XXVII JORNADA INTERNACIONAL DE
CINEMA DA BAHIA
POR UM MUNDO MAIS HUMANO
19 a 24 de Setembro de 2000, Salvador - Bahia - Brasil


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Othon Bastos - Mais fortes s�o os poderes do ator brasileiro
40 Anos - O Tempo (Othon Bastos)



OTHON BASTOS
MAIS FORTES SÃO OS PODERES DO ATOR BRASILEIRO

(por Carlos Alberto Mattos)

A Jornada Internacional de Cinema da Bahia n�o tem o h�bito de cortejar autoridades. A n�o ser um comandante, um coronel, um soberano do palco e das telas como o ator Othon Bastos, o homenageado especial desta 27a edi��o. Desde que rodopiou no ch�o pedregoso de Cocorob� como o memor�vel cangaceiro Corisco, em Deus e o Diabo na Terra do Sol, a autoridade c�nica do baiano Othon tomou de assalto a dramaturgia brasileira. Criou a partir dali um padr�o de dom�nio e precis�o que torna suas performances inesquec�veis, mesmo quando a lembran�a do filme em si n�o ultrapassa a primeira noite de sono.

Aos 67 anos de idade, 38 de cinema e 48 de teatro, Othon pode ser visto atualmente como o Coronel Mendes da s�rie de televis�o Aquarela do Brasil ou como um t�pico manda-chuva do interior no filme A Terceira Morte de Joaquim Bol�var, de Fl�vio C�ndido. H� pouco estava em cartaz como o inescrupuloso deputado Praxedes na pe�a S.O.S. Brasil, um libelo contra o descaso e a corrup��o na sa�de p�blica escrito pelo empres�rio-dramaturgo Antonio Erm�rio de Moraes, Dentro em breve, voltar� �s telas no primeiro longa-metragem da jovem La�s Bodanzky, Bicho de Sete Cabe�as, como um pai diante de uma espinhosa realidade familiar, e tamb�m no pr�ximo trabalho de Walter Salles, onde ele tem um participa��o afetiva como um prefeito nordestino. A diversidade de seus projetos testemunha o cuidado de Othon Bastos com o conjunto de sua carreira.

Um ator tem que ser um arauto do seu tempo. Precisa ter dentro dele uma coer�ncia, uma verdade, uma obriga��o social. N�o se trata de sair apoiando qualquer causa s� para se mostrar participante. O ator precisa ser sobretudo generoso. Infelizmente, vivemos num pa�s que n�o respeita seus artistas, por isso temos que fazer 70 coisas ao mesmo tempo para sobreviver. Mas, mesmo quando fa�o televis�o, fa�o com dignidade, n�o pelo emprego ou pelo merchandising.

Othon Bastos � uma prova viva de que � poss�vel fazer 70 coisas ao mesmo tempo e ainda assim manter-se �ntegro e preservar sua imagem. O Corisco de Glauber o projetou nacionalmente, mas deixou em troca a impress�o de que Othon s� se prestava a personagens �picos, de voz tonitroante e presen�a avassaladora. Donos de algum tipo de poder.

Isso n�o passa de uma lenda. O carma do Corisco eu tive que tirar para n�o me tornar um ator med�ocre. Na verdade, tenho mais voca��o para comediante. Meu sonho de iniciante era trabalhar em teatro de revista, dan�ar, cantar, fazer sketches. Mas o destino me empurrou para outro lado. Viajei para estudar em Londres e, na volta, S�rgio Britto chamou-me para o Grande Teatro Tupi, enquanto F�bio Sabag convidava-me para o Teatrinho Trol. Nesse �ltimo, eu vivia personagens como o vento, o sapateiro etc. Ali fiz meu �nico gal�, o Pr�ncipe da Bela Adormecida.

Nos quatro anos que se seguiram a Deus e o Diabo na Terra do Sol, Othon ficaria longe do cinema para n�o se repetir nem ficar marcado por aquele tipo de personagem. Cangaceiro nunca mais, jurou e cumpriu. Recusou, entre outros, o papel de Jas�o, um imigrante nordestino em A Grande Cidade, de Cac� Diegues, em parte porque n�o queria ser o nordestino de plant�o no Cinema Novo. Curiosamente, esse personagem viria a ser confiado a Leonardo Vilar, um paulista que se notabilizou no cinema por pap�is de nordestino como Z� do Burro e Matraga. N�o que Othon n�o se orgulhe de suas origens no alto sert�o baiano. Pelo contr�rio, faz quest�o de sempre se apresentar como um tucanense de boa cepa, que venceu por seu talento e pela capacidade de n�o se banalizar.

Esta � a primeira vez que, por iniciativa do her�ico Guido Ara�jo, recebo uma manifesta��o de carinho e respeito na minha terra. Infelizmente, nunca sou chamado para espet�culos e eventos na Bahia. Digo isso n�o para me queixar, mas para deixar claro como acho importante esta homenagem da Jornada.

Muito antes de Corisco chispar na tela, Othon Bastos j� se impunha na cena art�stica do Rio e da Bahia. Para quem pensava em ser aviador ou dentista, sua carreira come�ou meio por acaso. J� nos testes para a escola da aeron�utica, ele cometeria um primeiro ato falho: firmou seu nome numa reda��o que deveria permanecer an�nima. Foi reprovado pela incontin�ncia em assinar a obra. Fazendo o ponto num espet�culo escolar, num s�bado qualquer, ele galgou o palco para substituir Walter Clark no papel de Iago numa s�tira ao Othelo de Shakespeare. Acabou sendo apresentado a Paschoal Carlos Magno, que o chamou para ser aluno-ouvinte do Teatro Duse.

Essa foi a minha grande escola. Aprend�amos o of�cio desde os bastidores. Quando cheg�vamos ao palco, j� t�nhamos um dom�nio completo de todo o trabalho no teatro. A import�ncia do Paschoal n�o � devidamente reconhecida nem pela pr�pria classe teatral neste pa�s.

O primeiro retorno � Bahia se deu em 1956, quando Martim Gon�alves chamou-o para a Escola de Teatro da Universidade da Bahia. Salvador vivia ent�o um verdadeiro renascimento cultural com a implanta��o, pelo reitor Edgar Santos, das escolas de m�sica, teatro e dan�a, subvencionadas pela Funda��o Rockefeller e apelidadas de as pupilas do senhor reitor. Nomes como Lina Bo Bardi, Hans Koellreutter, Walter Smetak, Pierre Verger e Yanka Rudzka somavam-se � prata local para dar um choque intelectual e de modernidade � vida cultural baiana. Na Escola de Teatro, Othon fez, entre outros textos, Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams (com Maria Fernanda), O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, e As Tr�s Irm�s, de Tchecov.

Ao sair da Escola de Teatro, em 1960, Othon empenhou-se na cria��o do Teatro Vila Velha, que surgiria somente em 1964, dirigido pelo cr�tico e professor Jo�o Augusto de Azevedo. Nesse �nterim, sua companhia, a Sociedade Teatro dos Novos, fazia conv�nios com a prefeitura de Salvador para encenar espet�culos populares e religiosos em adros de igrejas e logradouros p�blicos, em datas festivas como o 2 de Julho e o Natal.

Quem mais nos ajudou nessa �poca foi o prefeito Virgild�sio Sena, depois cassado pela Revolu��o, e o governador Juracy Magalh�es, que nos cedeu o terreno de um antigo zool�gico e a estrutura met�lica para construirmos o Teatro Vila Velha. Os artistas pl�sticos colaboravam doando quadros que lev�vamos a leil�o. Foi nessa campanha que conheci a minha mulher, a atriz Martha Overbeck. Inauguramos com uma programa��o ecl�tica que ia da Escola de Samba do Garcia a corais franciscanos. Nosso repert�rio era did�tico sobre as v�rias fases da dramaturgia mundial, de pe�as medievais a leituras de Brecht nas universidades. Nem no Rio ainda se falava em Brecht naquele momento. O mais importante, contudo, era o teatro de cordel. Nada mais brechtiano que encenar hist�rias de cordel. Voc� narra e faz todos os personagens.

Foi esse tipo de experi�ncia que levou Othon a colaborar decisivamente para a composi��o do seu Corisco. O personagem foi elaborado a quatro m�os a partir das leituras brechtianas do grupo de Othon, algumas delas assistidas por Glauber. Ao chegar para substituir o ator Adriano Lisboa, originalmente escalado para o papel, Othon prop�s a Glauber dar uma dimens�o brechtiana � figura de Corisco.

Teorias sobre a composi��o do Corisco existem muitas, mas poucos me perguntam como chegamos �quela maneira de representar. No roteiro, Corisco introduzia cenas de flashback de Lampi�o. Eu sugeri que, em vez de ter outro ator para fazer o corpo do Lampi�o, coloc�ssemos o pr�prio Corisco contando a hist�ria. No jipe a caminho de Monte Santo, ambos fomos decupando as cenas. A economia era grande, mas n�o foi esse o motivo da experi�ncia, e sim uma conseq��ncia. Da mesma forma, o jeito do cangaceiro entrar na cena rodando, como um corisco mesmo, foi improvisada por mim de uma maneira muito pouco stanislavskiana. Sem mod�stia nenhuma, eu moldei o personagem e o Glauber foi criando em cima. Ele era muito inteligente na maneira de absorver o que vinha dos outros, dar a volta por cima e rapidamente chegar num plano al�m. Sua cabe�a ia a 360 km por hora.

Othon n�o se considera um ator propriamente brechtiano nem stanislavskiano. Talvez seja um aut�ntico othonbastiano.

Para chegar ao Brecht, voc� precisa passar pelo Stanislavski. O brechtiano n�o precisa abandonar o Stanislavski. Voc� pode estudar em profundidade o personagem e depois elabor�-lo brechtianamente. Gosto de observar a realidade, mas s� at� o ponto de n�o me confundir com o personagem. Na verdade, eu escolho o m�todo adequado a cada papel e sempre evito criticar o personagem. Eu dou a verdade dele. O p�blico que o critique.

A carreira cinematogr�fica de Othon Bastos come�ou um pouco antes do convite de Glauber. Ele j� havia feito, no Rio, um curta institucional de alerta contra a tuberculose quando Alex Viany intuiu pela primeira vez que as c�meras haveriam de se apaixonar por aquele ator de rosto panor�mico e tom de voz infinitamente modul�vel. Em Sol sobre a Lama (1962), drama de den�ncia sobre o fim da feira de �gua de Meninos, financiado pelos pr�prios barraqueiros, ele vivia o caminhoneiro Moreno. Tem boas lembran�as dessa primeira experi�ncia, como o cuidado de Alex com a perspectiva cr�tica da hist�ria e, sobretudo, o palavr�o com que seu personagem, em big close, surpreendia o p�blico da �poca.

Acorda, filho da puta!

Othon chegou ao cinema j� com s�lida base teatral. O cinema baiano explodia com Glauber, Roberto Pires, Trigueirinho Neto etc. Nelson Pereira dos Santos (Mandacaru Vermelho), Anselmo Duarte (O Pagador de Promessas), Ruy Guerra (Os Fuzis) e Viany escolhiam filmar na Bahia, beneficiando-se principalmente do forte material dramat�rgico dispon�vel e do prest�gio das loca��es baianas. Segmento importante do Cinema Novo nascia nesse cen�rio.

A Bahia tornou-se a partir da� uma meca do cinema brasileiro e tamb�m estrangeiro. Salvador era um centro cultural imenso, de onde saiu toda uma gera��o que inclu�a Caetano, Gil, Bet�nia, Gal, Glauber, Paulo Gil Soares e tantos outros. Fiquei ali at� 1968, quando abri m�o da minha parte na sociedade do Vila Velha e fui com a Martha para o Teatro Oficina, no Rio.

Othon aproveita para corrigir a rec�m-lan�ada Enciclop�dia do Cinema Brasileiro e o CD-Rom Anos 60, da Riofilme, onde consta seu nome no elenco de Tocaia no Asfalto, de Roberto Pires. Falha deles. Othon esclarece que n�o convivia com o vetor do cinema baiano representado por Roberto Pires, Rex Schindler, Antonio Pitanga, etc. Tampouco se deixou envolver pelas falsas pol�micas que situavam O Pagador de Promessas como um filme reacion�rio, contr�rio aos princ�pios do Cinema Novo.

Essas brigas apareciam apenas nos jornais. Se o filme ganhou a Palma de Ouro foi porque mereceu. Vidas Secas, por exemplo, ser� que foi realizado segundo os princ�pios do Cinema Novo? O Pagador de Promessas, para mim, n�o � nem deixa de ser Cinema Novo. � um filme nacional. N�o entro nessa pol�mica.

O Drag�o da Maldade contra o Santo Guerreiro voltou a reunir Glauber e Othon, este agora no papel de um intelectual, um professor b�bado em que o ator colocou o gestual e a maneira de falar do pr�prio diretor. Glauber s� percebeu mais tarde, quando Luiz Carlos Barreto identificou a blague. A amizade entre os dois resistiu a essa e outras brincadeiras.

O Glauber era uma pessoa inteligent�ssima, pensando sempre � frente de sua gera��o, de uma maneira que eu s� comparo ao Z� Celso no teatro. Eles tinham uma premoni��o, estavam sempre adiante. A esquerda massacrou o Glauber e agora vemos acontecer tudo o que ele previu: a desintegra��o da esquerda, sua acomoda��o no lado do governo etc. Pessoalmente, ele era uma pessoa agradabil�ssima. � claro que a gente precisava entender aquele vulc�o. Era pensamento demais, energia demais. Ele expelia tudo para a cabe�a n�o explodir.

O Bentinho de Capitu, que fez para Paulo C�sar Saraceni, foi um papel interiorizado que Othon aceitou justamente porque contrastava diametralmente com os tipos �picos que lhe vinham oferecendo. Ao preparar-se para um papel como esse, pr�-existente em obra liter�ria, Othon n�o se limita a estudar o roteiro, mas recorre ao livro e, se necess�rio for, interfere como um poss�vel cr�tico da adapta��o. Ele acha que o ator deve ser ouvido, uma vez que dele vir� a verdade do personagem. Quando Leon Hirszman o chamou para interpretar Paulo Hon�rio, o fazendeiro consumido por dilemas morais de S�o Bernardo, Othon a princ�pio n�o se reconheceu no homem de cabelo sarar�, nariz largo e m�os enormes.

Um personagem liter�rio j� est� descrito, o ator n�o o est� criando pela primeira vez como num filme de autor. Mas nesse caso, o Leon logo me convenceu de que n�o queria o Paulo Hon�rio f�sico, mas a mim como ator pol�tico. Ele queria o Paulo Hon�rio por dentro, um homem violento que lutava para ser civilizado. Eu entrei, ent�o, no personagem a ponto de escrever cartas de verdade naquelas cenas em que ficava na mesa rabiscando. O Leon teve a coragem de fazer aqueles sil�ncios. Acho que foi o meu melhor papel no cinema.

Outra performance de que Othon se recorda com entusiasmo � a do aventureiro sem nome de Os Deuses e os Mortos, filmado em Ilh�us, em 1970. Ali Ruy Guerra o colocou no centro de um del�rio hiperrealista. Levava tr�s horas para maquiar metade do rosto com uma enorme cicatriz, chafurdava na lama em longos planos-seq��ncia, citava Ricardo III etc. Othon considera esse um filme "injusti�ado, esteticamente lind�ssimo". Completa sua tetralogia preferida com o Padre Antonio Vieira de Os Serm�es.

Dizer o texto do Vieira, transformar aquilo em coisa cotidiana foi uma responsabilidade enorme. Eu ensaiava sozinho, usando o meu m�todo habitual da mem�ria fotogr�fica, memorizando as linhas do texto. Costumo ensaiar com ru�dos de televis�o, r�dio, pessoas. O sil�ncio me dispersa. Na hora da filmagem, o poeta Humberto de Campos me ouvia corrigindo a maneira de dizer as palavras ou algum anacronismo. Quando ele considerava "lexicamente bom", passava para o crivo do Julinho (Bressane). Ap�s concluirmos cada tomada, sent�amos algo como o �xtase de Santa Teresa D��vila. O �xtase da intelig�ncia do texto. O J�lio me abra�ava, me beijava. Ele � um gentleman, muito culto, com uma velocidade mental intensa.

�s vezes uma pequena participa��o lhe traz tanto prazer quanto um papel protagonista. Foi o caso de O Homem do Pau-Brasil, de Joaquim Pedro de Andrade, onde Othon divertiu-se a valer na pele do comandante do navio. Lembra-se, por exemplo, de quantas vezes o diretor teve que gritar "Corta!" porque elenco e equipe n�o cessavam de vomitar com o balan�o da embarca��o. Joaquim Pedro chegou a consider�-lo para fazer o Oswald de Andrade, assim como Geraldo Sarno o chamou para fazer o Coronel Delmiro Gouveia. Em ambos os casos, outros compromissos o impediram de aceitar. Em Das Tripas Cora��o, Othon fazia uma ponta como o professor de Filosofia, pela primeira vez dirigido por uma mulher.

A Ana Carolina n�o teve medo de me chamar para uma participa��o, numa linha muito diferente de tudo o que eu j� tinha feito. Gosto muito desses convites. Erra quem pensa que eu s� gosto de fazer protagonistas. N�o costumo me impor sobre a vontade do diretor. Ele tem toda a liberdade de dizer como quer o personagem. Acontece que na maioria das vezes o diretor aceita minhas sugest�es para real�ar este ou aquele detalhe.

O tour de force interpretativo de A Grande Noitada foi talvez o papel onde Othon mais se exp�s e onde mais padeceu fisicamente. J� no in�cio das filmagens, levou um tombo e teve que operar o ombro. Tr�s dias depois de filmar a cena em que o industrial e mel�mano Trist�o Roque Brasil, seminu, sofre uma parada card�aca num quarto de motel, Othon teve um enfarte de verdade. A produ��o parou um m�s at� que ele se recuperasse. Na volta, ironicamente, rodou as cenas do personagem depois de morto.

O Denoy era uma pessoa politicamente inteligente e conhecia os segredos da interpreta��o por ter sido tamb�m ele um ator. Aquele personagem era um homem digno e ing�nuo, que eu gostei muito de fazer. Pena que o lan�amento do filme atrasou tanto e o Denoy morreu antes do tempo.

Othon � o tipo de ator que n�o depende de sua imagem visual para ser reconhecido. A voz, uma das mais c�lebres do pa�s, j� � suficiente para identific�-lo mesmo no escuro. Desde crian�a, ele era o escolhido para ler em voz alta na sala de aula. Cresceu acostumado a ler para os outros, saboreando com isso a verdadeira interpreta��o. Substituiu locutores na R�dio Cultura da Bahia, nos anos 60. E tornou-se um dos melhores offs do cinema brasileiro, junto com Paulo Cesar Pereio e Paulo Jos�. Em Deus e o Diabo na Terra do Sol, dublou as falas do beato Sebasti�o. "O sert�o vai virar maaaar", espichava o ritmo para caber na sincronia com a gagueira do ator L�dio Silva. E ainda sugeria uma similitude sonora entre Deus (o beato) e o diabo (Corisco). Mais recentemente, gravou CDs com textos de Machado de Assis (contos, cr�nicas e poemas) e do poeta Augusto dos Anjos, o seu preferido.

Sempre tive uma grande afinidade com a tem�tica dele. Meu pai, um poeta bissexto (M�rio Bastos), costumava dizer seus poemas em saraus. Eu ouvia e ficava impressionado. Gravar aquele disco foi como um pr�mio depois de 40 anos de carreira. Gosto muito de trabalhar com a voz. Adoro narrar curtas-metragens.

Othon Bastos encara com humildade o que entende como o seu destino. N�o procura competir com ele. "Maktub. Est� escrito", costuma dizer. Quis o destino que ele estivesse conosco nessa 27a Jornada, de corpo e voz presentes, para saudarmos, atrav�s de seu maior expoente, toda uma gera��o de grandes atores baianos. Muitos deles fizeram carreira nacional, outros permaneceram na cena local. Todos, por�m, dignificam o espa�o arduamente conquistado e a teimosia quase m�tica dos atores brasileiros.





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