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O Empirismo
John
Locke - Vida e Obras
O
Pensamento: A Gnosiologia
Idéias
Metafísicas
Moral
e Política
Idéias
Pedagógicas
John Locke
Sobre
a linha do desenvolvimento do empirismo, Locke representa um progresso em
confronto com os precedentes: no sentido de que a sua gnosiologia
fenomenista-empirista não é dogmaticamente acompanhada de uma metafísica
mais ou menos materialista. Limita-se a nos oferecer, filosoficamente, uma
teoria do conhecimento, mesmo aceitando a metafísica tradicional, e do
senso comum pelo que concerne a Deus, à alma, à moral e à religião. Com
relação à religião natural, não muito diferente do deísmo abstrato da
época; o poder político tem o direito de impor essa religião, porquanto é
baseada na razão. Locke professa a tolerância e o respeito às religiões
particulares, históricas, positivas.
Locke
viajou fora da Inglaterra, especialmente em França, onde ampliou o seu
horizonte cultural, entrou em contato com movimentos filosóficos diversos,
em especial com o racionalismo. Tornou-se mais consciente do seu
empirismo, que procurou completar com elementos racionalistas (o que,
entretanto, representa um desvio na linha do desenvolvimento do empirismo,
procedente de Bacon até Hume).
Vida
e Obras
João
Locke nasceu em Wrington, em 1632.
Estudou na Universidade de Oxford filosofia, ciências naturais e medicina.
Em 1665 foi enviado para Brandenburgo como secretário de legação. Passou,
em seguida, ao serviço de Loed Ashley, futuro conde de Shaftesbury, a quem
ficou fiel também nas desgraças políticas. Foi, portanto, para a França,
onde conheceu as personalidades mais destacadas da cultura francesa do
"grand siècle".
Em 1683 refugiou-se na Holanda, aí participando no movimento político que
levou ao trono da Inglaterra Guilherme de Orange. De volta à pátria,
recusou o cargo de embaixador e dedicou-se inteiramente aos estudos
filosóficos, morais, políticos. Passou seus últimos anos de vida no
castelo de Oates (Essex), junto de Sir Francisco Masham. Faleceu em 1704.
As
suas obras filosóficas mais notáveis são: o
Tratado do Governo Civil
(1689); o Ensaio sobre o
Intelecto Humano (1690); os
Pensamentos sobre a Educação
(1693). As dontes principais do pensamento de Locke são: o nominalismo
escolástico, cujo centro famoso era Oxford; o empirismo inglês da época; o
racionalismo cartesiano e a filosofia de Malebranche.
O
Pensamento: A Gnosiologia
Locke
julga, como Bacon, que o fim da filosofia é prático. Entretanto -
diversamente de Bacon, que julgava fim da filosofia o conhecimento da
natureza para dominá-la (fim econômico) - Locke pensa que o fim da
filosofia é essencialmente moral; quer dizer: a filosofia deve
proporcionar uma norma racional para a vida do homem. E, como os seus
predecessores empiristas, ele sente, antes de mais nada, a necessidade de
instituir uma investigação sobre o conhecimento humano, elaborar uma
gnosiologia,
para achar um critério de verdade. Podemos dizer que a sua filosofia se
limita a este problema gnosiológico, para logo passar a uma filosofia
moral (e política, pedagógica, religiosa), sem uma adequada e intermédia
metafísica.
Locke
não parte, realisticamente, do ser, e sim, fenomenisticamente, do
pensamento. No nosso pensamento acham-se apenas
idéias
(no sentido genérico das
representações): qual é a sua origem e o
seu valor? Locke exclui absolutamente as idéias e os princípios que deles
se formam, derivam da experiência; antes da experiência o espírito é como
uma folha em branco, uma
tabula rasa.
No
entanto, a experiência é dúplice: externa e interna. A primeira realiza-se
através da sensação,
e nos proporciona a representação dos objetos (chamados) externos: cores,
sons, odores, sabores, extensão, forma, movimento, etc. A segunda
realiza-se através da
reflexão, que nos proporciona a
representação das próprias operações exercidas pelo espírito sobre os
objetos da sensação, como: conhecer, crer, lembrar, duvidar, querer, etc.
Nas idéias proporcionadas pela sensibilidade externa, Locke distingue as
qualidades primárias,
absolutamente objetivas,
e as qualidades secundárias,
subjetivas
(objetivas apenas em sua causa).
As
idéias ou representações dividem-se em idéias
simples
e idéias complexas,
que são uma combinação das primeiras. Perante as idéias simples - que
constituem o material primitivo e fundamental do conhecimento - o espírito
é puramente passivo; pelo contrário, é ele ativo na formação das idéias
complexas. Entre estas últimas, a mais importante é a
substância:
que nada mais seria que uma coleção constante de idéias simples, referida
pelo espírito a um misterioso substrato unificador. O espírito é também
ativo nas sínteses que são as
idéias de relação, e nas análises que
são as idéias gerais.
Às idéias de ralação pertencem as relações temporais e espaciais e de
idéias simples dos complexos a que pertencem e da universalização da idéia
assim isolada, obtendo-se, desse modo, a idéia abstrata (por exemplo, a
brancura). Locke é, mais ou menos, nominalista: existem, propriamente, só
indivíduos com uma essência individual, e as idéias gerais não passam de
nomes, que designam caracteres comuns a muitos indivíduos. Entretanto, os
nomes que designam uma idéia abstrata, isto é, uma propriedade semelhante
em muitas coisas, têm um valor e um escopo práticos: auxiliar os homens a
se conduzirem na vida.
Dado
o nominalismo de Locke, compreende-se como, para ele, é impossível a
ciência verdadeira da natureza, considerada como conhecimento das leis
universais e necessárias. Locke julga também inaplicável à natureza a
matemática - reconhecendo-lhe embora o caráter de verdadeira ciência -
isto é, não acredita na físico-matemática, à maneira de Galileu.
Entretanto, mesmo que a ciência da natureza não nos desse senão a
probabilidade, a opinião, seria útil enquanto prática.
Até
aqui foram analisados e descritos os conteúdos de consciência. É mister
agora propor a questão do seu valor lógico. Costuma-se dizer que as idéias
são "verdadeiras ou falsas"; melhor seria chamá-las "justas ou erradas",
porque, propriamente, "a verdade e a falsidade pertencem às proposições",
em que se afirma ou se nega uma relação entre duas idéias. E esta relação,
afirmada ou negada, pode ser precisamente falsa ou verdadeira. O
conhecimento da relação positiva ou negativa entre as idéias é, segundo
Locke, de dois tipos:
intuitivo
e
demonstrativo. No primeiro caso a relação é
colhida intuitiva, imediata e evidentemente. Por exemplo: 3 = 2 + 1. No
segundo caso a relação é colhida mediatamente, recorrendo às idéias
intermediárias, ao raciocínio. Por exemplo: a existência de Deus
demonstrada pela nossa existência e pelo princípio de causalidade.
Naturalmente, a demonstração é inferior à intuição.
Idéias
Metafísicas
Estamos,
porém, ainda fechados no mundo subjetivo, fenomênico; de fato, tratou-se,
até agora, de relações positivas ou negativas, concordes ou desacordes com
as idéias. Podemos nós sair desse mundo subjetivo e atingir o mundo
objetivo, isto é, podemos conhecê-lo imediatamente ou mediatamente na sua
existência e na sua natureza? Locke afirma-o, sem mostrar, entretanto,
como este conhecimento do mundo externo possa concordar com a sua geral (fenomenista)
concepção e definição do conhecimento. É a sólita posição de um
fenomenismo ainda não plenamente consciente de si mesmo. Corta as relações
com o ser e vai para o fenomenismo absoluto, mas tem ainda saudade desse
ser do qual se isolou.
Em
todo caso, Locke acredita poder atingir, antes de tudo, o nosso ser,
depois o de Deus, e, finalmente, o das coisas. O
nosso ser
seria intuitivamente
percebido através da reflexão. A existência
de Deus
seria racionalmente
demonstrada mediante o princípio de
causa,
partindo do conhecimento imediato de uma outra existência (a nossa). A
existência das coisas,
alfim, seria sentida
invencivelmente, porque nos sentimos
passivos em nossas sensações, que deveriam
ser causadas por seres externos a nós.
Entretanto,
pelo que diz respeito ao nosso ser, é mister ter presente que nós não
conhecemos intuitivamente a substância da alma, e sim as suas atividades.
Pelo que diz respeito a Deus, a prova da sua existência vale, se vale
absolutamente o princípio de causa - o que Locke não demonstrou. Enfim,
pelo que diz respeito às coisas externas, mesmo admitida a prova aduzida
por Locke - segundo a confissão do próprio filósofo - tal prova vale
apenas pelo que concerne à existência das coisas, e não pelo que concerne
à natureza delas. De fato, segundo a filosofia de Locke, não sabemos se as
idéias da natureza das coisas correspondem à realidade das coisas.
Moral
e Política
Locke
não admite, naturalmente, idéias e princípios inatos nem sequer no campo
da moral. A sua moral,
todavia, é muito mais intelectualista do que empirista, pois ele lhe
reconhece o caráter de verdadeira ciência, universal e necessária.
Entretanto,
não basta ter construído uma moral em abstrato, embora racional. É preciso
torná-la praticamente eficaz, isto é, faz-se mister uma obrigação moral,
que se imponha à nossa vontade. Ora, visto que é natural, no homem, a
tendência para o próprio bem-estar, é natural que ele seja atingido pelas
penas, pelas sanções, que precisamente lhe impedem tal realização. Que
parte tem a liberdade da vontade em tudo isto? Locke nega, propriamente, o
livre arbítrio, porquanto nós nos inclinamos necessariamente para um bem
determinado e devemos desejar o bem maior.
Quanto
à política,
Locke deriva a lei civil da lei natural, racional, moral, em virtude da
qual todos os homens - como seres racionais - são livre iguais, têm
direito à vida e à propriedade; e, entretanto na vida política, não podem
renunciar a estes direitos, sem renunciar à própria dignidade, à natureza
humana. Locke admite um originário estado de natureza antes do estado
civilizado. Não, porém, no sentido brutal e egoísta de inimizade
universal, como dizia Hobbes; mas em um sentido moral, em virtude do qual
cada um sente o dever racional de respeitar nos outros a mesma
personalidade que nele se encontra.
Também
Locke admite a passagem do estado de natureza ao estado civilizado,
porquanto, no primeiro, falta a certeza e a regularidade da defesa e da
punição, que existe no segundo, graças à autoridade do superior.
Entretanto, estipulando este contrato social, os indivíduos não renunciam
a todos os direitos, porquanto os direitos que constituem a natureza
humana (vida, liberdade, bens), são inalienáveis; mas renunciam unicamente
ao direito de defesa e de fazer justiça, para conseguir que os direitos
inalienáveis sejam melhor garantidos. Antes, se o estado violasse esses
direitos inalienáveis, os indivíduos teriam o direito e o dever de a ele
resistir e de se revoltar contra o poder usurpador. A doutrina política de
Locke, contida no seu
Tratado sobre o Governo Civil, é a
expressão teórica do constitucionalismo liberal inglês, em contraste com a
doutrina do absolutismo naturalista de Hobbes.
Idéias
Pedagógicas
Com
respeito à religião, Locke toma uma atitude racionalista moderada. Admite
uma religião natural, exigível também politicamente, porquanto
fundamentada na razão. E professa a tolerância a respeito das religiões
particulares, históricas, positivas.
Locke
interessou-se especialmente pelos
problemas pedagógicos,
escrevendo os Pensamentos
sobre a Educação. Aí afirma a nossa
passividade, pois nascemos todos ignorantes e recebemos tudo da
experiência; mas, ao mesmo tempo, afirma a nossa parte ativa, enquanto o
intelecto constrói a experiência, elaborando as idéias simples.
Afirma-se
que todos nascemos iguais, dotados de razão; mas, ao mesmo tempo, todos
temos temperamentos diferentes, que devem ser desenvolvidos de
conformidade com o temperamento de cada um. Esta educação individual não
exclui, mas implica a educação, a formação social, para ampliar,
enriquecer a própria personalidade. Tem muita importância a obra do
educador, mas é fundamental a colaboração do discípulo, pois trata-se da
formação do intelecto, da razão, que é, necessariamente, autônoma. A
formação educacional consiste, portanto, fundamentalmente, no
desenvolvimento do intelecto mediante a moral, precisamente pelo fato de
que se trata de formar seres conscientes, livres, senhores de si mesmos.
Por conseguinte, a educação deve ser formativa, desenvolvendo o intelecto,
e não informativa, erudita, mnemônica. Igualmente Locke é fautor de
educação física, mas como o meio para o domínio de si mesmo.
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