Locke e o problema da indução[1]
Silvio Seno Chibeni
Departamento de Filosofia - IFCH
Universidade Estadual de Campinas
13081-970 - Campinas - SP - Brasil
Resumo
Neste artigo procura-se mostrar que Locke percebeu e expôs claramente o problema da indução. Inicialmente, os conceitos e teses mais relevantes da teoria epistemológica empirista de Locke são brevemente revistos. Depois, a questão do estatuto epistemológico das proposições universais nessa teoria é abordada, expondo-se cuidadosamente as razões para o virtual bloqueio do conhecimento universal acerca das substâncias que se poderia obter pela via da análise das idéias. Por fim, o papel da experiência como fornecedora direta de conhecimento é examinado, mostrando-se que, para Locke, ela só alcança os casos já observados.
1. Introdução
Para o homem comum e o filósofo empirista, nosso conhecimento acerca do mundo exterior provém da experiência. Em geral, o primeiro também assume que, em determinadas circunstâncias, esse conhecimento pode ser estendido para fatos não observados. Assim, mesmo proposições gerais sobre o mundo poderiam ser conhecidas. Um caso importante é o das leis científicas, que, nessa visão ordinária, expressariam um conhecimento particularmente seguro obtido por generalização a partir de fatos experimentais.
Constitui opinião corrente entre os filósofos que a extensão do conhecimento empírico direto, no processo de inferência denominado indução, recebeu sua primeira crítica profunda no século 18, com David Hume. Esse filósofo teria mostrado, para muitos de forma conclusiva, que as inferências indutivas não podem ter sua validade estabelecida nem pela razão nem pela experiência, apoiando-se em um mero hábito, adquirido da observação da conjunção constante de certos fenômenos.[2]
Neste artigo pretendemos indicar que, antes de Hume, John Locke percebeu, e expôs claramente em seu Essay Concerning Human Understanding, a existência do problema da indução, ou melhor, de um problema da indução, já que as dificuldades envolvendo o conhecimento das proposições universais sobre o mundo assumem contornos próprios em cada sistema epistemológico. O principal objetivo de Locke no Essay é o de determinar os limites do conhecimento, e tais proposições ocupam um lugar de destaque nessa investigação, pois “as verdades gerais são as mais procuradas pela mente, como sendo aquelas que mais ampliam o nosso conhecimento.” (IV v 10) [3]
Embora usualmente se reconheça que Locke lançou as bases do empirismo moderno, sua obra é pouco estudada e, freqüentemente, mal compreendida. A importância de suas contribuições para a epistemologia não tem, conseqüentemente, sido adequadamente reconhecida. A ausência do nome de Locke na volumosa literatura sobre a indução é apenas um dos exemplos dessa falha.[4]
2. Idéias e conhecimento
No livro I do Essay, Locke apresenta uma argumentação cerrada contra a doutrina do conhecimento inato. Sua teoria positiva sobre as origens e a extensão do conhecimento é desenvolvida a partir do livro II. Locke começa defendendo que todas as nossas idéias, i.e., “o que quer que constitua o objeto do entendimento quando um homem pensa” (I i 8), provêm, em última instância, da experiência, em suas modalidades de sensação e reflexão.[5] Sendo as idéias o “material” do conhecimento, Locke acredita estabelecer assim que todo o conhecimento provém, em última instância, da experiência.
Locke traça a distinção entre idéias simples e complexas. As primeiras são aquelas que representam “uma aparência, ou concepção, uniforme na mente, e não [são] analisáveis em idéias diferentes. A mente não as pode criar ou destruir” (II ii 1 e 2). A partir das idéias simples, o entendimento pode livremente fazer novas idéias, as idéias complexas (II ii 2). Estas são formadas por combinação, comparação e abstração (II xii 1), podendo ser idéias de modos, de substâncias e de relações (II xii 3). As idéias de modos “são as idéias complexas tais que, não importa como sejam compostas, não contêm em si a suposição de subsistirem por si próprias, mas são consideradas como dependências, ou afecções de substâncias. Tais são as idéias significadas pelas palavras triângulo, gratidão, assassinato, etc.” (II xii 4). As idéias de substâncias “são as combinações de idéias simples formadas para representar coisas particulares distintas que subsistem por si mesmas, nas quais a idéia imaginada [supposed] ou confusa de substância [...] é sempre a primeira e a principal” (II xii 6; ver também II xxiii 1). As idéias de mesa, água, homem, Deus, alma são exemplos de idéias de substâncias. Finalmente, as idéias de relações “consistem na consideração e comparação de uma idéia com outra” (II xii 7). Assim, temos as idéias de causa e efeito, igualdade, proporcionalidade, das relações de espaço e de tempo, etc.[6]
As idéias de modos e de relações não causam problemas significativos para Locke, à parte a grande variabilidade de seus múltiplos e intricados esquemas de classificação, ao longo das edições do Essay, e mesmo nas diferentes partes de uma mesma edição. Já as idéias de substâncias envolvem dificuldades, segundo Locke. Ao mesmo tempo em que ele reconhece que não temos qualquer idéia clara e distinta de substância em geral, não consegue desvencilhar-se completamente dessa noção metafísica. Ao longo do livro, fica evidente que Locke necessita da idéia de substância, apesar de obscura, para manter sua posição realista metafísica.Vejamos alguns trechos do capítulo xxiii do livro II, que trata especialmente dessa idéia (parágrafos 2 e 3):
De modo que se alguém se examinar acerca da noção que possui de substância em geral, descobrirá que não tem outra idéia dela, senão a suposição de um não-sei-o-que que suporta as qualidades capazes de produzir idéias simples em nós, comumente chamadas acidentes. [...]
Uma idéia obscura e relativa de substância em geral sendo assim formada, vimos a ter idéias dos tipos particulares de substâncias, por meio da coleção das combinações de idéias simples que são, pela experiência e observação dos sentidos dos homens, observadas coexistir juntas, e portanto supostas fluir da constituição interna particular, ou essência desconhecida daquela substância. Desse modo, vimos a ter as idéias de um homem, de um cavalo, do ouro, da água, etc. Apelo à experiência própria de cada um para ver se alguém possui qualquer idéia clara de tais substâncias, além das de certas idéias simples coexistindo juntas.
Para o estudo que faremos na seção seguinte do estatuto epistemológico das proposições universais na filosofia de Locke, é importante ver brevemente como ele entendia as idéias gerais, ou abstratas. Embora esse assunto delicado seja tratado em diversos lugares no Essay, para os nossos propósitos basta notar o que se encontra em III iii 6:
Palavras tornam-se gerais quando são tomadas como signos de idéias gerais; e idéias tornam-se gerais quando separamos delas as circunstâncias de tempo e lugar, bem como quaisquer outras idéias que possam determiná-las para esta ou aquela existência particular. Por essa via de abstração tornam-se capazes de representar mais do que um indivíduo.
O nominalismo que transparece nesse trecho é enfatizado logo em seguida. No parágrafo 11, por exemplo, Locke afirma que “o geral e o universal não pertencem à existência real das coisas, mas são invenções e criações do entendimento, feitas por ele para seu próprio uso, e dizem respeito apenas a signos, quer palavras, quer idéias.” (Ver também IV xvii 8.)
Ainda nesse mesmo capítulo iii, Locke introduz a distinção entre essência real e essência nominal,[7] importante, entre outras coisas, para a determinação da extensão do conhecimento das proposições universais sobre substâncias, conforme veremos mais adiante. A noção de essência real corresponde à noção tradicional de essência, tal qual considerada até Locke, ou seja, “o ser de qualquer coisa pelo qual ela é o que é” (15). Por essência nominal Locke entende uma idéia abstrata referida por um termo geral (III iii 15; IV iv 17, vi 4), “a medida e fronteira de cada tipo ou espécie, pela qual um tipo particular é constituído, e distinguido dos outros, [...] que não é nada além da idéia abstrata à qual o nome [do tipo] é anexado, de modo que tudo contido nessa idéia é essencial para o tipo” (III vi 2). As essências nominais são, pois, criações da mente.
No caso de idéias simples e de modos, as essências reais e nominais coincidem (III iii 18). Já no caso das substâncias, as essências nominais não coincidem com as reais (III iii 18; vi 2, 3, 6 e 9), embora o desideratum da mente ao criá-las seja o de “copiar a Natureza” tão fielmente quanto possível (III vi 19 a 32). Uma cópia completa e perfeita é, porém, inatingível, já que isso exigiria o conhecimento das essências reais, ou seja, das constituições reais das coisas, que são o fundamento de todas as propriedades que se combinam para formar sua essência nominal (III vi 6). Mas as essências reais das substâncias nos são completamente desconhecidas (ver e.g. III iii 17; vi 6, 9 e 19; IV vi 4, 5 e 8).
Passemos, finalmente, ao livro IV do Essay, intitulado “Conhecimento e Opinião”. Notemos preliminarmente que, para Locke, assim como para todos os filósofos modernos, a certeza é condição necessária para o conhecimento.[8] Logo no segundo parágrafo do primeiro capítulo desse livro encontramos a seguinte definição de conhecimento:
Conhecimento parece-me não ser senão a percepção da conexão e acordo, ou desacordo e repugnância de quaisquer de nossas idéias. Ele consiste somente nisso. Onde há essa percepção, aí existe conhecimento; e onde não há, embora possamos imaginar [fancy], supor [guess] ou crer, ficaremos sempre aquém do conhecimento.[9]
Se Locke se tivesse atido de modo estrito a essa definição de conhecimento, ele o teria restringido à esfera das idéias. Essa posição idealista incomoda-o, no entanto. Assim, amplia logo em seguida a sua definição (i 3 e 7), para incluir aquilo que chama de “conhecimento de existência real”, que se limita à existência do eu, de Deus e das coisas materiais atualmente presentes aos sentidos. Curiosamente, Locke procura situar esse tipo de conhecimento ao lado do anterior, quando é patente que, ao contrário daquele, não consiste na percepção de qualquer relação entre idéias.
Desse modo, Locke propõe que há quatro tipos de acordo ou desacordo entre idéias: 1) identidade e diversidade; 2) relação; 3) coexistência, ou conexão necessária; e 4) existência real (ver i 3). No primeiro, “a mente percebe de modo claro e infalível que cada idéia concorda consigo mesma, que ela é o que é, e que todas as idéias distintas discordam, i.e., que uma não é a outra. E isso faz [...] à primeira vista, por seu poder natural de percepção e distinção” (i 4). Exemplos dados por Locke: ‘Branco não é vermelho’, ‘Redondo não é quadrado’. O segundo consiste na “percepção da relação entre duas idéias quaisquer, de qualquer tipo, seja de substâncias, de modos ou qualquer outro” (i 5). Na verdade, Locke reconhece logo abaixo (i 7) que esse tipo de acordo ou desacordo entre idéias de fato inclui o primeiro e o terceiro, e diz que os separou explicitamente porque são particularmente importantes. O terceiro tipo de acordo ou desacordo ¾ coexistência, ou conexão necessária ¾ “pertence particularmente a substâncias” (i 6): a ligação de uma idéia à idéia de uma determinada substância. A natureza dessa ligação não é inicialmente clara, o que se reflete no próprio modo ambíguo pelo qual Locke a denomina: ‘conexão necessária’ sugere que se trata de uma ligação a priori entre as idéias, enquanto que ‘coexistência’ não carrega essa conotação. (A expressão ‘coexistência necessária’ também aparece umas poucas vezes ao longo do livro.) O exemplo favorito de Locke de (putativo) conhecimento de coexistência é a proposição ‘O ouro é fixo’ [i.e. não se consome no fogo] (i 6), ao qual retornaremos mais adiante.
3. Conhecimento de proposições universais.
Passemos agora ao caso específico do conhecimento das proposições universais. Como vimos, excetuando-se o problemático conhecimento de existência real, conhecimento é, para Locke, a percepção do acordo ou desacordo de idéias. Ele será universal se e somente se as idéias forem abstratas. “Pois aquilo que for conhecido acerca de tais idéias gerais será verdadeiro com relação a toda coisa particular na qual aquela essência, i.e. idéia abstrata, for encontrada. [...] De modo que todo conhecimento geral terá de ser procurado e encontrado apenas em nossas próprias mentes.” (iii 31; ver também vi 13 e xii 7.)
Além disso, no capítulo vi, que trata das proposições universais, sua verdade e certeza, Locke assevera, já no parágrafo 4, que “não podemos estar certos da verdade de nenhuma proposição geral, a menos que conheçamos os limites e a extensão precisos das espécies designadas por seus termos.” Tal conhecimento pressupõe o conhecimento das essências dessas espécies.
No caso das idéias simples e dos modos, em que as essências reais coincidem com as nominais, como já notamos, as espécies podem ser conhecidas de maneira precisa e completa. A verdade das proposições universais a seu respeito poderá então ser claramente determinada, se houver percepção de seu acordo ou desacordo. Enquadram-se nessa categoria as proposições gerais de identidade e diversidade de idéias simples, como por exemplo ‘Tudo que é branco é branco’, ‘Nada que é quadrado é redondo’, bem como as que se baseiam nas demais relações entre idéias, que não as de coexistência. Segundo Locke, estas últimas formam “o campo mais amplo de nosso conhecimento” (iii 18), e incluem, paradigmaticamente, as proposições da matemática. A extensão do conhecimento depende aqui de “nossa capacidade de encontrar idéias intermediárias”(ibid.), que possam tornar percebida a relação das idéias em questão.
Dificuldades aparecem, no entanto, quando consideramos as idéias de substâncias, “onde uma essência real distinta da nominal é suposta constituir, determinar e limitar as espécies” (vi 4). Nenhuma proposição universal sobre uma substância poderá ser conhecida se uma referência à sua essência real for subentendida, “porque não conhecendo essa essência real, não podemos saber o que é, ou não é, daquela espécie e, conseqüentemente, o que pode ou não ser afirmado com certeza a seu respeito.” (vi 4; ver também o parágrafo seguinte.) Em outros termos, como não temos acesso às essências reais das substâncias, nunca poderemos perceber a conexão necessária ou coexistência de uma idéia com uma dada idéia de substância, quando estas se refram às essências reais. Locke conclui: “Os nomes de substâncias, então, sempre que tomados para representar espécies que se supõe constituídas por essências reais [...] não são capazes de trazer certeza ao entendimento” (vi 5; ver também vi 15).
Assim, para obtermos algum conhecimento geral sobre as substâncias temos que nos referir exclusivamente às suas essências nominais, i.e., determinadas coleções de idéias que decidimos (motivados por observações) tomar como constituindo tais essências. Mas surge aqui outra dificuldade não menos séria:
Por outro lado, quando os nomes das substâncias forem usados como devem ser, para [designar] as idéias que os homens têm em suas mentes, não nos servirão para fazer muitas proposições universais de cuja verdade possamos estar certos, embora [neste caso] possuam significação clara e determinada. Não porque nesse seu uso estejamos incertos acerca de que coisas significam, mas porque as idéias complexas que eles designam são combinações de idéias simples tais que não trazem em si nenhuma conexão ou repugnância que possa ser descoberta a não ser com muito poucas outras idéias. (vi 6)
Vejamos agora como Locke fundamenta essa tese de que “a conexão entre a maioria das idéias simples é desconhecida” (iii 10). Há três casos a considerar:
a) Conexões entre idéias de qualidades primárias.[10] Essas são as únicas conexões de idéias simples que Locke considera concebíveis pela mente humana. Mas em todo o Essay só fornece dois exemplos concretos de conexões conhecidas desse tipo: “Na verdade, algumas poucas qualidades primárias têm uma dependência necessária e conexão visível umas com as outras, como forma necessariamente supõe extensão; [e a capacidade de] receber ou comunicar movimento supõe solidez”.[11]
b) Conexões entre idéias de qualidades primárias e secundárias. Sobre estas, Locke não apenas as considera desconhecidas, mas também incognoscíveis e inconcebíveis (ver e.g. iii 12 e vi 14). Mas como na concepção de mundo adotada por Locke todas as qualidades secundárias são supostas decorrer “das qualidades primárias das partes diminutas e imperceptíveis” dos corpos (iii 11; ver também II viii), ele tem que admitir que essas conexões de fato existem, e as atribui “à determinação arbitrária daquele Agente Todo-Sábio que as fez ser tais quais são [...] de um modo totalmente acima da concepção de nossos fracos entendimentos” (iii 28; ver também 29).
c) Conexões entre idéias de qualidades secundárias. Estas são a fortiori desconhecidas, incognoscíveis e inconcebíveis. Há aqui dois obstáculos intransponíveis para o conhecimento: 1) nossa falta de sentidos suficientemente agudos para descobrir as propriedades primárias particulares das partes diminutas de cada tipo de corpo, que são “a raiz de onde brotam” suas qualidades secundárias (iii 11 e 25); e 2) nossa referida incapacidade de descobrir, e mesmo de conceber, as conexões entre qualidades primárias e secundárias, o que constitui um fator “ainda mais irremediável de ignorância” (iii 12 e 28). Portanto “em todas as qualidades secundárias não podemos descobrir nenhuma conexão” (vi 7), “exceto naquelas referentes a um mesmo sentido, que necessariamente se excluem umas às outras” (vi 10).
Ilustremos a posição de Locke recorrendo ao seu exemplo favorito: a proposição ‘O ouro é fixo’.[12] Nunca podemos obter certeza sobre sua verdade, pois se a palavra ‘ouro’ denotar uma espécie definida pela Natureza por meio de uma essência real, é evidente que, não conhecendo quais substâncias particulares são dessa espécie (pois não temos qualquer idéia clara dessa essência real), não poderemos afirmar nada universalmente com certeza acerca do ouro. E se, por outro lado, ‘ouro’ denotar uma espécie determinada por sua essência nominal, e.g. a idéia complexa de um corpo de uma deteminada cor amarela, maleável, fusível e pesado, as únicas qualidades que com certeza poderemos atribuir ao ouro são aquelas cujas idéias tenham conexão necessária (que possa ser descoberta) com as que formam essa essência nominal. Mas pelo que foi visto acima, isso só ocorre com as referentes a um mesmo sentido. Saberemos com certeza que a proposição ‘Nenhum ouro é azul’ é verdadeira, por exemplo. Mas não sendo capazes de descobrir qualquer conexão necessária da idéia de fixidez com aquelas idéias, ou com o seu conjunto, nunca teremos certeza se o ouro é ou não fixo, a menos que modifiquemos a essência nominal do ouro, de modo a incluir a idéia de fixidez. Porém nesse caso a proposição ‘O ouro é fixo’ expressará uma verdade puramente verbal, que nada instrui sobre o mundo. E o problema continuará se colocando com relação às demais qualidades, como a solubilidade em aqua regia, a ductilidade, etc., e nunca poderá ser eliminado.
Concluímos que nosso conhecimento universal sobre substâncias é extremamente reduzido[13], incluindo apenas: 1) as proposições referentes aos poucos casos de conexão entre idéias de qualidades primárias que podem ser descobertas; 2) as proposições do tipo ‘Nenhum ouro é azul’; e 3) aquelas a que Locke chama trifling, que nada acrescentam ao conhecimento das coisas, mas “apenas ensinam a significação das palavras” (viii 7). Alguns exemplos fornecidos por ele são: ‘O chumbo é um metal’, ‘Todo ouro é fusível’, ‘Todo homem é um animal’ (viii 4, 5 e 6), subentendendo-se que o que está sendo predicado dos sujeitos faz parte de suas essências nominais.
Ficam assim excluídas do âmbito do conhecimento praticamente todas as proposições universais instrutivas sobre o mundo exterior, tais como: ‘Todo homem será envenenado pela cicuta’; ‘Nenhum homem pode se nutrir de madeira ou de pedras’ (vi 15), e as leis científicas de tipo fenomenológico em geral. Essa conseqüência importante do empirismo de Locke conflita com a visão epistemológica do homem comum e do cientista, que assumem que dispomos de meios para elevar a nossa crença em proposições dessa classe ao estatuto de conhecimento, fornecendo-lhes alguma justificação segura.
4. Indução
Ao mostrar que, em sua teoria epistemológica, a via para o conhecimento universal acerca de substâncias é uma via bloqueada, Locke trouxe à tona o problema da indução. Dada a importância das proposições gerais sobre o mundo na vida prática e na ciência, colocou-se a questão de que posição ocupariam na escala epistêmica, destronadas que foram do estatuto de conhecimento certo. Notemos que, aparentemente, Hume beneficiou-se aqui da análise de Locke, assumindo de partida que o conhecimento dessas proposições não cai no âmbito das relações de idéias, para dedicar-se a mostrar que, enquanto expressão de questões de fato, também não são seguras. O próprio Locke, porém, iniciou as investigações desse ponto. Embora o papel primordial atribuído por ele à experiência seja o de fonte das idéias, admite que ela pode fornecer conhecimento direto de proposições particulares sobre substâncias, a saber, a coexistência de uma determinada idéia com uma idéia particular de substância. “A experiência tem de me ensinar aqui o que a razão não pode” (xii 9). Mas essa experiência não fornece certeza senão sobre o que já foi experimentado; jamais redunda em conhecimento universal, ou mesmo acerca de instâncias não observadas. Saberemos, por exemplo, que este determinado pedaço de ouro mostrou-se fixo em tais e tais testes a que foi submetido. Não podemos, porém afirmar que se mostrará fixo em outros testes, e muito menos que todo ouro é fixo. Vejamos algumas passagens importantes sobre esse assunto. No parágrafo 14 do capítulo iii, após repetir que o conhecimento das substâncias oferecido pelo acordo ou desacordo entre as idéias é muitíssimo reduzido, Locke acrescenta:
Em todas essas investigações o nosso conhecimento vai muito pouco além de nossa experiência. [...] Ficamos apenas com a assistência de nossos sentidos para conhecer que qualidades [as substâncias] contêm. [...] Pois essa coexistência não pode ser conhecida além do que é percebida; e ela não pode ser percebida a não ser em objetos particulares, pela observação de nossos sentidos, ou, em [objetos] gerais [i.e. idéias abstratas], pela conexão necessária das próprias idéias.
E no parágrafo 28 desse mesmo capítulo lemos:
Pois onde [a conexão entre as idéias] nos falte, somos cabalmente incapazes de conhecimento universal e certo; e ficamos [...] apenas com a observação e o experimento que, quão estreitos e confinados são, quão distantes estão do conhecimento geral, não precisa ser dito.
A incerteza sobre a próxima ocorrência de um fenômeno que vem se repetindo é exposta explicitamente em iii 25:
Não podemos estar mais seguros sobre [as propriedades e modos de operação dos corpos] do que alcançam uns poucos testes que fazemos. Mas se eles darão certo de novo, não podemos ter certeza. Isso impede nosso conhecimento certo de verdades universais sobre os corpos naturais.
A conseqüência, que Locke expõe com clareza, é a impossibilidade daquilo que chama de “filosofia científica” (iii 26), ou “uma ciência perfeita dos corpos”:
As coisas que ¾ tão longe quanto vá a nossa observação ¾ observamos de maneira constante ocorrer regularmente, podemos concluir que agem por uma lei que as determina; porém por uma lei que desconhecemos. Embora causas funcionem de modo estável, e efeitos fluam delas de modo constante, suas conexões e dependências não podendo ser descobertas em nossas idéias, só podemos ter um conhecimento experimental a seu respeito. [...] Mas quanto a uma ciência perfeita dos corpos naturais [...] concluo ser esforço vão procurá-la. (iii 29)
No esquadrinhamento das razões da incerteza da extrapolação indutiva do conhecimento Hume vai mais longe que Locke, argumentando, como se sabe, que todas as inferências sobre questões de fato fundam-se na relação de causa e efeito; que todas as inferências sobre essa relação fundam-se, a seu turno, na experiência; que em todos os raciocínios experimentais há um passo que não encontra suporte em nenhum argumento ou processo do entendimento ¾ a suposição de que o curso da Natureza continuará sempre o mesmo; e, finalmente, que a mente dá esse passo em virtude de um mero hábito.
No capítulo xii, sobre “a melhoria de nosso conhecimento”, após expressar a “suspeita” de que “não se pode fazer da filosofia natural uma ciência” (10), Locke tenta tranqüilizar o homem comum e o cientista, esclarecendo que não pretende “desprezar ou desencorajar o estudo da Natureza” (12), mas apenas advertir que não devemos esperar conhecimento onde ele não pode ser obtido. Não desejando que a falta de conhecimento propriamente considerado signifique ignorância plena, onde observações sistemáticas possam ser realizadas, Locke irá desenvolver, nos capítulos xiv, xv e xvi, estudos pioneiros sobre os “graus do assentimento” inferiores à certeza. Em sua análise das “bases do assentimento”, procura assegurar a certas leis naturais uma posição alta na escala da confiabilidade epistêmica. No caso que nos interessa mais de perto aqui, do “funcionamento regular de causas e efeitos no curso ordinário da Natureza”, por exemplo, se o assentimento geral de todos os homens em todas as épocas concordar com a nossa experiência constante e sem falhas, as “probabilidades se elevam tão próximo da certeza, que passam a governar os nossos pensamentos de modo tão absoluto, e a influenciar tão plenamente nossas ações como a demonstração mais evidente” (xvi 6).
É justo reconhecer que a proposta específica de Locke para o estabelecimento dos graus de probabilidade e assentimento padece de várias deficiências, aos olhos privilegiados do filósofo de hoje. Em especial, é difícil discernir claramente se, para Locke, o conceito de probabilidade é inteiramente subjetivo ou se reflete, em alguma medida, propriedades objetivas do mundo. De qualquer forma, o que pretendemos apontar aqui é somente que pelo menos quanto ao “governo de nossos pensamentos”, à formação de nossas crenças, a experiência de regularidades tem, segundo Locke, uma influência determinante. No desenvolvimento da filosofia empirista por ele (re)inaugurada , caberá a Hume a análise detalhada dessa influência e da própria noção de crença.
Outro assunto que não adentraremos aqui, e que seria pertinente numa análise mais extensa das teses de Locke quanto ao estatuto epistemológico das ciências naturais, é seu reconhecimento de que nem todas as leis dessas ciências devem ser entendidas como generalizações indutivas. Acreditamos que aqui também Locke tenha antecipado algumas concepções recentes da filosofia da ciência. Para ele, o domínio das proposições que são apenas prováveis divide-se naquelas sobre “questões de fato, que, caindo sob a observação, são capazes de serem testemunhadas pelos homens; [e naquelas] sobre coisas que, escapando à descoberta de nossos sentidos, não são capazes de tal testemunho” (xvi 5). Neste último caso, teremos que formular hipóteses, em geral motivados por analogias (xvi 12). Vejamos, apenas a título ilustrativo, estas interessantes considerações do parágrafo 13 do capítulo xii sobre o “verdadeiro uso de hipóteses”. Após haver alertado, no parágrafo anterior, que “devemos tomar cuidado com hipóteses e princípios errados”, ele adita:
Não que não possamos, para explicar os fenômenos da Natureza, fazer uso de nenhuma hipótese provável qualquer que seja; hipóteses, se forem bem feitas, são pelo menos grandes auxiliares da memória, e freqüentemente direcionam-nos para novas descobertas. O que quero dizer, porém, é que não devemos adotar qualquer uma com demasiada pressa, [...] antes que tenhamos examinado muito bem os detalhes, feito vários experimentos com a coisa que queremos explicar com nossa hipótese, e verificado que ela concorda com todos eles; que os nossos princípios [i.e., hipóteses] nos hajam conduzido bem ao longo desses experimentos, e que não são inconsistentes com um fenômeno natural quando parecem acomodar e explicar outro. E que pelo menos tomemos cuidado para que o nome princípios não nos engane, nem se imponha sobre nós, fazendo-nos aceitar por uma verdade inquestionável o que na realidade é, quando muito, uma conjetura muito duvidosa, como é o caso da maioria das (e quase diria de todas as) hipóteses da filosofia natural.
Assim, Locke adverte contra a atribuição de um grau epistêmico demasiadamente elevado às hipóteses, ressalta sua função heurística, põe como condições de sua aceitação a sujeição a testes e a sua abrangência, destacando, por fim, a natureza conjetural das hipóteses da filosofia natural. Não podemos deixar de notar que em nosso século idéias muito semelhantes a essas encontrariam um ardente defensor em Karl Popper. Popper divergirá de Locke, no entanto, ao considerar hipotéticas todas as proposições da ciência, crendo haver assim dissolvido o problema da indução.
Referências Bibliográficas
GOODMAN, N. Fact, Fiction and Forecast. 4 ed., Cambridge, MA, Harvard University Press, 1983.
HUME, D. A Treatise of Human Nature. Glasgow, Fontana, 1962.
¾¾ . An Enquiry concerning Human Understanding. 3 ed., Oxford, Clarendon Press, 1975.
LOCKE, J. An Essay concerning Human Undestanding. Edited with an Introduction, Critical Apparatus and Glossary by Peter H. Nidditch. (Texto baseado na quarta edição, de 1700, com indicação de todas as diferenças com relação às demais edições.) Oxford, Clarendon Press, 1975.
POPPER, K.R. Conjectures and Refutations. 4 ed., London, Routledge and Kegan Paul, 1972a.
¾¾ . Objective Knowledge. Oxford, Clarendon Press, 1972b.
RUSSELL, B. A History of Western Philosophy. New York, Simon and Schuster, 1945.
SMART, J.J.C. Between Science and Philosophy. New York, Ramdom House, 1968.
SWINBURNE, R. (ed.) The Justification of Induction. Oxrford, Oxford University Press, 1974.
[1] Trabalho apresentado no III Encontro de Filosofia Analítica, realizado em Florianópolis de 18 a 21 de setembro de 1995, pela Sociedade Brasileira de Análise Filosófica.
[2] Ver A Treatise of Human Nature e An Enquiry concerning Human Understanding.
[3] Adotamos aqui a forma-padrão de referência para o Essay: livro e capítulo em algarismos romanos maiúsculos e minúsculos, respectivamente, seguidos do parágrafo, em algarismos arábicos. Nas citações, o emprego idiossincrático de itálicos feito por Locke não será reproduzido.
[4] Ver e.g. Russell 1945, Smart 1968, Goodman 1983, Popper 1972a e 1972b, e os artigos reunidos em Swinburne 1974.
[5] “Nossa observação, empregada sobre os objetos sensíveis externos ou sobre as operações internas de nossas mentes, percebidas e reflexionadas por nós próprios, é o que fornece ao nosso entendimento todos os materiais do pensamento. Essas duas são as fontes do conhecimento, de onde nascem todas as idéias que temos ou podemos ter naturalmente” (II i 2).
[6] Locke trata mais amplamente desse tipo de idéia nos capítulos xxv a xxviii do livro II. Vejamos um caso importante, o das idéias de causa e efeito (II xxvi 1): “Na observação que nossos sentidos fazem da vicissitude constante das coisas, não podemos de deixar de notar que vários particulares, quer qualidades, quer substâncias, começam a existir, e que recebem essa sua existência da aplicação e operação de algum outro ser. A partir dessa observação obtemos nossas idéias de causa e efeito.”
[7] Em II xxxi 6 e seguintes essa distinção é apresentada de forma preliminar.
[8] Veja-se, por exemplo, esta declaração explícita em IV vi 12: “Mas isto [...] não possui aquela certeza que é requerida para o conhecimento”. Ver também IV iii 6 e 14.
[9] IV i 2. Daqui em diante todas as referências de capítulo serão relativas ao livro IV, salvo indicação em contrário.
[10] A importante distinção lockeana entre qualidades primárias e secundárias, que permeia todo o pano de fundo metafísico do Essay e de toda a ciência moderna, é introduzida no capítulo viii do livro II. As qualidades primárias são aquelas “totalmente inseparáveis dos corpos, em qualquer estado que estejam” (9): solidez, extensão, forma, movimento ou repouso, número, tamanho e textura (9, 10 e 23). As qualidades secundárias são aquelas que “na verdade não são nada nos próprios objetos senão poderes de produzir várias sensações em nós, como cores, sons, gostos etc, por meio das qualidades primárias [...] de suas partes imperceptíveis.” (10)
[11] IV iii 14. Deve-se estar atento para que a noção de solidez adotada por Locke é mais ampla que a usual: no capítulo iv do livro II, “Da solidez”, lemos, no primeiro parágrafo: “[Solidez] é aquilo que [...] impede a aproximação de dois corpos quando um é movido na direção do outro”. No capítulo sobre as máximas, IV vii, parágrafo 5, encontramos uma proposição que Locke aparentemente considera conhecida por um outro caso de percepção da “repugnância” entre idéias de qualidades primárias: ‘Dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar [ao mesmo tempo]’.
[12] Esse exemplo aparece inúmeras vezes ao longo do Essay; ver e.g. IV vi 8 e 9.
[13] “This [...] is yet very narrow, and scarce any at all” (IV iii 10). No parágrafo 13 do capítulo vi, Locke diz que o “julgamento [judgment] pode ir mais longe; mas isso não é conhecimento. [...] Homens inquisitivos e observadores possivelmente podem, por esforço de julgamento [strength of judgment], penetrar além; e, com base em probabilidades tomadas de observações cuidadosas, e sugestões [hints] bem dispostas, podem freqüentemente supor acertadamente [guess right] acerca do que a experiência ainda não lhes descobriu. Mas isso ainda será suposição [guessing]; importa apenas em opinião, e não possui aquela certeza que é necessária ao conhecimento.”
John Locke

John Locke (1632-1704) nasceu em Wrington, Inglaterra. Wrington fica perto de Bristol, de onde era a família de Locke. Eles eram burgueses, comerciantes. Com a revolução Inglesa de 1648, o pai de Locke alistou-se no exército. Locke estudou inicialmente na Westmuster School. Em 1652 foi para a Universidade de Oxford. Não gostou da filosofia ali ensinada. Manifestou, mais tarde, opiniões contrárias à filosofia de Aristóteles. Julgou o peripatetismo obscuro e cheio de pesquisas sem utilidade. Além de filosofia , estudou medicina e ciências naturais. Recebeu o título de Master of Arts em 1658. Nesse período , leu os autores que o influenciaram: John Owen (1616-1683) que pregava a tolerância religiosa, Descartes (1596-1650) que havia libertado a filosofia da escolástica e Bacon (1561- 1626), de quem aproveitou o método de correção da mente, e a investigação experimental. Interessou-se pelas experiências químicas do também físico Robert Boyle (1627-1691), que inovaram introduzindo o conceito de átomo e elementos químicos. Foi um avanço em relação à alquimia que dominou durante a Idade Média e a concepção de Aristóteles dos quatro elementos. Locke atuou nos campos de medicina, filosofia, política, teologia e anatomia. Não gostava de matemática. Redigiu em Latim, Ensaios sobre a lei da natureza. Já nessa época apresentava gosto pela regra experimental, de onde deriva sua filosofia empirista.
Em 1666, Locke tornou-se médico de um futuro conde, Ashley Cooper. Participou, como assessor do futuro conde de Shaffesbury, da elaboração da constituição da colônia inglesa de Carolina, na América do Norte. Fazia parte do grupo de intelectuais da época. Foi nesse período que começou a redigir sua principal obra: Ensaio Sobre o entendimento humano, que só seria publicado em 1690. Em 1668 se tornou membro da Royal Society de Londres. em 1672 se tornou secretário do agora sim, conde Shaffesbury. Então passou a ter uma vida política ativa e efetiva. Cooper opunha-se ao rei Carlos II, que tentava fortalecer o absolutismo. Em 1675 , aconteceu a queda do conde. Locke, que participara de uma séria de acontecimentos políticos, foi obrigado a abandonar essa vida. Viajou então para a França, onde se relacionou com os intelectuais cartesianos. em 1679, voltou a Inglaterra, onde ficou ao lado do ex-conde, que estivera preso. Como o Cooper não era bem quisto pela corte, Locke passou a ser vigiado.
Os dois mudaram-se então para a Holanda, onde estava mais avançada a liberdade de de opiniões. Locke participou dos preparativos para a expedição de Guilherme de Orange , rei da Holanda. viaja com ele para Londres. Na Holanda ainda era perseguido. Usa nome falso e colabora com numerosos artigos em um periódico.
Em 1691, transferiu-se para um castelo em Essex, hóspede de Francis Masham e sua mulher, Damaris. O ensaio sobre o entendimento humano havia sido editado em 1690. Morreu em Essex em 1704.
Locke desenvolveu, a partir da obra de Bacon, uma teoria voltada para melhorar o uso do intelecto.Para isso, precisou analisar os meios que o intelecto tem para conhecer, como chegou ao ponto em que entende o mundo, e o interpreta. Locke enfatizou o lado gnoselógico da origem das idéias e representações. A idéia para Locke, é "tudo que o espírito percebe em si mesmo, e que é objeto imediato de percepção e pensamento."Portanto , essa noção de idéia foi feita e corresponde com a idéia cartesiana. Não tem a ver com a idéia platônica, que aliás Locke rebateu por ser contrário ao inatismo. A idéia em Locke deve ser compreendida como o conteúdo da consciência, o material do conhecimento. Ele foi contra o inatismo presente em Platão e Descartes, e defendeu a teoria de que o conhecimento deriva da prática. Compara a mente a uma tabula rasa, uma folha de papel em branco. O intelecto humano não pode formular idéias do nada, nem o espírito traz em si memórias e conceitos presentes a priori. Para Locke, todos os dados da mente derivam da experiência. A experiência é a fonte e o limite do intelecto.
Locke formulou suas críticas ao inatismo, argumentando contra os pensadores platônicos da escola de Cambridge, entre os quais Ralph Cudworth, que sustentava que a idéia da exisTência de Deus provinha de uma noçãi inata. Para Cudworth, a teoria empirista que Locke adota, segundo a qual não há nada na mente que não tenha estado antes nos sentidos, deve ser combatida, por ser ateísta.
O livro I do Ensaio é dedicado à crítica do inatismo. Locke julga o inatismo uma doutrina de preconceito que leva ao dogmatismo individual. Mostra que há outros modos de se chegar ao consenso universal, que na verdade não existe. Ele dá exemplos de coisas que crianças e deficientes não possuem, como o princípio da identidade, não contradição e fundamentos éticos. Até mesmo a concepção não é inata, pois apresenta diversidade e varia a crença de cada povo. Em alguns , até não existe essa crença.
Locke afirma ser absurdo existir certos princípios inatos, mas não se estar consciente disso. Se há algo na alma , há a consciência desse algo. também é assim com os princípios morais. Locke fala que em certos lugares coisas são repreensíveis, e em outros as mesmas coisas são motivo de mérito. Locke também destitui de validade o argumento ontológico para a existência de Deus, da autoria de Santo Anselmo.
Para o argumento de que o intelecto pode criar idéias, Locke responde que ele pode apenas combinar as idéias percebidas pelos sentidos. Mas não pode criá-las, nem tampouco destruí-las. Concluindo, Locke aponta a experiência como a única fonte possível de idéias. A alma trabalha o material percebido depois.
Locke aponta duas fontes para o conhecimento empírico: ele é derivado da experiência sensível ou da reflexão. As idéias estão no intelecto, e no mundo objetivo existe algo que tem o poder de fazer o intelecto entendê-las como tal. Um corpo tem qualidades primárias, como a extensão, a solidez, a figura. E secundárias como a cor o odor e o sabor. As secundárias são variações das primárias, são subjetivas, parecem como são para os sentidos. As idéias simples forçam uma passividade por parte do sujeito , que pode operar sob diversos modos sob os dados dos sentidos e sob a reflexão, formando assim as idéias complexas. As idéias se conservam depois de percebidas. A memória é necessária para a ação intelectual, pois faz representações. A atividade do intelecto produz idéias complexas, dividas em três grupos principais:
a)de modo: estado e constituições de coisas e processos, não existem por si mesmas, mas dependem da sensação. Os modos simples tem componentes homogêneos (por exemplo um número) os modos mistos tem componentes heterogêneos (por exemplo muitas sensações que dão idéia de beleza). Exemplos de idéias de modo: a gratidão e o homicídio.
b)de substância. Nascem do hábito de ver idéias simples juntas, que são tomadas como uma complexa. Não nos tornamos conscientes nem porque nem como isso acontece. Nesse grupo estão a representação de coisas como o homem e de coletividade, o universo. Deus também pertence ao grupo de idéias complexas de substâncias.
c) relações- nascem da comparação e confronto entre as idéias que o intelecto percebe. Por exemplo, o conceito de pai, filho, sogro, diferença e semelhança.
O infinito, para Locke, é um modo simples. Não podemos realmente conceber o infinito. O infinito é a repetição de número, duração e espaço. O infinito portanto não é anterior, a causa íntima do finito.
Na filosofia anterior a Locke, havia a teoria de que a substância constitui a essência das coisas. Essa noção estava em Descartes. Locke observa que a essência não pode ser a substância. Ou melhor, a substância não é conhecida pelos sentidos na sua essência. A identidade, o eu, está fora da substância.
A abstração, para Locke, é a exaltação de certas qualidades das idéias, portanto reduz e parcializa as idéias complexas.
No quarto livro do Ensaio, Locke trata do conhecimento. As idéias são o material do conhecimento, que nasce da percepção delas, e faz conexões, concordâncias, contrastes e discordâncias entre as idéias. A correspondência entre duas idéias é importante para o conhecimento. São de quatro tipos:
a) identidade e diversidade . Uma idéia se diferencia da outra.
b)relação. A ciência nasce da relação entre idéias diferentes.
c)coexistência ou não de um mesmo objeto. Pertence às substâncias.
d)existência real. Independente do eu individual que a percebe.
A percepção da realidade pode ser feita de dois modos:
a) por intuição- é claro e certo, não necessita de prova. Vem da evidência imediata.
b)por demonstração- o espírito percebe as diferenças e semelhanças das idéias, mas não de imediato. Procede e se desenvolve por concatenações, associação das intuições. A existência de Deus pode ser demonstrada racionalmente. Locke usa a prova cosmológica para isso. Sabemos, de forma intuitiva, que algo existe desde a eternidade, pois se não existisse, o início teria de vir de alguma outra coisa. Para Locke, a certeza que Deus existe é mais absoluta que as impressões dos sentidos. Nesse ponto, ele concorda com Descartes.
Locke reconhece duas classes de ciências: as reais (naturais e metafísicas) e as idéias (matemática e ética) . A matemática deve trabalhar com modelo próprio. A ética também se refere ao conteúdo que provém da mente humana. Assim, não há liberdade total e Estado juntos. Todo o delito deve ser castigado.
Locke atuou também politicamente. Ele foi contrário aos teóricos do absolutismo, como Hobbes. Disse que não há poder inato, nem direito político divino. Para ele, uma boa ação concorda com uma norma. Existem três tipos de normas morais: a divina, a política , e a da opinião pública. O bem é o prazer, ou aquilo que o provoca, e o mal é a dor, ou aquilo que a provoca.
Todos os homens nascem e são iguais por natureza. Usam a razão, um bem comum, para construir a sociedade, e dela partilhar os resultados. O Estado vem do direito natural, como o direito à vida, à liberdade, à propriedade. O Estado deve promulgar o bem estar geral. O governo não pode ser tirânico, nem patriarcal.
O Estado não deve ser baseado na fé, nem na religião. Um governante, um príncipe, é necessário para assegurar a validade do pacto social, mas o direito dele vem do povo, não da religião. E ele é submisso às leis. Não pode tudo, como outros teóricos afirmaram. (Maquiavel ,por exemplo) Se falhar, o povo tem direito à revolução.
Locke foi o fundador do liberalismo constitucional, que concebe o Estado submetido à um contrato. O direito natural da propriedade, fruto do trabalho é o fundamento do valor econômico vital do trabalho. Locke influenciou o liberalismo de Adam Smith (1723- 1790) e Ricardo (1772-1883). Ele também dividiu , na teoria, os poderes em dois: Legislativo e Executivo. Esses poderes são necessários para garantir a validade da lei e a ausência de tirania.
Até a época em que atuou, Locke foi o filósofo moderno que mais tinha bem definida suas opiniões políticas e filosóficas. Bacon fizera sugestões. Hobbes estava desacreditado, e Spinoza era extremista. Locke fez a ponte entre Descartes e o que viria a ser o Iluminismo. Influenciou Berkeley e Hume que partiram de sua filosofia empírica, mas não radicalmente empírica, pois admite a existência do sobrenatural. Era racionalista, mas acreditava na revelação divina. Achava que a existência de Deus podia ser provada racionalmente. Leibniz escreveu uma resposta ao Ensaio, em que defende uma volta ao inatismo.
Vida, época, filosofia e obras de John Locke
John Locke está entre os filósofos empiristas, assim chamados devido a abrirem espaço para a ciência junto à filosofia, valorizando a experiência como fonte de conhecimento. John Locke destaca-se pela sua teoria das idéias e pelo seu postulado da legitimidade da propriedade inserido na sua teoria social e política. Para ele, o direito de propriedade é a base da liberdade humana "porque todo homem tem uma propriedade que é sua própria pessoa". O governo existe para proteger esse direito.
Locke estava interessado nos tópicos tradicionais da filosofia: o Eu, o Mundo, Deus e as bases do conhecimento. É contemporâneo de Thomas Hobbes, mas, ao contrário deste, é liberal e tem convicções parlamentaristas. Foi enorme a influência da obra de Locke. Suas teses estão na base das democracias liberais. No século XVIII, os iluministas franceses foram buscar em suas obras as principais ideias responsáveis pela Revolução Francesa. Montesquieu (1689-1775) inspirou-se em Locke para formular a teoria da separação dos três poderes. A mesma influencia encontra-se nos pensadores americanos que colaboraram para a declaração da independência americana em 1776.
Primeiros anos. John Locke nasceu na pequena cidade de Wrington, em Somerset, na região sudoeste da Inglaterra, a 29 de agosto de 1632, vindo a falecer em 1704. Foi criado em Pensford, nas proximidades de Bristol. Sua família era da linha puritana da religião anglicana. Seus pais, de origem modesta, foram John Locke, um pequeno proprietário e advogado que trabalhava como procurador e como funcionário do Juizado de Paz, e Agnes Locke, filha de um curtidor. Viviam em um chalé coberto de colmo num conjunto de moradias de famílias do mesmo nível da sua. Dos filhos do casal, John Locke era o mais velho de três, um morto na infância e outro, Thomas, cinco anos mais novo que o filósofo. Seu pai deu-lhe educação severa e correta, que Locke, adulto, reconheceu, votando-lhe respeito e afeição. Quanto à sua mãe, sabe-se apenas que era dez anos mais velha que o marido e provavelmente uma mulher bonita, a julgar por referências familiares escritas.
O período da infância e adolescência de Locke corresponde à fase ascendente da nova filosofia que irá culminar no Iluminismo. As descobertas de Galileu se tornam conhecidas, Campanella publica trabalhos em Paris e aparecem as primeiras publicações de Hobbes e de Descartes. É também o período da guerra civil na Inglaterra (1642-1646): quando puritanos e presbiterianos escoceses aliam-se contra o Rei Carlos I; Oliver Cromwell comanda os rebeldes. É uma fase de tensão para sua família, envolvida mais de perto no conflito porque o pai de Locke lutou contra a monarquia, como capitão de cavalaria, nas tropas vitoriosas do Parlamento. Condenado pelo Parlamento, Carlos I é executado em 1649. Seu filho e herdeiro, o príncipe de Gales (1630-1685), que depois seria Carlos II, logrou escapar para a França, protegido por súditos leais, refugiando-se em Paris.
Estudos.
Após a vitória dos Parlamentaristas, um colega de armas e amigo de seu pai, o
coronel Alexander Popham, tornou-se membro do Parlamento, em posição de indicar
alunos para famosa Westminster School, controlada por um comitê do partido
parlamentarista. Tendo 15 anos em 1647, Locke pode ser indicado e seu nome foi
aceito.
Na Westminster School, em Londres, - o velho Colégio de São Pedro que Isabel I
havia reformado quase um século antes, - Locke estudou principalmente grego e
latim. Está ao final de seus estudos em Westminster em 1651, quando Hobbes
publica "O Leviatã", cuja tese mais tarde ele irá criticar. Neste ano Hobbes
retorna de Paris, onde freqüentava a corte inglesa no exílio.
Em 1652 Locke estava em condições de concorrer à escolha para estudar na Christ Church College, então o principal colégio em Oxford, o que dependia do bom desempenho escolar, de uma composição em Grego e de amigos influentes. Foi aprovado juntamente com cinco outros jovens. Seguiu para Oxford no final do ano; contava então dezenove anos. Como a maioria dos estudantes que depois se tornaram intelectuais ilustres na sua época, achou desinteressaste o curriculum de latim, retórica, gramática inglesa, filosofia moral, geometria, grego, lógica e metafísica, que era o ensino tradicional em seu tempo. Completou seus estudos de bacharelado em artes, assistido por um tutor, conforme o sistema no Christ Church College, no decurso de três anos e meio. Toda a comunicação com o tutor era em latim. Recebeu o grau de bacharel em 1656. Buscou complementar sua educação com a leitura de obras contemporâneas de filosofia, particularmente aquela que ganhava momento, a obra de Descartes. Mas, acima de tudo, interessou-se mais pela nova ciência experimental criada por Bacon (1561-1626) e lecionada em Oxford por John Wilkins, e adquiriu formação médica. Seu interesse pela medicina o aproxima de Richard Lower, que fez numerosas descobertas a respeito do coração e que foi o primeiro a efetuar uma transfusão de sangue.
Tanto o mundo da medicina como o da filosofia fascinam a Locke. O que escreveu nos anos seguintes, (1656-66), sua correspondência e seus livros preferidos indicam seus interesses, que eram as ciências naturais, por um lado, e a investigação social e política, por outro. Mas aquelas disciplinas básicas, no entanto, que constituíam o método escolástico, lhe foram úteis mais tarde, como filósofo. Em Junho de 1658, Locke fez jus ao M.A. Evidentemente ele conseguiu satisfazer os requisitos escolares porque foi contemplado com uma bolsa de estudante sénior em 1659 e, por ocasião do natal de 1660 foi eleito "Lecturer" (um cargo próprio dos colégios ingleses inferior ao de professor, equivalente a tutor, orientador ou instrutor de um grupo de alunos) de Grego no Christ Church.
O pai de Locke faleceu dois meses depois de sua nomeação. Deixou-lhe algumas terras e alguns chalés perto de Pensford, e este patrimônio haveria de suprir Locke com a renda para uma vida decente pelo resto de sua existência. Após o enterro do pai, Locke voltou para Oxford para exercer suas tarefas de tutor. Nos três ou quatro anos que se seguiram trabalhou no Colégio, onde também residia. Na ocasião parece que pensou em abraçar o sacerdócio, ou que sua bolsa assim o requeria, mas em 1666, obteve uma dispensa que lhe permitiu manter sua bolsa sem se ordenar, residindo em Christ Church College por mais de trinta anos, afastando-se apenas temporariamente para Londres ou em viagem ao estrangeiro. Perdeu essa bolsa por mandato real em 1684, quando os monarquistas se tornaram senhores da situação política no país.
O Protetorado de Cromwell durou de 1653 até a data em que morreu, em 1658. Com a morte de Cromwell, o temor da desintegração do país levou o Parlamento a chamar de volta à Inglaterra o herdeiro do trono, para a restauração da monarquia. Carlos II foi coroado em 1660 e em 1662 casou com Catarina de Bragança, filha de dom João IV. Este casamento garantiu importantes vantagens comerciais para a Inglaterra que em troca dava a Dom João IV o que ele mais desejava, que era a proteção contra a ameaça da Espanha de retomar seu domínio sobre Portugal. O envolvimento inicial de Locke com a política começa em 1660, quando era, contrariando a linha política paterna, um monarquista convicto. Nestes anos de 1660 e 1661 sua linha de pensamento era autoritária e dizia temer a anarquia. Alinhava-se com o pensamento de Hobbes, contra o qual mais tarde haveria de se voltar radicalmente. Escreveu contra a tolerância religiosa por essa época, tanto em Latim como em Inglês em resposta a Edward Bagshawe, que pensava que um governante deveria ter poder sobre as ações dos homens, porém devia deixá-los seguir seus próprios caminhos religiosos. Locke discordava de Bagshawe , acreditando que o magistrado devia ter poder até mesmo sobre a religião de seus súditos. Mais tarde suas convicções políticas, inclusive sua postura quanto à tolerância, haveriam mudar radicalmente.
Nas décadas seguintes Locke prosseguiu em seus estudos privados, e parte dos eventos sociais de que participava eram encontros em que discutia com amigos questões filosóficas e científicas. Foi o período em que Locke avançou seus estudos médicos e científicos assistindo aulas do fisiologista Thomas Willis (1621-1675), que tentava explicar o funcionamento do corpo por interações químicas, um renomado conhecedor do sistema nervoso, que foi professor em Oxford de 1660 a 1675. Nesse período colaborou com Robert Boyle (1627-1691, um dos fundadores da química moderna e seu amigo chegado, descobridor de que, a temperatura constante o volume de um gás é inversamente proporcional à pressão. Tanto quanto Locke, Boyle tinha preocupações religiosas, sustentando que o estudo científico da natureza era um dever religioso. Conduziu seus experimentos em Oxford e a partir de 1668 vivia em Londres. Ao final dessa fase inclui-se outro amigo, Thomas Sydenham (1624-1689), um eminente cientista médico, chamado "O Hipócrates Inglês" e que, pelo seu livro "Observações Médicas" publicado em 1676, tornou-se o fundador da medicina clínica. Locke escreveu então Essays on the Law of Nature, ("Ensaios sobre a Lei da Natureza") em 1663-64, mas nunca publicou essa obra.
Locke foi eleito Censor de Filosofia Moral em 1663 e manteve o cargo por um ano, ao fim do qual iria deixar Christ Church. Seu irmão morreu aquele ano em Pensford e Locke decidiu passar algum tempo fora como diplomata, em lugar de continuar na sua posição acadêmica ou estudos científicos.
Missão diplomática. A experiência diplomática que teve Locke, apesar de curta, teve importante reflexo em sua filosofia. Ele foi o secretário da missão diplomática de Sir Walter Vane a Brandenburg em 1665. Foi sua primeira viagem ao continente. Em Brandenburgo impressionou-o a tolerância entre as várias facções religiosas e escreveu a esse respeito uma carta para Boyle, ressaltando que aquela paz devia-se parte ao poder dos magistrados, parte à boa natureza e prudência do povo, que mantinha diferentes opiniões sem nenhum ódio secreto ou rancor. Efetivamente, o eleitorado de Brandenburg mantivera-se tanto quanto possível neutro na Guerra dos Trinta Anos, - entre católicos, calvinistas e luteranos, - sofrendo, no entanto, a invasão dos suecos. Quando Frederico Guilherme, o Grande Eleitor (1620-1688) assumiu o poder em 1640, iniciou um programa de reconstrução do principado incluindo desde obras militares de fortificação a obras civis como a construção de canais de navegação, e efetivou a união da Prússia ao eleitorado, o que aumentava consideravelmente seu poder e importância no contexto político europeu. A partir dessa experiência em Brandenburgo Locke começou a rejeitar a visão de Hobbes que ele antes aceitava. Sua atuação na missão causou boa impressão a muitos na Inglaterra e no seu retorno em 1666 lhe foram oferecidas numerosas oportunidades em postos diplomáticos, inclusive de imediato na Espanha, os quais ele declinou devido ao seu interesse em medicina, retornando ao seu refúgio em Oxford.
Médico e Conselheiro Político. Como médico chamou a atenção de Lord Anthony Ashley Cooper (1621-1683) político parlamentarista, futuro primeiro conde de Shaftesbury. O conhecimento começou acidentalmente em 1666, por intermédio de Sydenham. Locke desejava permanecer em Oxford e obter o grau de Doutor em Medicina sem ter que frequentar todas as classes. Lord Ashley obteve do Secretário de Estado uma carta para o Christ Church College permitindo a Locke estudar sem as obrigações acadêmicas de aluno. Locke então deixou a tutoria ao final do ano. Na primavera seguinte, em 1667 Lord Ashley o convidou para fazer parte da equipe de empregados de sua casa, servindo como médico da família. Locke aceitou e viajou para Londres.
Lord Ashley era um político parlamentarista, ousado e agressivo, oponente radical das medidas de Carlos II (1630-1685) que tentava fortalecer o absolutismo. Seus ideais políticos eram a monarquia constitucional, a sucessão do trono por um protestante, liberdades civis, tolerância religiosa, governo através do parlamento, e expansão da economia britânica. Como tais ideais eram afins com os defendidos por Locke, havia entre ambos amizade e um entendimento perfeito. Apesar de não se dar bem com o clima de Londres, o período junto a Ashley foi certamente o mais ativo da vida de Locke. Alem de Lord Ashley e Thomas Sydenham, seu círculo de cientistas intelectuais amigos incluíam, entre outros, também John Mapletoft e James Tyrrell, este um colega médico de Sydenham e que era também um "divine" (teólogo).
Locke encontrava-se ainda com representantes da escola de humanistas cristãos, os Platônicos de Cambridge, intelectuais que, apesar de simpáticos à ciência empírica, opunham-se ao materialismo por considerá-lo falho em explicar o elemento racional na vida humana. Tendiam a ser liberais em política e religião, porém tanto quanto eles ensinavam um Platonismo que se apoiava na crença em ideias inatas, Locke não poderia seguí-los; mas a sua tolerância, a ênfase deles na prática dos costumes como uma parte da vida religiosa, e sua rejeição ao Materialismo eram aspectos que Locke achava atraentes. Um destes humanistas, adepto da existência de ideias inatas, era Ralph Cudworth, cuja obra "Verdadeiro sistema intelectual do universo" influenciou consideravelmente o pensamento de Locke, e cuja filha haveria de hospedá-lo em seus últimos anos. O livro I do Ensaio de Locke é dedicado à crítica do inatismo defendido pelo amigo. A escola humanista estava muito de perto de uma outra que influenciou Locke nessa época, a do Latitudinarianismo, um grupo liberal dissidente da Igreja Anglicana. Para esse grupo, se um homem confessava Cristo, isto apenas deveria ser suficiente para habilitá-lo a ser membro da Igreja Cristã, e acordo em coisas não essenciais não deveria ser requerido, um grupo liberal dissidente da Igreja Anglicana. Esses movimentos prepararam Locke para a escola antidogmática e liberal de teologia que ele encontraria mais tarde na Holanda, uma escola em rebeldia contra a estreiteza do Calvinismo tradicional. Em 1667 escreveu um ensaio sobre a tolerância que seria a base para o futuro Letters on Toleration.
Os interesses de Locke afastaram-se por certo tempo da medicina. Em 1668 Benjamin Whitcote, o teólogo ("divine") latitudinário líder da Cambridge School, vigário da St. Lawrence Jewry, em Londres, atraiu Locke para sua congregação. Esta professava uma forma de cristianismo que considerava a teologia como racional, e isto acendeu o interesse de Locke pela religião e as escrituras, sobre o que irá publicar um trabalho, mais tarde. Interessou-se também por Economia, preparando o trabalho que publicaria anos mais tarde com o título Some Considerations of the Lowering of Interest and Raising the Value of Money ("Algumas considerações sobre a redução dos juros e o aumento do valor da moeda"). Porém retornou ao interesse médico quando Ashley adoeceu subtamente. Ele salvou a vida do estadista por meio de uma habilidosa cirurgia, quando este adoeceu em maio de 1668. Então Locke teve que por de lado qualquer projeto para se entregar inteiramente a dar-lhe cuidados médicos. Diagnosticou a doença como problema do fígado. Fez um cirurgião drenar um cisto, inserindo um tubo de prata. Ashley recuperou maravilhosamente e concluiu que devia sua vida a Locke.
Locke era conselheiro pessoal de Ashley não apenas em matéria médica mas em assuntos gerais. Fez os acertos para o casamento do herdeiro de Ashley com a filha do duque de Rutland, assistiu sua nora em 1671, no seu resguardo, e dirigiu a alimentação e a educação do recém nascido que viria a ser o III conde de Shaftesbury, o famoso autor de Characteristics of Man, Manners, Opinions, Times, obra que despertou grande interesse entre os intelectuais europeus, inclusive Kant. Assessorou Lord Ashley em vários assuntos políticos importantes e conviveu com os mais altos círculos intelectuais e políticos da época. Devido a Lord Ashley ter direitos de propriedade na Carolina, Estados Unidos, Locke participou da elaboração de uma constituição para aquele futuro estado americano. Nesta época começa também a redigir o que seria "O Ensaio sobre o Entendimento Humano" no que trabalhou por mais de 20 anos.
Nos anos passados em Londres Locke tornou-se também membro da Sociedade Real, onde se procedia a discussões, experiências e demonstrações científicas. A sociedade fora fundada cinco anos antes e como membro Locke estava em dia com os avanços científicos; foi eleito em 1668. No entanto, seus próprios aposentos eram uma extensão da Sociedade. Seus amigos certamente ansiavam por aquelas horas de alheamento das preocupações diárias em que, na mais cálida amizade, se reuniam nos aposentos de Locke para conversar sobre achados científicos e sobre questões filosóficas. O próprio Locke iniciava os debates e assim discutiu e anotou os pontos de vista sobre o conhecimento humano como rascunho do que 19 anos mais tarde seria o seu famoso "Ensaio".
Período na França. A partir 1667 Lord Ashley ganhou poder, dando um passo na direção do mais alto cargo do reino ao integrar o grupo de cinco membros do ministério do Rei conhecido como a "Cabal", um trocadilho porque as primeiras letras dos nomes de seus cinco membros formava a palavra cabal, o mesmo que "cabala". Em 1672 Ashley foi feito Primeiro Conde de Shaftesbury e ao final desse mesmo ano foi nomeado Lord Chanceler da Inglaterra, o mais alto do governo. Na ocasião Locke vinha sofrendo muito com a fumaça e a neblina de Londres; no inverno Locke tossia dia e noite e tinha cada vez maior dificuldade para respirar. Apesar de necessitar sempre da assistência de Locke, Lord Ashley permitiu-lhe umas férias na França. Locke decidiu viajar com um grupo para a França., em viagem de lazer. De lá foi chamado de volta à Inglaterra por Ashley, primeiro para ser seu secretário de benefícios "Secretary of Presentations"; cabia-lhe supervisionar assuntos eclesiásticos que eram afetos à chancelaria de Ashley e, no ano seguinte, secretário do Conselho do Comércio e Agricultura (Council of Trade and Plantations) que Ashley havia criado.
Após dois anos na secretaria do Conselho do Comércio Locke, muito incomodado pela asma de que sofria, deixou Londres, voltando para Oxford decidido a finalizar os estudos requeridos para o bacharelado em Medicina, o que obteve em fins de 1674. No início do ano seguinte foi indicado para uma das duas residências de medicina do colégio. Receioso, no entanto, da situação política que se agravava, Locke decidiu deixar a Inglaterra e passar uma temporada na França, país do qual guardava agradáveis recordações de férias. Buscou o clima ameno do sul da França, fez pelo interior viagens de lazer enquanto residia em Montpellier. O diário que escreveu desse período contem suas observações sobre lugares e costumes, e sobre as instituições do país. Contem também muitos pensamentos que depois tomariam forma de postulados no seu "Ensaio sobre o Entendimento Humano". Em Montpellier recebeu a notícia de que Lord Ashley havia sido preso na Torre de Londres. Se estivesse na Inglaterra, teria sido preso com ele, do mesmo modo que outros auxiliares imediatos seus foram detidos.
A permanência de Locke na França deixou de ser apenas interesse seu, quando se tornou tutor do jovem filho de um amigo de Lord Ashley, que lhe escreveu uma carta solicitando-lhe assumir aquele encargo. No caminho entre Montpellier e Paris, onde iria encontrar o jovem discípulo, Locke sofreu o contratempo de uma febre alta e precisou de um mês para recuperar-se e concluir a viagem até a Capital, onde o jovem o aguardava.
Em Paris, Locke fez contactos que influenciaram profundamente sua visão da Metafísica (A natureza do ser) e da epistemologia, principalmente com a escola seguidora de Gassendi e particularmente com seu líder François Vernier. O já falecido Pierre Gassendi (1592-1655) , filósofo e cientista, havia criticado a super-especulação na filosofia de Descartes e defendera o retorno à doutrina de Epicuro, isto é ao empirismo (enfatizando a experiência dos sentidos), ao hedonismo (sustentando ser o prazer o bem), e à física corpuscular (com a realidade feita de partículas atômicas). Gassendi sustentava que o conhecimento do mundo exterior depende dos sentidos, porém o homem pode, através da razão, derivar muita informação além da evidência ganha empiricamente.
Exílio na Holanda. Na primavera de 1678, após quatro anos na França (1675-79), Locke retornou à Inglaterra e imediatamente para a casa de Ashley Cooper. Este havia ficado preso um ano na Torre, mas, ao tempo da volta de Locke já estava livre e fazendo política novamente, como presidente do Conselho Privado, enquanto seus inimigos estavam prisioneiros em seu lugar. Locke era novamente seu braço direito.
Lord Ashley, agora conde de Shaftesbury estava do lado do Parlamento e cada vez mais se opunha às medidas de Carlos II (1630-1685) que tentava fortalecer o absolutismo. Por outro lado, o herdeiro do trono, James, irmão de Carlos II, era católico, e a maioria protestante liderada por Shftesbutry queria excluí-lo da sucessão. Em 1681, por não conseguir conciliar os interesses do rei com os do Parlamento, Lord Ashley foi demitido. Carlos II dissolveu o parlamento em 1681.
Em 1682 as disputas entre realistas e parlamentaristas reacendeu devido a Londres estar confiada a cheriffs fieis à monarquia. Descontente com o controle firme dos realistas sobre a política na cidade, e consequente perda de poder do seu grupo, Lord Ashley pensou organizar uma revolta mas seus planos foram descobertos e ele e seus auxiliares e amigos passaram a ser vigiados com olhos de falcão. Espiões foram designados para vigiar inclusive a Locke. Pelo final do ano o governo tinha evidências suficientes para prender Lord Ashley mas este, absolvido por um jure de Londres, fugiu para a Holanda, onde veio a falecer no início de 1683.
Locke continuou sob vigilância na Inglaterra. A fama de Hobbes, morto em 1679, foi logo sucedida pela de John Locke. Porém a permanência na Inglaterra tornou-se para ele progressivamente insustentável. Em 1683 uma carta foi enviada da Corte ao reitor do Christ Church College advertindo-o de que Locke, que era da casa do conde de Shaftesbury (Lord Ashley) havia em várias ocasiões se comportado facciosa e desobedientemente com o governo. Locke apresentou sua defesa em uma carta e recebeu de um amigo, Lord Pembroke, a garantia de que havia limpado seu nome com o Rei.. Porém Locke decidiu refugiar-se na Holanda, confiando a um amigo íntimo, o parlamentar Edward Clarke, seus interesses na Inglaterra. No ano seguinte seu nome foi incluído numa lista enviada ao governo holandês de 84 traidores procurados pelo governo Inglês. Para escapar de ser preso e deportado, Locke mudou de nome, fazendo-se chamar Dr. van der Linden. Mudava-se de uma cidade para outra e visitava furtivamente seus amigos. porém em breve pode mostrar-se novamente e viajar livremente por toda a Holanda. No exílio sua saúde melhorou, e fez muitos amigos entre os intelectuais holandeses.
Por cinco anos Locke permaneceu na Holanda onde se deu muito bem, dedicou-se à medicina, fez amigos e teve tranquilidade para colocar em ordem seus pensamentos sobre as questões filosóficas que o preocupavam e escrever, principalmente mais alguns capítulos do Essay Concerning Human Understanding e do Letters on Toleration. É a época em que Isaac Newton comunica à Royal Society de Londres, em 1686, sua hipótese sobre a gravitação universal e Leibniz escreve obras importantes (o "Discurso de Metafísica" e o Systema Theologicum). De modo particular fez amizade com o teólogo intelectual Philip van Limbroch, o líder do clero Remonstrant, uma linha dissidente do protestantismo holandês a qual, tanto quanto os latitudinários ingleses, seguia a linha liberal do teólogo holandês Jacobus de Arminius, em oposição à linha ortodoxa radical predominante de Gomarus. Decicou a Limbroch a Epistola de Tolerantia", livro foi completado em 1685 porém publicado anonimamente na Holanda somente em princípios de 1689 para logo depois ter uma edição corrigida na Inglaterra, em 1690. A controvérsia que se seguiu a este trabalho levou Locke a publicar, além da segunda "Carta" de 1690, uma terceira, em 1692. Um abstract do "Ensaios" foi publicado no Bibliotheque universelle Leclerc em 1688, um jornal no qual Locke colaborou durante o seu exílio.
Locke permaneceu na Holanda por cinco anos, até 1688, quando Jaime II, coroado em 1685, foi derrubado. O casamento de Carlos II não deu filhos. Pouco antes dele morrer, Catarina levou-o a reconciliar-se com a Igreja Católica. Com o seu falecimento em 1685 Jaime II (1685-88), católico, seu irmão, ascendeu ao trono inglês. Em 1692 Catarina retornou a Portugal. Parecia que o exílio na Holanda iria ser longo para Locke. O rei católico, irmão e sucessor de Carlos II, tentou sufocar a igreja anglicana. O Parlamento reagiu e o depôs; obrigando-o a fugir para a França. Foi a célebre "Revolução Gloriosa". O Parlamento chamou Maria Stuart, protestante, filha do rei deposto, (Maria II da Inglaterra 1689-94) que reinou conjuntamente com seu marido Guilherme de Orange (Guilherme III da Inglaterra) até 1694, quando falece Maria II, e 1702, quando falece Guilherme III, e o trono passa, - ainda em vida de John Locke -, para a devotada anglicana Anne (1665-1714), irmã de Maria II.
Últimos
anos. A "Revolução sem sangue e gloriosa" ("the glorious bloodless
revolution") havia cumprido os ideais de Shaftesbury e Locke. Primeiro e
principalmente, a Inglaterra tornou-se uma monarquia constitucional controlada
pelo Parlamento; a partir de Guilherme III o monarca inglês é figura decorativa.
Segundo, após a revolução tornaram-se maiores a liberdade do indivíduo nas
cortes de justiça, a tolerância religiosa e a liberdade de pensamento e
expressão.
Encorajado a voltar para a Inglaterra pela mudança política e também porque foi
convidado a morar com seu amigo Dr. Charles Goodall, Locke pôs seus negócios em
ordem, fez as malas e partiu para a Inglaterra em um domingo, 20 de fevereiro,
1689 a bordo do barco Isabella.
Após seu regresso o filósofo começou a frequentar os salões do amigo Lord Pembroke onde ele encontrou-se com alguns de seus mais famosos contemporâneos, inclusive Isaac Newton. Locke trocou cartas com Newton a respeito desde as órbitas planetárias como das Escrituras. Apesar da situação favorável, Locke, desde sua volta participou pouco da política. O novo governo reconheceu seus serviços pela causa da liberdade e lhe foi oferecido o posto de embaixador britânico em Berlim ou Viena, o primeiro junto a corte de Frederick III, que alguns anos depois haveria de fundar o reino da Prússia unindo os territórios herdados de seu pai, Frederico Guilherme, em cujo reinado Locke estivera em missão diplomática na antiga capital, Brandenburgo. Locke recusou ambos os postos alegando seus problemas de saúde. Porém aceitou o cargo menos importante de membro da Comissão de Apelação (Commission of Appeals) no mesmo ano de seu regresso.
Por ocasião de seu regresso Locke contava cinquenta e sete anos. Com problemas de saúde motivados pela poluição atmosférica de Londres, deixava a cidade tantas vezes quanto possível em visita a amigos no interior, hospedando-se finalmente na mansão de Oates, uma pequena propriedade rural pertencente Sir Francis e Lady Masham. Sua hospedeira era uma mulher que ele tinha conhecido por muitos anos, por ser filha do já mencionado Ralph Cudworth, o professor platonista de Cambridge que Locke admirava pelo tipo de teologia liberal; uma crescente afinidade intelectual com a família levou-o a aceitar a oferta de moradia. Em casa de Lady Masham. Sua saúde melhorou e de lá continuou sua influência política como líder intelectual dos parlamentaristas Whigs. A maior tarefa deste último período de sua vida, no entanto, seria a publicação de seus trabalhos, os quais eram o produto de longos anos de gestação. Encontrou logo que retornou, editor para seus dois grandes trabalhos, o famoso "Ensaio Sobre o Entendimento Humano", e o igualmente importante Two Treatises of Government ("Dois Tratados Sobre o Governo Civil"). Publicou este último anonimamente, porém tão determinado a ocultar sua autoria dessa obra que destruiu todas as cartas e manuscritos a ela referentes.
Em março de 1690 apareceu o longamente esperado "Ensaio sobre o Entendimento Humano" (Essay concerning Human Understanding), sobre o qual havia trabalhado intermitentemente desde 1671. O livro alcançou sucesso imediato e provocou uma volumosa literatura de ataque e resposta. De uma parte os jovens queriam introduzi-lo na universidade. Uma versão simplificada do Ensaio foi publicada como introdução para estudantes universitários, e de outro as elites se reuniram para descobrir um meio de suprimi-lo. Novas edições revistas surgiram em 1694, 1695, e 1700. As últimas edições contêm muitas modificações devidas à correspondência do autor com William Molyneux, do Trinity College, de Dublin, um devotado discípulo, com o qual Locke tinha uma calorosa amizade.
Outros interesses também ocuparam Locke ao longo da década de 90. As dificuldades financeiras do novo governo levaram-no a publicar em 1691 o acima citado Some Considerations of the Consequences of Lowering of Interest, and Raising the Value of Money ("Algumas considerações sobre a redução dos juros e o aumento do valor da moeda") com um desdobramento em novas considerações sobre a questão publicada quatro anos mais tarde. Assistiu o amigo Edward Clarke, já citado, membro da Casa dos Comuns, na preparação de alguns atos que o mesmo defendeu no parlamento: projetos em favor dos direitos do cidadão (ato sobre o direito de busca em casa dos suspeitos) e sobre a liberdade de imprensa (ato regulamentando as impressões gráficas).
Parece que a partir do simples gosto por cuidar da saúde das crianças, Locke desenvolveu um interesse por normas úteis à sua educação. Ele havia escrito a Clarke, da Holanda, uma série de cartas aconselhando-o quanto à melhor educação de seu filho. Estas cartas formaram a base de seu influente Some Thoughts Concerning Education ("Alguns pensamentos relativos à Educação"), saído em 1693, criando novos ideais no campo da educação.
Em 1695 ele publicou um tratado religioso com um elevado apelo por um cristianismo menos dogmático, intitulado The Reasonableness of Christianity em que dá as escrituras como "uma coleção de escritos destinados por Deus para a instrução do grosso analfabeto da humanidade no caminho da salvação, e, portanto, de modo geral e nas questões principais, para ser entendida no sentido pleno e direto de palavras e frases". Publicou essa obra anonimamente. Durante esse período participou também de um Club denominado "O colégio", um agremiação destinada a discutir assuntos políticos e através do qual Locke suave e discretamente influía sobre o Parlamento. Retornou ainda uma vez à vida pública, quando, em 1696, foi escolhido pelo Rei para ser um dos Comissários para Comércio e Agricultura. Para cumprir suas obrigações Locke foi forçado a mudar-se de Oates para Londres, a despeito do agravamento de sua asma. Neste cargo Locke tratava de assuntos de comércio com as colônias e agricultura, exercendo uma mão firme dentro do conselho. Quatro anos mais tarde decidiu afastar-se do Conselho devido principalmente a sua saúde decadente.
Últimos anos. Nos anos seguintes Locke raramente deixou Oates. Muitos amigos o visitaram lá, como o amigo parlamentar Edward Clarke com a esposa e os filhos, aos quais Locke dedicava grande afeição, e inclusive Sir Isaac Newton, que não veio discutir matemática, porém as Epístolas de São Paulo, um assunto que interessava muito a ambos. Outro visitante frequente era seu jovem amigo Anthony Coolins (1676-1729) que mais tarde publicaria seu célebre Discouse of Free-thinking (1713) além de dois tributos póstumos a John Locke publicados em 1708 e 1720.
Em seus últimos anos ocupou-se de
principalmente de responder a críticas ou revisar edições de seus trabalhos.
Uma das críticas teve maior repercussão; foi a de Edward Stillingfleet, bispo de
Worcester, que, no seu Vindication of the Doctrine of the Trinity (1696), atacou
a "nova filosofia". Sua crítica chamou atenção para um dos pontos menos
satisfatórios do "Ensaio", sua explicação da idéia de "substância". Locke
respondeu no início de 1697 em A Letter to the Bishop of Worcester.
Stillingfleet retrucou poucos meses depois e Locke aprontou logo uma segunda
carta. Stillingfleet fez nova replica em 1698 e uma extensa carta de Locke
apareceu em 1699, ano em que a polêmica foi interrompida pela morte do bispo.
Ao fim de sua vida Locke ficou extremamente doente ao ponto de não poder levantar-se do leito. Faleceu a 28 de outubro de 1704, aos 72 anos. Foi enterrado na igreja paroquial de High Laver.
FILOSOFIA
Teoria do Conhecimento
Origem das idéias. A principal preocupação de Locke em sua teoria do conhecimento foi combater doutrina difundida por Descartes, da existência de idéias inatas na mente do homem. Para Locke a mente humana era como uma folha em branco que receberia impressões através dos sentidos a partir das experiências do indivíduo, sem trazer consigo, do nascimento, quaisquer idéias tais como a de "extensão", de "perfeição" e outras, como pretendia Descartes. Diz Locke, no parágrafo 3 do Capítulo 2, "Das idéias simples", do livro II, do seu "Ensaio sobre o entendimento humano": "Somente são imagináveis as qualidades que afetam aos sentidos."..."E si a humanidade houvesse sido dotada de tão somente quatro sentidos, então, as qualidades que são o objeto do quinto sentido estariam tão afastadas de nossa noticia, de nossa imaginação e de nossa concepção, como podem estar agora as que poderiam pertencer a um sexto, sétimo ou oitavo sentidos"...que talvez existam em outras criaturas "em alguma outra parte deste dilatado e maravilhoso universo". Todas as idéias vêm ou da experiência de sensação ou da experiência de reflexão.
Idéias de sensação.
Destas ele diz: "Em primeiro lugar, nossos sentidos, que têm trato com
objetos sensíveis particulares, transmitem respectivas e distintas percepções de
coisas à mente, segundo os variados modos em que esses objetos os afetam, e é
assim como chegamos a possuir essas idéias que temos do amarelo, do branco, do
calor, do frio, do macio, do duro, do amargo, do doce, e de todas aquelas que
chamamos qualidades sensíveis. ...a chamo sensação".
Mecanismo de geração das idéias de sensação. Antecipando-se, de certo modo,
à teoria corpuscular da luz, diz: "E como a extensão, a forma, o número e o
movimento de corpos de grandeza observável podem perceber-se a distancia por
meio da vista, é evidente que alguns corpos individualmente imperceptíveis devem
vir deles aos olhos, e desse modo comunicam ao cérebro algum movimento que
produz essas idéias que temos em nós acerca de tais objetos"..."Vamos a supor,
então, que os diferentes movimentos e formas, volume e número de tais
partículas, ao afetar aos diversos órgãos de nossos sentidos, produzem em nós
essas diferentes sensações que nos provocam as cores e cheiros dos objetos; que
uma violeta, por exemplo, por ou impulso de tais partículas imperceptíveis de
matéria, de formas e volume peculiares e em diferentes graus e modificações de
seus movimentos, faça que as idéias da cor azul e do aroma dessa flor se produza
em nossa mente."
Tipos de idéias de sensação. Locke utiliza o termo "idéia" com um significado amplo. Inclui todos os diferentes modos da experiência de consciência: representação e imagem, percepção, conceito ou noção, sentimento, etc. um uso muito diverso do que, por exemplo, faz Platão.
Idéias de qualidades primárias. São de qualidades primárias aquelas idéias que concebemos por influência direta do objeto. "Assim consideradas, diz Locke, as qualidades nos corpos são, primeiro, aquelas (idéias) inteiramente inseparáveis do corpo, qualquer que seja o estado em que se encontre. "Por exemplo, tomemos um grão de trigo e dividamo-lo em duas partes; cada parte tem (a idéia de) solidez, extensão, forma e mobilidade. ... e si se segue dividindo até que as partes se tornem imperceptíveis, reterão necessariamente, cada uma delas, todas essas qualidades."...
Idéias de qualidades secundarias. Mas, em segundo lugar, há idéias de qualidades tais que em verdade não correspondem a nada nos objetos mesmos, e sim a poderes que os objetos têm de produzir indiretamente em nós diversas sensações. Sua aparência, forma, volume, textura e ou movimento de sus partes imperceptíveis, e assim são as cores, os sons, os gostos, cheiros, etc. A estas Locke chama "qualidades secundarias", e teoria que, do mesmo modo como as coisas produzem em nós as idéias de qualidades primárias, também produzem as ideias das qualidades secundarias, ou seja, pela operação de partículas imperceptíveis sobre nossos sentidos. As qualidades secundarias dependem das primarias. Quanto disse tocante às cores e cheiros, pode entender-se também respeito a gostos, sons e demais qualidades sensíveis semelhantes, as quais, qualquer que seja a realidade que equivocadamente lhes atribuímos, não são nada em verdade nos objetos mesmos, sino poderes de produzir em nós diversas sensações, e dependem de aquelas qualidades primarias, a saber: volume, forma, textura e movimento de sus partes, como já disse.
As idéias das qualidades primarias são semelhanças com algo que está nos corpos, mas as qualidades secundárias, nada há nos corpos que se lhes assemelhem. Nos corpos somente há as ditas qualidades primárias que, no entanto, podem, por variação de volume, forma e movimento das partes imperceptíveis dos corpos mesmos produzir em nós essas sensações que são secundárias; como a idéia de doce, azul, quente, etc.
Idéias de reflexão. A mente não tem idéias inatas, mas faculdades inatas: a mente percebe, lembra, e combina a idéias que lhe chegam do mundo exterior. Ela também deseja, delibera, e quer, e estas atividades mentais são elas próprias a fonte de nova classe de idéias.
Tipos de idéias de reflexão. De acordo com Locke todas as idéias de Reflexão caem nas seguintes subcategorias:
Memória: a habilidade de chamar uma idéia
ausente de volta à consciência;
Retenção: a habilidade de manter um pensamento na consciência;
Discernimento: a habilidade de reconhecer diferenças entre as coisas;
Comparação: a habilidade de reconhecer as semelhanças entre as coisas;
Composição: a habilidade de construir novas idéias tomando como material outras
ideias; e
Abstração, a habilidade de distinguir princípios de relação abstratos (tais como
provas matemáticas), os quais jazem por trás de outras idéias e assim criar uma
ideia de generalidade.
A experiência é pois dupla. Nossa observação tanto pode visar objetos externos da sensibilidade quanto as operações internas da própria mente. No primeiro caso as ideias são de sensação, no segundo, de sentido interno ou "reflexão". No entanto, sem a sensação a mente não teria com que operar e portanto não poderia ter idéias de suas operações, ou seja, idéias de reflexão.
Classificação estrutural das idéias. Essa classificação geral em idéias de sensação e de reflexão tem duas categorias cada uma: Ideias simples e idéias complexas.
Ideias simples são aquelas que
não podem ser distinguidas em diferentes idéias, como quente, frio, branco,
etc., e Ideias complexas as que são produzidas pelo entendimento por repetição,
comparação, união de ideias simples.
E nada ha mais claro para um homem que a percepção clara e distinta que tem das
ideias simples; a frialdade e a dureza, que um homem sente em um pedaço de gelo,
são, na mente, ideias tão distintas como o aroma e a brancura de um lírio, ou
como o sabor do açúcar e o aroma de uma rosa. No entanto, tem sido demonstrado
por alguns autores que certos exemplos de idéias simples dados por Locke são na
verdade idéias complexas.
Definição de idéias complexas. A mente tem o poder de considerar a varias idéias unidas, como uma só idéia. As idéias complexas são aquelas produzidas pelo conhecimento repetindo, comparando ou unido idéias simples. Às idéias assim feitas de varias idéias simples unidas Locke chama "idéias complexas". Exemplo: beleza, gratidão, um homem, um exército, o universo. As idéias simples são os elementos das idéias compostas, seja combinadas na idéia de uma coisa única, como por exemplo, a idéia de homem ou de ouro, seja combinadas em idéias de coisas compostas, mas que continuam representando coisas distintas, como são as idéias de relação, como a de filiação, que une, sem alterá-las as idéias de pai e filho.
Subdivisão das idéias complexas. Diz Locke: "Qualquer que seja a maneira como as idéias complexas se compõem e descompõem, e ainda quando seu número seja infinito, e não tenha término a variedade com que enchem e ocupam os pensamentos dos homens, sem embargo me parece que podem compreender se todas dentro destes três capítulos: 1) Os modos. 2) As substancias. 3) As relaciones".
Modos: Desculpando-se por usar a palavra em um sentido um tanto diferente do significado habitual, Locke chama "modos" as idéias complexas originárias de qualquer combinação, e que não subsistem por si mesmas. Tais são as idéias significadas pelas palavras triângulo, gratidão, assassinato, poder, identidade, ou um número, por exemplo.
Subdivisão dos modos. Locke distingue duas classes de modos, simples e compostos ou mistos.
Nos primeiros a idéia simples combina-se consigo mesma, como a idéia de número, que resulta da combinação das idéias de unidades; ou a de espaço, proveniente da combinação das idéias de partes homogêneas. A idéia do Infinito é um modo simples, resultante da repetição ilimitada da unidade homogênea de número, duração e espaço. Também a idéia de Poder é um modo simples, formado pela repetida experiência de modificações comprovadas nas coisas sensíveis e no próprio homem por um determinado agente. Os modos compostos, ou mistos, derivam da combinação de várias idéias simples diferentes, heterogêneas. Exemplos: a idéia de beleza, que consiste em uma certa composição de várias idéias de cor e forma que produz gozo no espectador.
Substância. Locke define Substâncias segundo diz a própria palavra, coisas que subsistem por si; seria o caso da idéia de homem entre outras. A Substância não é mais que o conjunto de idéias simples, que a experiência mostra sempre agrupadas: o ouro é dúctil, denso, amarelo, etc. O substrato daquilo que os sentidos nos transmitem é incognoscível. A substância, como coisa em si, existe, mas não se pode saber o que seja, e a única investigação possível é a pesquisa experimental das ideias de qualidade que lhes atribuímos: conjunto de idéias simples de sensação. Objeta-se a Locke que tomar "substância" como um substrato que imaginamos para as coisas é uma simplificação inaceitável. Ao contrário dos modos, subsistem por si mesmas e são singulares ou coletivas. Substancias singulares são aquelas combinações de idéias simples que se supõe representam distintas coisas particulares que subsistem por si mesmas. Assim, si à substancia se une a idéia simples de um certo cor esbranquiçado apagado, com certos grados de peso, de dureza, de ductibilidade e de fusibilidade, teremos a idéia do chumbo. Substancias coletivas são aquelas combinações de idéias reunidas, como um exército de homens, ou um rebanho de ovelhas; essas idéias coletivas de varias substancias assim reunidas, são, elas mesmas, uma idéia única, complexa, como o é, por exemplo, a de homem.
Alma: analogamente a substância, é um conjunto de idéias de reflexão
A relação. Terceiro, a última espécie de idéias complexas é a que Locke chama "relação", que consiste na consideração e comparação de uma idéia com outra. Assim são as propriedades de relações matemáticas como quadrado, triangular, etc. São relações em termos de propriedades relacionais matemáticas como o quadrado, o triângulo, etc.
Mecanismo de geração das idéias complexas. As idéias complexas de substância, modos, e relações são todas produto da atividade de combinação e abstração da mente operando sobre idéias simples que foram dadas, sem qualquer conexão, ou pela sensação ou reflexão. No entanto, Locke não apresenta nenhuma hipótese sobre o próprio mecanismo de associação das idéias, deixando para Hume supor que tal atividade se deve a afinidades várias entre as idéias simples, afinidades que exerceriam a necessária atração para sua combinação ou "associação" em idéias complexas. Enquanto a sensação é um processo passivo, a reflexão pode ser ativa ou passiva. As idéias simples provêem todas das coisas mesmas. A mente não pode ter outras idéias das qualidades sensíveis fora das que lhe chegam do exterior por meio dos sentidos, nem qualquer outra idéia de reflexão diferente das operações de uma substância pensante, que não sejam as que encontra em sí mesma.
Mas apesar de que é certo que a mente é completamente passiva na recepção de todas as suas ideias simples, também é certo que exerce vários atos próprios pelos quais forma outras ideias, compostas de idéias simples, as quais são o material fundamental de todas as demais. Os atos da mente pelos quais esta exerce seu poder associativo sobre sus ideias simples são principalmente estes três:
(1) Combinar várias ideias simples em uma
ideia composta; assim é como se fazem todas as ideias complexas.
(2) Juntar duas ideias, sejam simples ou complexas, para as colocar uma junto a
outra, de tal maneira que se possa vê-las simultaneamente sem combina-las em uma
única; é como a mente obtém todas as suas ideias de relações.
(3) Isolar uma idéia de todas as demais ideias que a acompanham: esta operação
se chama abstração, e é como a mente faz todas sus ideias gerais.
Tudo isto mostra que o modo de operar do homem é mais ou menos o mesmo nos mundos material e intelectual. Porque em ambos o homem não tem poder sobre os materiais, nem para fabricá-los, nem para destruí-los; tudo que faz é, ou uni-los, ou então colocá-los um junto ao outro, ou separá-los completamente.
A verdade. O conhecimento é a "percepção das conexões de um acordo, ou desacordo e repugnância entre nossas idéias". Este acordo ou desacordo pode ser de quatro tipos: identidade ou diversidade, relação, coexistência ou conexão necessária, existência real. O conhecimento humano, argumenta Locke, apóia-se (1) na experiência do mundo exterior adquirida através dos sentidos e (2) sobre aquilo do mundo interior de fatos psíquicos obtido através da introspecção (ou, na terminologia de Locke, "reflexão").
No primeiro caso, o acordo ou desacordo é percebido imediatamente, por intuição; no segundo, ele é percebido através da demonstração, mediante a mediação de uma terceira idéia, porém cada passo na demonstração é ela mesma uma intuição, uma vez que o acordo ou desacordo entre duas idéias comparadas será imediatamente percebido. Isto reduz todo o processo a pura intuição estruturada em reflexão e a própria certeza é intuitiva. Portanto, apesar de que o conhecimento se origina na experiência sensível e introspectiva, isto é apenas o começo; porque muitos outros fatores têm que ser cuidados também - fatores tais como o raciocínio que habilita uma pessoa a deduzir, de proposições empiricamente baseadas, conclusões mais gerais a respeito do mundo, tanto físico quanto mental. Tal raciocínio pode ser indutivo (parte do particular para as leis gerais) ou ele pode ser dedutivo (o geral rege o particular). O raciocínio matemático, por exemplo, é dedutivo; e este tipo de conhecimento é somente para ser entendido. Locke adverte que as proposições da Matemática e da Ética são demonstráveis, porém referem-se à combinação de idéias complexas geradas na própria mente: não são garantia de qualquer coisa fora da mente. O conhecimento matemático e ético envolvem relações entre idéias e não pretendem coisas de existência real.. Por isso suas proposições não são garantia de qualquer coisa fora da mente. Assim, o conhecimentos matemático e ético podem ser firmemente estabelecidos, porque envolvem relações entre idéias e não pretendem coisas de existência real.
A intuição, permite discernir as relações entre afirmações (relações) que garantem a extração de inferências. Através de tais intuições intelectuais, o conhecimento necessário e universal é possível. Porém, a dedução permite a certeza em apenas dois casos; quando se trata do conhecimento de coisas que realmente existem, só existem duas certezas: nossa existência, por intuição, e a existência de Deus, por demonstração. Quanto ao Eu, a certeza intuitiva é proveniente da reflexão (um encadeamento de intuições), que o homem tem de sua própria existência: certeza da existência do nosso Eu (Descartes). Locke concorda com Descartes em que a existência do Eu está implicada em cada estado de consciência. Quanto a Deus, se existem seres inteligentes, deve existir uma causa inteligente. É a certeza demonstrativa da existência de Deus por demonstração: da existência do efeito (o mundo) se infere a existência da causa que o produziu (prova a posteriori). Locke concluiu que, no caso dos seres humanos, o conhecimento intuitivo está limitado em extensão na maioria dos casos, conhecimento é somente provável, e Locke examinou os graus de probabilidade e a natureza da evidência.
Além do conhecimento propriamente (intuitivo e demonstrativo) Locke reconhece um terceiro grau de conhecimento, que não faz jus estritamente a esse nome. Este é nossa apreensão sensível das coisas externas, ou de objetos reais além de nós mesmo e Deus: é a certeza por sensação referente aos corpos exteriores ao homem: certeza da existência das coisas externas por meio da sensação. À esta certeza proveniente da correspondência das idéias à realidade Locke faz corresponder também a verdade encontrada na área das ciências experimentais, área do conhecimento na qual a certeza das ciências ideais (matemáticas e morais) não está presente.
Locke reconheceu que as ciências naturais não podem dar certeza completa. O conhecimento empírico derivado dessa fonte é incerto e nunca propicia mais que probabilidade, enquanto o ideal do conhecimento é a certeza. A certeza no domínio das ciências experimentais, dependeria do critério de verificação da adequação entre as idéias que estão na mente humana e a realidade exterior a ela. No entanto, cuidadoso raciocínio, com a aplicação de raciocínio matemático onde possível, irá aumentar a probabilidade de atingir conhecimento verdadeiro nesse campo.
Vontade. Um outro aspecto da mente humana com a qual lida Locke é o da Vontade. Locke reconhece a existência da vontade humana afirmando que os homens estão basicamente estruturados para experimentar as sensações de dor e prazer, e que toda ação é o resultado de um movimento no sentido de um ou movimento de afastamento do outro. Ele escreve: "A dor tem a mesma eficácia e costumeiramente nos predispõe ao trabalho, que o prazer tem, estando nós tão prontos a empregar nossas faculdades para evitar aquela, como a perseguir a este". Porém mais adiante, no entanto, expressa o pensamento de que o homem é capaz de escolher por si mesmo o que é agradável ou penoso, apesar de possuir instalado pelo criador o mecanismo que dirige o homem para o prazer e para fugir da dor.
Teoria Política
Resposta a Filmer. É opinião de alguns autores que, apesar de publicado depois da Revolução Gloriosa, o Two Treatises of Government ("Dois Tratados sobre o Governo") de Locke não é a justificativa da revolução como pode parecer, nem uma resposta a Thomas Hobbes, cuja doutrina desaprovou, mas sim uma resposta a que Locke havia iniciado a redigir anos antes, em 1681, à teoria absolutista de Robert Filmer, o qual havia dito que a soberania absoluta de Adão legitimava o poder absoluto dos reis como herdeiros de Adão, e mais que o homem nasce sob o controle de seus pais, portanto ele nasce em estado de submissão política. Na primeira parte do "Dois Tratados", Locke responde dizendo que as Escrituras não conferem poder absoluto dos pais sobre seus filhos e portanto o governo total do rei não podia ser justificado por aquela comparação (paradigma). Estranha-se que Locke dispensasse tanta atenção a essa teoria tão absurda.
Natureza Humana. Em todos essas questões sociais e políticas Locke via que o fator último é a natureza do homem. Locke tinha consciência deste ponto ao escrever seu trabalho sobre a Lei da Natureza (Low of Nature) já em 1662. Locke explica a vontade humana afirmando que os homens estão basicamente estruturados para experimentar sensações de dor e prazer, e que toda ação é o resultado de buscar um ou fugir do outro. Para entender o homem, no entanto, não é suficiente observar suas ações, é necessário também perguntar pela sua capacidade de conhecimento. Para Locke, os homens nascem livres e com direitos iguais: "nascemos livres na mesma medida em que nascemos racionais". O governo e o poder político são necessários, mas assim também é a liberdade do cidadão: e em um tipo de governo democrático, monarquia constitucional, um tipo de governo é possível no qual o povo ainda é livre.
Estado natural. Em primeiro lugar, no estado natural não tem governo como nas sociedades políticas, falta uma lei estabelecida, fixa e conhecida; mas os homens estão sujeitos à lei moral, que é a lei de Deus. No entanto, apesar de que a lei natural é clara e inteligível para todas as criaturas racionais, os homens, sem embargo, têm tendência a não considerá-la como obrigatória quando se refere a seus próprios casos particulares. Em segundo lugar, falta no estado de natureza um juiz público e imparcial, com autoridade para resolver os pleitos que surjam entre os homens, segundo a lei estabelecida. Em terceiro lugar, falta no estado de natureza um poder que respalde e dê força a uma causa justa. Aqueles que por injustiça cometam alguma ofensa, lhes é possível fazer que sua injustiça impere por meio da força.
No estado natural os homens seriam iguais, independentes e governados pela razão. Porque no estado de natureza (omitindo agora a liberdade que se tem para desfrutar de prazeres inocentes), um homem possui dois poderes: O primeiro é o de fazer tudo o que lhe pareça oportuno para a preservação de sí mesmo e dos outros, dentro do que lhe permite a lei da natureza; por virtude dessa lei, que é comum a todos eles, ele e o resto da humanidade são uma comunidade, constituem uma sociedade separada das demais criaturas. E si não fora pela corrupção e maldade de homens degenerados, não haveria necessidade de nenhuma outra sociedade, e não haveria necessidade de que os homens se separassem desta grande e natural comunidade para reunir-se, mediante acordos declarados, em associações pequenas e afastadas umas das outras. O outro poder que tem o homem no estado de natureza é o poder de castigar os crimes cometidos contra essa lei. A ambos poderes renuncia o homem quando se une a una sociedade política particular ou privada, si podemos chamá-la assim, e se incorpora a um Estado separado do resto da humanidade.
Propriedade. Locke argumenta que, quando os homens se multiplicaram a terra se tornou escassa, fizeram-se necessárias leis além da lei moral ou lei da natureza. Isto o leva a querer unir-se em sociedade com outros que tanto quanto ele tenha a intenção de preservar suas vidas, sua liberdade e suas posses, e a tudo isso Locke chama de "propriedade". Mas não é esta a causa imediata da constituição do governo. O direito à propriedade seria natural e anterior à sociedade civil, mas não inato. Sua origem residiria na relação concreta entre o homem e as coisas, através do processo do trabalho. O trabalho é a origem e justificação da propriedade. Se, graças a este o homem transforma as coisas, pensa Locke, o homem adquire o direito de propriedade.
Locke considera que, no seu estado natural, o homem é senhor de sua própria pessoa, e de suas coisas, e não está subordinado a ninguém. O resultado que está sujeito constantemente à incerteza e à ameaça dos demais pois no estado natural um é rei tanto quanto os demais, e como a maior parte dos homens não observa estritamente a equidade e a justiça, o desfrute da propriedade que um homem tem em uma situação dessas é sumamente inseguro.
Origem da sociedade. Porque o homem teria criado a sociedade? Devido à ameaça ao gozo da propriedade e à conservação da liberdade e da igualdade. Para evitar a concretização dessas ameaças o homem teria abandonado o estado natural e criado a sociedade política. A sociedade civil tem origem quando a lei moral não é mais respeitada e o homem precisa exercer seu direito natural de punir os transgressores. Faz-se necessária então a administração da Lei conferida, por via de um compromisso social ou contrato a oficiais autorizados. Por traz destes postulados está a idéia da independência do indivíduo. No primeiro e no segundo "Tratado sobre o Governo Civil", Locke sustenta que o estado da sociedade e, consequentemente, o poder político, nascem de um pacto entre os homens. Antes desse acordo os homens viveriam em estado natural. Ao entrar em sociedade, os homens renunciam à igualdade, à liberdade e ao poder executivo que cada um teria no estado natural. Estado Natural.
A tese do pacto social fora defendida por Hobbes (1588-1679) mas para o fim oposto de justificar o absolutismo. Segundo Hobbes, no estado natural todos os homens teriam o destino de preservar a paz e a humanidade e evitar ferir os direitos dos outros (deveres que Locke considera próprio do estado natural). O pacto social primordial seria apenas um acordo entre indivíduos reunidos para empregar sua força coletiva na execução das leis naturais renunciando a executá-las pelas mãos de cada um. Seu objetivo seria a preservação da vida, da liberdade e da propriedade.
Origem do Governo. Na segunda parte, ou Secundo Tratado, trata da questão da verdadeira origem do poder político. Aqui é que ele fala do contrato social enfatizando a bondade e racionalidade naturais do homem. Locke acreditava que a liberdade que o povo podia ter não era absoluta e que o povo cedia parte dessa liberdade a fim de manter a segurança. O Governo, diz Locke, é uma delegação; seu propósito é a segurança da pessoa e da propriedade dos cidadãos, e os indivíduo tem o direito de retirar sua confiança no governante quando este falha na sua tarefa. Por conseguinte, o grande e principal fim que leva a os homens a unir-se em estados e a por-se sob um governo, é a preservação de sua propriedade.
Na sociedade política, pelo contrato social, as leis aprovadas por mútuo consentimento de seus membros e aplicadas por juizes imparciais manteriam a harmonia geral entre os homens. Os homens transferem à comunidade social, através do pacto, o direito legislativo e executivo individuais. O soberano seria, assim, o agente executor da soberania do povo .O acordo que dá legitimidade ao governo é por sua vez fundamentado nos dois direitos do homem na sociedade natural: o de sua preservação e de seus bens e o de castigar a infração à lei natural. Neste acordo vê Locke o fundamento da legitimidade do poder legislativo e do poder executivo. Isto cria o desejo de cada renunciar ao poder de castigar que tem, e de entregá-lo a una sola pessoa para que o exerça entre eles; esto é o que os leva a conduzir-se segundo as regras que a comunidade, o aqueles que tenham sido por eles autorizados para tal propósito, ha acordado. E é aqui donde temos o direito original do poder legislativo e do executivo, assim como o dos governos das sociedades miasmas.
O homem renuncia ao primeiro poder que tem no estado natural, o de empregar a própria força para se defender, confiando essa tarefa ao governo. Esse poder é abandonado pelo homem para reger-se por leis feitas pela sociedade, na medida em que a preservação de si mesmo e do resto dessa sociedade o requeira; e essas leis da sociedade limitam em muitas coisas a liberdade que o homem tinha quando obedecia apenas à lei da natureza.
Em segundo lugar, o homem renuncia ao segundo poder que tem no estado natural, o de empregar a própria força, para castigar os infratores; confiando essa tarefa ao governo; renuncia por completo a sua poder de castigar, e emprega sua força natural —a qual podia empregar antes na execução da lei da natureza, tal e como ele quisera e com autoridade própria— para assistir ao poder executivo da sociedade, segundo a lei da mesma o requeira; pois ao encontrar-se agora em um novo Estado, no qual vai desfrutar de muitas comodidades derivadas do trabalho, da assistência e da associação de outros que laboram unidos na mesma comunidade, assim como da proteção que vai a receber de toda a força gerada por dita comunidade, ha de compartir com os outros algo de sua própria liberdade em a medida que lhe corresponda, contribuindo por si mesmo ao bem, a prosperidade e a seguridade da sociedade, segundo esta se o peça; o qual no é somente necessário, sino também justo, pois os demais membros da sociedade fazem o mesmo. No entanto, o contrato social não implica submissão ao governo.
Revolta. Locke distingue o processo do contrato social criador da comunidade, do subseqüente processo pelo qual a comunidade confia o poder político a um governo...embora contratualmente relacionados entre si, os integrantes do povo não estão contratualmente submetidos ao governo...o homem que confia poder é capaz de dizer quando se abusa do poder. A renúncia ao poder pessoal somente pode ser para o melhor, e por isso o poder do governo e legislatura constituída pelos homens no acordo social não pode ir alem do requerido para a finalidades desejadas. Mas ainda que os homens, ao entrar em sociedade, renunciam a igualdade, a liberdade e ao poder executivo que tinha no estado de natureza, pondo todo este em mãos da sociedade mesma para que o poder legislativo disponha de ele segundo o requeira o bem da sociedade, essa renuncia é feita por cada uno com a exclusiva intenção de preservar-se a si mesmo e de preservar sua liberdade e sua propriedade de una maneira melhor, já que no pode supor-se que criatura racional alguma cambie sua situação com o desejo de ir a pior.
E por isso, o poder da sociedade a legislatura constituída por eles, não pode supor-se que vá mais além do que pede o bem comum, se não que tenha de obrigar-se a assegurar a propriedade de cada um, protegendo-os a todos contra aquelas três deficiências que mencionávamos mais arriba e que faziam do estado de natureza una situação insegura e difícil. E assim, quem quer que ostente o poder legislativo supremo em um Estado está obrigado a governar segundo o que ditem as leis estabelecidas, promulgadas e conhecidas do povo e no mediante decisões imprevisíveis; ha de resolver os pleitos por juizes neutros e honestos, de acordo com ditas leis; e está obrigado a empregar a força da comunidade, exclusivamente, para que essas leis se executem dentro do país; e si se trata de relaciones com o estrangeiro, deve impedir o castigar as injurias que venham de fora, e proteger a comunidade contra incursões e invasões. E tudo isto não deve estar dirigido a outro fim que não seja o de lograr a paz, a segurança e o bem do povo,
Locke é radicalmente contra a justificativa do absolutismo porque a doutrina da monarquia absolutista coloca o soberano e os súditos em guerra entre si. Porém considerava aceitável um povo substituir seu soberano ou governo se ele faltasse com sua parte do compromisso. Sempre que um governante confisca e destrói a propriedade do povo, ou o reduz à escravidão, esse governante se coloca em estado de guerra com o povo. A partir daí os súditos estão dispensados de qualquer obediência, e podem recorrer ao recurso comum, que Deus deu a todo homem contra a força e a violência. A opinião de Locke sobre a rebelião do povo é contrária à de Hobbes para quem o pacto social era a fonte do poder absoluto do monarca. Hobbes achava que a rebelião dos cidadãos contra as autoridades constituídas só se justifica quando os governantes renunciam a usar plenamente o poder absoluto do Estado. Contra essa tese, Locke justifica o direito de resistência e insurreição não pelo desuso mas pelo abuso do poder por parte das autoridades. Quando um governante se torna tirano, coloca-se em estado de guerra contra o povo .
Nesta área Locke não trata da questão em seus pressupostos básicos, mas sim de questões circunstanciais sobre as quais desejou opinar: a questão das colônias americanas, da Companhia das Índias Orientais, da colonização da Irlanda, da rivalidade comercial com a Holanda e França, como também a questão da taxa de juros e a moeda. No seu Some Considerations of the Consequences of the Lowering of Interest and Raising the Value of Money ("Algumas considerações sobre as consequências da redução dos juros e aumento do valor da moeda", 1691), Locke aponta os prejuízos para o comércio que são causados quando a taxa de juros é fixada por lei, advogando que a taxa deve flutuar livremente. Para ele, o dinheiro faz girar a roda do comércio e seu curso não deveria ser dificultado. Quatro anos mais tarde, em seu novo "Further Considerations..." ele defendia sua posição contra a desvalorização da moeda pretendida pelo secretário do Tesouro (1695).
Locke era religioso e considerou tornar-se pastor, porém não era um puritano. Em seu pensamento religioso Locke foge da linha tradicional tanto quanto seus pensamentos contidos no "Ensaio". Não critica a Bíblia, porém examina livremente as escrituras com a mesma objetividade de sua filosofia. Com essa atitude chega a conclusões bastante simples, que são um marco na história da teologia liberal, basicamente em acordo com a fé cristã. Na sua concepção da natureza da religião, ele a descreve como consistindo quase inteiramente em uma atitude de fé intelectual. Em sua opinião, o povo necessita de assistência moral e não de dogmas teológicos ou inspiração intelectual. O propósito do tratado Resonableness of Christianity (1695) é o de lembrar aos homens das controvérsias das escolas teológicas até a simplicidade dos evangelhos como rega da vida humana.
Uma Igreja, de acordo com Locke, é uma sociedade voluntária e livre com o propósito de adorar a Deus. O valor da adoração depende da fé que a inspira. O estado não interfere exceto em relação aos católicos e ateus, os primeiros porque professam obediência a um príncipe estrangeiro e os segundos porque não se pode confiar neles em questões morais como a obediência ao contrato social. "O negócio do Estado, diz ele, não é garantir a verdade das opiniões mas a segurança da comunidade, e de modo muito particular a pessoa e os bens do homem. A Epistola de Tolerantia (Carta a respeito da tolerância) é um apelo à tolerância religiosa; foi publicada anonimamente em 1689, porém era um tema que Locke vinha trabalhando deste seus primeiros tempos em Oxford. Sua correspondência e um trabalho por ele escrito em 1667 mostram seu apoio pela tolerância religiosa, apesar de ter escrito, em 1669, dois outros considerados surpreendentemente conservadores. Sua posição assim se resumia: (1) Nenhum homem tem uma tão completa sabedoria e conhecimento, ele sustenta, que ele possa ditar a forma da religião de outro homem; (2) Cada indivíduo é um ser moral, responsável perante Deus, e isto pressupõe liberdade; e (3) Nenhuma coerção que é contrária à vontade do indivíduo pode assegurar mais que uma conformidade aparente. Seu Common-Place Book (caderno de anotações) indica que a questão já o preocupava mais de vinte anos antes da publicação da primeira "Carta". Se os magistrados deviam ou não ter sob sua alçada as questões religiosas era um assunto acidamente discutido, pela assembleia dos "Divinos" (téologos), ao tempo que era aluno em Westminster e quando entrou na Christ Church, o reitor era John Owen, líder dos independentes.
De interesse religioso são também três da obras que vieram a lume após sua morte: Comentários sobre as epístolas de São Paulo, e o Discourse on Miracles, tanto quanto um fragmento de Fourth Letter for Toleration e An Examination of Father Malebranche's Opinion of Seeing all things in God, e mais Remarks on Some of Mr Norris's Books.
Deus: A respeito da existência de Deus, sua prova está em nossa própria existência. Uma pessoa sabe intuitivamente que ela é algo que existe. Ela sabe que o nada não pode produzir qualquer coisa e então, se ela existe, esta é uma demonstração de que, por toda a eternidade antes dela, existiu aquele que a criou e criou todas as coisas. Esse argumento é do tipo cosmológico.
Seu ponto de vista era de que a educação devia ter fins práticos, de preparar o homem para a vida, e não para o deleite intelectual e o êxito universitário. Os livros Thoughts concerning Education ("Pensamentos sobre a Educação") e Conduct of the Understanding ("Condução do Conhecimento") tem lugar importante na história da filosofia educacional. Neles Locke enfatizou o valor da experiência no desenvolvimento da mente, porém desconsidera radicalmente as diferenças genéticas.
Principais obras:
Letter on Toleration (1689)
Second Letter on Toleration (1690)
Two Treatises of Government (1690)
Essay concerning Human Understanding (1690)
Some Considerations of the Consequences of Lowering of Interest, and Raising
the Value of Money (1691)
Third Letter on Toleration (1692)
Some Thoughts concerning Education (1693)
Further Considerations concerning Raising the Value of Money (1693)
The Reasonableness of Christianity (1695)
A Vindication of the Reasonableness of Christianity (1695)
A Second Vindication of the Reasonableness of Christianity (1695)
A Letter to the Bishop of Worcester (1697)
Discourse on Miracles (posthumous)
Fourth Letter for Toleration (posthumous)
An Examination of Father Malebranche's Opinion of Seeing all things in God
(posthumous)
Remarks on Some of Mr Norris's Books (posthumous)
The Conduct of the Understanding (posthumous) um pequeno tratado
originalmente destinado a ser um capítulo do "Ensaio".
NOTAS:
Carlos I da Inglaterra e Irlanda (1625-1649. Nasceu em 1600, o segundo filho sobrevivente de Jaime VI da Escócia (que viria a ser Jaime I da Inglaterra em 1603) e sua mulher Anna da Dinamarca. Com o falecimento do irmão mais velho, Henry, tornou-se herdeiro do trono. Herdou do pai a crença no absolutismo. Após coroado rei, casou com Henrieta Maria, irmã de Luís XIII, rei da França. Os Puritanos dominavam o parlamento e queriam as razões da guerra com a Espanha. A Inglaterra entra também em guerra com a França por simpatia com os hunguenots (protestantes franceses) e a briga por dinheiro com o parlamento torna-se pior. Carlos I dissolveu o parlamento e governou sozinho por onze anos. Para não precisar de mais autorizações de recursos, terminou a guerra com a Espanha e a França. Governou relativamente bem até 1639, quando entrou em guerra com os bispos escoceses que defendiam sua religião presbiteriana contra a anglicana que o rei desejava impor.. O mal resultado da guerra obrigou Carlos I a convocar o parlamento em 1640, que condenou seu governo e mandou decapitar o ministro Straffor em 1541. Carlos foi à Escócia reunir apoio contra o parlamento, para isto liberou o culto presbiteriano naquele reino. O Parlamento negou-lhe recursos, a rainha foi à Holanda empenhar jóias da coroa, e Carlos equipou seu exército ao mesmo tempo que o Parlamento montava o seu e começaram as escaramuças. Inicialmente Carlos I foi bem. Instalou a corte em Oxford, no Christ Church Colege (monde viria a morar Locke). Ali juntou-se a ele a rainha, trazendo armas da Holanda. A rainha urgiu-lhe atacar os parlamentaristas. Este trouxeram um exército de reforço formado de anti-realistas escoceses 1644. A rainha fugiu para a França e, no ano seguinte, também o príncipe herdeiro Carlos (filho mais velho). Mais disciplinado, o exército do parlamento começou a vencer as batalhas, primeiro comandado por Thomas Fairfax e depois pelo seu auxiliar Oliver Cromwell. Oxford foi tomada (1646) e Carlos I fugiu disfarçado procurando o acampamento dos escoceses que o acolheram em Newark onde ficou um ano. Mas quando dos "convenanters" se retiraram de volta à Escócia, entregaram-no a comissários do Parlamento. Em uma tentativa de fuga mal sucedida, Carlos e seus dois filhos Henry e Elizabeth foram capturados e retidos na ilha de Wight, cujo governador era parlamentarista. Carlos teve aí oportunidade de tentar negociar com os escoceses prometendo-se implantar por três anos a presbiterianismo também na Inglaterra, e com os parlamentaristas, com quem não chegou a termos. Em 1648 o último partidário escocês de Carlos I foi derrotado e terminou a guerra civil. Carlos I foi julgado e executado em 1649. Foi implantada a república. Cromowell proclamou-se Protetor da Inglaterra e dissolveu o Parlamento. Poder absoluto até morrer em 1658.
Carlos II (1630-1685), filho mais velho de Carlos I e Henrieta Maria, refugiado na França, foi proclamado rei da Escócia após a execução de seu pai. Comandando um exército escocês, tentou a invasão da Inglaterra (1651), mas foi derrotado por Cromwell e fugitivo durante 40 dias na Inglaterra , protegido por súditos leais, logrou escapar de novo para a França. Sem apoio dos reis da Europa, nada pode fazer até a morte de Cromwell, quando os ingleses, inclusive os generais do exército de Cromowell, temendo a desintegração do país com a sucessão de Cromwell (um filho seu tentou governar a Inglaterra após a morte do pai), leva o Parlamento a convidar Carlos a retornar à Inglaterra em 1660. Governou (1660-1685) dominado pelo Parlamento. Em 1662 casou com Catarina de Bragança, filha de dom João IV. O casamento foi político e Carlos II se ocupou mais de sua amante. O casamento deu à Inglaterra privilégios comerciais com Portugal e as colônias portuguesas, além dos portos de Tanger (no Marrocos) e Bombaim (na Índia). Em troca, a Inglaterra prometeu proteger a independência de Portugal contra a Espanha. Quando ficou aparente que Catarina não teria filhos, levantou-se uma intriga (O Golpe Papal) no sentido de destruir o casamento de modo que Carlos pudesse casar com uma protestante. Em 1678 acusaram Catarina de tentar envenenar o Rei a fim de por no trono seu irmão católico Jaime. Mas Carlos II não duvidou da inocência de Catarina e deu-lhe apoio até que a questão ficasse esclarecida. Catarina levou-o a reconciliar-se com a Igreja Católica pouco antes dele morrer em 1685, e em 1692 ela retornou a Portugal. Em 1704 ela tornou-se regente de Pedro II, que estava doente. Nascida em 1638, faleceu em dezembro de 1705 em Lisboa. Jaime II, católico (1685-88), irmão e sucessor de Carlos II, tentou sufocar a igreja anglicana. O Parlamento reagiu e o depôs; chamou Maria Stuart, sua filha, protestante (Maria II da Inglaterra 1689-94) que reinou conjuntamente com seu marido Guilherme de Orange, da Holanda (Guilherme III da Inglaterra). Jaime II fugiu para a França. A partir de Guilherme III o monarca inglês é figura decorativa. Guilherme e Maria não tiveram filhos. Sucederam-lhes sua irmã Anne em 1702.
Franciscus Gomarus (Francis Gommer), nascido na Bélgica em 1563 e falecido na Holanda em 1641. Teólogo calvinista e professor, centro de uma disputa dentro da Igreja Reformada Holandesa sobre a predestinação. Gomarus foi pastor de uma igreja Holandesa Reformada em Frankfurt am Main de 1587 a 1593, quando sua congregação foi dispersada por uma perseguição aos protestantes. Em 1594 foi nomeado professor de teologia em Leiden. Quando Arminius (vide acima) também se tornou professor ali e aos poucos se colocou contrário à idéia da predestinação da salvação, Gomarus liderou os seus oponentes. Gomarus sustentava o ponto de vista calvinista rígido de que aqueles eleitos para a salvação tinham já sido escolhidos antes da queda de Adão, enquanto Arminius admitia a possibilidade de que cada homem ser potencialmente um membro dos eleitos. Gomarus debateu as idéias de Arminius perante a assembléia dos estados gerais da Holanda em 1608, e foi um dos cinco ortodoxos que discutiram com cinco arminianos na mesma assembléia em 1609. Mais tarde professor em Saumur e em Groninguen, Gomarus teve participação proeminente no Sínodo de Dordrecht em 1618 como um oponente do arminianos, os quais foram condenados pelos delegados do sínodo.
Jacobus Arminius, nome verdadeiro Jacob Harmensen, Hermansz, ou ainda Harmenszoon (1560-1609), holandês, teólogo e ministro da Igreja Reformada Holandesa que se opôs ao dogma da predestinação e desenvolveu sua própria doutrina conhecida depois como arminianismo. Seu pai faleceu quando Arminius era criança; dois benfeitores custearam seus estudos sucessivamente na escola primária e depois nas universidades de Leiden (1576-1582), Basel e Geneva (1582-1586). Foi ordenado em Amsterdã em 1588, onde se casou.
Em 1603 Arminius foi convidado para uma cadeira de teologia em Laiden, que ele manteve até sua morte. Pôs-se contra seu colega Franciscus Gomarus, o qual pregava que aqueles eleitos para salvação já estavam escolhidos por Deus antes da queda de Adão. Essa predestinação, dogma professado pelo Calvinismo mais radical, não deixava espaço para a misericórdia de Deus, nem para a vontade humana para alcançar a salvação. Então Arminius passou a afirmar uma eleição condicional, na qual a oferta divina da salvação poderia ser ou não afetada pela vontade livre do homem. Após sua morte alguns de seus seguidores deram apoio a suas teses assinando a "Remonstrance", um documento teológico, assinado em 1610, por 45 ministros e submetido aos Estados Gerais.
O ponto crucial do arminianismo é que a dignidade humana requer uma total liberdade de vontade. O arminianismo remonstrante foi debatido em 1618-1619 no sínodo de Dordrecht, uma assembléia da Igreja Reformada Holandesa no qual todos os delegados eram seguidores de Gomarus. O arminianismo foi desacreditado e condenado pelo sínodo, os arminianos presentes foram expulsos, e muitos outros sofreram perseguição. Em 1629, no entanto, os trabalhos de Arminius (Opera theologica) foram publicados pela primeira vez em Leiden, e por volta de 1630 a Irmandade Remonstrante consegui tolerância . Foi finalmente reconhecida oficialmente na Holanda em 1795.
John
Wilkins (1614-1672), lord
cientista e bispo de Chester, um dos fundadores da Royal Society. Publicou,
entre outras, em 1638, a obra The Discovery of a World in the Moone.
Segundo Wilkins o homem poderia voar dentro de uma de quatro condições: (1) com
o espírito dos anjos; (2) com a ajuda de fowls; (3) com asas amarradas ao seu
corpo e (4) em uma carruagem voadora. Ele colocou acreditou mais na descoberta
de um mecanismo que, guardadas cuidadosamente as devidas proporções, imitasse o
bater das asas das fowls. Em 1670 ele propôs três possibilidades para o moto
contínuo: Por efeito químico (possivelmente por conhecer o hoje chamado
"movimento Browniano"de partículas; por efeito magnético, ou por efeito da
gravidade. Ele desenhou uma máquina que utilizaria combinadamente a força de
gravidade e a força magnética, ao que parece sem chegar a testa-la. Ele também
tentou um tipo de turbina que era uma hélice colocada dentro de uma chaminé,
movida pelo ar quente ascendente. O movimento do eixo poderia ser utilizado para
diferentes tarefas. Essa turbina rudimentar foi descrita em seu livro
Mathematical Magic, publicado em 1648.
Montesquieu
(Charles-Louis de Secondat, baron de La Brède et de. Nascido próximo a Bordeaux,
na França, em 1689 e falecido em Paris em 1755, filósofo político, autor de "O
Espírito das Leis". Formado em Direito, iniciou sua carreira em Bordeaux.
Mudou-se para Paris, onde levou uma vida de dissipações freqüentando as festas
dos salões da aristocracia e nobreza parisienses. Em 1721 escreveu "Cartas
persas", no qual satiriza a vida mundana da sociedade parisiense. Em pouco
tempo, (1728) seus escritos e a influência social levaram-no à Academia
Francesa. Viajou para a Inglaterra onde permaneceu de 1729 a 1731, uma viagem
que reputou muito instrutiva, e após a qual, retornando à França, dedicou-se
seriamente ao estudo das ciências políticas. Em 1734 publicou Considérations
sur les causes de la grandeus des Romains e de leur décadence
("Considerações sobre as causas da grandeza dos romanos e de sua decadência"),
um trabalho considerado uma mostra de inteligência, mas também de certa falta de
conhecimentos. Após 14 anos de trabalho, de 1734 a 1748, publicou L'Esprit
des lois. Este livro, considerado um clássico da filosofia política,
compreende uma análise das inter-relações entre as estruturas sociais e
políticas, a religião, a economia e outros elementos da vida social. Trouxe-lhe
fama mundial, e é considerado também o mais significante precursor da análise
sociológica. No entanto, muitas críticas se levantaram contra seu trabalho, o
que o levou a escrever dois anos depois o Defense de l'Esprit des lois,
considerado seu trabalho mais brilhante.
Pierre Gassendi (1592-1655), filósofo, matemático e cientista francês, conciliar o atomismo mecanicista com a crença cristã na imortalidade da alma, vontade livre , um Deus infinito e a criação. Recebeu doutorado em Avignon, França em 1614 e foi ordenado padre no ano seguinte. Persuadido por seu amigo Marin Mersenne a abandonar os estudos matemáticos e teológicos e dedicar-se exclusivamente à filosofia, rejeitou a superespeculação na filosofia de Descartes e defendeu o retorno à doutrina de Epicuro, isto é ao empirismo (enfatizando a experiência dos sentidos), ao hedonismo (sustentando ser o prazer o bem), e à física corpuscular (com a realidade feita de partículas atômicas). Gassendi sustentava que o conhecimento do mundo exterior depende dos sentidos, apesar de que seja através da razão que o homem pode derivar muita informação além da evidência ganha empiricamente. Na sua obra Syntagma Philosophicum ("Tratado Filosófico"), publicado com seus demais trabalhos em 1658, após sua morte, ele segue a divisão tríplice da filosofia epicurista. Na parte I (lógica) ele rejeita idéias inatas de Descartes, enfatizando o método indutivo próprio da ciência, e sustenta que os sentidos são a primeira fonte do conhecimento. Porém, como bom matemático, ele também aceita o raciocínio dedutivo. Na parte II (física), ele defendeu a explicação mecanicista da natureza e da sensação. Sua prova de uma alma racional e imortal derivava da consciência de valores morais do homem, da existência das idéias chamadas "universais", e do poder de reflexão. Gassendi via na harmonia da natureza a prova da existência de Deus. Na parte III (ética), ele vê a felicidade (paz da alma e ausência da dor corporal) como o fim buscado pelo homem, e só imperfeitamente atingível em sua vida. Seus trabalhos incluem várias obras sobre a vida, os prazeres, e ética de Epicuro, longas objeções, em 1641, ao "Meditações" de Descartes, e o Disquisitio Metaphysica, em 1644, uma réplica à resposta dada por Descartes às suas críticas. Como cientista, Gassendi foi o primeiro a observar um trânsito planetário, o de Mercúrio ocorrido em 1631, previsto por Kepler. Suas publicações em ciência foram consideráveis, mas sua grande influência foi através do atomismo filosófico.
Thomas Willis (1621-1675), um dos mais destacods médicos ingleses da época moderna, e um dos cientistas que buscava explicar a atividade do corpo humano como devida a interações químicas, não no sentido da ciência contemporânea mas dentro do espírito de então de se chegar a uma panaceia, um método simples de curar todas as doenças. Foi um dos pioneiros do estudo do sistema nervoso e o primeiro a identificar várias doenças. Foi professor de Filosofia Natural em Oxford de 1660 a 1675; e clinicou em Londres a partir de 1666 com grande sucesso. Em sua obra Cerebri Anatome, cui accessit Nervorum descriptio et usus ("Anatomia do Cérebro, com uma descrição dos nervos e de suas funções"), o mais completo e acurada descrição do sistema nervoso até então, ele faz a primeira descrição do padrão hexagonal das artérias na base do cérebro descobrindo-lhe a finalidade de proporcionar o máximo de suprimento sanguíneo ao cérebro. Foi o primeiro a descrever a miastenia grave (1671), uma fadiga muscular crônicia marcada por paralisia progressiva, e a febre puerperal, assim denominada por ele. Reintroduziu na medicina o antigo uso dos gregos de diagnosticar o diabetis pela urina doce.