era uma pessoa politicamente inteligente e conhecia
os segredos da interpreta��o por ter sido tamb�m ele um ator. Aquele
personagem era um homem digno e ing�nuo, que eu gostei muito de fazer.
Pena que o lan�amento do filme atrasou tanto e o Denoy morreu antes
do tempo.
Othon � o tipo de ator que n�o depende de sua imagem visual para ser
reconhecido. A voz, uma das mais c�lebres do pa�s, j� � suficiente
para identific�-lo mesmo no escuro. Desde crian�a, ele era o escolhido
para ler em voz alta na sala de aula. Cresceu acostumado a ler para
os outros, saboreando com isso a verdadeira interpreta��o. Substituiu
locutores na R�dio Cultura da Bahia, nos anos 60. E tornou-se um dos
melhores offs do cinema brasileiro, junto com Paulo Cesar Pereio e
Paulo Jos�. Em Deus e o Diabo na Terra do Sol, dublou as falas
do beato Sebasti�o. "O sert�o vai virar maaaar", espichava o ritmo
para caber na sincronia com a gagueira do ator L�dio Silva. E ainda
sugeria uma similitude sonora entre Deus (o beato) e o diabo (Corisco).
Mais recentemente, gravou CDs com textos de Machado de Assis (contos,
cr�nicas e poemas) e do poeta Augusto dos Anjos, o seu preferido.
Sempre tive uma grande afinidade com a tem�tica dele. Meu pai,
um poeta bissexto (M�rio Bastos), costumava dizer seus poemas em saraus.
Eu ouvia e ficava impressionado. Gravar aquele disco foi como um pr�mio
depois de 40 anos de carreira. Gosto muito de trabalhar com a voz.
Adoro narrar curtas-metragens.
Othon Bastos encara com humildade o que entende como o seu destino.
N�o procura competir com ele. "Maktub. Est� escrito", costuma dizer.
Quis o destino que ele estivesse conosco nessa 27a Jornada, de corpo
e voz presentes, para saudarmos, atrav�s de seu maior expoente, toda
uma gera��o de grandes atores baianos. Muitos deles fizeram carreira
nacional, outros permaneceram na cena local. Todos, por�m, dignificam
o espa�o arduamente conquistado e a teimosia quase m�tica dos atores
brasileiros.
|