ANTI-DÜHRING
Herr Eugen Dühring's Revolution in Science
Friedrich Engels
ÍNDICE
Apresentação
Prefácio da primeira edição.
Prefácio da segunda edição.
INTRODUÇÃO
Capítulo I - Generalidades.
Capítulo II - O que promete o Sr. Dühring.
PARTE I
Filosofia
Capítulo III - Divisão. Apriorismo.
Capítulo IV - Esquemática do mundo.
Capítulo V - Filosofia da natureza. O tempo e o espaço.
Capítulo VI - Filosofia da natureza. Cosmologia, física, química.
Capítulo VII - Filosofia da natureza. O mundo orgânico.
Capítulo VIII - Filosofia da natureza. O mundo orgânico (conclusão).
Capítulo IX - Moral e direito. Verdades eternas.
Capítulo X - Moral e direito. A igualdade.
Capítulo XI - Moral e direito. Liberdade e necessidade.
Capítulo XII - Dialética. Quantidade e qualidade.
Capítulo XIII - Dialética, Negação da negação.
Capítulo XIV - Conclusão.
PARTE II
Economia Política
Capítulo I - Objeto e método.
Capítulo II - Teoria da violência.
Capítulo III - Teoria da violência (continuação).
Capítulo IV - Teoria da violência (conclusão).
Capítulo V - Teoria do valor.
Capítulo VI - Trabalho simples e trabalho complexo.
Capítulo VII - Capital e mais-valia.
Capítulo VIII - Capital e mais-valia (conclusão).
Capítulo IX - Leis naturais da economia. A renda territorial.
Capítulo X - Sobre a "História crítica".
PARTE III
Socialismo
Capítulo I - Traços históricos.
APRESENTAÇÃO
Nélson Jahr Garcia (in memorian!)
O marxismo é um conjunto de idéias filosófico-ideológicas, com traços de
economia. Procura explicar a estrutura e funcionamento do sistema capitalista e
avaliar caminhos para a superação de suas deficiências. Suas concepções básicas
foram assimiladas, aceitas e seguidas por mais da metade da população do globo
terrestre.
Infelizmente as idéias de Marx transformaram-se em dogmas religiosos, mesmo
quando o tempo começava a abalar seus fundamentos. Qualquer contestação às teses
de Marx, Lenin, Stalin, Mao e tantos outros geravam, para o autor da crítica,
acusações de "reacionário", "porco revisionista", "burguês explorador",
"pequeno-burguês egoísta".
Os defensores do ideário capitalista também criaram uma religião, ainda mais
severa e intolerante. Os marxistas, socialistas, anarquistas, toda a esquerda
enfim eram acusados de "criminosos", "comedores de criancinhas", "vermelhos
adeptos do demônio", "risco para a juventude, a família e a religião cristã".
Repentinamente caiu o Muro de Berlim. Aliás não caiu, porque bem construído, mas
foi derrubado, tijolo por tijolo, pedra por pedra. A derrubada foi feita pelos
que não mais suportavam o autoritarismo burocrático-religioso e, há anos, vinham
sonhando com a liberdade que, apesar de tudo, ainda não é plena.
Hoje se pode conhecer as afirmações marxistas, não como dogmas, mas como um
conhecimento que é herdeiro da antigüidade clássica (Grécia, Roma), do Oriente
antigo, da Filosofia alemã e francesa, da Economia inglesa. Suas análises são de
uma lógica rigorosa, a análise das distorções do capitalismo é sugestiva e
intrigante.
A leitura e, principalmente, o estudo das obras de Marx permite ao leitor e
estudioso aperfeiçoar sua sensibilidade crítica, possibilitando-lhe entender
melhor as concatenações que estão na base da Sociedade e do Estado.
A dificuldade é que os textos são complexos, discutem minúcias e pormenores nem
sempre facilmente compreensíveis de imediato. Talvez seja mais fácil começar com
Engels. Friedrich Engels teve uma formação muito semelhante à de Marx, era seu
amigo e co-autor em várias obras. Tinha uma linguagem mais clara, direta e
objetiva embora sua argumentação nem sempre fosse muito profunda.
Escreveu, dentre outros, dois livros: "Do Socialismo Utópico ao Socialismo
Científico" e "Anti-Dühring".
No primeiro descreve a evolução do pensamento socialista nos séculos XVIII e
XIX, suas origens econômicas e políticas; discute suas forças e deficiências. Em
Anti-Dühring, tece críticas severas às obras do pensador, Senhor (Herr) Eugen
Dühring. Ao fazê-lo, usa de um humor cáustico e, muitas vezes, extremamente
agressivo., vejamos uns poucos exemplos:
"Não é bastante que me resolva eu a classificar uma escova de sapatos na classe
dos mamíferos, para que a mesma, como que por encanto, apresente glândulas
mamárias."
"...o Sr. Dühring também nos fala (pág. 84) da "gravitação dos átomos" mas com
isso prova unicamente que vive "nas trevas"..."
"...o Sr. Dühring fala de coisas que conhece muito pouco."
"...todas as demais vitórias do Sr. Dühring, anunciadas por frases pomposas e
retumbantes deram como resultado, em todos os setores a que se aplicaram, uma
pura farsa."
Ao criticar expõe os principais fundamentos do socialismo marxista: "a
determinação em última instância pelo econômico"; "a filosofia da natureza"; "os
princípios da dialética"; "a violência política"; "capital e mais-valia";
"exploração do homem pelo homem"; “o socialismo” e muito mais.
PREFÁCIO DA PRIMEIRA EDIÇÃO
O presente trabalho não é, absolutamente, fruto de um
"impulso interior". Muito pelo contrário.
Quando, há três anos, o Senhor Dühring surgia, cheio de rompante,
apresentando-se, ao mesmo tempo, como adepto e reformador do socialismo,
disposto a trazer o século à luta, alguns amigos da Alemanha expressaram várias
vezes o desejo de que eu fizesse; no órgão do partido social-democrata, então o
Volksstaat, um estudo crítico da nova doutrina socialista. Consideravam tal
estudo grandemente útil, a menos que não se quisesse proporcionar ao sectarismo
existente no jovem partido, ainda em formação e distante de sua unidade
definitiva, uma nova oportunidade para divergência e confusão. Estavam eles,
melhor do que eu, em condições de julgar a situação da Alemanha: via-me obrigado
a dar-lhes crédito. Demais, pode-se verificar que parte da imprensa socialista
se pôs a dar boas-vindas ao novo apóstolo com um entusiasmo que não era
unicamente condescendência, mas deixava transparecer alguma inclinação para
acolher, sem reservas, o Senhor Dühring, e, o que é mais, a doutrina do Senhor
Dühring.
Havia mesmo pessoas que já se julgavam no dever de difundir a doutrina entre os
trabalhadores. Finalmente, o Senhor Dühring e seus correligionários punham a seu
serviço todas os artifícios da propaganda e da intriga para obrigar o Volksstaat
a tomar posição definitiva em face da nova doutrina, que entrava em cena com tão
consideráveis pretensões.
Foi-me preciso, pois, um ano para me resolver a deixar de parte outros trabalhos
e trincar esse amargo pomo que, uma vez mordido, tinha que ser comido
totalmente. E o mais grave é que esse pomo não era apenas muito amargo, mas,
também, muito grande. A nova doutrina socialista apresentava-se como a última
conseqüência prática de um novo sistema filosófico. Tratava-se, portanto, de
estudá-lo em conexão com o sistema, ao mesmo tempo que ao próprio sistema;
tratava-se do seguir o Senhor Dühring naquele vasto domínio onde ele encara
todas as coisas possíveis.., e muitas outras ainda. Tal a origem de uma série de
artigos que, a partir do fim de 1877, apareceram no jornal que sucedera ao
Volkstaat, o Vorwaerts, de Leipzig, artigos esses que vão aqui reunidos.
É, pois, a natureza do assunto que obriga a crítica a tomar um desenvolvimento
assaz considerável em relação ao que há de científico na matéria, isto é, nos
escritos de Dühring. Mas duas outras circunstâncias poderiam ainda servir de
escusas a este desenvolvimento. De um lado, proporcionar ocasião para expor em
forma positiva os assuntos mais diversos que tivéssemos de abordar, concepções
sobre as questões controvertidas que apresentam hoje interesse científico e
prático mais geral. Foi o que fiz em cada capítulo, e, ainda que estes escritos
não tenham por fim opor ao "sistema" do Senhor Dühring um outro sistema, espero,
todavia, que o leitor não deixe de ver uma relação intima nas opiniões por mim
expostas. Que, deste ponto de vista, meu trabalho não será completamente
infrutífero, tenha, desde já, suficientes provas.
Por outro lado, o Senhor Dühring, como "criador de sistema", 'não é uma aparição
isolada na Alemanha contemporânea. De algum tempo a esta parte, os sistemas de
cosmogonia, de filosofia da natureza em geral, de política, economia, etc.,
proliferam na Alemanha, da noite para o dia, às dúzias, como os cogumelos.
Qualquer doutor em filosofia e até mesmo o simples estudante não mais se
contentam senão com um sistema integral. Da mesma forma que, no Estado moderno,
todos os cidadãos se supõem aptos para julgar as questões em que são chamados a
dar voto; da mesma maneira pela qual, em economia política, se considera o
comprador com conhecimentos profundos sobre todas as coisas que adquire para o
seu sustento; da mesma forma se pretende proceder com respeito à ciência. A
liberdade científica consistirá, assim, na possibilidade de cada qual escrever
sobre ciência tudo o que nunca aprendeu, dando-o como o único método
rigorosamente científico. O Senhor Dühring é um dos mais característicos tipos.
desta pseudociência presunçosa, que atinge a primeira plana, em toda a Alemanha
hodierna, e domina o espaço com seu estrepitoso ruído de... latão. Ruído de
latão em poesia, em filosofia, em política, em economia, em história; latão na
cátedra dos professores e na tribuna; em toda parte, um ruído de latão que
aspira à superioridade e à profundeza do pensamento e que não deve ser
confundido com o ruído de latão comum, liso e vulgar das outras nações. É esse o
mais característico e abundante produto da indústria intelectual alemã, "barato,
sim, porém de má qualidade", tal como outros produtos nacionais com que o país,
infelizmente, não se fez representar na Exposição de Filadélfia. O próprio
socialismo alemão, de algum tempo para cá, notadamente após o bom exemplo do
Senhor Dühring fez, ultimamente, grandes progressos na arte do ruído de latão e
exibe tal ou qual produto batizado de ciência e da qual não contém uma palavra.
Trata-se de uma doença infantil, sintoma e fenômeno inseparáveis da conversão
que se está iniciando do estudioso alemão à social-democracia e de que esta,
graças à maravilhosa saúde de nossos operários, já se ia curando.
Não me cabe a culpa de haver acompanhado o Senhor Dühring em regiões em que eu
não passarei de um diletante. Em tais casos, limitei-me a opor. na maior parte
das vezes, às afirmações falsas ou mal alinhavadas do meu adversário, os fatos
incontestáveis: deu-se isso nas ciências jurídicas e freqüentemente nas ciências
naturais. Além disso, trata-se de idéias gerais em ciência teórica da natureza,
de um campo em que até o naturalista técnico é forçado. por vezes. a sair da
especialidade e a invadir os domínios circunvizinhos - domínios que. como
reconheceu Virchov, ele conhece tanto quanto nós outros, A indulgência mútua,
admissível em semelhantes casos, para pequenas inexatidões ou impropriedades de
expressão, ser-me-á, eu o espero, facilmente concedido.
No momento de concluir este prefácio, recebo de uma livraria um anúncio redigido
pelo Senhor Dühring, no qual o filósofo promete uma nova obra "capital"
intitulada: "Novas leis básicas da química e da física nacionais". Tenho pleno
conhecimento da insuficiência de meus conhecimentos em física e em química;
apesar disso, porém, acredito conhecer bastante o meu caro Dühring, para
adiantar, mesmo sem lhe haver lido a obra, que as leis físicas e químicas aí
estabelecidas poderão competir, em confusão ou em banalidades com as leis
econômicas, cosmológicas e outras que ele até agora descobriu e examinei no meu
livro. Só espero que o rigometro, instrumento construído pelo Sr. Dühring para
medir as temperaturas mais baixas, sirva para medir, não temperaturas altas ou
baixas, mas simplesmente a arrogante ignorância do Senhor Dühring.
Londres, 11 de junho de 1878.
PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO
A necessidade de fazer-se desta obra uma segunda edição foi
para mim verdadeira surpresa. A personagem, que neste livro se crítica, está
hoje inteiramente esquecida. A obra em si mesma não só teve numerosos leitores,
quando apareceu em fragmentos no Vorwaerts de Leipzig, em 1877 e 1878, como dela
se tiraram, em separado e integralmente, inúmeros exemplares. Como poderá alguém
interessar-se pelo que eu disse há vários anos a propósito do Senhor Dühring?
Devo-o, antes de tudo, à circunstância de que esta obra, como, aula, quase todos
os meus escritos ainda agora em circulação, foi interditada no império alemão
logo após a promulgação da lei contra os socialistas. Quem quer que não
estivesse preso aos hereditários preconceitos dos funcionários dos países da
Santa Aliança, deveria claramente prever o efeito de semelhante medida: dupla ou
tripla venda para os livros interditados e manifestação de impotência por parte
daqueles Senhores de Berlim, que promulgam leis cuja execução não conseguem
impor. Realmente, a amabilidade do governo do império forçou-me a novas edições
que não poderia satisfazer: como não tenho tempo para corrigir o texto, coisa
que seria de desejar, sou obrigado a contentar-me com uma simples reimpressão.
A essa, junta-se outra razão, o "sistema" do Senhor Dühring, de que este livro é
uma crítica, estende-se a domínios teóricos muito vastos: tive de segui-lo por
toda parte e opor às suas concepções as minhas. Assim, a crítica negativa
resultou positiva; a polêmica transformou-se em exposição mais ou menos coerente
do método dialético e da ideologia comunista defendida por Marx e por mim, numa
série de domínios bastante vastos. Esta concepção, desde o seu aparecimento na
Miséria da Filosofia de Marx e no Manifesto Comunista, tem atravessado um
período de incubação de mais de vinte anos, até este momento em que, com a
apresentação d'O Capital, ela alcançou regiões cada vez mais distantes, e, hoje,
já fora das fronteiras da Europa, prende a atenção em todos os países em que há
proletários e cientistas imparciais. Pareceu, então, que havia um público
altamente interessado, capaz de acolher, para perpetuar, a polêmica contra a
tese do Senhor Dühring (polêmica julgada hoje sem razão de ser por muita gente),
e adepto das digressões positivas que acompanham a crítica.
Uma observação de passagem: tendo sido criada por Marx, e em menor escala por
mim, a concepção exposta neste livro, não conviria que eu a publicasse à revelia
do meu amigo. Li-lhe o manuscrito inteiro antes da impressão; e o décimo
capítulo da parte segunda, consagrada à economia política (Sobre a história
crítica) foi escrito por Marx. Infelizmente, eu o tive de resumir por motivos
extrínsecos. Era, aliás, hábito nosso ajudarmo-nos mutuamente na especialização
de cada um.
Esta nova edição, exceto um capítulo, é idêntica à precedente, De um lado,
faltou-me o tempo para a revisão cuidada em que pudesse fazer alterações na
exposição. Eu tinha o dever de preparar para a impressão os manuscritos deixados
por Marx, diante do que, qualquer outra tarefa é menos importante, Por outro
lado, minha consciência opõe-se a qualquer modificação. É esta uma obra de
polêmica e não me julgo na obrigação de modificá-la, uma vez que meu adversário
em nada se corrigiu.
Só poderia aspirar ao direito de replicar ainda uma vez à resposta do Senhor
Dühring. Não sei se o Sr. Dühring escreveu alguma coisa respondendo aos meus
ataques; e, salvo razão especial, não o lerei jamais: teoricamente liquidei
minhas contas com ele. De resto, há outra razão que me obriga a observar, com
maior cuidado ainda, o decoro das lutas literárias, em relação ao meu
adversário: a vergonhosa indignidade contra ele praticada, posteriormente, pela
Universidade de Berlim. A bem dizer, esta última foi punida: uma Universidade
que se atreve a cassar ao Senhor Dühring, nas circunstâncias que sabemos, a
liberdade de ensinar, não tem o direito de admirar-se de lhe terem imposto o
Senhor Schwenninger, noutras circunstâncias que igualmente conhecemos.
O único capítulo em que me permiti adições explicativas foi o segundo da
terceira parte: Teoria. Ali, tratou-se unicamente de expor um ponto de vista
essencial da concepção que represento: meu adversário não poderia, pois,
lamentar-se de que me haja esforçado no emprego de linguagem mais acessível,
completando a sucessão das idéias sistemáticas. É certo que fui instigado por
outros a fazê-lo. Três capítulos da obra (o primeiro da Introdução e o primeiro
e o segundo da terceira parte) foram transformados em brochura especial, por meu
amigo Lafargue, atendo-se este à tradução francesa da obra; e, quando a versão
francesa serviu de base à polonesa e à italiana, fiz uma edição alemã
intitulada: "Do socialismo utópico ao socialismo científico", obra que em poucos
meses alcançou três edições e apareceu vertida para o russo e o dinamarquês. Em
todas as edições, o capítulo em questão era o único que havia sido aumentado:
seria um excesso de zelo que me limitasse, na edição da nova obra, ao texto
primitivo, em vez da forma ulterior, tornada internacional.
Quanto às demais modificações, que desejaria fazer, referem-se principalmente a
dois pontos: primeiramente, à história primitiva da humanidade, assunto de que
Morgan só nos deu a chave em 1877. Mas, como, em minha obra "As origens da
família, da propriedade privada e do Estado", tive ocasião de ordenar e expor a
matéria por mim reunida desde o aparecimento deste livro, bastará recorrer a
esse trabalho ulterior.
Em segundo lugar, teria desejado modificar a parte relativa às ciências
naturais. Nota-se ali grande descuido de exposição e há várias coisas que hoje
poderiam ser expressas com maior precisão e clareza, Não me arrogando o direito
de corrigir, julgo-me na obrigação de fazer esta crítica.
Marx e eu fomos, sem dúvida alguma, os únicos que salvaram da filosofia
idealista alemã a dialética consciente, incluindo-a na nossa concepção
materialista da natureza e da história. Mas uma concepção da história, a um
tempo dialético e materialista, exige o conhecimento das matemáticas e das
ciências naturais. Marx foi um consumado matemático: mas, de nossa parte, não
pudemos estudar senão fragmentariamente, de quando em quando, as ciências
naturais. A medida que ocupações comerciais e a minha mudança para Londres mo
foram permitindo, fiz uma completa mise en mue, como diria Liebig, das
matemáticas e ciências naturais, tarefa em que empreguei quase oito anos. Estava
eu em meio desse trabalho, quando me ocupei do Senhor Dühring e de sua pretensa
filosofia da natureza. Se, pois, nem sempre atino com a exata expressão técnica,
e se, por vezes, me vejo em alguma dificuldade no domínio das ciências naturais,
é naturalíssimo. Por outro lado, a consciência da própria incerteza me fez
prudente: ninguém me poderá atribuir erros patentes sobre fatos então
conhecidos, nem inexatidão na exposição das teorias professadas na época. A tal
respeito, só surgiu um grande matemático pouco conhecido, a queixar-se, numa
carta dirigida a Marx, de que eu havia criminosamente atentado contra a honra da
. Tratava-se, evidentemente, de
que eu, ao fazer a recapitulação das matemáticas e ciências naturais, procurava
convencer-me sobre uma série de pontos concretos - sobre o conjunto eu não tinha
dúvidas, - de que, na natureza, se impõem, na confusão das mutações sem número,
as mesmas leis dialéticas do movimento que, também na história, presidem à trama
aparentemente fortuita dos acontecimentos; as mesmas leis que, formando
igualmente o fio que acompanha, de começo a fim, a história da evolução
realizada pelo pensamento humano, alcançam pouco a pouco a consciência do homem
pensante; leis essas primeiramente desenvolvidas por Hegel, mas sob uma forma
que resultou mística, a qual o nosso esforço procurou tornar acessível ao
espírito, em toda a sua simplicidade e valor universal. Será escusado dizer que
a velha filosofia natural, - apesar das muitas coisas boas que realmente
continha e dos muitos germes fecundos que encerrava não poderia contentar-nos:
conforme se expõe minuciosamente neste livro, consiste-lhe o defeito na forma
hegeliana de não reconhecer na natureza nenhum desenvolvimento no tempo, nenhuma
"sucessão", mas simplesmente uma "coexistência" (Nacheinandr-Nebeinander). Tal
defeito tinha razão de ser, de uma parte, no sistema hegeliano de per si, que
não atribuia ao espírito seqüência de desenvolvimento histórico, e, de outro
lado, no estado das ciências naturais na época. Assim, Hegel recua, neste ponto,
bem para antes de Kant que, em sua teoria da nebulosa, já punha em foco o
problema das origens e cujo descobrimento do obstáculo que, segundo se supunha,
as marés criavam ao movimento de rotação da terra, anunciava já a consolidação
do sistema solar. Finalmente, o problema, para mim, consistia, não em impor à
natureza leis dialéticas predeterminadas, mas em descobri-las e desenvolvê-las,
partindo da mesma natureza. Seria, no entanto, tarefa de gigante seguir este
preceito de forma sistemática e em todos os domínios. Não só porque o objetivo a
considerar é de quase impossível cálculo, mas ainda porque em todo este terreno
a própria ciência da natureza é dominada por um desenrolar tão violento de
fenômenos, que a custo a poderia seguir o homem que dispusesse de todo o seu
tempo. Ora, desde a morte de Carlos Marx, meu tempo tem sido ocupado por deveres
mais urgentes, que me forçam à interrupção do próprio trabalho. Estou, pois,
provisoriamente, na contingência de me limitar, na presente obra, a aguardar a
ocasião, se é que ela não virá muito tarde, de reunir e publicar os resultados
obtidos, bem como, ao mesmo tempo, os importantíssimos manuscritos matemáticos
deixados por Marx, Possivelmente, de resto, o progresso da ciência teórica
tornará supérflua grande parte, senão a totalidade do meu trabalho. Porque é
considerável a simples tarefa de pôr em ordem as descobertas puramente
empíricas, que se acumulam sempre, a fim de tornar progressivamente mais
evidente o caráter dialético dos fenômenos, ainda mesmo aos mais recalcitrantes
empiristas. As velhas antíteses rígidas, as linhas nítidas de demarcação
intransponíveis, desaparecem pouco a pouco. Desde a fluidificação dos últimos
gases "autênticos"; desde a prova obtida de que um corpo pode ser reduzido a um
estado em que a forma liquida e a forma gasosa são indiscerníveis, os estados de
agregação perderam a última parte do caráter que possuíam anteriormente. Com a
fórmula da teoria cinética dos gases, pela qual, nos gases perfeitos, os
quadrados das velocidades com que se move cada molécula gasosa são, a iguais
temperaturas, inversamente proporcionais aos pesos moleculares, o calor entra,
por seu turno, na série de fórmulas diretamente mensuráveis. Ainda há dez anos,
a grande lei fundamental do movimento, que acaba de ser descoberta, era
conhecida como lei da "conservação da energia", simples expressão da
indestrutibilidade e da invariabilidade do movimento do ponto de vista puramente
quantitativo; mas, cada vez mais, esta estrita expressão negativa se substitui
por uma expressão positiva: a da transformação da energia, onde se tem em conta,
pela primeira vez, o conteúdo qualitativo do processus e o desaparecimento das
últimas reminiscências de um criador sobrenatural. Já não há necessidade de
afirmar-se, como se fora novidade, a idéia de que a quantidade de movimento
(daquilo a que se dá o nome de "energia") não se transforma quando, de energia
cinética, dita "força mecânica", ela se converte em eletricidade, calor, energia
potencial e reciprocamente. Ela serve de base, doravante bem mais sólida, do
processus de metamorfose em si mesmo, do grande processus fundamental cujo
conhecimento encerra o conhecimento integral da natureza. E, desde que a
biologia se desenvolve à luz da teoria evolucionista, foram-se apagando
igualmente, no domínio da natureza orgânica, uma a uma, as linhas divisórias da
classificação: elementos intermediários quase inclassificáveis multiplicam-se
dia a dia; qualquer estudo mais acurado nos revela organismos de uma classe em
outra e os caracteres distintivos, tornados quase artigos de fé, perdem o seu
valor absoluto: possuímos hoje mamíferos ovíparos, e, se a notícia se confirma
aves que caminham sobre quatro patas. Se a célula impôs a Virchow, há anos, a
contingência de resolver a individualidade animal (conseqüentemente humana),
numa federação de elementos celulares, este fato ainda mais se complica pela
descoberta dos glóbulos brancos do sangue, que circulam à maneira de amebas no
corpo dos animais superiores. Ora, são estas, precisamente, as contradições
diametrais tidas como insolúveis; são estas as linhas divisórias e de distinção
entre as classes estabelecidas arbitrariamente, que deram à ciência teórica
moderna o seu acanhado caráter metafísico. Reconhecer que estes contrastes e
diferenciações se encontram sem dúvida na natureza, mas relativamente apenas;
que esta rigidez pressuposta, este valor absoluto não se enquadram na natureza
senão pela nossa reflexão; eis em que consiste, na essência, a concepção
dialética da natureza, Chega-se a tal concepção através da acumulação dos fatos
da ciência da natureza; com maior facilidade a ela se chegará com a compreensão
anterior da consciência das leis do pensamento dialético. Em todo caso, a
ciência da natureza está hoje na situação de não mais poder fugir à síntese
dialética. A compreensão do pensamento dialético facilitará a síntese, desde que
não perca de vista que os resultados, em que se resumem suas experiências, são
outros tantos conceitos, e a arte de operar com eles não é nem inata nem dada
pelo senso comum ordinário, mas exige uma verdadeira ação do pensamento, que,
por sua vez, é possuidor de uma longa história experimental, da mesma forma que
a investigação empírica da natureza. Exatamente por isso, pelo fato de que vão
aprendendo a utilizar os resultados de três milênios de história filosófica, por
isso é que as ciências econômicas se estão emancipando de toda essa pretensa
filosofia da natureza, estranha e superior a elas, assim como se vão também
emancipando do mesquinho método especulativo, herdado do empirismo inglês.
Londres, 23 de setembro de 1885.
INTRODUÇÃO
Capítulo I - GENERALIDADES
Por seu conteúdo, o socialismo moderno é, antes de mais nada,
o produto de uma dupla verificação: os antagonismos de classe entre possuidores
e não-possuidores, burgueses e operários assalariados, que imperam na moderna
sociedade, e a anarquia, que preside a produção. Mas, na sua forma teórica, o
socialismo apresentava-se, em seus primórdios, como um desenvolvimento
aparentemente lógico dos princípios proclamados pelos grandes nacionalistas
franceses do século XVIII. Como toda nova teoria, o socialismo, ainda que tenha
suas raízes nos fatos econômicos, teve que se ligar, ao nascer, ao material de
idéias existentes. Os grandes homens, que prepararam, na França, os espíritos
para a revolução, que haveria de desencadear-se, já adotavam atitude
resolutamente revolucionária. Não reconheciam nenhuma autoridade exterior. A
religião, a observação da natureza, a propriedade, a ordem pública, tudo era
submetido à mais desapiedada crítica; tudo o que existia devia justificar sua
existência perante o tribunal da razão ou renunciar a continuar existindo. A
tudo, aplicava-se, como crivo único, a razão. Era a época em que, segundo a
frase de Hegel, o mundo descobriu que tinha um cérebro. Em primeiro lugar,
porque o cérebro humano e as conclusões a que chega com seus raciocínios se
outorgam o direito de serem aceitos como base de todas as ações e de todas as
relações sociais; em segundo lugar, e no sentido mais amplo, porque a realidade,
que não se ajusta a esses princípios, é inteiramente subvertida, dos seus
alicerces à cúpula. Todas as formas anteriores de sociedade e de Estado, todas
as idéias tradicionais, foram postas à margem como contrárias à razão, o mundo,
até então, governara-se por puros preconceitos; o passado merecia apenas
comiseração e desprezo. O mundo, até então, havia estado envolto em trevas; para
o futuro, a superstição, a injustiça, o privilégio e a opressão seriam
substituídos pela verdade eterna, pela eterna justiça, pela igualdade baseada na
natureza e por todos os direitos inalienáveis do homem.
Sabemos, hoje, que esse reinado da razão era apenas o reinado idealizado pela
burguesia; a justiça eterna corporificou-se na justiça burguesa; a igualdade
reduziu-se à burguesa igualdade perante a lei; os direitos essenciais dos
homens, proclamados pelos racionalistas, tinham, como representante, a sociedade
burguesa, e o Estado da razão, o contrato social de Rousseau, ajustou-se, como
de fato só podia ter-se ajustado, à realidade, convertido numa República
democrático-burguesa. Os grandes pensadores do século XVIII, sujeitos às mesmas
leis de seus predecessores, não podiam romper os limites que sua própria época
traçava.
Ao lado do antagonismo entre a nobreza feudal e a burguesia, mantinha-se o
antagonismo geral entre os exploradores e os explorados, entre os ricos ociosos
e os pobres, criadores da riqueza. E foi precisamente esse fato que permitiu aos
representantes da burguesia apresentarem-se como representantes, não de uma
classe determinada, mas de toda a humanidade sofredora. Mais ainda, desde o
próprio momento em que nasceu a burguesia, ela trouxe em suas entranhas sua
própria antítese, uma vez que os capitalistas não podiam viver sem os operários
assalariados. E na mesma proporção em que os mestres dos grêmios medievais se
convertiam em burgueses modernos, os oficiais e aprendizes não agremiados se
transformavam em proletários. Em termos gerais, se a burguesia pôde arrogar-se o
direito de representar, nas suas lutas contra a nobreza, não só seus próprios
interesses como também o das diferentes classes trabalhadoras da época, em cada
um dos movimentos deflagrados já apareciam palpitações Independentes da classe
que trazia consigo o germe mais ou menos desenvolvido do proletariado moderno.
E, de fato, já na época da Reforma e da Guerra dos Camponeses, Thomaz Münzer
representava essa tendência. Na grande Revolução Inglesa foram os "niveladores"
que desempenharam esse papel e, na Revolução Francesa, Baboeuf serviu de
porta-voz da classe proletária. Com essas afirmações revolucionárias de
personalidade de uma classe incipiente surgem e se desenvolvem uma série de
manifestações teóricas a elas correspondentes: nos séculos XVI e XVII aparecem
as descrições utópicas de sociedades ideais e, no século XVIII, teorias já
diretamente comunistas, como as Morelly e Mably. O postulado da igualdade rompia
a envoltura dos direitos políticos para estender-se às condições sociais da vida
dos homens. Já não se tratava apenas de abolir os privilégios de classe, mas
também de destruir os próprios antagonismos de classe. Uma espécie de comunismo
ascético, inspirado nos espartanos, foi o primeiro sinal de vida da nova idéia.
Logo após, surgiram três grandes utopistas: Saint Simon, no qual a tendência
burguesa continua a se afirmar, até certo ponto, ao mesmo tempo que a tendência
proletária e Fourier e Owen, radicados no país onde a produção capitalista
estava mais desenvolvida e sob a impressão dos antagonismos por ela engendrados,
expuseram sistematicamente uma série de projetos destinados a abolir as
diferenças de classe, seguindo em linha reta as pegadas dos materialistas
franceses.
Nenhum dos três teóricos citados, entretanto, representava o interesse do
proletariado que, já nessa época, surgia como um produto histórico, Da mesma
forma que os racionalistas, esses três autores não se propõem a emancipar uma
determinada classe, mas toda a humanidade, com a instauração do reinado da razão
e da justiça eterna. Mas entre eles e os racionalistas abria-se um abismo. Os
novos pensadores descobrem que também o mundo burguês, instaurado segundo os
princípios do racionalismo, é injusto e irracional, merecendo, portanto, ser
desprezado como um traste inútil, da mesma forma como já o foram o feudalismo e
as formas sociais que o precederam. Se, até então, a verdadeira razão e a
verdadeira justiça não governaram o mundo, Isso se deve a que. segundo o seu
modo de ver, ninguém ainda conseguiu alcançá-las. Faltava o homem genial que só
agora se ergue frente a humanidade, com o segredo da verdade que por fim foi
descoberto. Por que é que só agora esse homem se levanta, por que é que só
agora, e não antes nem depois, é que se descobre o segredo da verdade? Não foi
porque isso lhe fosse imposto como algo de inevitável, pela concatenação do
desenvolvimento histórico mas apenas porque a sorte assim o quis. O mesmo
poderia ter ocorrido há quinhentos anos e teria sido poupada a humanidade de
quinhentos anos de erros, de sofrimentos e de lutas. Esse modo de ver é, em
suma, o de todos os socialistas ingleses e franceses e o dos primeiros
socialistas alemães, sem excluir Weitling. O socialismo é a expressão da
verdade, da razão e da justiça absoluta, e é suficiente descobri-lo para que se
imponha ao mundo por sua própria virtude. E, como a verdade absoluta é
independente do espaço, do tempo, do desenvolvimento do homem e da história, só
o acaso pode decidir quando e onde se deve revelar o seu descobrimento.
Acrescente-se a isso que a verdade absoluta, a razão e a justiça absolutas,
variam conforme o fundador de cada escola. E, como o caráter específico da
verdade, da razão e da justiça absolutas é agraciado, por sua vez, em cada um
deles, com a inteligência pessoal, as condições de vida, o estado dos
conhecimentos e a disciplina mental, forçosamente surge um conflito entre as
verdades absolutas, não restando outra solução senão a dos atritos ou fusões de
umas com as outras. Era, pois, natural e inevitável, que surgisse uma espécie de
socialismo eclético e, com efeito, a maior parte dos operários socialistas da
França e da Inglaterra têm, nos cérebros, uma mistura pitoresca que admite,
aliás, toda uma série de matizes, na qual se fundem os princípios econômicos, as
expansões críticas e as representações sociais do futuro, dos diversos
fundadores de seitas. Essa mescla é tanto mais fácil de ser composta quanto mais
depressa os ingredientes individuais vão perdendo, no curso das discussões, seus
contornos agudos e concretos, como se fossem pedras aplainadas pela corrente do
rio. Assim, para converter o socialismo numa ciência, só era possível situando-o
no terreno da realidade.
Entretanto, junto à filosofia francesa do século XVIII surge, logo após, a
moderna filosofia alemã, à qual Hegel dá o último remate. O principal mérito
dessa filosofia foi a restauração da dialética como forma suprema do pensamento.
Os antigos filósofos gregos eram todos dialéticos por natureza e o cérebro mais
universal dentre eles, Aristóteles, chegou até a penetrar na forma mais
substancial do pensamento dialético. Em troca, a nova filosofia, tendo alguns
brilhantes pensadores dialéticos (por exemplo, Descartes, Spinoza), deixou-se
dominar cada vez mais pelas chamadas especulações metafísicas, influenciada
principalmente pelos ingleses, das quais não se livram também os autores
franceses do século XVIII, pelo menos no que se refere às investigações
filosóficas. Fora do estrito campo da filosofia, os franceses souberam também
criar obras mestras de dialética, como, por exemplo, O Sobrinho do Rameau, de
Diderot, e o estudo de Rousseau sobre A origem da desigualdade, dos homens.
Resumiremos concisamente os traços principais de ambos os métodos filosóficos,
sem que, com isso, deixemos de estudar, mais adiante, com mais detalhes, esse
assunto.
Se submetermos à consideracão especulativa a natureza ou a história humana ou a
nossa própria atividade espiritual. encontrar-nos-emos, logo de inicio, com uma
trama infinita de concatenações e de mútuas influências, onde nada permanece o
que era nem como e onde existia, mas tudo se destrói, se transforma. nasce e
perece. Esta intuição do mundo. primitiva, simplista, mas perfeitamente exata e
congruente com a verdade das coisas, foi utilizada pelos antigos filósofos
gregos e aparece expressa, claramente, pela primeira vez, em Heráclito: tudo é e
não é, pois tudo flui, tudo está sujeito a um processo constante de
transformação, de incessante nascer e perecer, Mas esta intuição, por ser
exatamente a que reflete o caráter geral de todo o mundo dos fenômenos, não
basta para explicar os elementos isolados de que se forma todo esse mundo. E
esta explicação é indispensável, pois, sem ela, nem mesmo a imagem total
adquirirá sentido exato. Para penetrar nesses elementos, antes de mais nada,
precisamos destacá-los de seu tronco histórico ou natural e investigá-los
separadamente, cada um de per si, em sua estrutura, causas e efeitos que em seu
seio se produzem, etc...
Com efeito, é essa a missão primordial das ciências naturais e da história,
ramos de investigação que os gregos clássicos situavam, com bastante razão, num
plano puramente secundário, uma vez que o seu papel se restringia,
substancialmente, a fornecer, por um trabalho de classificação, os materiais
científicos. Os rudimentos das ciências naturais exatas não se desenvolveram até
chegar aos gregos do período alexandrino e, muito mais tarde, na Idade Média,
com os árabes. Na realidade, a autêntica ciência da natureza data somente da
segunda metade do século XV e, a partir de então, não fez mais que progredir com
velocidade constantemente acelerada. A análise da natureza em suas diferentes
partes, a classificação dos diversos fenômenos e objetos naturais em
determinadas categorias, a investigação interna dos corpos orgânicos segundo a
sua diferente estrutura anatômica, foram outras tantas condições fundamentais a
que obedeceram os progressos gigantescos realizados nos últimos quatrocentos
anos, no que se refere ao conhecimento científico da natureza. Mas estes
progressos processaram-se juntamente com o progresso no modo de analisar as
coisas e os fenômenos da natureza, isoladamente, destacados da grande
concatenação do universo. Não são, pois, encarados dinamicamente, mas
estaticamente, não são considerados como situações substancialmente variáveis,
mas como dados fixos, dissecados como materiais mortos e não apreendidos como
objetos vivos. Por esse método de observação, ao passar, com Bacon e Locke, das
ciências naturais à filosofia, sobreveio a limitação especifica, característica
destes últimos tempos, no método metafísico de especulação.
Para o metafísico, as coisas e suas imagens no pensamento, os conceitos, são
objetos isolados de investigação, objetos fixos, imóveis, observados um após o
outro, cada qual de per si, como algo determinado e perene. O metafísico pensa
em toda uma série de antíteses desconexas: para ele, há apenas o sim e o não e,
quando sai desses moldes, encontra somente uma fonte de transtornos e confusão.
Para ele, uma coisa existe ou não existe, Não concebe que essa coisa seja, ao
mesmo tempo, o que é uma, outra coisa distinta. Ambas se excluem de modo
absoluto, positiva e negativamente, causa e efeito se revestem da forma de uma
antítese rígida. A primeira vista, esse método especulativo parece-nos
extraordinariamente plausível, porque é o do chamado senso comum. Mas o
verdadeiro senso comum, personagem bastante respeitável dentro de portas
fechadas, entre as quatro paredes de sua casa, vive peripécias verdadeiramente
maravilhosas, quando se arrisca pelos amplos campos da investigação. E o método
do pensamento metafísico, por justo e necessário que seja em vastas zonas do
pensamento, mais ou menos extensas, de acordo com a natureza do objeto de que se
trata, tropeça sempre, cedo ou tarde, com uma barreira que, franqueada, faz com
que ele se torne um método unilateral, limitado, abstrato; perde-se em
contradições insolúveis, uma vez que, absorvido pelos objetos concretos, não
consegue enxergar as suas relações. Preocupado com sua própria existência, não
reflete sobre sua gênese e sua caducidade; concentrado em suas condições
estáticas, não percebe a sua dinâmica; obcecado pelas árvores não consegue ver o
bosque. Na realidade de cada dia, sabemos, por exemplo, e disso podemos dizer
ter toda a certeza, se um animal existe ou não. Mas, se investigarmos mais
detalhadamente, veremos que o problema pode complicar-se, e de fato se complica
às vezes consideravelmente, como não o ignoram os juristas que, em vão, se
atormentam para descobrir um limite nacional, a partir do qual deve ser
considerado como um assassinato a morte de um feto no útero materno. Tampouco é
fácil determinar fixamente o momento da morte, uma vez que a fisiologia
demonstrou que a morte não constitui um acontecimento automático, instantâneo,
mas faz parte de um longo processo. Do mesmo modo, pode-se afirmar que todo o
ser orgânico é, no mesmo momento, ele mesmo e um outro. Surpreendido em qualquer
instante, estará assimilando materiais absorvidos do exterior e eliminando
outros de seu seio. Em qualquer momento que o observarmos, veremos que em seu
organismo morrem umas células e nascem outras. E, no transcurso de um período
mais ou menos longo, a matéria de que está formado se renova radicalmente e
novos átomos de matéria ocupam o lugar dos antigos, donde se pode concluir que
todo o ser orgânico é, ao mesmo tempo, o que é e um outro. Mesmo assim, se
observarmos as coisas detidamente, veremos que os dois pólos de uma antítese, o
positivo e o negativo, são antitéticos e que, apesar de todo seu antagonismo
eles se completam e se articulam reciprocamente. E vemos, também, que a causa e
o efeito são representações que só vigoram como tais na sua aplicação ao caso
concreto, mas que, situando o fato concreto em suas perspectivas gerais.
articulado com a imagem total do universo, se diluem na idéia de uma trama
universal de ações recíprocas, onde as causas e os efeitos trocam constantemente
de lugar e o que, antes, era causa, toma, logo depois, o papel de efeito e
vice-versa.
Nenhum desses fenômenos e métodos de investigação se enquadra nos limites das
especulações metafísicas. O contrário acontece com a dialética, que encara as
coisas e as suas imagens conceituadas, substancialmente, em suas conexões, em
sua filiação e concatenação, em sua dinâmica, em seu processo de gênese e
caducidade, como os fenômenos que acabamos de expor, que nada mais são do que
outras tantas confirmações do método experimental que lhe é próprio. A natureza
é a pedra de toque da dialética e não temos outro remédio senão agradecer às
modernas ciências naturais nos terem oferecido um acervo de dados
extraordinariamente copioso e que vêm enriquecendo todos os dias, demonstrando,
assim, que a natureza se move, em última análise, pelos canais da dialética e
não sobre os trilhos metafísicos. Mas, até hoje, os naturalistas, que têm sabido
pensar dialeticamente, são pouquíssimos e esse conflito, entre os resultados
descobertos e o método especulativo tradicional que utilizam, desvenda aos
nossos olhos a ilimitada confusão hoje reinante na teoria das ciências naturais
e que constitui o desespero de mestres e discípulos, de autores e leitores.
Só pela via dialética, não perdendo de vista a ação geral das influências
recíprocas, da gênese e da caducidade de tudo quanto vive, das mudanças de
avanço e retrocesso, podemos chegar a uma concepção exata do universo, de seu
desenvolvimento e do desenvolvimento da humanidade, assim como da imagem por ele
projetada nos cérebros dos homens. Este foi o caminho pelo qual seguiu, desde o
primeiro instante, a moderna filosofia alemã, Kant começou sua carreira de
filósofo transformando o sistema solar estável e de duração eterna de Newton num
processo histórico: no nascimento do sol e de todos os planetas pelo movimento
de rotação de uma massa nebulosa. Deste fato, tirou a conclusão de que esta
origem implicava, também, necessariamente, na futura morte do sistema solar.
Meio século mais tarde, sua teoria foi confirmada matematicamente por Laplace,
e, depois de mais 50 anos, o espectroscópio demonstrou a existência, no espaço,
daquelas massas ígneas de gás, em diferentes graus de condensação.
A filosofia moderna alemã foi completada por Hegel, no qual, pela primeira vez -
esse é o seu grande mérito - se concebe o mundo da natureza, da história e do
espírito, como um processo, isto é, como um mundo sujeito à constante mudança,
transformações e desenvolvimento constante, procurando também destacar a íntima
conexão que preside este processo de desenvolvimento e mudança. Encarada sob
este aspecto, a história da humanidade já não se apresentava como um caos áspero
de violências absurdas, todas igualmente condenáveis perante o. julgamento da
razão filosófica madura, apenas interessantes para que as deixasse de lado o
mais depressa possível, mas, pelo contrário, se apresentava como o processo de
desenvolvimento da própria humanidade, que incumbia ao pensamento a tarefa de
seguir em suas etapas graduais e através de todos os desvios, até conseguir
descobrir as leis internas, que regem tudo o que à primeira vista se pudesse
apresentar como obra do acaso.
Não importa que Hegel não tenha resolvido esse problema. Seu mérito, que marcou
época, consistiu apenas em o ter colocado. Mas não se trata de um problema que
pode ser resolvido apenas por um homem. E, mesmo sendo Hegel, ao lado de
Saint-Simon, o cérebro mais universal de seu tempo, seu horizonte estava
circunscrito, em primeiro lugar, pela limitação inevitável de seus próprios
conhecimentos, e, em segundo, pela dos conhecimentos e observações de sua época,
também limitados em extensão e profundidade. A tudo isso deve-se ainda
acrescentar uma terceira circunstância. Hegel era idealista. As idéias de seu
cérebro não eram, para ele, imagens mais ou menos abstratas das coisas e dos
fenômenos da realidade, mas coisas que, em seu desenvolvimento, se lhe
apresentavam como projeções realizadas de uma "idéia", existente não se sabe
onde, antes da existência do mundo. Este modo de ver tudo subvertia, revirando
pelo avesso toda a concatenação real do universo. Por mais justas e mesmo
geniais que fossem muitas das concepções concretas concebidas por Hegel, era
inevitável, pela razão que acabamos de aludir, que muitos de seus detalhes
tivessem caráter acomodatício, artificioso, arbitrário, falso, numa palavra. O
sistema Hegel foi um aborto gigantesco, porém o último de sua espécie. Com
efeito, sua filosofia padecia ainda de uma contradição interna incurável, pois
que, se, por um lado, considerava como suposto essencial da concepção histórica,
segundo a qual a história humana é um processo de desenvolvimento que não pôde,
por sua própria natureza, encontrar solução intelectual no descobrimento disso
que se chama de verdades absolutas, por outro, se nos apresenta precisamente
como resumo e compêndio de uma dessas verdades absolutas, Um sistema universal e
compacto, definitivamente plasmado, no qual se pretende enquadrar a ciências da
natureza e da história, é incompatível com as leis da dialética. Isso,
entretanto, não exclui, mas, ao contrário, faz com que o conhecimento
sistemático do mundo exterior, em sua totalidade, possa progredir, a passos
gigantescos, de geração em geração.
A consciência da total inversão em que o idealismo alemão incorrera,
necessariamente, tinha que levar ao materialismo, Mas, note-se bem, não se trata
do materialismo puramente metafísico e exclusivamente mecânico do século XVIII
Afastando-se da simples repulsa, candidamente revolucionária, de toda a história
anterior, o materialismo moderno vê, na história, o processo de desenvolvimento
da humanidade, cujas leis dinâmicas tem por encargo descobrir. E, desviando-se
da idéia da natureza que dominava entre os franceses do século XVIII, da mesma
forma que da idéia concebida por Hegel, idéia pela qual se considerava a
natureza como um todo permanente e inalterável, com mundos eternos que se moviam
dentro de um estreito ciclo, tal como a representava Newton, e com espécies
invariáveis de seres orgânicos, como ensinava Lineu, o materialismo moderno
resume e sistematiza os novos progressos das ciências naturais, segundo os quais
a natureza tem também a sua história no tempo e os mundos, as espécies e os
organismos, que, em condições propícias, o habitam, nascem e morrem, e onde os
ciclos, na medida em que sejam admissíveis, se revestem de dimensões
infinitamente mais grandiosas. Tanto num como noutro caso, o materialismo
moderno é substancialmente dialético e já não há necessidade de uma filosofia
superior para as demais ciências. Desde o instante em que cada ciência tenha que
se colocar no quadro universal das coisas e do conhecimento delas, já não há
margem para uma ciência que seja especialmente consagrada a estudar as
concatenações universais. Tudo o que resta da antiga filosofia, com existência
própria, é a teoria do pensamento e de suas leis: a lógica formal e a dialética.
Tudo o mais se dissolve na ciência positiva da natureza e da história.
A nova etapa das ciências naturais, entretanto, só conseguiu impor-se na medida
em que a investigação lhe fornecia materiais positivos correspondentes, e,
enquanto isso, já há muito tempo, se haviam revelado certos fatos históricos que
abalaram decisivamente o modo de encarar a história. Em 1931, rompe, em Lyon, a
primeira sublevação operária e, de 1838 a 1842, o primeiro movimento operário
nacional, o dos cartistas ingleses, alcança o seu apogeu. A luta de classes
entre o proletariado e a burguesia passou a ocupar o primeiro plano na história
dos países europeus mais avançados, no mesmo ritmo em que se desenvolvia a
grande indústria e em que se firmava a hegemonia política da burguesia
recentemente conquistada. Os fatos vinham desmentir, cada vez mais
categoricamente, as doutrinas econômicas burguesas sobre a identidade de
interesses entre o capital e o trabalho e sobre a harmonia universal e o
bem-estar geral das nações como fruto da livre concorrência.
Esses fatos não podiam passar desapercebidos, assim como não podia ser ignorado
o socialismo francês e o inglês, que eram a sua expressão teórica, embora ainda
bastante imperfeita. Mas a velha concepção idealista da história, que ainda não
havia sido abandonada, não podia reconhecer sequer interesses materiais de
qualquer espécie. Para ela, a produção, como todos os outros fatores econômicos,
só existia como acessório, como elemento secundário dentro da "história
cultural". Os novos fatos, que a realidade revelava, obrigaram a uma revisão de
toda a história antiga e, dessa maneira, ficou demonstrado que a história havia
sido, sempre uma história de luta de classes e que estas classes em luta foram,
em todas as épocas, condições de produção e de troca, ou seja, fruto das
condições econômicas e que a estrutura econômica da sociedade em todos os fatos
da história era, portanto. a base real sobre a qual se erigia, em última
instância, todo o edifício das instituições jurídicas e políticas, da ideologia
filosófica, religiosa, etc.. de cada período histórico. Assim, o idealismo
via-se despojado de seu último reduto na ciência histórica. Lançava-se os
alicerces para uma concepção materialista e abria-se o caminho para verificar-se
que a existência é quem determina a consciência do homem e não é a consciência
quem determina a existência, como se afirmava tradicionalmente.
Verificamos, assim, que o socialismo tradicional era incompatível com a nova
concepção materialista da história bem como a concepção dos materialistas
franceses, sobre a natureza, não podia coexistir com a dialética moderna e com
as novas ciências naturais. Com efeito, o socialismo críticava o regime
capitalista de produção existente e suas conseqüências, mas não conseguiu
explicá-lo e, portanto, também não o poderia destruir, limitando-se apenas a
repudiá-lo, simplesmente, como imoral. Era preciso, porém, entender esse regime
capitalista de produção em suas conexões históricas, como um regime necessário
para uma determinada época da história, demonstrando, com isso, ao mesmo tempo,
seu aspecto condicional histórico, a necessidade de sua extinção e do
desmascaramento de todos os seus disfarces, uma vez que os críticos anteriores
se limitavam apenas a apontar os males que o capitalismo engendrava em vez de
assinalar as tendências das coisas a que obedeciam. A principal máscara, sob a
qual se disfarçava o capitalismo, caiu por terra com a descoberta da mais-valia.
Esta descoberta revelou que o regime capitalista de produção e a exploração dos
operários que dele se origina tinham, como base fundamental, a apropriação do
trabalho não pago. Revelou ainda que o capitalista, mesmo supondo-se que
comprasse a força de trabalho de seu operário por todo o seu valor, por todo o
valor que representava como mercadoria no mercado, e que este excedente do
valor, esta mais-valia era, em última instância, a soma do valor de que provinha
a massa cada vez maior do capital acumulado nas mãos das classes possuidoras.
Desde então, o processo da produção capitalista e o da criação do capital já não
continham nenhum segredo.
Estas duas descobertas: a concepção materialista da história e a revelação do
segredo da produção capitalista que se resume na mais-valia são devidas a Karl
Marx. Graças a estas descobertas, o socialismo converte-se numa ciência, que não
é preciso senão desenvolver em todos os seus detalhes e concatenações.
Era esse, mais ou menos, o sentido com que se apresentavam as coisas no campo do
socialismo teórico e da decadente filosofia, quando o Senhor Eugênio Dühring
veio à cena e anunciou, com o auxílio de tambores e fanfarras, a total subversão
da filosofia, da economia política e do socialismo, subversão feita unicamente
por ele.
Vejamos, agora, o que o Senhor Dühring promete e... o que cumpre.
Capítulo II - O QUE PROMETE O SR. DÜHRING
As obras do Sr. Dühring, que devemos, por ora, tomar em
consideração para a nossa análise, são: Curso de Filosofia, Curso de Economia
Política e Social e a História Crítica da Economia Política e do Socialismo. No
momento, interessa-nos principalmente a primeira das obras por nós citadas.
Já na primeira página, o Sr. Dühring se nos anuncia como o homem "que se outorga
a representação desse poder (isto é, a filosofia) em sua época e em todo o seu
desenvolvimento próximo previsível." Ou, por outras palavras, declara-se como o
único filósofo verdadeiro dos tempos presentes e de um futuro "previsível". Quem
dele se afasta, saiba que se afasta da verdade, Não é o Sr. Dühring o primeiro
que assim raciocina a seu próprio respeito, mas, excluindo-se Richard Wagner - é
o primeiro que o afirma com tranqüilidade. E tenha-se em conta que a verdade que
ele possui não é uma verdade como outra qualquer, mas "uma verdade definitiva e
sem apelação".
A filosofia do Sr. Dühring é "o sistema natural ou a filosofia da realidade... A
realidade apresenta-se nela de modo tal que exclui toda quimera de representação
sonhadora e subjetivamente limitada do mundo". Esta filosofia está, pois,
construída de tal modo, que transporta seu autor, por cima das fronteiras, acima
de sua limitação pessoal e subjetiva, de modo que nem ele próprio o negará. E,
com efeito, nada mais era preciso para que seu autor estivesse em condições de
proclamar verdades definitivas e sem apelação, ainda que não tenhamos
compreendido, até agora, como pôde realizar-se semelhante maravilha.
Este "sistema natural de um saber, precioso por si mesmo, para o espírito,
"descobriu, com toda a certeza, sem transigir quanto à profundidade da idéia, as
formas fundamentais do Ser", Desde a sua "plataforma verdadeiramente crítica", o
Sr. Dühring nos apresenta os elementos de uma filosofia real, projetada,
portanto, sobre a realidade da natureza e da vida, ante a qual não se mantém um
só horizonte apenas aparente, mas se desenrola ante os nossos olhos
surpreendidos, em suas potentes comoções, todas as terras e os céus da natureza
exterior e interior; oferece-nos, pois, um novo método especulativo e seus
frutos são "resultados e observações radicalmente novos..., idéias originais
criadoras de sistema... verdades comprovadas." Nela, temos "um trabalho que
encontrará a raiz de sua força na iniciativa concentrada"... supondo-se que isso
queira dizer alguma coisa; uma "investigação que desce até as raízes..., uma
ciência radical..., uma concepção rigorosamente científica das coisas e dos
homens..., um trabalho especulativo que penetra em todos os aspectos e
modalidades das coisas..., um esboço criador das hipóteses e conseqüências
domináveis pelo pensamento..., o absolutamente fundamental. O Sr. Dühring não se
limita a nos oferecer, no campo da Economia Política, "trabalhos histórica e
sistematicamente vastos", entre os quais os históricos se distinguem ainda pelo
"meu traço historicamente grandioso" e que fazem nascer na economia "ciclos
criadores"; além disso, termina suas investigações com um plano socialista
completo, pessoal, perfeitamente desenvolvido, da sociedade do futuro, plano que
é "o resultado prático de uma teoria clara, que se aprofunda até as últimas
raízes" e, portanto, compartilha com a infalibilidade e a virtude de
santificação universal, que é o atributo da filosofia dühringuiana, pois, "só
sob a forma socialista por mim desenvolvida em meu Curso de Economia Política e
Social pode uma autêntica propriedade ocupar o posto dessa propriedade aparente
e provisória conquistada pela violência". Já sabe o futuro que, quer deseje ou
não, terá que se basear, forçosamente, nessa concepção.
Nada nos custaria aumentar essa coleção de elogios dedicados pelo Sr. Dühring ao
Sr. Dühring. Mas cremos bastar o que já dissemos para que o leitor tenha algumas
dúvidas sobre o fato de ter realmente diante de si um filósofo ou... Não;
rogamos ao leitor que reserve sua opinião até conhecer mais de perto o prometido
"radicalismo". Se apresentamos todo esse florilégio é porque queríamos
simplesmente demonstrar não se tratar de um filósofo e socialista vulgar, desses
que se limitam a formular suas idéias deixando que os outros julguem de seu
valor, mas de um ser verdadeiramente extraordinário, que afirma possuir a mesma
infalibilidade do papa e cuja doutrina, de virtude universalmente santificadora,
deve ser aceita. sem discussão, se não se quiser incorrer na mais horrenda das
heresias. Não, não se trata, absolutamente, de um desses trabalhos que enchem e
superlotam as literaturas socialistas de todos os países e, ultimamente, também
da Alemanha, de um desses trabalhos que as pessoas de diversos níveis procuram,
com a maior sinceridade, para alcançar conclusões claras sobre os problemas para
cuja solução lhes falta, em maior ou menor quantidade, dados e conhecimentos.
mas nos quais, apesar de seus defeitos científicos ou literários, merece sempre
ser tomada em conta a boa vontade socialista. Nada disso. O Sr. Dühring
apresenta-nos doutrinas que ele mesmo proclama verdades definitivas e
inapeláveis, e, portanto, de antemão excluem como falsas todas as opiniões
diversas. E não só possui a verdade exclusiva. como também possui o único método
rigorosamente científico para investigá-la, método perto do qual empalidecem,
como falhos de seriedade científica, todos os outros. Ou o Sr. Dühring tem razão
e, nesse caso, estaremos diante do maior dos gênios de todos os tempos, do
primeiro homem sobre-humano, infalível, ou, então, está o Sr. Dühring
equivocado, mas, mesmo assim, seja qual for a nossa opinião, se tomássemos em
consideração, benevolentemente, a sua boa vontade, como se esta existisse, isso
seria para ele a maior das ofensas.
Quando se está de posse da verdade definitiva e inapelável e da única ciência
rigorosamente científica, é natural que se manifeste certo desprezo pelo resto
da humanidade, ignorante da ciência e extraviada no erro. Nada, tem, portanto,
de estranho o fato de O Sr. Dühring falar de seus predecessores com a mais
profundo desprezo e só umas tantas pessoas, a quem ele mesmo, como favor
excepcional, chama de grandes homens, prevaleçam ante o julgamento de seu
"radicalismo".
Vejamos o que nos diz dos filósofos: "Leibnitz, carente de todo sentido elevado,
é o melhor de todos os possíveis filosofadores cortesãos." Kant é ainda
tolerado. Depois dele, entretanto, tudo virou às avessas, pois vieram as tolices
e futilidades, tão sem substância e tão enganosas, dos primeiros epígonos, de um
Fichte e de um Schelling..., caricaturas monstruosas de incultos filosofastros
da natureza..., as "monstruosidades pós-kantianas" e as "fantasias febris" que
encontram "num Hegel" o seu remate e sua coroação. Este filósofo falava uma
"gíria hegeliana" e propagou a "epidemia hegeliana", por meio de suas "maneiras
e formas anticientíficas", por suas "grosserias".
Os naturalistas não têm tratamento melhor, apesar de ser citado apenas Darwin.
Portanto, é a este que temos que nos referir: "A semipoesia e a rapidez
darwinista de metamorfoses, com sua grosseira estreiteza de concepções e sua
fraqueza de discernimento... Do nosso ponto de vista, a darwinismo, do qual se
deve separar, naturalmente, as doutrinas lamarckianas, é uma afirmação de
selvageria e um crime de lesa-humanidade".
Mas os socialistas é que ficam em piores condições. Com exceção de Louis Blanc -
o mais insignificante de todos - eles são todos pecadores e indignos da fama que
o Sr. Dühring lhes poderia dar através de seu nome. E tudo isso, não apenas pela
sua falta de verdade para com a ciência, mas também por sua falta de caráter.
Exceto Baboeuf, e alguns outros communards, de 1871, todos os outros chegam
mesmo a ter "masculinidade". Os três utopistas não são, segundo ele, mais que
"alquimistas sociais". Unicamente Saint-Simon consegue um tratamento bastante
passável, uma vez que só lhe é reprovado o exagero", considerando-se
caridosamente a enfermidade de megalomania religiosa de que padecia. Mas, ao
chegar a Fourier, o Sr. Dühring perde a paciência. Pois Fourier "descobriu todos
os elementos da loucura...-, idéias que deviam estar naturalmente num
manicômio..., os sonhos mais disparatados..., criaturas loucas... O
inegavelmente "perturbado Fourier", essa "cabecinha infantil", esse "idiota",
nem sequer era socialista; o seu palavreado nada tinha a ver com o socialismo
racional; era simplesmente um aborto trabalhado pelo padrão da vida vulgar". E,
finalmente, àqueles a quem não bastam essas manifestações (as de Fourier sobre
Newton...). para que se convençam de que no nome de Fourier e em todo o
fourierismo só a primeira sílaba (fou, em francês significa louco) encerra certa
verdade, merecem ser incluídos, por sua vez, em qualquer uma das categorias do
idiotismo". E, por fim, ficamos sabendo que Robert Owen "tinha idéias pobres e
mesquinhas..., sua mentalidade tão grosseira no que se refere ao terreno
moral..., alguns lugares comuns degenerados em idéias confusas..., talento de
observação absurdo e torpe... O processo mental de Owen não merece sequer o
tempo que se gasta com uma crítica séria... A sua vaidade..." etc., etc. O Sr.
Dühring classifica os utopistas, divertindo-se com os seus nomes, com o seguinte
desperdício de humor: Saint-Simon, saint (santo), Fourier, fou (louco), Enfantin,
enfant (criança). Só lhe faltou acrescentar Owen, o weh (oh! dor em alemão),
encerrando um período bastante considerável da história do socialismo. com uma
piada, em quatro letras, e quem se atrever a pôr isso em dúvida, "merece ser
incluído em qualquer uma das categorias de idiotismo".
Dos julgamentos, que Dühring faz dos socialistas posteriores, limitar-nos-emos a
destacar, devido à sua brevidade, os que faz sobre Lassalle e Marx:
Lassalle: "Ensaios de vulgarização pedantes e pegajosos... excessos
escolásticos..., uma mistura monstruosa de teorias gerais e de detalhes
mesquinhos..., superstição hegeliana absurda e disforme..., exemplo
repelente..., limitação..., envaidecimento jactancioso com a mais banal
mediocridade..., nosso herói judeu..., panfletista..., ordinário..., uma
concepção da vida e do mundo absolutamente insustentáveis...
Marx: "Estreiteza de concepções..., seus trabalhos e suas conclusões são falhos
por si mesmos, isto é, do ponto de vista de teoria pura. do valor permanente,
são indiferentes para o nosso objetivo (a história crítica do socialismo), e, no
que se refere à história geral sobre as correntes do espírito, pode-se tomá-lo
em consideração, no máximo, como um sintoma da influência atingida por um ramo
do escolasticismo sectário moderno..., impotência e incapacidade de concentração
e ordenação..., deformação de pensamento e de estilo, maneiras de linguagem
pouco dignas..., vaidade anglicana..., engano..., concepções áridas, que, na
realidade nada mais são do que rimas bastardas da fantasia histórica e
lógica..., processos desonestos..., vaidade pessoal..., maneiras insolentes...,
impertinências..., frasezinhas engenhosas e tolices..., erudição mesquinha...,
um retrógrado na filosofia e na ciência."
E assim por diante, pois, o que dissemos, apesar de suficiente, nada mais é que
um florilégio bastante superficial tirado dos jardins do Sr. Dühring. Mas é
preciso ficar bem entendido que, no momento, não nos interessa saber se esses
amáveis insultos, que, com um pouco de boa educação, poderiam coibir o Sr.
Dühring de acusar alguém como "infame" "impertinente", se essas afirmações são
também verdades definitivas e inapeláveis. "Assim mesmo nos abasteremos, pelo
menos no momento - de exteriorizar qualquer dúvida sabre o seu radicalismo",
pois temos muito medo de que isso nem sequer nos permitia escolher a categoria
de idiotas na qual deveríamos ser incluídos.
Vimo-nos obrigados a dar algumas provas daquilo a que o Sr. Dühring chama de
"escolha entre as maneiras corretas e estritamente modestas de expressão",
mostrando, além disso, que para o Sr. Dühring a insignificância de seus
predecessores é tão inalterável como o é sua própria infalibilidade. Depois
disso, nada mais nos resta senão nos humilharmos na mais profunda reverência
ante o mais poderoso dos gênios de todos os tempos..., se é que as coisas são
como ele no-las promete..
PARTE I
Filosofia
Capítulo - III - DIVISÃO. APRIORISMO
Segundo o Sr. Dühring, a filosofia é o desenvolvimento da
forma suprema da consciência do mundo e da vida, compreendendo, num sentido
amplo, os princípios, de toda a ciência e de toda a vontade. Onde quer que se
apresente à consciência humana, uma série de conhecimentos ou de impulsos, ou um
grupo de formas de existência, os princípios que presidem a essas manifestações
implicam necessariamente num problema de filosofia. Estes princípios são os
elementos simples, ou os que assim são considerados até hoje e dos quais se
compõem as mais diversas modalidades da ciência e da vontade. Do mesmo modo que
a constituição química dos corpos se reduz a formas e a elementos fundamentais,
pode reduzir-se, também, a seus elementos simples a constituição de qualquer
coisa. E estes elementos ou princípios, uma vez obtidos, não governam apenas
aquilo que conhecemos e que nos é diretamente acessível, mas também envolvem o
mundo que nos é desconhecido e igualmente inacessível. Os princípios filosóficos
formam, portanto, o último complemento de que necessitam as ciências para se
converterem num sistema harmônico de explicação da natureza e da vida dos
homens. Além das formas fundamentais de toda a existência, a filosofia só
conhece os verdadeiros objetivos de investigação: a natureza e o mundo dos
homens. Para a classificação dessa matéria, temos três grupos, que dela se
derivam com absoluta espontaneidade: a esquemática geral do mundo, a teoria dos
princípios da natureza e, finalmente, a dos princípios do homem. Além disso,
essa hierarquia contém uma ordem lógica interna, pois, à frente, estão os
princípios formais pelos quais se rege e, logo após, em gradação subordinada, as
zonas materiais a que esses princípios se aplicarão. Até aqui, limitamo-nos a
transcrever quase que literalmente as palavras do Sr. Dühring.
Quando ele fala de princípios, refere-se a princípios de pensamento
independentes, não deduzidos do mundo exterior, e de princípios formais,
derivados, aplicáveis à natureza e ao mundo dos homens pelos quais, portanto, a
natureza e o homem serão regidos. Mas, de onde tira o pensamento esses
princípios? Tira de si mesmo? Não, pois o próprio Sr. Dühring diz que, na zona
puramente ideal, não há mais do que esquemas lógicos e figuras matemáticas
(afirmação falsa, como veremos adiante). Os esquemas lógicos só podem referir-se
a formas conceituais, e, aqui, trata-se apenas das formas do que existe, do
mundo exterior, formas que jamais o pensamento pode derivar de si mesmo, mas que
deve buscar no mundo exterior. Mas isto inverte toda a relação estabelecida: os
princípios já não são o ponto de partida da investigação, mas seus resultados
finais; não se aplicam à natureza e à história humana, mas deles são extraídos;
não é a natureza e o mundo dos homens que se regem pelos princípios, mas só
estes é que têm razão de ser quando coincidem com a natureza e com a história.
Nisto consiste a verdadeira concepção materialista das coisas, o oposto do que
afirma o Sr. Dühring, que é idealista e cuja concepção inverte todas as coisas,
construindo o mundo real partindo da idéia, de uma série de esquemas, planos ou
categorias existentes e de valor eterno e anterior à existência do mundo, nada
mais e nada menos que... um Hegel.
Com efeito, coloquemos a Enciclopédia de Hegel, com todas as suas fantasias
febris, junto às verdades definitivas e inapeláveis do Sr. Dühring. Ao que o Sr.
Dühring chama de esquemática geral do mundo, Hegel chama de lógica. O que o
primeiro aplica à natureza como esquemas, o segundo o faz com as categorias
lógicas e daí temos a filosofia da natureza, e, finalmente, a sua aplicação ao
mundo do homem, que, em Hegel, se chama filosofia do espírito. Como vemos, a
"ordem lógica interna" da hierarquia dühringuiana nos encaminha diretamente,
"com absoluta espontaneidade", à Enciclopédia de Hegel, donde foi tirada com tal
fidelidade, que faria chorar de ternura ao judeu errante da escola hegeliana, o
professor Michelet, de Berlim.
A isto se chega quando se considera a "consciência", o "pensamento", com um
critério absolutamente materialista, como se se tratasse de algo determinado em
contraposição; desde o primeiro instante, ao que existe, à natureza. E nada mais
se pôde fazer senão admirar que possam coincidir a consciência e a natureza, o
pensamento e a existência, as leis do pensamento e as leis naturais. Mas, se
queremos, na realidade, saber o que são o pensamento e a consciência e de onde
procedem, saberemos, então, que são produtos do cérebro humano e o próprio homem
nada mais é de que um produto natural que se formou e se desenvolveu dentro de
seu ambiente e com ele. Tiramos, então, a conclusão, lógica por si mesma, de que
os produtos do cérebro humano, que não são, em última análise, mais que produtos
naturais, não se contradizem, mas se harmonizam com a concatenação geral da
natureza.
Mas o Sr. Dühring não se conforma com uma concepção tão simples. Ele não pensa
apenas em nome da humanidade - o que já seria suficiente - pensa também em nome
da essência consciente e pensante de tudo o que existe no mundo. Com efeito,
seria "degradar as formas fundamentais da consciência e da cultura, pretender
excluir a sua soberana vigência, e os seus títulos incondicionais de verdade ou
disso suspeitar por se as considerar atributos humanos." Para que não surja
dúvida de que possa existir algum planeta no qual dois e dois sejam igual a
cinco, o Sr. Dühring se vê obrigado a prescindir da qualificação do pensamento
humano e forçado, com isso, a separar essa função da única base real que para
nós existe, - o homem e a natureza -, submergindo, assim, uma ideologia que nada
mais é do que o epígono do "epígono de Hegel". Além disso, teremos muitas
ocasiões de saudar o Sr. Dühring noutros planetas.
Facilmente se compreende que, nessa base ideológica, não é possível fazer-se uma
teoria materialista. Adiante veremos como o Sr. Dühring se vê forçado a impor à
natureza, mais de uma vez, uma norma consciente de conduta, ou seja, o que
vulgarmente chamamos, - um Deus.
O nosso filósofo da realidade tinha, entretanto, também outras razões para
transplantar a base de toda a realidade do mundo real para o mundo do
pensamento. Não é em vão que a ciência desse esquematismo geral do mundo, desses
princípios formais de tudo o que existe seja precisamente a base da filosofia do
Sr. Dühring. E se pudéssemos derivar o esquematismo do mundo, não de nosso
cérebro, mas por meio dele, do mundo real, se pudéssemos derivar os princípios
da existência daquilo que existe, não seria necessária essa filosofia, mas, pelo
contrário, contentar-nos-íamos com uma série de conhecimentos positivos do mundo
e do que nele ocorre, conhecimentos que não formam uma filosofia, mas apenas uma
ciência positiva. Como vemos, todo o trabalho do Sr. Dühring seria tempo
perdido.
E, se não necessitássemos de uma filosofia como tal, tampouco necessitaríamos de
um sistema, ou mesmo de um sistema natural de filosofia. A consciência de que a
totalidade dos fenômenos naturais forma um conjunto sistemático força a esta
ciência verificar essa dependência nas suas diversas partes, tanto nos detalhes
como no conjunto. Mas. querer reduzir um sistema científico congruente e
fechado, a esse conjunto, pretender tirar uma imagem ideal exata do sistema do
mundo em que vivemos, é uma simples quimera, tanto para nós, como para os tempos
vindouros. Se, ao chegar a um período qualquer do progresso humano, se tornasse
possível construir um sistema definitivo e determinado das concatenações
universais, tanto no físico como no espiritual e histórico, ter-se-ia encerrado
o ciclo dos conhecimentos humanos e, uma vez que a sociedade se sujeitasse a
esse sistema, levantar-se-ia uma barreira a todo o desenvolvimento histórico
futuro, o que seria um contra-senso, um absurdo. Os homens vêm-se, pois,
colocados ante esta contradição: de um lado, levados a investigar o sistema do
mundo, englobando todas as suas condições e relações; de outro, por sua própria
natureza e pela natureza mesma do sistema do mundo, não podem jamais resolver
por completo esse problema.
Mas esta contradição não se baseia apenas na natureza destes dois fatores: o
homem e o mundo. A contradição é a alavanca principal de todo o progresso
intelectual e resolve-se diária e incessantemente no desenvolvimento progressivo
e infinito da humanidade, do mesmo modo que os problemas matemáticos, por
exemplo, encontram sua solução numa série infinita ou naquilo que os matemáticos
chamam de fração contínua. O fato é que toda a imagem conceitual do sistema do
mundo é e continuará sendo sempre, objetivamente, por força da situação
histórica e, subjetivamente, por assim o desejar a contextura espiritual de seu
autor, uma imagem limitada. É claro que o Sr. Dühring proclama de antemão sua
mentalidade como algo que exclui todo o perigo de representação subjetivamente
limitada do mundo. Anteriormente, vimos que contava, entre os seus dons, a
onipresença, uma vez que podia falar em nome de todos os planetas do universo.
Agora, vemos que goza também do dom da onisciência, pois não foi em vão que
resolveu os últimos problemas da ciência, fechando, por meio de tábuas, o futuro
de toda a ciência do mundo.
E, do mesmo modo que age em relação às formas fundamentais do que existe, o Sr.
Dühring crê que pode fazer, ao tirar de seu cérebro. acabadas e perfeitas, de um
modo apriorístico, isto é, sem considerar a experiência que oferece o mundo
exterior, todas as matemáticas puras. Nas matemáticas puras pôde, segundo ele,
mover-se livremente a inteligência, com as "suas criações e imaginações
próprias"; os conceitos de número e de figura são o "seu objetivo suficiente e a
sua própria obra", razão pela qual as matemáticas puras têm "uma validez
independente da experiência concreta e do conteúdo real do mundo".
É indubitavelmente certo que os conceitos das matemáticas puras regem
independentemente da experiência concreta de qualquer indivíduo, ainda que essa
virtude não pertença exclusivamente às matemáticas, o que é fato comum
comprovado por todas as ciências e, mais ainda, a todos os fatos em geral,
cientificados ou não. Os pólos magnéticos, a composição da água por dois átomos
de hidrogênio e um de oxigênio, o fato de que Hegel está morto e de que o Sr.
Dühring está vivo, são fatos que existem independentemente de minha experiência
ou da experiência de outras pessoa, e mesmo independentemente da experiência do
Sr. Dühring, assim que ele dormir o sono dos justos. O que não é certo é que as
matemáticas puras são entendidas pela inteligência apenas com as suas próprias
criações e imaginações. De onde são tirados os conceitos de número e figura,
senão do mundo real? Os dez dedos pelos quais se aprende a contar e, por
conseguinte, a executar a primeira operação aritmética, nada têm de uma livre
criação do espírito. E, para contar, não só fazem falta os objetos contáveis,
como também a capacidade de prescindir, à vista desses objetos, de todas as suas
qualidades, com exceção da do número, capacidade que é fruto de um longo
desenvolvimento histórico, empírico. É o mesmo que acontece com o conceito do
número, acontece também com o da figura, que é tomado exclusivamente no mundo
exterior e não surge no cérebro de ninguém por obra da pura especulação. Tiveram
que existir objetos que apresentassem uma forma, e cujas formas pudessem ser
comparadas entre si, para que pudesse surgir o conceito de figura. As
matemáticas puras versam sobre as formas no espaço e as relações quantitativas
do mundo exterior e, portanto, de uma matéria bastante real. O fato de essa
matéria se nos apresentar sob forma sumamente abstrata, apenas superficialmente,
pode nos fazer crer que não têm sua origem no mundo exterior. O que acontece é
que, para poder investigar essas formas e relações em toda a sua pureza, é
necessário desligá-las completamente de seu conteúdo, deixando-o de lado como
indiferente, para assim chegarmos aos pontos sem dimensões, às linhas sem
largura e espessura, aos a, aos b, aos x, e aos y, às constantes e às variáveis;
e por fim, depois de percorrer todos esses caminhos, chegarmos às criações
verdadeiramente livres da inteligência, isto é, às grandezas imaginária.. A
aparente demonstração das grandezas matemáticas não prova tampouco sua origem
apriorística, mas apenas sua concatenação racional. Para se poder chegar à idéia
da forma de um cilindro, pela rotação de um retângulo em torno a um de seus
lados, foi necessário investigar-se, na realidade, apesar de ser forma bastante
rudimentar, toda uma série de retângulos e de cilindros. As matemáticas, assim
como todas as outras ciências, surgiram das necessidades dos homens. da
necessidade de medir terras e volumes, do cálculo do tempo e da mecânica. Mas,
como acontece em todos os campos do pensamento humano, ao chegar a uma
determinada fase de desenvolvimento, as leis abstraídas do mundo real se vêm
separadas desse mundo real do qual nasceram, consideradas como se fossem alguma
coisa aparte, como se fossem leis vindas de fora e às que o mundo se deveria
ajustar. Assim aconteceu com a sociedade e o Estado e assim acontecera, num
determinado momento, com as matemáticas puras, que serão aplicadas ao mundo,
apesar de nele ter sua origem e de não representar mais do que uma parte de suas
formas de síntese. E é isso, precisamente, o que faz com que sejam aplicáveis ao
mundo.
Mas o Sr. Dühring, do mesmo modo que imagina poder derivar as matemáticas puras
dos axiomas matemáticos, "que, numa representação puramente lógica, não admitem
nem necessitam fundamentação", sem aditamento empírico de espécie alguma, para
logo depois aplicar essas matemáticas puras ao mundo, imagina também poder
arrancar do cérebro, sem mediador algum, as formas fundamentais de tudo o que
existe, os elementos simples de toda a ciência, os axiomas da filosofia, deles
derivando toda a filosofia ou esquemática do mundo, outorgando, logo após a sua
Constituição, por decreto graciosíssimo de Sua Soberana Majestade, à natureza e
ao mundo dos homens. Infelizmente para ele, a natureza nada tem a ver, e o mundo
dos homens muito pouco, apenas uma fração insignificante, com os prussianos de
1850, com os súditos de Manteuffel.
Os axiomas matemáticos são outras tantas expressões do conteúdo conceitual,
extremamente exíguo, que as matemáticas precisam emprestar da Lógica. Na
realidade esses axiomas podem reduzir-se apenas a dois:
1) O todo é sempre maior que suas partes. Esse axioma é pura tautologia, uma vez
que a idéia quantitativa da parte se refere, desde o primeiro momento, num
sentido bastante concreto, à idéia do todo, e quando dizemos "parte" já dizemos
que o "todo" quantitativo é formado quantitativamente por várias "partes". O
mencionado axioma, ao dar expressão a esta verdade, não nos faz avançar um só
passo. Poderíamos até provar, de certo modo, essa tautologia, dizendo que o
"todo" é o que consta de várias "partes"; "parte" é aquilo que, unindo-se com
outras, forma um "todo", de onde se deduz que a "parte" é sempre menor que o
"todo", demonstração na qual a aridez da repetição acentua ainda mais a
inconsistência do conteúdo.
2) Duas grandezas iguais a uma terceira são iguais entre si. Como demonstrou
Hegel, esse axioma é uma afirmação, cuja exatidão a lógica subscreve e,
portanto, pode ser demonstrado mesmo fora da matemática pura. Todos os demais
axiomas sobre igualdade e desigualdade são meros corolários deste.
Mas, com essas pobres verdades, não avançamos muito, nem em matemática, nem em
coisa alguma. Se quisermos progredir um pouco, não teremos outro remédio senão
introduzir nas verdades, fenômenos reais, relações e formas plásticas, tomadas
da realidade. As idéias de linha, de superfície, de ângulo, de quadrado, de
quadrilátero, de esfera, etc., etc., são todas idéias derivadas da realidade, e
apenas quem professa uma ideologia inteiramente ingênua pode crer nos
matemáticos quando estes dizem que a primeira linha se originou do movimento de
um ponto no espaço, a primeira superfície do movimento de uma linha, o primeiro
corpo, do movimento de uma superfície, e assim sucessivamente. Até a própria
linguagem se revolta contra semelhante tese. Uma figura matemática de três
dimensões chama-se corpo e, em latim, corpus solidum, que significa a mesma
coisa que corpo tangível, nome, como vemos, que não pode ter nascido de um ato,
intelectivo e livre, da imaginação pura, mas da realidade concreta.
Mas, por que todas essas digressões, depois de se ter cantado, nas páginas 31 e
32, um hino entusiasta à matemática pura, como ciência independente do mundo da
experiência, ao seu apriorismo, às criações e imaginações puramente livres da
inteligência, o Sr. Dühring, diz à página 44: "Na verdade, esquece-se facilmente
que aqueles elementos matemáticos (número, grandeza, tempo, espaço e movimento
geométrico) apenas são ideais por sua forma... as grandezas absolutas são,
portanto, algo absolutamente empírico, qualquer que seja o gênero a que
pertençam" ..., mas "os esquemas matemáticos são suscetíveis de uma
caracterização independente da experiência e que são suficientes", afirmação
esta aplicável, em maior ou menor grau, a qualquer abstração, mas não demonstra
que essa abstração, mesmo o sendo, não se deriva da realidade. Na esquemática do
mundo, a matemática pura brota do intelecto puro; na filosofia da natureza, é
algo perfeitamente empírico, tomado do mundo exterior, para dele se abstrair
imediatamente. A qual das duas afirmações devemos dar crédito?
Capítulo IV - ESQUEMÁTICA DO MUNDO
"O ser universal é único. Bastando-se a si próprio, nada
tolera ao seu lado ou acima de si. Associar-lhe um segundo ser seria fazer dele
o que não é, ou seja, uma parte ou um elemento de um todo mais amplo. Desde que
desenvolvemos nossa idéia unitária, por assim dizer, como um plano, nada do que
deve entrar necessariamente nessa unidade pode conservar em si a dualidade. Mas
também nada pode escapar a essa unidade conceitual. A essência de todo
pensamento consiste na reunião dos elementos de consciência numa unidade... O
pensamento é o centro da unidade da síntese que faz nascer o conceito de um
mundo indivisível e conhecer o universo, conforme o nome já indica, como uma
coisa em que tudo se funde numa unidade."
É o que diz o Sr. Dühring. Nessas afirmações, vemo-lo aplicar, pela primeira
vez, o método matemático, segundo o qual, "todo problema se resolve de um modo
axiomático sobre algumas formas fundamentais simples, como se se tratasse de
simples... princípios de matemática."
"O ser universal é único, Se uma tautologia - a simples repetição no predicado
do que já se exprimiu no sujeito basta para construir um axioma, aí temos um e
de primeira água."
No sujeito, o Sr. Dühring diz-nos que o ser, como universal, compreende tudo e
no predicado afirma intrepidamente que nada, então, existe fora dele. Que
colossal idéia "criadora de sistema"!
Criadora, com efeito. Mais seis linhas, e o Sr. Dühring, por meio de nosso
pensamento unitário, transforma a unicidade do ser em sua unidade. E como a
característica de todo pensamento consiste na aglutinação formadora da unidade,
pelo simp1es fato de pensar em si próprio, o ser, o que existe, se concebe como
uma unidade e o conceito do mundo se torna indivisível; daí se conclui que,
sendo o que existe pensado e o conceito do mundo unitário, o mundo real é
igualmente uma unidade indivisível. E assim "as coisas do além não têm mais
lugar, uma vez que o espírito aprendeu a discernir o que existe na sua
universalidade homogênea".
Eis uma batalha do espírito comparada com a qual Austerlitz e Iena Sadow e Sédan
desaparecem inteiramente. Em duas frases, numa página somente, após termos
mobilizado o primeiro axioma, conseguimos abolir, pulverizando-o, todo o mundo
sobrenatural: - Deus, os exércitos celestes, o céu, o inferno e o purgatório,
bem como a imortalidade da alma.
Como passamos da unicidade do ser à sua unidade? Simplesmente., representando o
ser a nós próprios. Desde o momento que estendemos o nosso pensamento unitário
em torno dele, como plano, o ser único torna-se no pensamento um ser unitário,
uma unidade de idéia, porque a essência de todo pensamento consiste na
aglutinação dos elementos de consciência numa unidade.
Esta última proposição é simplesmente falsa. Em primeiro lugar, o pensamento
consiste tanto em decompor analiticamente os objetos representados na
consciência em seus elementos, como em unir os elementos conexos numa unidade.
Sem análise, não há síntese. Em segundo lugar, a não enveredar por falsos
caminhos, somente os elementos de consciência podem ser, pelo pensamento,
reduzidos à unidade, unidade essa que existia previamente nesses mesmos
elementos ou nos objetos.
Não é bastante que me resolva eu a classificar uma escova de sapatos na classe
dos mamíferos, para que a mesma, como que por encanto, apresente glândulas
mamárias. A unidade do ser, ou seja, aquilo que justifica a redução à unidade no
pensamento, é, pois, justamente o que era mister demonstrar; e, quando o Sr.
Dühring nos assegura que concebe o ser como unidade e não como duplicidade, nada
mais faz senão expor uma opinião pessoal que a ninguém convence.
Seu processo mental, exposto rigorosamente, é o seguinte: "Começo pelo que
existe. Penso. pois, sobre o que tem existência real. A idéia do que existe
constitui uma unidade. Mas o pensamento e o que existe. têm que estar de acordo,
correspondem-se, "coincidem", Portanto, o que existe é também, na realidade,
unitário. Donde se conclui que o sobrenatural não existe". Se o Sr. Dühring nos
tivesse falado assim, sem subterfúgios, ao invés de nos apresentar os dogmas
anteriormente citados, sua ideologia se tornaria compreensível. Querer
demonstrar a realidade de um resultado mental qualquer por meio da identidade
entre o que se pensa e o que existe é, de fato, uma das fantasias febris mais
loucas de... Hegel.
Mesmo admitindo que toda a sua argumentação fosse exata, o Sr. Dühring não teria
ganho uma só polegada de terreno aos espiritualistas, estes lhe responderiam com
muita precisão: também para nós o mundo constitui uma unidade; o seu
desdobramento em mundo real e mundo sobrenatural somente existe para o nosso
ponto de vista especificamente terreno, de homens pecadores; mas, em si e para
si, isto é, em Deus, tudo quanto existe constitui uma unidade. Acompanhariam,
assim, o Sr. Dühring a percorrer seus amados "planetas" e lhe apontariam um ou
vários em que, por não ter havido pecado original, não conhece a distinção entre
mundo real e sobrenatural e onde, portanto, a unidade do mundo é um artigo de
fé.
O mais cômico nessa história é que o Sr. Dühring, para provar a não existência
de Deus por meio do conceito do ser, lança mão da prova ontológica da existência
de Deus. Diz essa prova: quando pensamos em Deus, nós o concebemos como a soma
de todas as perfeições. Ora, a soma de todas as perfeições implica, antes de
tudo, na existência, pois um ser inexistente é necessariamente imperfeito.
Devemos, pois, incluir a existência no número das perfeições de Deus. Logo,
necessariamente, Deus existe, É esse, tal qual, o raciocínio do Sr. Dühring;
quando ideamos o ser, ideamo-lo como conceito uno. O que se compreende num só
conceito é uno. O que existe não corresponderia, portanto, ao seu conceito se
não constituísse uma unidade; Deus, portanto, não existe, etc.
Quando falamos do ser e somente do ser, a unidade não pode consistir senão em
que todos os objetos de que se trata - são, existem. Na unidade desse ser e em
nenhuma outra é que se harmonizam, e a expressão aplicada a todos em comum, isto
é, - que todos são - não só não lhes pode conferir quaisquer outras qualidades,
comuns ou não comuns, como exclui por enquanto de nossa consideração todas essas
outras qualidades. Temos que nos afastar, um só milímetro que seja, desse
simples fato fundamental de que todos os objetos têm em comum a existência para
que, desde logo, comecem a surgir aos nossos olhos suas diferenças. Decidir se
tais diferenças consistem em que uns são brancos, outros pretos; uns animados,
outros inanimados; uns, se assim se quer, terrenos, outros supraterrenos; é
coisa que não saberíamos fazer baseando nossa conclusão no fato de que
unicamente a existência a todos atribuída igualmente.
A unidade do mundo não consiste precisamente em existir, se bem que seja isto
uma condição de sua unidade, pois, de qualquer modo, é preciso, evidentemente,
que ele seja antes de poder ser, uno. É necessário levar-se em conta que a
existência começa a ser um problema a partir dos limites de nosso circulo
visual. A unidade real do mundo consiste na sua materialidade e esta última
prova-se, não com algumas frases de prestidigitador, mas por uma longa e
laboriosa evolução da filosofia e das ciências da natureza.
Mas prossigamos na leitura do texto. O ser de que nos fala o Sr. Dühring "não é
esse ser puro que, idêntico a si próprio, igual a si mesmo, é desprovido de
qualquer propriedade concreta que não representa efetivamente senão uma
contra-imagem do nada ou da ausência da idéia". Logo, porém, veremos que o mundo
do Sr. Dühring começa, sem dúvida alguma, por um ser despido de toda
diferenciação interna, de todo movimento e de toda mudança, um mundo que não é,
no fundo, mais que um reflexo do nada e não é, pois, senão um nada real. É
somente a partir desse ser nada que se desenvolve o estado atual do mundo,
diferenciado, mutável, apresentando já uma evolução, um processo de formação; e
é somente depois de termos compreendido isso que chegamos a encontrar, de novo,
sob essa transformação perpétua, "o conceito do ser universal idêntico a si
mesmo". Assim, pois, temos agora o conceito de ser num grau superior, em que
compreende em si tanto a permanência quanto a mudança, tanto o ser como o
vir-a-ser. Uma vez aí chegados, descobrimos que "o gênero e a espécie, o geral e
o particular são caracteres distintivos mais simples, sem os quais a
constituição das coisas não pode ser compreendida". Tratam-se, porém, de
caracteres distintivos da qualidade. Depois de nos termos ocupado disso,
continuemos: "Aos gêneros opõe-se o conceito de grandeza como uma homogeneidade
na qual já não se verificam diferenças qualitativas de nenhuma espécie. Dito de
outro modo: passamos da qualidade à quantidade, sendo esta sempre mensurável.
Comparemos agora essa "nítida classificação dos esquemas gerais" e esse "ponto
de vista verdadeiramente crítico", com as ingenuidades, as grosserias e os
sonhos febricitantes de Hegel. Verificamos que a Lógica, de Hegel, tem o ser,
como ponto de partida, exatamente como a do Sr. Dühring; que o ser se manifesta
como nulidade, tal como o do Sr. Dühring: que dessa nulidade do ser foi que se
passou ao vir-a-ser, cujo resultado é a existência, isto é, uma forma mais
elevada, mais rica, do ser, tal como no Sr. Dühring. A existência conduz à
qualidade e esta à quantidade - ainda da mesma forma que no Sr. Dühring. E para
que nenhuma peça essencial falte ao sistema, o Sr. Dühring conta-nos o seguinte,
noutro trecho: "Do reino da insensibilidade não se passa ao da sensação, apesar
de toda a continuidade quantitativa, a não ser por um salto qualitativo do
qual... podemos dizer que se diferencia infinitamente da simples variação de
graus de uma só e mesma propriedade". É exatamente a linha nodal de
desproporções hegelianas em que uma adição ou uma subtração puramente
quantitativa produz, em certos pontos nodais, um salto qualitativo. É o caso,
por exemplo, da água aquecida ou esfriada, para a qual o ponto de ebulição e o
ponto de congelação são os nós ou elos em que se realiza, a uma pressão normal,
o salto para um novo estado de agregação, nos quais, consequentemente, a
quantidade se transforma em qualidade.
Nossa investigação tenta igualmente ir até a raiz das coisas e, ao atingir a
raiz dos profundos esquemas fundamentais do Sr. Dühring, encontra... "fantasias
febris" de um Hegel, as categorias da Lógica hegeliana (primeira parte, teoria
do ser) da qual se originam esses sonhos seguindo as "deduções" rigorosamente
conformes à velha "variação de graus" hegeliana, e isso sem procurar esconder o
plágio.
E, não contente com haver tomado de empréstimo o seu esquematismo daquele,
dentre os seus predecessores que ele mais calunia, o Sr. Dühring, depois de ter
ele próprio dado o exemplo referido acima, de uma passagem brusca da quantidade
em qualidade, tem a ousadia de falar de Marx, nestes termos: "Como é cômico
vê-lo (a Marx) referir-se a essa Idéia confusa e nebulosa de Hegel, de que a
quantidade se transforma em qualidade!
Idéia confusa e nebulosa! Quem é que "se transforma" e quem é cômico, Sr.
Dühring?
Todas essas lindas idéias não são, portanto, "estabelecidas de maneira
axiomática" segundo uma ordem: são, pelo contrário, tranqüilamente importadas de
fora, da Lógica de Hegel. E tanto é assim que, em todo esse capítulo, a única
coisa que tem a aparência de uma conexão lógica interna é a que .foi emprestada
de Hegel, e tudo, finalmente, resulta em inúteis fantasias sobre o espaço e o
tempo, a imobilidade e a mudança.
Do ser, Hegel passa à substância, à dialética. Aí, trata das determinações
reflexas de seus antagonismos e contradições internas (por exemplo, negativo e
positivo), depois chega a causalidade ou relação de causa e efeito, finalizando
com o estudo da necessidade. Outra coisa não faz o Sr. Dühring. Onde Hegel
escreve "teoria da substância", o Sr. Dühring traduz por "propriedades lógicas
do ser". Mas estas consistem antes de tudo, nos "antagonismos das forças", nos
antagonismos. Mas a contradição é negada firmemente pelo Sr. Dühring. Voltaremos
a esse assunto. Depois. ele passa à causalidade e desta à necessidade. Quando,
pois, o Sr. Dühring diz de si próprio: "nós, que não filosofamos de uma gaiola
para fora", ele quer dizer, sem dúvida, que filosofa dentro da gaiola, a do
esquematismo das categorias hegelianas.
Capítulo V - FILOSOFIA DA NATUREZA. O TEMPO E O ESPAÇO
Passemos, agora, à filosofia da natureza. O Sr. Dühring tem
razões, aqui também, para não estar satisfeito com os seus predecessores. A
filosofia da natureza "caiu tanto, que se tornou uma árida e má poesia, feita de
incultura" e foi "abandonada à filosofia prostituída, à maneira de um Schelling
e outros tipos desse gênero que, traficando com o sacerdócio do absoluto,
mistificavam o público". A fadiga livrou-nos desses "monstros", mas até agora
não deram lugar senão ao "insustentável" e, "no que se refere ao grande público,
a retirada de um grande charlatão é sempre, como se sabe, uma oportunidade para
um sucessor, embora mais medíocre, mas com habilidade bastante que lhe permita
repetir as produções do outro, como rótulo diverso". Os próprios naturalistas
não revelam "muito gosto em fazer uma excursão pelo reino das idéias
universais", limitando-se, no domínio teórico, a "improvisações incoerentes".
Nesse terreno há, pois, necessidade de um socorro urgente e, por felicidade, o
Sr. Dühring está presente.
Para poder apreciar com justeza as revelações que se seguem sobre o
desenvolvimento do mundo no tempo e sua limitação no espaço, é mister citar aqui
algumas passagens da "esquemática do mundo".
O Sr. Dühring, também de acordo neste ponto com Hegel(2) atribui ao ser a
infinidade - o que Hegel chama de má infinidade - e assim a aprecia: "A mais
clara forma de se representar sem contradição a infinidade é a sucessão
ilimitada dos números na série numérica... Do mesmo modo que a cada número
podemos acrescentar uma nova unidade sem jamais esgotar a possibilidade de
continuar a numeração, a cada estado, do ser, qualquer que seja, acrescenta-se
mais um e é na produção ilimitada desses estados que consiste a infinidade. Essa
infinidade concebida com precisão, não tem, por conseguinte, senão uma forma
fundamental e uma direção única. Se bem que seja, com efeito, indiferente para o
nosso pensamento traçar uma direção oposta a essas sucessões de estados do ser,
a infinidade que progride para trás não é, entretanto, mais que uma
representação precipitada e imatura. Seria preciso que ela tivesse sido, na
realidade, percorrida em sentido contrário; e assim, teria em cada um de seus
estados uma série infinita de números. Mas, então, cometeríamos a inadmissível
contradição de uma série infinita já percorrida e desse modo se revela como
absurda a idéia de supor uma segunda direção da infinidade".
O primeiro corolário que deriva dessas concepções da infinidade é que o
encadeamento das causas e dos efeitos, no mundo, deve ter tido necessariamente
um começo: "um número infinito de causas, que se houvessem previamente seguido
umas após outras, é inconcebível, só pelo fato de supor como já percorrido o
inumerável". Assim fica demonstrado a existência de uma causa final.
O segundo corolário é "a lei do número determinado; a acumulação do idêntico, em
não importa que espécie real de conceitos independentes, não é concebível senão
formando um número determinado". Não só o número dos corpos existentes no
universo deve ser, em qualquer momento, um número em si mesmo determinado, como
também deve sê-lo o número total das partículas independentes de matéria
existente no mundo, por menores que sejam. Esta última necessidade é a
verdadeira razão que impede realizar-se qualquer síntese em átomos. Toda divisão
real tem sempre uma determinação finita e deve te-la, se não quisermos ver
surgir a contradição do inumerável percorrido. Não só pela mesma razão por que o
número de voltas que a terra deu até agora em torno do sol deve necessariamente
ser um número determinado, embora desconhecido, todos os processos periódicos da
natureza devem também ter tido um começo e todas as suas diferenciações, todas
as variedades da natureza, derivadas uma das outras, devem ter, como origem, um
estado idêntico a si próprio. Pode este estado, sem contradição, ter existido
por toda a eternidade; mas mesmo essa representação seria também inconcebível se
o próprio tempo se compusesse de partes reais, e não por um fracionamento ideal
de possibilidades, classificadas, à vontade, por nosso entendimento.
Já com o conteúdo real e diferenciável do tempo não se dá o mesmo: à medida em
que o tempo é realmente ocupado por acontecimentos, diferenciavelmente,
específicos, esta função real do tempo e as formas de existência deste campo se
enquadram, por serem mesmo distintas, como suscetíveis de serem contadas.
Imaginemos um estado sem mudanças que, na sua perfeita identidade consigo
próprio, não apresenta nenhuma diferença de efeitos; o conceito restrito de
tempo torna-se, assim, a idéia mais geral do próprio ser. É impossível fazer uma
idéia de acumulação de uma duração vazia.
O Sr. Dühring, até aqui como que se mostra maravilhado com a importância dessas
descobertas. Ele espera, de início, que "pelo menos não serão consideradas como
uma verdade sem importância"; logo depois confere uma maior importância a estas
descobertas.
E mais adiante diz: "Lembremo-nos do método extremamente simples pelo qual nós
demos aos conceitos do infinito e à sua crítica um alcance até aqui
desconhecido... Recordemo-nos dos elementos do tempo e do espaço, concebidos
universalmente, que se constituíram de maneira tão simples pelo presente método
de precisá-los e de aprofundá-los".
Acertamos! "Nitidez" e "profundidade" reais! Mas, quem é que acertou? Em que
época vive? Quem aprofundou e precisou?
"Tese. O mundo teve um começo no tempo e também no espaço é igualmente limitado.
"Prova: Admitamos, com efeito, que o mundo não tem começo no tempo, uma
eternidade se teria escoado até chegar a um momento dado, fluindo, portanto, no
mundo, uma série infinita de estados de coisas sucedidos uns aos outros. Mas a
infinidade de uma série consiste precisamente em que ela nunca pode ser rematada
por uma síntese sucessiva. Uma série infinita e desenvolvida é, pois, impossível
e, consequentemente, um começo do mundo é uma condição necessária de sua
existência, que é o que se tratava de demonstrar. Mas, quanto ao segundo ponto
de vista, que novamente se admita o contrário da tese: o mundo seria um todo
determinado e infinito de objetos que existem simultaneamente.
Ora, podemos conceber a grandeza de uma quantidade, não estabelecida entre
certos limites concretos por nós observados, somente pela síntese das partes; e
a soma total dessa quantidade só pode ser concebida por meio da síntese acabada,
ou pela adição repetida da unidade a si própria. Por conseqüência, para
conceber, como um todo, o mundo que enche todos os espaços, deveria a síntese
sucessiva das partes do mundo infinito ser considerada como acabada, isto é,
seria mister, com a contagem de todos os objetos coexistentes, considerar como
tendo escoado um tempo infinito. Disso resulta que não se poderia considerar um
agregado infinito de objetos reais como um todo determinado, nem,
conseguintemente, como objetos simultaneamente determinados. Portanto, um mundo
não é infinito quanto à sua extensão no espaço, mas, pelo contrário, é encerrado
sempre dentro de seus limites, o que era o segundo ponto a demonstrar".
Essas proposições são literalmente copiadas de um livro bastante conhecido que
apareceu, pela primeira vez, em 1781 e que se intitula: Crítica da Razão Pura,
de Emanuel Kant, e no qual todo o mundo pode lê-las (primeira parte, 2a. seção,
livro segundo, capítulo segundo, artigo segundo): Primeira Antinomia da Razão
Pura. Portanto, ao Sr. Dühring cabe unicamente a glória de ter batizado uma
idéia de Kant, com o nome de "lei do número determinado" e de ter descoberto a
existência de um tempo onde ainda não existia tempo, mas sim apenas o mundo.
Quanto ao resto, isto é, quanto aquilo que, na análise do Sr. Dühring, tem algum
sentido, ao subentender "nós", na expressão "Encontramos", quer se referir a
Emanuel Kant; a atualidade das descobertas do Sr. Dühring tem apenas noventa e
cinco anos. É, na verdade, extraordinariamente "simples". E é maravilhoso o
"alcance até aqui desconhecido" da nova idéia.
Mas acontece que Kant não considera, de modo algum, a tese acima, como provada
por sua demonstração. Ao contrário, na página seguinte, sustenta e prova que o
mundo não tem começo no tempo nem limite no espaço e justamente nisso é que
reside a antinomia, a contradição irredutível, segundo a qual podemos provar
tanto uma tese como a sua contrária. Talvez pessoas de menor alcance
encontrassem motivos para reflexão no fato de "um Kant" achar nisso uma
dificuldade insolúvel, nunca, porém, o nosso audacioso fabricante "de resultados
e de teorias essencialmente originais": o que lhe pode servir na antinomia de
Kant, ele o copia sem pestanejar, pondo o resto de lado.
O problema resolve-se muito simplesmente. Eternidade no tempo, infinidade no
espaço, essa coisa consiste, por si mesma, tomando as palavras no seu sentido
literal, em não ter limite nenhum nem pela frente nem por detrás, nem acima nem
abaixo, nem à direita nem à esquerda. Essa infinidade é diferente da de uma
série infinita, porque esta começa sempre e necessariamente na unidade, num
primeiro termo. Essa representação de série é inaplicável ao nosso objetivo,
como verificamos quando a aplicamos ao espaço. A série infinita adaptada ao
mundo especial é uma linha tirada em direção ao infinito, a partir de um ponto
determinado, numa direção determinada. Isso exprime, mesmo remotamente, a
infinidade do espaço? Pelo contrário: bastam seis linhas tiradas a partir desse
ponto único, em três direções opostas, para circunscrever as direções do espaço
e teríamos assim seis dimensões. Kant o compreendeu tão bem que não foi senão
indiretamente, por um rodeio, que ele transportou a sua série numérica para o
mundo especial. O Sr. Dühring, pelo contrário, força-nos a admitir seis
dimensões no espaço e, logo depois, esquecendo-se do que afirmou, não encontra
palavras para exprimir a sua indignação contra o misticismo matemático de Gauss
que não queria contentar-se com as três tradicionais dimensões do espaço.
Aplicada ao tempo, a linha ou a série de unidades, infinita em suas duas
direções, tem um certo sentido como imagem. Mas, se nós nos representamos o
tempo como uma série formada a partir da unidade, ou como uma linha tirada a
partir de um ponto determinado, estamos desde já estabelecendo que o tempo tem
um começo; supomos precisamente o que era necessário provar. Damos à infinidade
do tempo um caráter incompleto e unilateral, e, como sabemos, uma infinidade
incompleta, unilateral, é uma contradição lógica, exatamente o contrário de uma
"infinidade concebida sem contradição". Dessa contradição só podemos sair
admitindo que a unidade da qual partimos para contar a série, o ponto a partir
do qual traçamos a linha, é uma unidade tomada arbitrariamente na série, um
ponto tomado arbitrariamente na linha, de tal modo que resulta indiferente saber
onde o colocamos em relação à linha ou à série.
É a contradição que consiste em "medir uma série numérica infinita"?
Estaremos aptos a examinar mais de perto essa contradição, quando O Sr. Dühring
realizar diante de nós o prodígio de contá-la, quando tiver conseguido contar de
menos infinito até zero.
É claro que, não importa por onde comece a contar, deixará sempre atrás de si
uma série infinita e com ela o problema que deve resolver.
Que inverta somente a sua própria série infinita 1 + 2 + 3 + 4..., e experimente
contar de novo, desde o fim infinito, até a unidade; será evidentemente a
tentativa de um homem que não sabe nem do que se trata. Há mais ainda. Quando o
Sr. Dühring afirma que a série infinita do tempo escoado foi contado, afirma,
implicitamente, que o tempo tem um começo; porque, de outro modo, não poderia
mesmo começar a "contar". Introduz, portanto, sub-repticiamente, como hipótese
prévia, precisamente o que devia demonstrar. A idéia da série infinita contada,
também chamada a "lei universal do número determinado" de Dühring. é, pois, uma
contradictio in adjecto, encerra em si não apenas uma contradição, mas uma
contradição absurda.
É evidente que uma infinidade que tem um fim, mas não tem começo, não é mais nem
menos infinita do que aquela que tem um começo, mas não tem fim. O menor senso
dialético teria advertido ao Sr. Dühring que começo e fim são conceitos
necessariamente ligados, como pólo norte e pólo sul; se se abandona o fim, o
começo se torna fim - o único fim da série, e assim reciprocamente.
Toda essa quimera não existiria se não fosse hábito dos matemáticos operarem com
séries infinitas. Como em matemática é preciso partir do determinado e finito,
para chegar ao indeterminado e infinito, é preciso que todas as séries
matemáticas, positivas ou negativas, comecem pela unidade, sem o que é
impossível calcular com essas séries. Mas a necessidade mental do matemático
está longe de ser uma lei que aja necessariamente sobre o mundo real.
De resto, o Sr. Dühring não poderá jamais compreender, sem contradição, a
infinidade real. A infinidade é, por si mesma, uma contradição prenhe de
contradições.
Já é contraditório que uma infinidade se componha de quantidades finitas e, no
entanto, isso acontece na realidade. Admitir que o mundo material tem limites
não conduz a menos contradições que admiti-lo ilimitado. Toda a tentativa para
afastar essa contradição leva, conforme vimos, a novas e mais lamentáveis
contradições. Precisamente porque é uma contradição, a infinidade é um processo
infinito a desenvolver-se, sem fim no tempo nem fim no espaço. A supressão da
contradição seria o fim da infinidade. Hegel já o havia visto muito bem e é por
isso que trata aos que se dedicam a fantasiar sobre essa contradição com um
merecido desprezo.
Continuemos. O tempo teve, pois, um começo. Que havia, então, antes do começo? O
mundo num estado idêntico a si próprio e invariável. E como, nesse estado, não
há mudanças que se sucedam umas às outras, o conceito mais especifico do tempo
se transforma na idéia do ser.
Primeiramente, é-nos completamente indiferente saber quais os conceitos que se
transformam na cabeça do Sr. Dühring: não se trata do conceito do tempo, mas do
tempo real, do qual o Sr. Dühring não se desembaraçará tão facilmente. Em
segundo lugar, que o conceito do tempo se transforme na idéia geral do ser, isso
não nos fará dar um passo à frente, porque as formas essenciais de todo o ser
são o espaço e o tempo e um ser fora do tempo é um absurdo tão grande quanto um
ser fora do espaço.
O ser de Hegel, "ser extinto fora do tempo", e o "ser irrepresentável", de que
falam os neo-schellinguianos, são concepções racionais, se as compararmos com
esse ser concebido à margem do tempo. O Sr. Dühring, aliás, vai com muita
cautela por esse caminho; propriamente falando, é bem um tempo, mas um tempo tal
que, no fundo, não se poderia chamá-lo de tempo, pois o tempo não se compõe em
si mesmo de partes reais e é somente a nossa inteligência que nele introduz
divisões arbitrárias; só um tempo repleto realmente de fatos diferenciáveis pode
ser contado, não se podendo mesmo descobrir o que poderia significar a
continuidade de uma duração, no vazio, verdadeira quimera.
O que essa sucessão poderia significar é-nos, agora, completamente indiferente:
a questão é saber se o mundo, no estado aqui suposto, tem ou não uma duração no
tempo. Que não se obtém resultado algum medindo uma duração semelhante e muito
menos operando com medidas sem desígnio e sem finalidade objetiva, no espaço
vazio, sabemos de há muito. E é precisamente no que esse processo tem de inútil
que Hegel chama a essa infinidade de má infinidade. Segundo o Sr. Dühring, o
tempo não existe senão pela mudança e não é a mudança que existe no tempo e pelo
tempo. Justamente por que é tão diverso e independente da mudança, é que se pode
medi-lo pela mudança, porquanto para medir é necessário sempre um elemento
distinto da coisa que se mede. O tempo, em que se não produzem mudanças
cognoscíveis está muito longe de não ser tempo algum, ele é antes o tempo puro,
isento de qualquer influência estranha, isto é, é o tempo verdadeiro, o tempo
como tal. Realmente, quando queremos conceber a idéia do tempo em toda a sua
pureza, fora de todas as misturas estranhas e heterogêneas, somos obrigados a
afastar como estranhos todos os acontecimentos diversos que se produzem,
simultânea e sucessivamente, no tempo, como alheios a ele, representando-nos,
assim, um tempo em que nada se passa. Por aí não fizemos, pois, diluir a idéia
do tempo na idéia geral do ser: pelo contrário, foi por aí somente que chegamos
à idéia pura do tempo.
Mas toda essas contradições e esses absurdos não passam de brincadeiras de
criança ao lado da confusão caótica em que se embrenha o Sr. Dühring, com o seu
"estado primitivo do mundo idêntico a si próprio". Se o mundo já esteve num
estado em que não se produzia absolutamente mudança alguma, como pode passar
desse estado à mudança? O que é desprovido absolutamente de mobilidade, o que,
mais ainda, esteve nesse estado toda a eternidade, não poderia, de modo algum,
sair de si próprio para passar ao estado de movimento e de mudança. É preciso,
portanto, que, de fora - do mundo exterior - tenha vindo um primeiro impulso que
o pusesse em movimento.
E o "primeiro impulso", como se sabe, é apenas uma expressão para denominar
Deus.
Esse Deus e esse Além, que o Sr. Dühring pretendia haver eliminado tão
galhardamente de sua "esquemática do universo", ele próprio os reintroduz,
reforçados e aprofundados, em sua filosofia da natureza.
Prossigamos. O Sr. Dühring diz: "Quando um elemento imóvel do ser adquire
grandeza, esta grandeza permanece invariável em sua determinabilidade. Isso é
verdade... para a matéria e para a força mecânica." A primeira proposição
fornece-nos - de passagem seja dito - um exemplo precioso da grandiloqüência
axiomático-tautológica do Sr. Dühring; quando uma grandeza não muda, continua
idêntica.
Assim, a quantidade de força mecânica existente no mundo, permanece eternamente
a mesma. Nada diremos sobre isso senão que, na medida em que é exato, já o sabia
e proclamava, há cerca de três séculos, a filosofia de Descartes e, nas ciências
da natureza, é conhecida há mais de vinte anos, na teoria da conservação da
força. Não insistimos sobre o fato de que o Sr. Dühring, restringindo-se à força
mecânica, não melhora esta tese de maneira alguma. Mas onde estava, pois, a
força mecânica, naqueles tempos do estado imutável? Essa pergunta o Sr. Dühring
recusa-se obstinadamente a responder.
Onde, portanto, Sr. Dühring, vivia essa força mecânica, eternamente igual a si
própria, e o que a impulsionava? Resposta do Sr. Dühring: "O estado primitivo do
universo, ou, mais precisamente, de um ser da matéria invariável, não
compreendendo nenhuma acumulação de mudanças no tempo, é uma questão que não
pode ser posta de lado senão por um espírito que vê, na automutilação de sua
força procriadora, o cúmulo da sabedoria. Assim, ou aceitais de olhos fechados o
meu estado primitivo invariável ou eu, o viril e potente Eugen Dühring,
proclamo-vos eunucos intelectuais. Eis uma coisa que pode, sem dúvida,
amedrontar a mais de uma pessoa. Nós, porém, que já vimos alguns exemplos da
força viril do Sr. Dühring, podemos tomar a liberdade de passar por alto, sem
réplica, ao elegante insulto e repisar a pergunta Mas Senhor Dühring, por favor,
que ocorre, nesse caso, com a força mecânica?
O Sr. Dühring imediatamente se embaraça. O fato, balbucia ele, é que "a
identidade absoluta desse estado-limite primitivo não fornece, por si própria,
um principio de transição. Lembremo-nos, entretanto, que, no fundo, sucede a
mesma coisa em cada novo elo, que, por menor que seja, venha a incorporar-se a
essa cadeia da existência que tão bem conhecemos. Se se quer, portanto, criar
dificuldades no presente caso, que é fundamental, tenha-se o cuidado de não as
deixar escapar em circunstâncias menos importantes. De mais a mais, é possível
interpolar estados intermediários em gradação progressiva e, desse modo, teremos
aberto o caminho da continuidade para chegar, pelo retrocesso, a fazer
desaparecer o jogo das variações recíprocas. Como conceito puro, na verdade,
essa continuidade não nos permite ultrapassar a idéia principal, mas é para nós
a forma fundamental de tudo quanto se rege por leis e de todas as transações
conhecidas, de maneira que temos o direito de utilizá-las como intermediárias
entre o equilíbrio inicial e a ruptura desse equilíbrio. Mas, se concebêssemos o
equilíbrio por assim dizer imóvel (!), fundamentando-nos nas idéias admitidas
sem grande alarde (!) pela mecânica atual, seria inteiramente impossível indicar
como a matéria poderia chegar à variação." Além da mecânica das massas, haveria
ainda, segundo ele, uma transformação de movimento de massas em movimento das
mais pequenas partículas. Porém, quanto a se saber como se produz essa
transformação, "não temos ainda à nossa disposição um principio geral que a
explique e não devemos pois admirarmo-nos se esses fenômenos se perdem um pouco
na obscuridade". Eis tudo o que o Sr. Dühring tem a dizer-nos. Efetivamente,
ser-nos-ia indispensável ver não só na auto-mutilação de nossas energias
genitais, mas também na fé cega do carvoeiro, o cúmulo da sabedoria, para nos
contentarmos com esse fogo fátuo e essas fórmulas verdadeiramente lamentáveis.
Por si mesma - reconhece o Sr. Dühring - a identidade absoluta não pode chegar à
mudança. Por seu próprio impulso, o equilíbrio absoluto não tem meio algum de
passar ao movimento. Que resta, portanto? Três afirmações falsas e
insustentáveis.
Primeiramente, dizem-nos que é dificílimo mostrar a transição do primeiro para o
segundo elo, na famosa cadeia da existência. O Senhor Dühring parece ter os seus
leitores na conta de crianças de peito. A demonstração, uma por uma, das
transições e conexões, na cadeia da existência, é precisamente o que constitui a
matéria das ciências da natureza e, se acontece que a demonstração não fica
clara como deve, ninguém. nem mesmo o Sr. Dühring, sonharia em explicar o
movimento que se produziu do nada, mas sempre e exclusivamente pela transmissão,
transformação ou transplantação de um movimento precedente. Ora, trata-se. aqui,
de explicar, segundo se convencionou, como se pode fazer sair o movimento da
imobilidade, ou melhor, do nada.
Em segundo lugar. temos a "ponte da continuidade". Este conceito, na verdade,
não permite ao Sr. Dühring superar a dificuldade, mas ele tem o direito de
utilizar a continuidade como intermediária entre a imobilidade e o movimento.
Infelizmente, a continuidade da imobilidade consiste precisamente em não se
mover Como pode essa continuidade produzir um movimento, portanto, é um mistério
cada vez maior! O Sr. Dühring faria bem em dividir a sua transição, do nada do
movimento ao movimento universal, numa infinidade de pequenas partículas,
atribuindo-lhes uma duração tão longa quanto quisesse; nem assim teríamos
avançado um décimo de milímetro para nos esclarecer. Do nada não pode sair nada,
sem que intervenha um ato criador, ainda que essa coisa seja tão pequena quanto
uma diferencial matemática.
A ponte da continuidade não é, portanto, nem sequer o que os escolásticos
chamavam de "ponte dos burros"; é apenas uma ponte pela qual só o Sr. Dühring
sabe passar.
Em terceiro lugar, enquanto valer a mecânica atual e esta for, segundo o próprio
Sr. Dühring, um dos fatores essenciais da formação intelectual, será
inteiramente impossível indicar como se pode passar da imobilidade ao movimento.
Mas a teoria mecânica do calor mostra-nos que o movimento de massas se
transforma, em certas circunstâncias, em movimento molecular (embora, ainda
aqui, um movimento nasça de outro movimento e nunca da imobilidade). Isso,
talvez, insinua o Sr. Dühring timidamente, poderia oferecer uma ponte entre o
que é rigorosamente estático (em equilíbrio) e o que é dinâmico (em movimento).
Todos esses fenômenos, porém, se perdem "um pouco na obscuridade" na qual, nos
deixa, de fato, o Sr. Dühring.
Eis, pois, a que chegamos, após tanta profundeza e exatidão: enterramo-nos, cada
vez mais, em maiores absurdos para, enfim, aportar onde fatalmente aportaríamos:
na "obscuridade". Isso, porém, não desanima ao Sr. Dühring; já na página
seguinte ele tem o desplante de afirmar que "pode dar ao conceito da permanência
a si própria, um conteúdo real, partindo diretamente da observação da matéria •
das forças mecânicas". E esse homem chama aos outros de "charlatães".
Por felicidade, em meio a todo esse caminhar desesperadamente errante e
incoerente na "obscuridade", temos um consolo realmente alentador: "A matemática
dos habitantes de outros corpos celestes não pode repousar em axiomas diversos
dos da nossa", segundo nos assevera o Sr. Dühring.
Capítulo VI - FILOSOFIA DA NATUREZA, COSMOGONIA, FÍSICA, QUÍMICA
Continuando o exame da obra, chegamos às teorias sobre as
origens do mundo atual. Informa-nos que o estado universal de difusão da matéria
era já a concepção inicial dos filósofos jônicos, mas que, sobretudo depois de
Kant, a hipótese de uma nebulosa primitiva volta a desempenhar um papel, tendo a
gravitação e a irradiação do calor servido de meios para a formação progressiva,
a partir da nebulosa primitiva. de cada um dos diversos corpos celestes sólidos.
No nosso tempo, a moderna teoria mecânica do calor permite formular, com muito
mais precisão, as inferências relativas aos estados primitivos do universo.
Entretanto, "o estado de difusão gasosa não pode servir de ponto de partida a
deduções sérias, se, previamente, não se puder determinar, com a maior
concretização, o sistema mecânico que nele se encerra. De outro modo, a idéia
não só se perderá nas trevas, mas também, longe de se desfazer, a trela
primitiva se tornará mais densa e impenetrável no curso de nossas deduções...
Por enquanto, tudo continua ainda no vago e informe de uma idéia cuja difusão é
impossível de se determinar mais detalhadamente". E assim "não temos desse
universo gasoso senão uma concepção absolutamente aérea".
A teoria sobre a gênese dos mundos atuais, pela rotação das massas nebulosas,
foi o maior progresso que a astronomia fez desde Copérnico. Pela primeira vez
abalou-se a idéia de que a natureza não teria história no tempo. Até então,
acreditava-se, os corpos celestes se moviam, constantemente, desde a sua origem,
nas mesmas órbitas invariáveis; e se bem fosse admitido que sobre cada um dos
corpos celestes os seres orgânicos individuais pereciam, entendia-se que essa
morte não afetava. em nada, às espécies e aos gêneros. A natureza estava, de
fato, visivelmente empenhada num movimento perpétuo: mas esse movimento parecia
não ser mais que a repetição incessante dos mesmos fenômenos. Nessa concepção,
que correspondia inteiramente ao método filosófico metafísico, Kant abriu a
primeira brecha, e isso de maneira tão científica que a maior parte dos
argumentos empregados por ele têm, ainda hoje, um grande valor. É certo que a
teoria de Kant não é, ainda agora, rigorosamente mais que uma hipótese. Mas o
sistema cosmológico do próprio Copérnico não conseguiu ser senão uma hipótese,
até hoje; e, depois que as investigações espetroscópicas, derrubando todos os
argumentos contrários. apresentaram a prova evidente de que existem tais massas
gasosas ígneas no firmamento, a oposição científica à teoria de Kant foi
reduzida ao silêncio. O Sr. Dühring não pode, igualmente, construir o seu mundo,
sem apelar para um estado de nebulosidade precedente, mas ele vinga-se exigindo
que lhe demonstrem o sistema mecânico dessa nebulosa e, como não pôde ser
atendido, investe contra essa demonstração com toda a espécie de epítetos
desdenhosos. Infelizmente, a ciência atual não pode definir e concretizar esse
sistema, de modo a satisfazer ao Sr. Dühring. E não é capaz, muito menos, de
responder a outras perguntas. A pergunta seguinte: por que os sapos não têm
rabo? não pôde, até hoje, ser respondida senão pela hipótese de que,
possivelmente, o perderam. Se, a propósito, perdendo a calma, disséssemos que
tudo Isso é muito vago e informe, que é uma idéia pouco concreta de "perda", uma
concepção sumamente "aérea", é possível que uma semelhante aplicação da moral às
ciências naturais não nos faça avançar nem um passo. Essas condenações e essas
explosões de descontentamento podem ter lugar não importa onde nem quando e é
justamente por isso que não devem ser usadas em parte alguma. Se tudo está
errado quem é que impede ao Sr. Dühring de descobrir, ele próprio, o sistema
mecânico da nebulosa primitiva?
Por felicidade, sabemos agora que a massa nebulosa de Kant está bem longe de se
confundir com um estado totalmente idêntico do meio universal, ou, melhor, com o
estado da matéria, idêntico a si próprio. Eis aí um verdadeiro triunfo para
Kant, que tinha razões para se contentar em fazer remontar desde os corpos
celestes, atualmente existentes, até a esfera nebulosa, sem lembrar-se, por nada
deste mundo, do estado da matéria idêntico a si próprio.
Observemos, de passagem, que, na ciência da natureza, a massa de névoa de Kant,
que é designada atualmente pelo nome de nebulosa primitiva, não deve ser tomada,
como é fácil compreender, senão num sentido relativo. Quando dizemos que ela é
nebulosa primitiva, por um lado, queremos dizer que nela está a origem dos
corpos celestes existentes e que ela é, por outro lado, a mais antiga forma de
matéria a que podemos, até agora, remontar. O que absolutamente não exclui, mas,
pelo contrário, supõe que a matéria tenha atravessado, antes da nebulosa
primitiva, uma série infinita de outras formas.
E nisso o Sr. Dühring não vê nenhuma vantagem. Enquanto somos obrigados, com a
ciência, a nos deter provisoriamente na nebulosa primitiva, como numa estação de
trânsito, a sua ciência da ciência permite-lhe subir muito mais alto, até aquele
"estado do meio universal que não poderia ser concebido, nem como puramente
estático, no sentido atual do termo, nem como dinâmico, e que, portanto, de
nenhum modo é possível conceber". "A unidade de matéria e força mecânica, à qual
damos o nome de meio universal, é uma fórmula por assim dizer lógico-real, da
qual nos valemos para designar o estado da matéria idêntico a si próprio, como
fase prévia de todas as etapas da evolução que possamos estabelecer."
Evidentemente, não terminamos ainda com o estado da matéria idêntico a si mesmo.
Esse estado é aqui designado como a "unidade de matéria e força mecânica",
"fórmula lógico-real", etc. Assim, logo que cessa a unidade de matéria e força
mecânica, o movimento se inicia.
A "fórmula lógico-real, não é senão uma fraca tentativa de utilizar. na
"filosofia da realidade", as categorias hegelianas do em si (Ansich) e para si (Fursich).
Na primeira categoria reside, para Hegel, a identidade primitiva das antíteses
ainda latentes e embrionárias, ocultas numa coisa, num fenômeno, num conceito;
na segunda. manifestam-se a diferenciação e a separação desses elementos ocultos
e começa o seu conflito. É preciso pois, e para isso nos convida O Sr. Dühring,
representarmo-nos o estado de imobilidade primitiva como unidade de matéria e
força mecânica e a passagem para o movimento como separação e oposição destes
dois elementos.
O que com isso ganhamos não é a prova da realidade desse fantástico estado
primitivo, mas somente a possibilidade de compreendê-lo sob a categoria
hegeliana do Ansich e de compreender-lhe a cessação, também fantástica, sob a
categoria do Fursich. Continua valendo o auxílio de Hegel!
A matéria, diz o Sr. Dühring, é a portadora de tudo o que é real, de tal maneira
que não pode haver força mecânica fora da matéria. A força mecânica é, além
disso, um estado da matéria. Assim, no estado primitivo, em que nada se passava,
a matéria e seu estado, a força mecânica, eram uma e a mesma coisa. A seguir,
quando começou a se passar algo, necessariamente esse estado se diferenciou da
matéria. Será preciso, pois, que nos contentemos com essas frases mitológicas e
com essa vaga afirmação de que o estado da matéria idêntico a si próprio não era
nem estático nem dinâmico, nem equilíbrio, nem movimento, como quer o Sr.
Dühring? Não saberemos jamais em que lugar a força mecânica se achava, naquele
estado primitivo, nem como pôde, sem um impulso de fora, isto é, sem Deus,
passar da imobilidade absoluta ao movimento.
Antes do Sr. Dühring, os materialistas falaram da matéria e do movimento. Ele
reduz o movimento à força mecânica como sua pretensa forma fundamental e por aí
se torna impossível compreender a verdadeira relação entre matéria e movimento,
a qual, de resto, foi igualmente obscura para todos os materialistas que o
precederam. E, no entanto, a coisa é bastante simples. O movimento é o modo de
existência da matéria.
Nunca, em parte alguma, existiu, nem pode existir, matéria sem movimento.
Movimento no espaço absoluto, movimento mecânico de pequenas massas em qualquer
dos mundos existentes, vibrações moleculares sob a forma de calor, de corrente
elétrica ou magnética, de análise e síntese químicas, vida orgânica: em qualquer
uma dessas formas de movimento, ou em várias ao mesmo tempo, é que se encontra,
no mundo, cada um átomo de matéria, em cada instante determinado.
O repouso e o equilíbrio são sempre relativos, e só têm sentido e razão de ser
em relação a tal ou qual forma concreta de movimento. Um corpo, por exemplo,
pode achar-se à superfície da terra, em equilíbrio mecânico, estar, do ponto de
vista mecânico, em estado de repouso; isso não o impede, absolutamente, de
participar do movimento da terra bem como do movimento do sistema solar inteiro,
assim como não impede que as suas melhores partículas físicas experimentem as
vibrações provocadas por sua temperatura, ou que os seus átomos efetuem um
processo químico. Matéria sem movimento é tão inconcebível como movimento sem
matéria.
O movimento não pode, por conseqüência, ser criado ou destruído, como também não
pode ser a própria matéria, e é a isso que a antiga filosofia (Descartes) se
refere quando afirma que a quantidade de movimento existente no mundo é sempre a
mesma. O movimento não pode, pois, ser criado; ele pode somente ser transmitido.
Quando o movimento é transmitido de um corpo para outro podemos considerar que
ele se desloca - ativamente - como causa do movimento, ou que é deslocado -
passivamente - como efeito. Chamamos a esse movimento ativo de força e a esse
movimento passivo de manifestação de força. É pois evidente que a força não pode
ser maior nem menor que a sua manifestação, uma vez que o mesmo movimento se
realiza em ambos os casos.
Imaginar um estado da matéria sem movimento é, por isso mesmo, umas das idéias
mais vazias e absurdas que se pode encontrar; é, mais que uma idéia, uma "pura
fantasia febricitante". Para chegar até essa idéia da imobilidade é preciso
representar-se como repouso absoluto o equilíbrio mecânico puramente relativo,
no qual se pode achar um corpo à superfície da terra, para depois estender essa
representação a todo o universo. É verdade que isso se torna mais fácil se se
reduz o movimento universal à simples força mecânica. Além disso, essa limitação
do movimento a uma simples força mecânica apresenta ainda a vantagem de que se
pode representar uma força em repouso, dominada e, por conseguinte,
momentaneamente sem ação. Com efeito, quando a transmissão de um movimento é,
como sucede quase sempre, um fenômeno um tanto complexo, no qual não conhecemos
diversos elos intermediários, pode-se retardar a transmissão propriamente dita,
até o instante ,julgado oportuno, não se conhecendo, entretanto, o último elo da
cadeia; por exemplo, quando se carrega um fuzil aguarda-se o momento em que,
pela detonação do gatilho, deve produzir-se a descarga, e, com ela, a
transmissão do movimento desenvolvido pela combustão da pólvora.
Pode-se, pois, representar a matéria, durante o estado imóvel idêntico a si
mesmo, como carregada de força; e é esse sentido que o Sr. Dühring parece dar,
quando fala da unidade de matéria e força mecânica, se é que lhe dá algum
sentido. Mas essa representação é absurda, porque transfere ao universo, como
absoluto, um estado que é relativo por natureza e ao qual, consequentemente, não
pode estar submetida, num mesmo tempo. senão uma parte da matéria. Mesmo que se
deixasse de lado essa objeção, restaria ainda a dificuldade de se saber, em
primeiro lugar, como o mundo foi carregado de forças. visto que nem hoje os
fuzis se carregam por si próprios; em segundo lugar, era preciso saber qual foi
o dedo que apertou o gatilho. Por mais que mudemos a direção, por voltas e
voltas, pelos ensinamentos do Sr. Dühring, chegamos sempre ao dedo... da
Providência.
Da astronomia, o nosso filósofo da realidade passa à mecânica e à física, e
queixa-se de que a teoria mecânica do calor não tenha sido impulsionada, uma
geração após a sua descoberta, para mais adiante do ponto em que Robert Mayer a
situou. Além disso, diz-nos o Sr. Dühring, toda a questão permanece obscura, e
devemos sempre "recordar novamente que os estados de movimento da matéria trazem
consigo situações estáticas e que estas não são mensuráveis pelo trabalho
mecânico... Se. acima, qualificamos a natureza de grande operária, expressão que
tomamos no sentido restrito, falta-nos acrescentar ainda que os estados
idênticos a si próprios e as situações de repouso não representam trabalho
mecânico de espécie alguma. Voltamos, ainda uma vez, a sentir a falta da ponte
que levaria do estático ao dinâmico; e, ainda que isso a que se chama calor
latente continue sendo um impulso para a teoria, devemos reconhecer, ainda aqui,
uma lacuna que não poderia ser negada em parte alguma e muito menos nas suas
aplicações à cosmologia."
Toda essa fraseologia oracular demonstra, uma vez mais, a sua consciência de
culpa, convencido do mau passo que deu com a sua teoria do movimento saindo da
imobilidade absoluta, mas não se atrever, no entanto. a apelar para a sua única
salvação, para o Criador do céu e da terra. Se, mesmo na mecânica, inclusive na
mecânica do calor a ponte do estático ao dinâmico, do equilibro ao movimento,
não pode ser descoberta, por que o Sr. Dühring teria a obrigação de encontrar a
ponte que leva de seu estado de imobilidade ao movimento? Com isso acredita
por-se a salvo.
Na mecânica vulgar, a ponte do estático ao dinâmico é... o impulso exterior.
Quando uma pedra do peso de cinqüenta quilos é elevada à altura de dez metros e
mantida ao ar livre de maneira a ficar retida num estado idêntico a si próprio,
no estado de repouso, é preciso recorrer a um público de crianças ingênuas para
poder explicar que a situação atual desse corpo não representa trabalho
mecânico, ou que a diferença entre essa situação e sua situação anterior não
deriva do trabalho mecânico.
O primeiro transeunte fará facilmente compreender ao Sr. Dühring que a pedra não
subiu por si para se pendurar na corda e o primeiro manual de mecânica com que
depare poderá explicar-lhe que, se deixar a pedra cair de novo, ela realizará,
em sua queda, tanto trabalho mecânico quanto foi necessário para elevá-la à
altura de dez metros. O simples fato de a pedra estar suspensa no alto
representa trabalho mecânico, pois, se ela ficar pendurada por muito tempo, a
corda se romperá, uma vez que, como resultado de uma decomposição química, não
será bastante forte para sustentar a pedra.
Ora, todos os fenômenos mecânicos podem, para falarmos com o Sr. Dühring,
reduzir-se a "formas fundamentais" simples como essa; e ainda está para nascer o
engenheiro que não seja capaz de achar a ponte do estático ao dinâmico, enquanto
dispuser de um impulso suficiente.
É, seguramente, uma noz um pouco dura e uma pílula amarga para os nossos
metafísicos o fato de que o movimento deva encontrar a sua própria medida no seu
contrário, o repouso. É uma contradição flagrante e toda a contradição (Widerspruch)
é para o Sr. Dühring um contra-senso (Widersinn). Contudo, é certo que a pedra
suspensa representa uma quantidade de movimento mecânico determinada, mensurável
com precisão pelo seu peso e pelo seu afastamento do solo, quantidade essa que
pode ser consumida à vontade, de diversas maneiras, como, por exemplo,
deixando-se cair a pedra, fazendo-a deslizar sobre um plano inclinado, fazendo-a
impulsionar um moinho de vento, etc., e o mesmo se dá com o fuzil carregado a
que nos referimos anteriormente. Para o pensamento dialético, o fato de o
movimento ser expresso em seu contrário, o repouso, não apresenta dificuldade
alguma.
Essa antítese é conforme tivemos oportunidade de ver, puramente relativa; não
existe repouso absoluto nem equilíbrio, incondicional. Cada movimento concreto,
tende ao equilíbrio, e o movimento total suprime esse equilíbrio. Assim, o
repouso e o equilíbrio são, onde quer que se encontrem, o resultado de um
movimento limitado e concreto, sendo natural que esse movimento seja mensurável
por seu resultado ou seja nele expresso, podendo ser restabelecido a partir
dele, sob uma forma ou outra. Mas uma exposição tão simples do caso não poderia
contentar ao Sr. Dühring. Como bom metafísico, descobre ele entre o movimento e
o equilíbrio um abismo, que na realidade não existe e, depois, admira-se de não
poder encontrar uma ponte sobre o abismo que ele cavou. Poderia muito bem
cavalgar a seu rocinante metafísico e ir à casa da "coisa em si" de Kant; porque
é ela e não outra coisa que, em última análise, está à sua espera por detrás
dessa ponte misteriosa.
Mas vejamos o que acontece com a teoria mecânica do calor e do calor inativo ou
latente que "vinha sendo um impulso" para essa teoria.
Se tomarmos um quilo de gelo à temperatura do ponto da congelação e à pressão
normal da atmosfera, e o transformarmos, por meio do calor, num quilo de água,
tendo-se a mesma temperatura ambiente, desaparecerá, dessa forma, uma quantidade
de calor suficiente para elevar o mesmo quilograma de água de 0 a 79 4/10 graus
centígrados, ou, se preferirmos, para aquecer de um grau a quantidade 79 4/10
quilos de água. Se aquecermos esse quilograma de água até o ponto de ebulição,
ou seja, até 100° e se o convertermos em vapor d'água, desaparecerá, até que a
última gota de água se transforme em vapor, uma quantidade de calor
aproximadamente sete vezes maior, suficiente para elevar de um grau a
temperatura de 537 2/10 quilos de água. Essa temperatura que desaparece, diz-se
que fica reprimida ou inativa. Se, pelo resfriamento, o vapor se tornar
novamente água e a água se converter em gelo, essa mesma quantidade de calor,
que estava até então retida, é posta em liberdade, o que quer dizer que ela pode
ser medida ou percebida como calor. Essa libertação do calor, quando o vapor se
condensa e a água se congela, é que faz com que o vapor, quando a temperatura
alcança 100°, só se converta lentamente em água e que, a partir do ponto de
congelação, se opere a congelação pouco a pouco. A questão, desde que os fatos
foram colocados, é a seguinte: Em que se transforma o calor, enquanto está
retido?
A teoria mecânica do calor - segundo a qual o calor consiste em vibrações mais
ou menos consideráveis de acordo com a temperatura e o estado de agregação das
pequenas partículas fisicamente ativas (moléculas) dos corpos, vibrações essas
suscetíveis de adotarem, em certas circunstâncias, qualquer uma das formas do
movimento - a teoria mecânica é que explica o fenômeno, dizendo que o calor
desaparecido realiza um trabalho, se transmite a um trabalho. Quando o gelo se
derrete, a coerência estreita e firme das moléculas entre si, cessa e Se
transforma, de um aglomerado coeso, numa dispersão total; quando a água se
evapora, no ponto de ebulição, produz-se um estado em que as moléculas soltas
não exercem mais ação sensível umas sobre as outras, dispersando-se, sob a
influência do calor, nas mais opostas direções. Ora, é evidente que cada uma das
moléculas de um corpo em estado gasoso encerram muito mais energia que no estado
líquido e, neste, muito mais que no estado sólido. O calor retido, portanto, não
desapareceu, mas apenas se transformou, adquirindo a forma da força de tensão
molecular.
Desde que desaparece a condição pela qual as moléculas podem conservar a sua
liberdade absoluta ou relativa umas frente às outras, Isto é, desde que a
temperatura alcance um mínimo, seja de 100°. seja de 0°, essa força de tensão
desaparece e as moléculas se aglutinam com a mesma força com que antes se
destacavam umas das outras; essa força desaparece, mas somente para reaparecer,
sob forma de calor, e na quantidade mesma de calor que antes estava retida. Essa
explicação é naturalmente uma hipótese, como, aliás, toda a teoria mecânica do
calor, pois que ninguém, até agora, viu uma molécula e, muito menos, uma
molécula vibrátil. Esta hipótese está cheia de defeitos como, aliás, toda a
teoria térmica que é ainda bastante nova; mas pode, pelo menos, explicar os
fenômenos sem entrar em contradição com a lei segundo a qual o movimento não se
perde, nem se cria, ao mesmo tempo em que é capaz de explicar, com clareza, a
existência do calor no curso de suas metamorfoses. O calor latente ou retidão
não é, de maneira alguma, um impulso para a teoria mecânica do calor. Pelo
contrário, essa teoria dá, pela primeira vez, uma explicação racional dos
fenômenos e torna-se estranho que os físicos continuem a dar ao calor,
transformado, numa outra forma de energia molecular, o qualificativo antiquado e
impróprio de "calor retido".
Os estados idênticos a si próprios e às situações de repouso da matéria em
estado sólido líquido ou gasoso, representam, pois, trabalho mecânico e esse
trabalho mecânico é a medida do calor. Igualmente, tanto a crosta sólida da
terra como a água do oceano representam, em seu estado natural de agregação, uma
quantidade concreta e determinada de calor posto em liberdade, à qual
evidentemente corresponde uma quantidade também determinada e concreta de força
mecânica. Quando a esfera gasosa. de que nasceu a terra, passou ao estado
líquido e, mais tarde, em grande parte, ao estado sólido, uma quantidade
determinada de energia molecular se irradiou no espaço sob a forma de calor. A
dificuldade de que fala misteriosamente o Sr. Dühring não existe, como vemos, já
que mesmo nas aplicações cósmicas, se. por um lado, podemos encontrar defeitos e
lacunas. devido aos meios imperfeitos de conhecimento de que dispomos - por
outro lado nunca deparamos obstáculos teóricos intransponíveis. A ponte" do
estático ao dinâmico é, aqui também, como sempre, um impulso de fora -
resfriamento ou aquecimento ocasionado por outros corpus que agem sobre o objeto
em equilíbrio. Quanto mais avançamos na filosofia da natureza do Sr. Dühring.
mais nos parecem inconcebíveis e inconsistentes todas as tentativas de explicar
o movimento pela imobilidade ou de encontrar a ponte pela qual o que está em
repouso e é puramente estático poderia por si mesmo passar ao dinâmico, ao
movimento.
Nesse ponto, nos desembaraçamos, felizmente, por algum tempo, do famoso estado
primitivo idêntico a si próprio. O Sr. Dühring passa agora à química, e, neste
campo, revela-nos três leis de invariabilidade da natureza, conquistadas por ele
em sua "filosofia da realidade": 1a. - A grandeza ou o volume da matéria
universal é invariável; 2a. - o número dos elementos químicos simples é
invariável; e 3a. - a grandeza ou volume da força mecânica é invariável.
Assim, o caráter não criado é indestrutível da matéria e de seus elementos
simples, na medida em que ela os tem, bem como o caráter do movimento, - que são
fatos antigos universalmente conhecidos, mas que são expressos de maneira
deficiente. - são o único resultado realmente positivo que o Sr. Dühring nos
pode dar de sua filosofia natural do mundo inorgânico. Coisas que conhecíamos há
muito tempo e nada mais. O que sabíamos, porém, é que se tratava de "leis da
invariabilidade" e, portanto, de "propriedades esquemáticas do sistema das
coisas". Volta a se dar aqui a mesma história que acima se deu com Kant: o Sr.
Dühring arranja, não importa que velha banalidade arqui-conhecida, cola sobre
ela uma etiqueta de Dühring e chama as coisas de "resultado e concepções
essencialmente originais... idéias criadoras de sistema...ciência radical...
Isso, porém, ainda não é razão para desespero. Quaisquer que sejam os defeitos
da "ciência radical", - e não há instituição social, por melhor que seja, que
não os possua - uma coisa há que o Sr. Dühring pode afirmar com segurança: "O
ouro existente no universo existiu necessariamente sempre na mesma quantidade e
não pode, assim como a própria matéria universal, aumentar ou diminuir." Mas o
que podemos comprar com esse "ouro", o Sr. Dühring infelizmente não nos diz.
Capítulo VII - A FILOSOFIA DA NATUREZA. O MUNDO ORGÂNICO
"Da mecânica dos choques e pressões até a articulação das
sensações e pensamentos, estende-se uma escala una e homogênea de graduações".
Por essa afirmação, o Sr. Dühring evita falar por mais tempo sobre a origem da
vida, se bem que, de um pensador que acompanhou a evolução do mundo desde o
estado idêntico a si próprio, e que tão família se mostra com os outros astros,
tenhamos, talvez, o direito de esperar que, nesse problema, nos dê a solução
exata. De resto, a afirmação acima não é justa senão pela metade, enquanto não é
completada pela linha modal de desproporções de Hegel, da qual já falamos. Ainda
que se faça, progressivamente, a passagem de uma forma de movimento a outra, é
sempre um salto, uma viravolta decisiva. Assim acontece com a passagem da
mecânica dos mundos para a das pequenas massas materiais num mundo concreto e
também com a passagem da mecânica das massas para a das moléculas, que
compreende os movimentos estudados na física propriamente dita (calor, luz,
eletricidade, magnetismo); a passagem da física das moléculas para a física dos
átomos - a química - que se processa igualmente por um salto muito nítido, salto
esse mais pronunciado ainda na passagem da ação química ordinária ao quimismo da
albumina, a que "chamamos vida". No interior da órbita da vida, os saltos
tornam-se cada vez mais raros e imperceptíveis. Desse modo é Hegel, mais uma
vez, quem deve corrigir o Sr. Dühring.
A via conceitual pela qual se passa ao mundo orgânico é fornecida ao Sr. Dühring
pela idéia de fim. E outra idéia tomada de Hegel que. na sua Lógica (teoria do
conceito) passa, por meio da teleologia ou teoria dos fins, do mundo
físico-químico ao mundo vivo. Para qualquer lado que volvamos os olhos,
encontramos, nas afirmações do Sr. Dühring. "grosserias hegelianas" que ele põe
sem nenhum constrangimento a serviço de sua "ciência radical".
Iríamos longe se fôssemos procurar saber em que medida a aplicação das idéias de
fim e de meio ao mundo orgânico é legitima e oportuna. Em todo caso, a própria
aplicação da idéia hegeliana de "fim interno". isto é, de um fim que não é
introduzido na natureza por um ser exterior agindo intencionalmente pela
sabedoria de nenhuma "providência", mas que reside na necessidade dos próprios
objetos, conduz, constantemente, as pessoas que não têm uma cultura filosófica
completa, sem se dar conta disso, à suposição irrefletida de uma norma
consciente e intencional nos atos da natureza. O próprio Sr. Dühring, que, à
menor tendência "espiritista" em outrem, explode numa indignação moral sem
limites, afirma-nos com certeza que "as sensações instintivas foram criadas, em
primeiro lugar, graças à satisfação que está ligada a seu funcionamento." Ele
nos conta que a pobre natureza "deve sem cessar restabelecer e garantir a ordem
no mundo dos objetos e que, além disso, há uma série de outras funções a
resolver "que da parte da natureza exigem mais sutilezas do que geralmente se
pensa".
Mas não só a natureza sabe por que ela cria isto ou aquilo, não só ela deve
fazer serviços de criada, não só ela tem o dom da sutileza, o que já seria,
portanto, um aperfeiçoamento considerável, no sentido de um pensamento
consciente e subjetivo, como tem ainda uma vontade, que são as tarefas
suplementares, graças às quais os instintos além de satisfazer às necessidades
reais da natureza (nutrição, reprodução, etc.), "não devem ser considerados como
diretamente mas só como indiretamente desejados". Chegamos, assim, a uma
natureza cujo pensamento e cuja ação são conscientes e eis-nos, portanto, sobre
a "ponte" que liga, não certamente o estático ao dinâmico, mas o panteísmo ao
deísmo. Ou será que o Sr. Dühring se permite, de quando em quando, entregar-se
um pouco, ele mesmo, à "meia-poesia filosófica da natureza"?
Não, não é possível! Tudo o que o nosso filósofo da realidade nos diz sobre a
natureza orgânica reduz-se precisamente à luta contra essa "meia-poesia
filosófica da natureza", contra esse "charlatanismo com suas frivolidades
superficiais" e de "suas mistificações científicas, digamos assim", contra os
"rasgos poéticos" do darwinismo.
Antes de mais nada, o Sr. Dühring acusa Darwin por haver transplantado da
economia para as ciências naturais a teoria de Malthus sobre a população, de não
ter ultrapassado as idéias estreitas de um criador de gado, de ter feito com a
luta pela existência uma poesia ou semi-poesia científica, concluindo que, todo
o darwinismo, se excetuarmos os empréstimos tomados a Lamarck, não é senão uma
violência cometida contra a humanidade.
Darwin trouxera de suas viagens científicas a idéia de que as espécies vegetais
e animais, longe de serem permanentes, são variáveis. Para continuar, já na
Inglaterra, a trabalhar essa idéia, o campo mais favorável que se lhe oferecia
era o da experimentação em animais e plantas. Ora, a Inglaterra é justamente a
terra clássica destas experiências. Os resultados obtidos nesse terreno em
outros países, - a Alemanha, por exemplo - estão longe de atingir os que se têm
conseguido na Inglaterra. De mais a mais, os grandes sucessos, neste ramo,
nestes ú1timos cem anos, pertencem à Inglaterra, e a comprovação dos fatos
oferece poucas dificuldades. Darwin descobriu, assim, que, a experimentação
havia artificialmente provocado em animais e em plantas da mesma espécie
diferenças maiores que as encontradas entre as espécies geralmente conhecidas
como distintas. Provava-se, assim. de um lado, a variabilidade relativa das
espécies e, de outro, a possibilidade da existência de antepassados comuns de
seres com caracteres específicos e diferentes. Darwin procura saber, então, se
não haverá na natureza causas que, de modo geral, sem a intenção consciente do
criador, produziram, nos organismos vivos, mudanças semelhantes às que o
tratamento artificial provoca. Essas causas, ele as encontrou na desproporção
entre o número formidável dos germes criados pela natureza e o pequeno número de
organismos que chegam a se desenvolver. Mas, como cada germe tende a se
desenvolver, resulta dessa desproporção necessariamente uma luta pela
existência, que se manifesta não só sob uma forma direta e física, mediante
batalhas, em que uns organismos morrem devorados por outros, mas também, mesmo
nas plantas, sob a forma de luta pelo espaço e pela luz. É evidente que nessa
luta os indivíduos que têm maiores possibilidades de atingir à maturidade e se
perpetuar são aqueles que possuem alguma particularidade individual, por mais
insignificante que seja, vantajosa na luta pela existência. Dai resulta que
essas particularidades individuais tendem a transmitir-se hereditariamente e,
quando se encontram em vários indivíduos da mesma espécie, tendem a acentuar-se,
pela hereditariedade acumulativa; quanto aos indivíduos que não possuem tais
particularidades, sucumbem mais facilmente na luta pela existência e pouco a
pouco desaparecem. Dessa maneira, as espécies se transformam, pela seleção
natural, pela sobrevivência dos mais aptos.
Contrariando essa teoria de Darwin, diz o Sr. Dühring que a idéia da luta pela
existência tem a sua origem, como o próprio Darwin havia reconhecido, numa
generalização dos pontos de vista de Malthus, autor de uma teoria econômica da
população e está, por conseqüência, eivada de todos os vícios, próprios às
idéias clericais de Malthus, sobre o excesso de população. Ora, Darwin não
sonhou sequer em dizer que a origem da idéia da luta pela existência era a
teoria de Malthus. O que ele diz é que a sua teoria da luta pela existência é a
teoria de Malthus aplicada a todo mundo vegetal e animal. Por maior que fosse o
deslize cometido por Darwin de aceitar, na sua ingenuidade, a teoria malthusiana,
vê-se logo, a um primeiro exame, que, para se perceber a luta pela existência na
natureza - que aparece na contradição entre a multidão inumerável de germes
engendrados pela natureza, em sua prodigalidade, e o pequeno número desses
germes que podem chegar à maturidade, contradição que, de fato, se resolve em
grande parte numa luta - às vezes extremamente cruel - pela existência, não há
necessidade das lunetas de Malthus. E, assim como a lei que rege o salário
conservou o seu valor muito tempo depois de estarem caducos os argumentos
malthusianos sobre os quais Ricardo a baseava - a luta pela existência pode
igualmente ter lugar na natureza sem nenhuma interpretação malthusiana. De
resto, os organismos da natureza têm, também eles, as suas leis de população,
que estão pouco estudadas, mas cuja descoberta será de importância capital para
a teoria do desenvolvimento das espécies. E quem, senão Darwin, deu o impulso
decisivo nessa direção?
O Sr. Dühring esquiva-se de abordar esse lado positivo do problema. Em vez
disso, traz novamente à baila, em termos gerais, a luta pela existência. Não
poderia, diz ele, tratar-se de uma luta pela existência entre vegetais privados
de consciência e mansos animais herbívoros; "num sentido concreto e definido, a
luta pela existência aparece, agora, representada pela brutalidade, à medida que
a alimentação toma a forma de devoramento e rapina"
E, depois de haver reduzido o conceito da luta pela existência a esses limites
estreitos, dá livre curso a toda sua indignação contra a brutalidade assim
conceituada. Mas essa indicação moral atinge apenas o próprio ar Dühring, único
autor responsável por essa limitação da luta pela existência. Não é portanto
Darwin quem "procura, no mundo dos animais, as leis e a compreensão de tudo o
que acontece na natureza" - pois Darwin torna extensiva a luta a todo o mundo
orgânico - mas, sim, um fantasma imaginário inventado pelo próprio Sr. Dühring.
Não há inconveniente em que a expressão "luta pela existência" seja abandonada
às explosões de cólera moral do Sr. Dühring. Mas que seja apenas a expressão.
Que a coisa se aplica também às plantas, qualquer prado, qualquer campo de
trigo, qualquer bosque o demonstra, e não é precisamente de nomes que se trata
(tanto se pode chamar a isso de "luta pela existência" ou "falta de condições de
existência com seus efeitos mecânicos") mas sim, trata-se do modo como esse fato
atua sobre a conservação e a transformação das espécies. A esse respeito, o Sr.
Dühring persiste num silêncio obstinado, "idêntico a si próprio". Sua razão de
ser sofrerá, pois, se outra coisa não for demonstrada, o processo de seleção
natural.
O darwinismo, afirma-nos ele, "tira a sua metamorfose e as suas diferenças do
nada". Na verdade, Darwin, quando trata da seleção natural, faz abstração das
causas que provocam mudanças em cada um dos indivíduos e se ocupa,
primeiramente, da maneira pela qual tais variações individuais gradativamente se
tornaram caracteres de uma raça, de uma variedade ou de uma espécie. Para
Darwin, trata-se, em primeiro lugar, menos de encontrar essas causas - que até
aqui são completamente desconhecidas, não podendo ser indicadas senão de um modo
geral - do que achar uma forma racional sob a qual os efeitos se fixam e
adquirem uma importância permanente. Que Darwin tenha com isso atribuído à sua
descoberta um raio de ação exagerado, que dela tenha feito a mola exclusiva da
transformação das espécies, esquecendo-se das causas determinantes das mudanças
individuais repetidas, para fixar-se apenas na forma de generalização dessas
mudanças, essa é uma falta comum a todos os autores que realizam um progresso
real. Além disso, se fosse verdade que Darwin tirou as suas variações
individuais do nada e que nisso aplicou somente a "ciência do criador", é
mister. necessariamente. que o criador tire igualmente do nada as suas
variações, não só imaginárias, mas verdadeiras, das espécies animais e vegetais.
Ora, quem deu o primeiro impulso para pesquisar de onde provêm essas
metamorfoses e diferenciações? Ainda uma vez Darwin, e nenhum outro.
Recentemente, graças principalmente a Haeckel, a idéia da seleção natural foi
ampliada e a transformação das espécies foi compreendida como resultado de um
processo de ações recíprocas de adaptação e hereditariedade, sendo a adaptação
descrita como aspecto modificativo e a hereditariedade como aspecto conservador
do processo. Isso também não merece o apoio do Sr. Dühring, "Uma adaptação
propriamente dita às condições de vida, tais como são afirmadas ou negadas pela
natureza, supõe instintos e atividades que se determinam, por seu lado, por
representações. De outro modo, a adaptação não será mais que uma aparência e a
causalidade, que se desenvolver, não se elevará acima dos mais baixos graus do
mundo da física, da química e da fisiologia vegetal."
E a nomenclatura outra vez que aborrece e transtorna o Sr. Dühring. Mas.
qualquer que seja o nome por ele dado ao fenômeno. o que importa é saber, sim ou
não, se tais fenômenos provocam mudanças nas espécies vegetais e animais.
E, no entanto, o Sr. Dühring não nos dá resposta alguma nesse sentido.
"Quando uma planta toma, em seu crescimento, a direção em que recebe a luz, esse
fato é o efeito da atração que representa uma combinação de forças físicas e de
agentes químicos, e quando se quer falar de adaptação, não em sentido metafísico
mas no sentido real, isso, fatalmente, é o mesmo que introduzir nos conceitos
uma confusão espiritista" Como é severo para com os outros o mesmo homem que
sabe científica e exatamente por que a natureza faz isto ou aquilo, que nos fala
da sutileza da natureza e até da sua vontade!
Confusão espiritista, com efeito, mas de quem? De Haeckel ou do Sr. Dühring?
É confusão não apenas espiritista, mas também lógica. Vimos que o Sr. Dühring
faz todos os esforços para aplicar, à natureza, a idéia do fim. "A relação de
meio e fim não supõe, de modo algum, uma intenção consciente". Mas o que é,
então, a adaptação sem intenção consciente, sem transmissão de representações,
contra a qual ele se ergue com tamanho ímpeto, senão uma tal atividade teológica
inconsciente?
Assim, pois, as rãs e os insetos, que se nutrem de folhagens, e que são de cor
verde, os animais do deserto que são amarelos da cor da areia, os animais das
regiões polares quase sempre brancos, da cor dos gelos, não tomaram essas cores
intencionalmente, nem por efeito de nenhuma espécie de representações com essas
cores. Pelo contrário, essas cores só se explicam pelo jogo das forças físicas e
dos agentes químicos. É inegável, portanto, que esses animais se adaptaram, por
meio dessas cores, ao meio em que vivem, e passam dessa maneira muito mais
desapercebidos aos olhos de seus inimigos naturais. Do mesmo modo, os órgãos,
com a ajuda dos quais certas plantas capturam e devoram os insetos que nelas
pousam, adaptaram-se a essa função e de modo conveniente. Se o Sr. Dühring
pretende que a adaptação deve ser sempre e usada por uma série de
representações, apenas diz, noutras palavras, que a atividade teleológica deve,
ela também, fazer-se por força das representações, deve ser consciente,
intencional. Isso nos conduz, como de hábito, à "filosofia da realidade", ao
criador consciente, à idéia de Deus. "Antigamente - diz o Sr. Dühring -
chamava-se deísmo a essa doutrina; mas, também, sobre esse ponto, parece ter-se
desenvolvido a coisa para trás."
Da adaptação passemos à hereditariedade. Ainda aqui, o darwinismo, segundo o Sr.
Dühring, engana-se redondamente. Darwin teria pretendido que todo o mundo
orgânico descende de um ser primitivo, sendo, por assim dizer, a linhagem de um
ser único. Não haveria, segundo Darwin, coexistência paralela de produtos da
natureza, seres da mesma espécie, sem vínculo de descendência. Ele se vê
obrigado, pois, a pôr um fim às suas concepções presas ao passado por ter-lhe
faltado o fio da procriação ou de qualquer outra transplantação.
Mas essa afirmação de que Darwin faz derivar todos os organismos atuais de um
ser primitivo e único não é mais que, para falarmos cortesmente, criação e
"livre fantasia" do Sr. Dühring. Darwin diz expressamente, na penúltima página
da Origem das Espécies (6a. edição) que ela considera "todos os seres, não como
criações especiais. mas como descendentes em linha direta de um pequeno número
de seres". Haeckel vai ainda mais longe: admite "um tronco absolutamente
independente para o reino vegetal, um outro para o reino animal", e, entre esses
dois reinos "toda uma série de troncos protistas isolados, cada um dos quais se
desenvolvendo de maneira inteiramente independente, a partir de um tipo
particular de monera arquigônica". O Sr. Dühring não imaginou esse ser
primitivo, senão para desacreditá-lo, anti-semiticamente, equiparando-o a Adão,
o protojudeu. Mas, desgraçadamente (refiro-me ao Sr. Dühring) continua ignorando
que as descobertas assíricas de Smith, mostraram que esse protojudeu era, na
realidade, um proto-semita e que toda a história do Gênesis e do dilúvio
universal, que nos conta a Bíblia, se revela um fragmento da velha mitologia
religiosa dos pagãos, comum aos judeus, aos babilônios, caldeus e assírios.
Trata-se de uma grave censura a Darwin que não pode ser evitada, essa que se lhe
faz quando se diz que suas investigações falham quando se rompe o fio da
descendência dos seres! Infelizmente é uma censura que se estende a todo o
conjunto da nossa ciência da natureza. Uma vez partido o fio da descendência,
chega ao fim a missão de todas as demais ciências. Nenhum naturalista conseguiu
ainda fazer nascer seres a não ser pela descendência, nem constituir com
elementos químicos um simples protoplasma nem mesmo um pouco de albumina. Tudo o
que ela pode dizer até agora, com certeza, sobre a origem da vida, é que deve
ter sido por meios químicos. Mas talvez a "filosofia da realidade" venha em seu
auxilio, ela que dispõe de produtos da natureza coexistentes de um modo
independente e sem descender uns dos outros. Qual, portanto, poderia ter sido a
sua origem? Geração espontânea? Mas até aqui os mais intrépidos partidários da
geração espontânea não pretenderam criar por esse meio senão bactérias, germes
de cogumelos e outros organismos muito primitivos - nunca insetos, peixes,
pássaros ou mamíferos. Portanto, se essas produções equivalentes da natureza
(orgânicas. já se vê, e apenas delas é que se trata) não estão ligadas pela
descendência, é preciso que elas próprias, ou cada um dos seus antepassados,
tenham sido, "onde se rompe o fio da descendência", postos no mundo por um ato
especial de criação. Eis-nos, portanto, às voltas, outra vez, com o Criador ou
"com o que se chama deísmo".
Além disso, o Sr. Dühring censura Darwin por se ter mostrado muito vulgar
"fazendo do simples ato de composição sexual de certas propriedades orgânicas, o
principio fundamental da gênese dessas propriedades." É ainda um ato de "criação
e livre imaginação" do nosso filósofo radical. Pois, pelo contrário, Darwin
declara justamente (página 44) que a expressão seleção natural só abrange a
conservação das modificações e não a sua origem. Mas essa nova suposição
desarrazoada sobre coisas que Darwin nunca disse serve para nos preparar para a
profundeza dühringuiana das seguintes conclusões: "Se se tivesse procurado, no
esquematismo interno da procriação, qualquer principio de modificação
substantiva, teria sido muito racional, porquanto é uma idéia bastante natural a
de harmonizar o principio da gênese geral com o da reprodução sexual, e a de
conceber, de um ponto de vista superior, o que se chama de geração espontânea,
não como o contrário da reprodução, mas precisamente como um caso de produção."
E o homem que pôde redigir semelhante tolice, não hesita em censurar Hegel pela
sua "gíria".
Mas já é tempo de deixarmos de lado essas recriminações e lamentos aborrecidos e
contraditórios com que o Sr. Dühring extravasa seu despeito ante o surto imenso
que as ciências naturais devem ao impulso da teoria darwiniana. Nem Darwin nem
os naturalistas seus partidários sonham em diminuir, no que quer que seja, os
grandes méritos de Lamarck: foram eles, precisamente, os primeiros que lhe
defenderam a reputação. Não temos, contudo, o direito de esquecer que, ao tempo
de Lamarck, a ciência estava muito longe de dispor de materiais suficientes para
poder resolver a questão da origem das espécies a não ser como uma antecipação a
sua época, ou, por assim dizer, de uma maneira profética. Sem contar a massa
enorme de materiais de zoologia e de botânica, anatômicos e descritivos, que
foram reunidos a partir dessa época, surgiram depois de Lamarck duas ciências
inteiramente novas e de importância decisiva neste terreno, que estudam - uma a
evolução dos germes vegetais e animais (embriologia) e outra - os vestígios
orgânicos conservados nas diversas camadas da crosta terrestre (paleontologia).
Com efeito, descobriu-se que existe uma coincidência entre a evolução gradativa,
segundo a qual os germes orgânicos se tornam organismos adultos, e a série
cronológica das plantas e animais que aparecem sucessivamente na história da
terra. E foi precisamente essa coincidência que deu à teoria da evolução a sua
base mais sólida. Mas a teoria da evolução é ainda bastante nova e, por
conseqüência, está fora de qualquer dúvida que as pesquisas ulteriores devem
modificar notavelmente as idéias atuais, inclusive as que são estritamente
darwinistas, sobre o processo da evolução das espécies.
E, agora, que nos diz de positivo a "filosofia da realidade", sobre o
desenvolvimento da vida orgânica?
"A... mutabilidade das espécies é uma suposição admissível". Mas é preciso
admitir paralelamente "a ordem coexistente e substantiva de produções da
natureza, equivalentes, porém independentes, sem ligação de descendência."
Ao ler esse trecho, seríamos levados a crer que as produções não equivalentes da
natureza, isto é, as espécies que se modificam. descendem umas das outras, e os
seres da mesma espécie, não. Mas não é propriamente isso, porque, mesmo nas
espécies que se modificam, "o vínculo da descendência pode ser um ato
inteiramente secundário da natureza". Assim, pois, há descendência, mas de
segunda classe. Rejubilemo-nos, entretanto, por ter entrado pelas portas do
fundo, essa descendência, contra a qual o Sr. Dühring tanto blasfemou e contra a
qual se lançou violentamente. O mesmo se dá com a seleção natural; depois de
toda a indignação moral contra a luta pela vida, por meio da qual, todavia, se
executa a seleção natural, o Sr. Dühring nos oferece, graciosamente: "a causa
profunda da contextura dos seres deve ser procurada, portanto, nas condições
vitais e nas circunstâncias cósmicas; a seleção natural sobre a qual Darwin
insiste, pode apenas atuar em segundo plano". Mas, de qualquer maneira, é
seleção natural, embora de segunda classe; e assim temos, pois, seleção natural,
luta pela existência e excesso de população, segundo a fórmula "clerical" de
Malthus... É tudo: quanto ao resto, o Sr. Dühring nos envia para a teoria de
Lamarck.
Finalmente, ele nos adverte contra o abuso das palavras metamorfose e evolução.
Segundo ele, a idéia de metamorfose é um conceito vago e a idéia da evolução só
pôde ser admitida na medida em que se pôde verdadeiramente provar a existência
das leis que a regem. E aconselha-nos a substituir ambas as palavras pelo termo
"composição" e então tudo irá bem, É sempre a mesma história: as coisas
continuam como são e o Sr. Dühring mostra-se todo satisfeito se lhes mudamos o
nome.
Faremos uma grande confusão se falarmos na evolução do pinto dentro do ovo,
porque não conhecemos a ciência das leis que regem esse processo. Para
esclarecer, devemos substituir, apenas a palavra "evolução" pela palavra
"composição". Não diremos mais: essa criança desenvolve-se magnificamente", mas
sim, "essa criança compõe-se esplendidamente". E podemos felicitar o Sr. Dühring
pelo fato de, não contente com enfileirar-se dignamente ao lado do autor do Anel
dos Niebelung, no que se refere ao alto conceito que tem de si mesmo, ainda não
lhe fica atrás como "compositor" do futuro.
Capítulo VIII - A FILOSOFIA DA NATUREZA, O MUNDO ORGÂNICO.
(Conclusão)
"Reflitamos... quais são os conhecimentos positivos que
precisamos possuir em nosso capítulo filosófico sobre a natureza para
compará-los com todos os seus supostos científicos. Em primeiro lugar, este
capítulo tem por fundamento todas as conquistas essenciais das matemáticas, os
dados mais importantes das ciências exatas no campo da mecânica, da física e da
química, bem como, em geral, os resultados obtidos nas ciências naturais como a
zoologia e outros ramos afins de investigação."
Como se vê, o Sr. Dühring se exprime em termos de absoluta confiança e decisão
sobre a sua erudição nas matemáticas e nas ciências naturais. Ao se ler esse
fraco capítulo, e ao se deparar com os seus resultados ainda mais exíguos, não
se pode suspeitar da "radicalidade" de conhecimentos positivos que aí se oculta.
Em todo o caso, não se tem necessidade, para se poder pronunciar oráculos como
os do Sr. Dühring sobre a física e a química, de conhecer muita coisa sobre
física; salvo a equação que exprime o equivalente mecânico do calor; nem
tampouco de saber química, exceto que todos os corpos se decompõem em elementos
e se formam pela síntese de elementos. Claro está que o Sr. Dühring também nos
fala (pág. 84) da "gravitação dos átomos" mas com isso prova unicamente que vive
"nas trevas", quanto à diferença entre átomo e molécula. Não existe átomo, como
se sabe, para a gravitação ou qualquer outra forma dinâmica, mecânica, ou
física, mas somente para a ação química. Quando se acaba de ler o capítulo
relativo à natureza orgânica, não se pode, lendo-se esse vaivém de frases vazias
e contraditórias, que ao chegar ao momento decisivo tomam, sempre um ar
misterioso e absurdo de oráculo, ou de uma absoluta esterilidade em seus
resultados finais, não se pode deixar de concluir que o Sr. Dühring fala de
coisas que conhece muito pouco. Essa suspeita torna-se certeza quando ele propõe
utilizar, na teoria do ser orgânico (Biologia), a palavra composição em lugar de
evolução. Quem faz uma proposta desse gênero prova que não tem a menor noção do
que é processo de formação dos corpos orgânicos.
Todos os corpos orgânicos, com exceção dos mais insignificantes, se compõem de
células, isto é, de pequenas massas albuminóides, que contêm em seu interior um
núcleo celular, visíveis apenas quando grandemente aumentados.
Em geral, a célula desenvolve também uma membrana exterior e, nesse caso, o seu
conteúdo é mais ou menos líquido. Os organismos celulares mais inferiores
compõem-se de uma célula única; mas, a maioria dos seres orgânicos são
pluricelulares e formam um complexo harmônico de numerosas células que,
homogêneas ainda nos mais primitivos organismos, assumem nos seres superiores
formas, funções e disposições cada vez mais díspares. Por exemplo, no corpo
humano, os ossos, os músculos, os nervos, os tendões, os ligamentos, as
cartilagens, a pele, numa palavra, todos os tecidos ou são formados de células
ou são uma síntese de células. Mas em todos os seres orgânicos celulares, desde
a ameba - que é uma simples célula, um pequeno protoplasma, quase sempre sem
membrana, com um nucléolo no interior - até o homem e desde a menor demidiácea
unicelular até a planta superior, as células só se multiplicam de uma única
maneira: pelo desdobramento. O núcleo celular estrangula-se primeiramente em seu
centro; o estrangulamento que separa os dois lóbulos do núcleo torna-se cada vez
mais acentuado; por fim, separam-se e formam dois núcleos celulares
independentes. O mesmo processo que se dá com os núcleos estende-se à célula:
cada um dos dois núcleos torna-se o centro de um agregado de matéria celular: os
agregados são ligados por um fio cada vez mais delgado até que se separam,
passando a viver como duas células independentes. É pela repetição de tais
desdobramentos que a bolha germinal do ovo animal, depois que se processa a
fecundação, engendra, pouco a pouco, todo o novo organismo e, pela mesma forma,
no animal adulto, se realiza a substituição dos tecidos gastos. Chamar uma tal
série de operações de "composição" e tratar a denominação "evolução" como "pura
imaginação" é obra certamente de um homem que (por mais que nos custe admiti-lo
nos tempos que correm) nada sabe sobre esses fenômenos. O que há ali,
exclusivamente, e no sentido literal do termo, é evolução, desenvolvimento, mas,
nunca, composição.
Teremos ainda o que dizer sobre o que o Sr. Dühring entende, em geral, sobre
vida. Em particular, o que ele chama vida é o seguinte: "O mundo inorgânico é
também um sistema de movimentos automáticos; mas só a partir do momento em que a
circulação das matérias começa a ramificar-se, em sentido estrito, e a
desenvolver-se por meio de canais especiais, partindo de um ponto interior para
um esquema germinal, transmissível a um ser menor, é que se pode falar de vida
propriamente dita no sentido estrito e rigoroso do termo."
Essa frase é, no sentido estrito e rigoroso do termo, um sistema de movimentos
automáticos. (supondo que isso significa alguma coisa), um sistema de absurdos,
sem falar da lamentável gramática do Sr. Dühring. se a vida só começa com a
ramificação propriamente dita, é mister lavrar sentença de morte para todo o
reino dos protistas de Haeckel e talvez de muitos outros seres, conforme o modo
de conceber o conceito de ramificação. Se a vida somente se inicia quando essa
diferenciação é transmissível por meio de um pequeno esquema germinal, teremos
de concluir que, pelo menos toda a escala de organismos, - desde os inferiores
aos unicelulares, inclusive estes - não é vida, mas, pelo contrário, é morte, Se
o característico da vida é a circulação das substâncias por meio de canais
especiais, temos que excluir da lista de seres vivos, além dos seres que
acabamos de falar, toda a classe superior dos celenterados, com exceção das
medusas, e, portanto, todos os pólipos e demais seres vegetativos. E se,
finalmente, a circulação das substâncias, por canais especiais que partem de um
ponto interior, é o critério essencial da vida, devemos considerar como mortos
todos os animais que não têm coração ou todos os que têm vários corações. Entre
esses se encontram, além dos seres acima citados, todos os vermes, estrelas do
mar e rotíferos (anublóida e anulosa, segundo a classificação de Huxley), uma
parte dos crustáceos (lagostas etc., e, por fim, até mesmo um vertebrado, o
anfioxus, sem contarmos a totalidade das plantas).
Como vemos, o Sr. Dühring, no seu exemplo de caracterizar a vida, no sentido
estrito e rigoroso do termo, apresenta quatro critérios inteiramente
contraditórios de vida, que se excluem uns aos outros, sendo que condena à morte
não só todo o reino vegetal, mas ainda cerca de metade do reino animal.
Realmente, ninguém poderá dizer que ele nos engana, quando nos promete
"resultados inteiramente novos e concepções essencialmente originais".
Lê-se, em outro trecho: "Na natureza, igualmente, existe um tipo simples que
serve de base a todos os organismos, desde o inferior até o superior" e esse
tipo "se apresenta inteiramente visível, nos seus traços essenciais, na mais
simples reação da planta mais imperfeita."
Essa asserção é também um absurdo "inteiramente visível". O tipo mais simples
que se pode observar, em toda a natureza orgânica, é a célula; e, certamente,
ela está na base dos mais complexos organismos. Em compensação, entre os
organismos mais simples e inferiores, encontram-se muitos que são ainda
inferiores à célula, como sejam, a protoameba, simples partícula de albumina,
sem nenhuma diferenciação, uma série inteira de outras moneras e todas as
sinfonias. Todos esses seres têm apenas um ponto em comum com os organismos
superiores: o seu elemento essencial é a albumina e eles exercem, em
conseqüência, funções albumínicas, isto é, as funções de viver e morrer.
O Sr. Dühring ainda nos conta o seguinte: "Fisiologicamente, a sensação está
ligada à existência de um aparelho nervoso qualquer, por mais simples que seja.
Portanto, o característico de todos os seres animais é o de serem capazes de ter
sensações, isto é, terem percepções subjetivamente conscientes dos estados pelos
quais atravessam. A verdadeira linha divisória entre a planta e o animal está
ali onde se realiza o salto para a sensação. E esse limite é tão claro e resiste
tanto a deixar-se apagar pelas conhecidas formas intermediárias que, justamente
essas formações exteriormente indistintas ou indetermináveis são as que se
convertem numa necessidade lógica". E acrescenta: "As plantas, pelo contrário,
são absoluta e definitivamente desprovidas de todo traço de sensação e até mesmo
da possibilidade de experimentá-la".
Primeira, advertiremos que já Hegel dizia (Filosofia da Natureza, pág. 351, nota
diferencial) que "a sensação é a differentia specifica, a característica
absoluta do animal". Eis, portanto, mais um "deslize" de Hegel, que, por meio da
simples anexação por parte do Sr. Dühring, foi elevada à nobre categoria de uma
verdade definitiva e sem apelação.
Em segundo lugar, ouvimos falar, pela primeira vez, de formações intermediárias
exteriormente indistintas ou indeterminadas (delicioso patuá) entre o reino
animal e o vegetal. Esses seres intermediários existem; há organismos que não se
pode categoricamente dizer se são plantas ou animais e, portanto, não podemos
estabelecer rigorosamente o limite entre a planta e o animal. E tudo isso sugere
ao Sr. Dühring a necessidade lógica de fixar uma característica diferencial que,
ao mesmo tempo, afirma ser insustentável. Mas não temos sequer necessidade de
percorrer essa duvidosa zona intermediária entre os reinos vegetal e animal.
Poderemos dizer que as plantas sensitivas - que ao menor. contato distendem ou
contraem as suas folhas ou flores -, ou as plantas insetívoras não possuem o
menor traço de sensação e não têm também qualquer possibilidade orgânica de
experimentá-la? Nem o próprio Sr. Dühring ousaria afirmar tal coisa, sem cair na
"semipoesia anti-científica".
Em terceiro lugar, temos mais uma "criação e livre imaginação" do Sr. Dühring ao
afirmar que a sensação está sempre, psicologicamente, ligada à existência de um
sistema nervoso qualquer, "por mais simples que seja". Não só nos animais
primitivos, mas principalmente nos animais vegetativos - em sua grande maioria -
não se descobre o menor esboço de sistema nervoso. Não é senão a partir dos
vermes que o encontramos regularmente e o Sr. Dühring é o primeiro a afirmar
que, nesses animais, a ausência de sensação provém do fato de não terem nervos.
A sensação não está ligada necessariamente aos nervos, mas, antes, a certos
corpos albuminóides que, até hoje, não foram ainda determinados com precisão.
De resto, os conhecimentos biológicos do Sr. Dühring são suficientemente
caracterizados por uma pergunta que ele não teme dirigir a Darwin: "Deve-se
admitir que o animal provém, por evolução, da planta?" Semelhante pergunta só
poderia ser feita por um homem que nada entende nem do que é um animal, nem do
que é uma planta.
Da vida em geral, o Sr. Dühring diz-nos apenas o seguinte: "A mudança de
substâncias que se realiza por meio de uma esquematização, plasticamente
modeladora (pode-se saber o que é isso?) continua sendo um caráter distintivo do
processo vital propriamente dito." É tudo o que nos ensina sobre a vida. E para.
isso temos que nos enterrar até os joelhos na "esquematização plasticamente
modeladora". Assim, pois, se queremos saber o que é vida, não teremos outro
remédio senão averiguá-lo por nossa própria conta.
A troca orgânica de matérias é o fenômeno mais geral e mais característico da
vida: isso foi dito, desde há trinta anos, um número incalculável de vezes,
pelos que se ocupam de química fisiológica ou de filosofia química. O Sr.
Dühring simplesmente o traduz na linguagem elegante e clara que lhe é peculiar.
Mas, definir a vida como troca de substâncias orgânicas é defini-la como...
vida, pois a troca orgânica de matérias ou o que o Sr. Dühring chama de troca de
matérias com "esquematização plasticamente modeladora", é sempre uma expressão
que tem, ela própria, necessidade de ser explicada pelo conceito de vida,
explicada pela diferença entre o orgânico e o inorgânico, Isto é, entre o que
vive e o que não vive. Essa explicação não nos faz, portanto avançar nem um só
milímetro.
A troca de substâncias tem lugar também fora da vida. Há toda uma série de
processos químicos que, por meio de um fornecimento suficiente de
matérias-primas, engendram sempre, de novo, as suas próprias condições e isso de
modo que a operação é sempre sustentada per um corpo determinado. É o caso da
fabricação do ácido sulfúrico pela combustão de enxofre: produz-se um anidrido
sulfuroso (SO2) e, introduzindo-se vapor d'água e ácido nítrico, faz-se
com que o anidrido sulfuroso. absorvendo o hidrogênio e o oxigênio, se
transforme em ácido sulfúrico (H2SO4). O ácido nítrico elimina o
oxigênio e reduz-se ao estado de ácido nitroso. Esse ácido nitroso toma logo, do
ar, novo oxigênio e passa a um grau superior de oxidação, mas o fez para
fornecer imediatamente esse oxigênio ao anidrido sulfuroso e refazer novamente o
mesmo processo, de maneira que, teoricamente, uma quantidade infinitamente
pequena de ácido nítrico bastaria para transformar em ácido sulfúrico uma
quantidade ilimitada de anidrido sulfuroso, oxigênio e água. Uma troca ou
assimilação de substâncias tem lugar, além disso, na passagem de líquidos
através de membranas orgânicas mortas ou mesmo inorgânicas, como se verifica nas
células artificiais de Traube. Vê-se que, ainda aqui, a idéia da troca de
substâncias não nos faz avançar um passo, porquanto a troca particular de
substâncias, destinada a explicar a vida, tem, ela própria, necessidade de ser
explicada pela vida. É preciso, portanto, procurar outro caminho para a solução
desse problema.
A vida é o modo de existência dos corpos albuminóides e esse meio de existência
consiste, essencialmente, no processo de auto-renovação constante dos elementos
químicos integrantes desses corpos.
Entende-se pela expressão corpos albuminóides, aqueles de que trata a química
moderna, que compreende, sob esse nome, todos os corpos complexos, cuja
composição é análoga à da albumina normal e que também têm, às vezes, o nome de
substâncias protéicas ou proteínas. Essa definição de vida não agrada aos
homens, pois a albumina normal é, de todas as substâncias afins, a mais
inanimada, a mais passiva, sendo, como a gema do ovo, uma simples substância
nutritiva para o germe em gestação. Mas enquanto não nos adiantarmos mais na
composição química dos corpos albuminóides, essa denominação será ainda a melhor
por ser a mais geral de todas.
Por toda a parte onde encontramos uma manifestação de vida, vêmo-la a um corpo
albuminóide, e vice-versa, desde que não esteja ainda em curso de decomposição,
o corpo albuminóide estará sempre acompanhado de manifestações de vida. Sem
dúvida, a presença de outras combinações químicas é necessária, num corpo vivo,
para provocar uma diferenciação particular nessas manifestações vitais. Essas
combinações, contudo, não são indispensáveis à vida pura e simples, senão por
intervirem como alimentos e por se converterem em albumina. Os seres vivos mais
simples que conhecemos são precisamente massas de albumina que manifestam já
todas as funções vitais essenciais.
Mas em que consistem essas funções vitais que se encontram igualmente por toda
parte, em todos os seres vivos? Consistem precisamente em que o corpo
albuminóide absorve, do seu meio, substâncias apropriadas, incorpora-se,
assimila-as, enquanto outras partes do corpo, que se gastam, são eliminadas.
Outros corpos, os corpos não vivos, transformam-se, decompõem-se e combinam-se
também no decorrer dos processos naturais, mas, ao fazê-lo, cessam de ser o que
eram. O rochedo que se desfaz em poeira não é mais rochedo. O metal que se oxida
transforma-se em ferrugem. Mas o que, nas matérias mortas, é causa de
desaparecimento, é, na albumina, condição essencial de existência. A partir do
momento em que cessa essa metamorfose ininterrupta dos elementos integrantes do
corpo albuminóide, essa troca permanente de assimilação e desassimilação, o
próprio corpo albuminóide se extingue, se decompõe ou, por outra - morre. A
vida, modo de existência do corpo albuminóide, consiste, pois, antes de mais
nada, em que ele é a todo momento ele próprio e simultaneamente um outro e isso,
não como conseqüência de uma ação de fora à qual estivesse submetido, como pode
ser o caso para as matérias não vivas. A vida, que é uma troca de substâncias
por assimilação e desassimilação, é, pelo contrário, um processo que se realiza
sem intervenção de nenhum agente exterior, um processo inerente, inato, no corpo
sobre que atua a albumina, sem o qual este não pode existir. Segue-se que, só os
químicos conseguissem produzir artificialmente a albumina, essa albumina
manifestaria necessariamente funções vitais, por mais rudimentares que fossem.
Pode-se, é verdade, indagar, supondo-se que se criasse albumina, se a química
descobriria ao mesmo tempo as substâncias convenientes para alimentar essa
albumina.
Da troca de substâncias, realizada por assimilação e desassimilação. considerada
como função essencial da albumina, e da plasticidade que lhe é própria, derivam
em seguida todos os outros fatores da vida, desde os mais simples: a
excitabilidade, que traz consigo o processo de ações e reações recíprocas entre
a albumina e a sua alimentação; a contratibilidade, que já se manifesta, em grau
muito baixo, na absorção dos alimentos; a faculdade do desenvolvimento que, nas
fases mais rudimentares. compreende a geração por cissiparidade: e o movimento
interno dos corpos, pelo qual, nem a absorção, nem a assimilação dos alimentos
seriam possíveis.
Nessa definição de vida é, naturalmente, muito insuficiente, porquanto, longe de
abranger todas as funções vitais, é obrigada a limitar-se às mais gerais e mais
simples. As definições têm sempre um valor científico muito precário. Para se
ter um conhecimento verdadeiramente completo do que é a vida, seria preciso
relacionar todas as formas em que ela se manifesta, desde a inferior até a
superior. Mas, para uso corrente, tais definições são bastante cômodas, havendo
casos em que não se pode dispensá-las. Em geral, não tem inconvenientes, desde
que não nos esqueçamos de suas inevitáveis lacunas.
Mas voltemos ao Sr. Dühring. Quando se sente mal, no terreno da biologia
terrestre, ele se consola refugiando-se em seu firmamento:
"Não é somente a constituição particular de um órgão sensível, mas todo o mundo
objetivo, que está organizado para fazer surgir o prazer e a dor. Eis porque
somos levados a admitir que a antítese do prazer e da dor - e isso se dá
precisamente sob a forma que conhecemos - tem alcance universal e deve
necessariamente ser representada por meio de sentimentos essencialmente análogos
nos diversos mundos que compõem o Universo. Ora, essa coincidência tem um
alcance que não é pouco importante, pois é a chave do universo das sensações...
E, assim, o universo cósmico subjetivo não é mais estranho para nós que o
universo objetivo. A constituição desses dois reinos deve ser concebida segundo
um tipo harmônico; temos assim os elementos iniciais de uma teoria da
consciência cujo alcance é mais do que terrestre.
Como é possível que se possa rebaixar, devido a uns reveses no campo terrestre
das ciências naturais, aquele que tem na algibeira a chave do universo das
sensações?
Passemos adiante!
Capítulo IX - MORAL E DIREITO. VERDADES ETERNAS.
Abstemo-nos de dar algumas amostras do guizado de tolices e
sentenças oraculares, ou seja, do simples charlatanismo que o Sr. Dühring. serve
a seus leitores em cinqüenta páginas como sendo a ciência radical dos elementos
da consciência. Não citaremos senão esta: "Quem não é capaz de pensar, senão com
a ajuda da linguagem, não tem a menor idéia do que significa pensamento original
e verdadeiro". Segundo essa afirmativa, os animais são os pensadores mais
originais e mais verdadeiros, pois o seu pensamento jamais é perturbado pela
intromissão da linguagem. A dizer verdade, vê-se bem nos pensamentos
dühringuianos e na linguagem que os exprime, quanto eles se adaptam mal a uma
linguagem qualquer, e, por outro lado, como a linguagem, pelo menos a alemã, se
ajusta com dificuldade a esses pensamentos.
Enfim, eis-nos chegados ao quarto capítulo que, no meio desse fluxo de frases
ambíguas, apresenta, ao menos aqui e ali, alguma coisa de aproveitável sobre a
Moral e o Direito. Desde o inicio, somos convidados a fazer uma viagem aos
outros mundos: os elementos da moral "devem ser encontrados de igual maneira
entre todos os seres não humanos, nos quais uma inteligência ativa se ocupa de
pôr em ordem consciente as reações vitais instintivas... Entretanto, o interesse
que tomamos por essas idéias será sempre ínfimo... Mas, por outro lado. será
sempre uma concepção própria à ampliação benfazeja dos nossos horizontes, o
representarmos a vida individual e social, em outros astros, como baseada,
necessariamente, na contextura fundamental e geral de um esquema que... não pode
ser suprimido nem cancelado por nenhum ser que atue de modo inteligente."
Por que, excepcionalmente, é no começo e não no fim do capítulo que se afirma o
valor das verdades de Dühring para todos os outros mundos possíveis?
Há, para isso, uma razão suficiente. Uma vez estabelecido que as idéias de
Dühring sobre moral e justiça valem para todos os mundos, será mais fácil
"estendê-las logo beneficamente, como diria ele, a todos os tempos. Mas, ainda
uma vez, não se trata aqui, nem mais nem menos, que de "verdades definitivas e
sem apelação". O mundo moral "tanto quanto o da ciência geral, tem seus
princípios permanentes e seus elementos simples"; os princípios morais estão
colocados "por cima da história e das diferenças que hoje separam a estrutura
dos povos... As verdades concretas de que se compõe, no curso da evolução, por
síntese, a mais ampla consciência moral, e o que se pode chamar a "consciência
do homem", podem, uma vez investigadas até as suas últimas raízes, pretender
para si a mesma validez e o mesmo alcance que as concepções e aplicações das
matemáticas. As autênticas verdades são sempre imutáveis, de maneira que é
tolice representar a exatidão do conhecimento humano algo destrutível pelo tempo
e pelas transformações reais.
A segurança de um saber rigoroso e a validez dos conhecimentos mais comuns não
nos permitem pois, duvidar, em momentos de reflexão, do valor absoluto dos
princípios da ciência. "Já, por si mesma, a dúvida permanente é um estado
doentio de fraqueza e não faz senão manifestar um desolado confusionismo que às
vezes procura dar-se a aparência de alguma solidez, na consciência sistemática
de sua nulidade. Em matéria de moral, a negação dos princípios universais
apega-se às diversidades geográficas e históricas dos costumes e dos princípios
morais; e, confessando-se a necessidade inevitável do mau e do perverso em
moral, acredita-se livre da obrigação de reconhecer a comprovada vigência e a
ação eficaz de padrões morais coincidentes. Esse ceticismo dissolvente, que se
exerce não contra tal ou qual falso ensinamento objetivo, mas contra a própria
capacidade que tem o homem de obedecer a uma moralidade consciente, atinge mesmo
alguma coisa pior que o puro niilismo... Ele tem a ilusão de, facilmente, poder
governar o seu tumultuoso caos de noções morais desagregadas e de poder abrir as
portas ao Capricho destituído de princípios. Mas seu erro é imenso, pois é
suficiente que se recordem as aventuras inevitáveis da razão na verdade e no
erro. para que se reconheça, revelada por essa analogia, que a falibilidade das
leis naturais não exclui necessariamente a possibilidade de saber encontrar o
caminho exato."
Até aqui, alinhamos tranqüilamente todas essas pomposas declarações do Sr.
Dühring sobre as verdades definitivas e sem apelação, a soberania do pensamento,
a segurança absoluta do conhecimento, etc... porque, em suma, a questão só podia
ser decidida no ponto a que agora chegamos. Até aqui, nos contentávamos em
verificar em que medida as proposições concretas da filosofia da realidade
tinham "validez soberana", e "títulos incondicionais de verdade". Ao chegarmos
aqui, encontramo-nos ante a questão de saber até que ponto os produtos do
conhecimento humano podem aspirar a uma validez absoluta e aos títulos
incondicionais de verdade. E quando digo conhecimento humano, não é que tenha
qualquer intenção de ofender aos habitantes dos outros astros, que não tenho a
honra de conhecer; mas é que os animais também têm um conhecimento, embora não
seja nunca soberano, o cão, por exemplo, terá o seu dono por um Deus, o que não
impede que esse Senhor seja o maior canalha do mundo.
O pensamento humano é soberano? Antes de responder sim ou não, é preciso
primeiramente saber o que é, na realidade, o pensamento humano. É o pensamento
de um só homem? Não. Ele não existe senão como pensamento concreto de muitos
milhares de milhões de homens passados, presentes e futuros. Assim, pois, quando
eu digo que esse pensamento de todos os homens, inclusive os vindouros,
sintetizado no meu espírito, é soberano, capaz de conhecer, de modo absoluto, o
mundo real, desde que a humanidade subsista o tempo necessário para isso e que
não se produza, nem nos órgãos nem nos objetos do conhecimento, modificação
capaz de limitar esse conhecimento, estarei dizendo uma coisa banal e, além
disso, estéril. Porque o resultado mais precioso dessa idéia seria tornarmo-nos
extremamente desconfiados quanto aos nossos conhecimentos atuais, posto que
estamos, segundo toda a probabilidade, ainda quase no início da história da
humanidade, tendo as gerações que nos corrigirão de ser seguramente muito mais
numerosas que aquelas cujos conhecimentos - não poucas vezes um olímpico
desprezo - somos capazes de corrigir.
O próprio Sr. Dühring considera necessário que a consciência e, por conseguinte.
o pensamento e o conhecimento, só se manifestam numa série de seres isolados. Só
num sentido o pensamento de cada um desses seres isolados não pode ser
considerado como soberano no sentido de que não conhecemos um poder capaz de
impor-lhes, pela força, quando se acham em estado de saúde e de serenidade, um
qualquer pensamento... Mas, no que se refere ao valor soberano dos conhecimentos
de cada mente individual isolada, sabemos que não pode haver tal valor soberano
e todas as nossas experiências passadas nos demonstram que. nesses
conhecimentos, sem exceção, está contida uma parte maior de dados retificáveis
do que de dados não retificáveis.
Em outros termos: a soberania do pensamento realiza-se através de uma série de
seres humanos pensantes muito pouco soberanos; os conhecimentos que podem alegar
títulos incondicionais de verdade se impõem depois de uma série de erros
relativos; nenhuma soberania pode converter-se em plena realidade a não ser
através da duração infinita da própria realidade.
Encontramos, aqui, a mesma contradição, que já indicamos no trecho acima, entre
o caráter, que necessariamente temos que nos apresentar como absoluto do
pensamento humano e a realidade desse pensamento numa multidão de seres humanos,
isolados, de pensamento limitado. Essa contradição não se pode resolver senão no
decorrer de um processo infinito, na sucessão, - para nós, pelo menos,
praticamente inacabável - das gerações humanas.
Nesse sentido, podemos dizer que o pensamento humano é ao mesmo tempo soberano e
não soberano e a sua capacidade cognoscitiva é ao mesmo tempo limitada e
absoluta. Soberano e absoluto quanto à sua capacidade, sua vocação, suas
possibilidades, sua meta histórica final: não soberano e limitado, quanto à sua
aplicação concreta e a realidade de cada caso particular.
O mesmo acontece com as verdades eternas. Se a humanidade chegasse. em algum
tempo, a um tal grau de progresso que só atuasse com verdades eternas, com
produtos do exercício do pensamento que pudessem reivindicar uma validez
soberana e títulos incondicionais de verdade, teria alcançado o ponto em que se
teria esgotado a infinidade do mundo intelectual, tanto em relação à realidade
como em relação à possibilidade, efetuando-se assim o famoso milagre da contagem
do inumerável.
Mas será possível que existam verdades tão incontestáveis que toda a dúvida a
seu respeito nos faça supor, necessariamente, um indício de imbecilidade? Quando
dizemos que dois e dois são quatro, que os três ângulos de um triângulo
eqüivalem a dois retos, que Paris está em França, que o homem. que não se
alimenta, morre de fome, etc... não estamos afirmando verdades incontestáveis?
Existem, porventura, verdades eternas, verdades definitivas e inapeláveis?
É fora de dúvida que não. E, seguindo a conhecida tradição, poderemos dividir
todo o campo do conhecimento em três grandes zonas. A primeira compreende todas
as ciências que estudam a natureza inanimada e que, em menor ou maior grau,
podem ser tratadas pelos métodos matemáticos: as matemáticas, a astronomia, a
mecânica, a física, a química. Se há quem prefira aplicar palavras retumbantes a
coisas tão simples, pode afirmar que alguns dos resultados destas ciências são
verdades eternas, verdades definitivas e inapeláveis e esse é justamente o
motivo pelo qual essas ciências são chamadas de exatas. Mas isso não significa
que todos os seus resultados sejam exatos. Ao introduzir as grandezas variáveis
e ao estender a sua variabilidade até o infinitamente grande e o infinitamente
pequeno, as puritanas matemáticas cometeram o pecado original, morderam a maçã
do bem e do mal, que lhes abriu um caminho de grandes triunfos, mas também de
grandes erros. A pureza das verdades absolutas, o valor incontestável das
matemáticas havia, desse modo, terminado; iniciou-se a era das controvérsias e
assim chegamos a uma situação em que a maioria das matemáticos se debate com as
suas diferenciais e integrais, não porque saibam o que estão fazendo, mas por
puro ato de fé, porque sempre viram fazer assim. Mas é ainda pior o que se dá
com a astronomia e a mecânica, sem falarmos da física e da química: nelas, o
cientista move-se dentro de um turbilhão de hipóteses que o assaltam, de todos
os lados, como um enxame de abelhas. E é natural que assim seja. A física trata
dos movimentos das moléculas; a química, da formação das moléculas, partindo de
átomos e, se a interferência das ondas luminosas não é uma fábula, não há a
menor esperança de que possamos algum dia chegar a ver esses tão interessantes
objetos com os nossos próprios olhos. É assombroso verificar como vão
desaparecendo com o tempo, nesse assunto, as verdades definitivas e inapeláveis.
Incomparavelmente mais difícil é o terreno em que pisamos em geologia, ciência
que estuda, por sua própria natureza, e em primeiro lugar, fenômenos que não só
não assistimos, como também não foram assistidos por nenhum outro homem, em
época alguma. Aqui, a procura de verdades definitivas inapeláveis é
extraordinariamente penosa, e de rendimento escassíssimo, além do mais.
A segunda categoria de ciências é a das que têm a seu cargo a investigação dos
fenômenos que ocorrem nos organismos vivos. Neste campo de estudos,
desenvolve-se uma série tão diversa de ações e de reações, de reciprocas
causalidades, que cada problema resolvido coloca um sem-número de problemas
novos, além de existirem não poucos problemas que se conseguem resolver apenas
pouco a pouco, por meio de investigações que duram às vezes séculos inteiros.
Além disso, a necessidade de formar-se uma noção sistemática das concatenações
científicas obriga constantemente o cientista a envolver as verdades definitivas
e imperecíveis com uma verdadeira floresta de hipóteses. Pense-se na imensa
sucessão de fases intermediárias que foi preciso percorrer-se, desde Galeno até
Malpighi, para tornar clara uma coisa tão simples como a circulação do sangue
nos mamíferos; pense-se no pouco que sabemos do processo de produção dos
glóbulos do sangue e na série de elos intermediários que nos faltam, ainda hoje,
por exemplo, para poder relacionar racionalmente os sintomas de uma enfermidade
com suas causas. De vez em quando, e com muita freqüência, aparece uma
descoberta, como esta da célula, que nos obriga a submeter a uma total revisão
as noções que considerávamos verdades definitivas e inapeláveis no campo da
biologia e a deixar de lado, para sempre, inúmeras delas. Assim, quem se empenha
a defender aqui, a todo transe, autênticas verdades imutáveis, está-se
restringindo a formular vulgaridades no estilo das que damos a seguir: todos os
homens são mortais, as fêmeas dos mamíferos têm, sem exceção, glândulas
mamárias, etc. Nem sequer se poderá aventurar a afirmação de que os animais
superiores digerem com o estômago e o intestino e não com a cabeça, pela simples
razão de que a função nervosa, centralizada na cabeça, é indispensável para a
digestão.
Mas as verdades eternas saem perdendo ainda mais no terceiro grupo de ciências,
as ciências históricas, aquelas que investigam, na sua sucessão histórica e nos
seus resultados atuais, as condições de vida dos homens, as relações sociais, as
formas do Direito e do Estado, com as suas superestruturas ideal, filosófica,
religiosa, artística, etc. Pelo menos, na natureza biológica, nos aparecem
muitos fenômenos que, quando necessitamos observá-los diretamente, podemos
fazê-lo, por que eles se repetem, com certa regularidade, dentro de limites de
tempo bastante dilatados. As espécies animais e vegetais continuam sendo, de
modo geral, as mesmas do tempo de Aristóteles. O mesmo não acontece na história
da sociedade, na qual as repetições de situações, desde que ultrapassamos a
pré-história da humanidade, a chamada Idade da Pedra, são a exceção e não a
regra. Mesmo quando ocorrem, as repetições não se dão nunca exatamente nas
mesmas condições. A mesma coisa acontece com o regime primitivo da propriedade
coletiva da terra, em todos os povos civilizados, e, do mesmo modo, com a forma
de sua dissolução, que não se processa uniformemente em todos os povos. No campo
da história da humanidade, a ciência se encontra, pois, muito mais atrasada que
no campo da biologia. Ainda mais, quando conseguimos conhecer, uma vez ou outra,
a íntima ligação que existe entre as modalidades de vida, sociais e políticas,
de uma época, isso acontece, em regra geral, quando essas formas estão já
semidecadentes e caminham para a morte. O conhecimento é, pois, essencialmente
relativo, porquanto o seu objetivo é sempre o de penetrar no encadeamento e nas
conseqüências de determinadas épocas e em determinados povos, além de serem, por
sua própria natureza, transitórias e efêmeras. Desse modo, quem sair por esses
domínios à caça de verdades definitivas e de última instância, de autênticas
verdades verdadeiramente imutáveis, não conseguirá reunir grandes despojos,
desde que não se contente com vulgaridades e lugares-comuns da pior espécie,
como, por exemplo, o de que os homens não podem viver, em geral, sem trabalhar,
o de que os homens, até a nossa época, têm estado divididos, quase sempre, em
dominantes e dominados, ou então o fato de ter Napoleão morrido no dia 5 de maio
de 1821, e assim por diante.
Entretanto, é notável que seja este precisamente o campo em que, com maior
freqüência, deparamos com pretensas verdades eternas, verdades definitivas e
inapeláveis, etc. Considerar verdades eternas que dois e dois são quatro, que os
pássaros têm bico, e outras coisas deste gênero, não mais pode ocorrer a quem
abrigue a secreta intenção de estabelecer o princípio das verdades eternas de
modo geral, para deste princípio extrair deduções sobre a existência, também no
campo da história humana, de verdades eternas, como sejam, uma moral eterna, uma
justiça eterna, etc.. com os mesmos títulos de legitimidade e o mesmo alcance
que as verdades matemáticas e as aplicações dessas verdades. E podemos ter
segurança de que, se for assim, esse mesmo filantropo aproveitará a primeira
oportunidade para assegurar-nos que os fabricantes de verdades eternas que
vieram antes dele não deixaram de ser, alguns mais, outros menos, umas bestas e
uns charlatães, que todos andavam equivocados, que eram todos vítimas de erro,
mas que os erros, que cometeram, a sua falibilidade é perfeitamente lógica,
servindo para demonstrar a verdade e a exatidão que cercam o atual descobridor
de verdades eternas, esse profeta recém-saido do forno, que traz, na mochila,
pronta para ser posta em circulação, a verdade definitiva e inapelável, a moral
eterna, a eterna justiça. Centenas e milhares de vezes tais coisas já se
passaram, de tal modo que se tem que ficar assombrado, de que haja ainda homens
que sejam bastante ingênuos para acreditar, já não digo nas plataformas dos
outros, mas nas suas próprias. E, no entanto, temos que nos render à evidência,
pois temos diante de nós um desses profetas que, como é de praxe, se enfurece e
tem verdadeiros acessos de ira moral quando alguém se atreve a negar que seja
ele capaz de apresentar-nos a verdade definitiva e inapelável. Sabemos já que a
negação, ou, mais ainda, a simples dúvida a respeito das verdades eternas é um
"estado de debilidade doentia", um "desesperado confusionismo", uma "nulidade",
um "nada", "ceticismo desagregador", "ainda pior que o simples niilismo", um
"caos de confusão", e não sei quantas outras delicadezas do mesmo gênero. Já se
sabe que os profetas não precisam molestar-se em realizar investigações críticas
e científicas, pois lhes basta fulminar-nos com seus raios morais.
Poderíamos ter mencionado mais acima as ciências que investigam as leis do
pensamento humano, ou seja, a lógica e a dialética. Mas também nesse terreno não
é tão melhor colocada as verdades eternas. O Sr. Dühring deixa de lado a
verdadeira dialética como um puro contra-senso e, como sabemos, todos os livros
que se escreveram ou que continuam sendo preparados sobre lógica demonstram
completamente que também neste campo não abundam, como muitos acreditam, as
verdades eternas e inapeláveis.
Além de tudo, não nos precisamos assustar pelo fato de que o grau de
conhecimento que alcançamos na atualidade tenha tão pouca coisa de definitivo
quanto o das épocas que nos precederam. O nosso conhecimento engloba já um
material imenso de dados e exige uma grande especialização de estudos por parte
de quem pretende se familiarizar com um ramo ou uma disciplina qualquer de
ciência. Mas quem se limita a medir com a estreiteza da verdade definitiva e sem
apelação, da autêntica verdade imutável, conhecimentos que, ou estão destinados,
como conhecimentos relativos por natureza, a serem estudados por muitas gerações
e que, portanto, têm que ser completados pouco a pouco e gradualmente, ou
aqueles outros que, como acontece com a cosmogonia, a geologia, ou a história
humana, são também, e necessariamente têm que continuar a ser, por natureza,
incompletos e parciais, pela insuficiência mesma do material histórico, quem,
repetimos, se limita de tal forma, não faz mais que reafirmar com isso a sua
própria ignorância e sua desorientação, embora não se proponha ele próprio, como
no caso presente, a fazê-las ressaltar, arrogando-se, como defesa, títulos de
infalibilidade pessoal. A verdade e o erro, como todos os conceitos que se movem
dentro de antíteses polares, só têm aplicação absoluta dentro de uma zona muito
limitada, como nós acabamos de ver e como o próprio Sr. Dühring saberia ver se
tivesse uma noção dos primeiros rudimentos de dialética, que são justamente os
que tratam da limitação de todas as antíteses polares. Tão logo, a antítese de
verdade e erro se afasta daquela zona circunscrita em que se deve mover, ela se
converte de absoluta em relativa e perde, assim, todo e qualquer valor, como
meio estritamente científico de expressão; e se tentamos aplicá-la como valor
absoluto, fora daquela órbita circunscrita, fracassamos definitivamente, pois os
dois pólos da antítese se tocam no inverso do que são, a verdade em erro e o
erro em verdade. Tomemos, como exemplo, a conhecida lei de Boyle, segundo a
qual, permanecendo invariável a temperatura, varia o volume dos gases na razão
inversa da pressão a que estão submetidos, Regnault descobriu que esta lei não
era aplicável a certos casos. Se tivesse sido um "filósofo da realidade",
deveria ter dito: a lei de Boyle é mutável; não é, portanto, uma autêntica
verdade, ou seja, não é uma verdade, mas sim um erro. Mas com isso teria
cometido um erro muito maior que o existente na citada lei; a rocha granítica de
sua verdade teria desaparecido como se fosse um torrão de areia na imensidade de
seu erro; teria convertido o seu resultado originariamente exato num erro tal
que, comparada com ele, a lei de Boyle, apesar da poeira de erros a ela aderida,
resplandeceria como uma grande verdade. Mas Regnault, como cientista que de fato
era, não se deixou levar por semelhantes puerilidades, tendo continuado a
pesquisar, até descobrir que a lei de Boyle era apenas aproximadamente certa e
que deixava de sê-lo, sobretudo na presença de gases que, quando submetidos à
pressão, se tornavam fluidos, ou, mais concretamente, a lei deixava de ser certa
a partir do momento em que a pressão se aproximava do ponto de fluidez. A lei de
Boyle só se mantinha exata dentro de certos limites. Mas, dentro destes limites,
era absoluta, definitivamente verdadeira? Nenhum físico se atreverá a afirmar
semelhante coisa. Responderá unicamente que esta lei é efetiva e exata dentro de
certos limites de pressão e temperatura e para determinados gases; e mesmo
dentro destes limites admitirá a possibilidade de que o seu campo de aplicação
se restrinja mais ainda ou que a sua fórmula se modifique como resultado de
posteriores investigações.
Vemos, pois, aqui, o caráter que assumem, na física, as verdades definitivas e
inapeláveis. Por isso, todos os trabalhos realmente científicos se abstêm,
cuidadosamente, de empregar termos tão dogmaticamente normativos como os de erro
e verdade, que encontramos em grande quantidade em obras como A Filosofia da
Realidade na qual pretende o autor nos impor, como sendo o fruto soberano do
pensamento soberano, um mero encadeamento de frases sem sentido.
Mas, perguntará o leitor ingênuo, onde concretamente o Sr. Dühring disse que o
conteúdo de sua filosofia da realidade é a verdade definitiva e inapelável?
Onde? Ele o disse, por exemplo, no ditirambo que entoa em homenagem ao seu
próprio sistema, na página 12 desse livro do qual tomamos algumas frases do
capítulo II desta obra; ou quando diz, no parágrafo que acima citamos, que as
verdades morais, sempre que possam ser conhecidas até os seus últimos
fundamentos, reclamam os mesmos títulos de efetividade que as verdades
matemáticas. E acaso não afirma O Sr. Dühring ter chegado até esses fundamentos
últimos, até os esquemas fundamentais do ponto de vista de sua "plataforma
autenticamente crítica" e por intermédio de sua investigação, que atinge "as
raízes das coisas", transmitindo com isso as verdades morais em caráter
definitivo e sem apelação? Pois se o Sr. Dühring não pretende esses títulos nem
para si nem para a sua época, se apenas quer dizer que um dia haverá, não se
sabe quando, lá pelo nebuloso futuro, no qual se poderão descobrir verdades
definitivas e inapeláveis, se, portanto, apenas quer dizer o que diz, vaga e
confusamente, quando se refere ao "ceticismo desagregador" e "desesperado
confusionismo", porque, então, todo esse barulho? Que deseja, afinal, esse
Senhor?
Se nada ganhamos com os conceitos de verdade e erro, menos ainda alcançamos com
os do bem e do mal. Esta antítese move-se, pura e exclusivamente, dentro da
órbita moral, isto é, num terreno que pertence à história humana, onde já
sabemos que pouquíssimas verdades definitivas e inapeláveis podem fecundar. As
idéias do bem e do mal variaram tanto de povo para povo, de geração para
geração, que, não poucas vezes, chegam a se contradizer abertamente. Mas, -
replicará alguém com segurança - o que é bem não é mal, o que é mal não é bem, e
se se apaga qualquer distinção entre o bem e o mal, ter-se-á destruído a moral,
e cada qual poderá fazer ou deixar de fazer o que bem entender. Com efeito, tal
é, livre de todo disfarce oracular, a opinião do Sr. Dühring. Mas o problema não
é tão fácil de resolver, pois que, assim sendo, não haveriam disputas sabre o
que está bem e o que está mal e todo o mundo saberia se orientar sobre o que é
bom e sobre o que é mau. Mas vejamos o que acontece em nossos dias. Que espécie
de moral nos pregam hoje? Temos, em primeiro lugar, a moral cristã-feudal, que
nos legaram os velhos tempos da fé e que se divide, fundamentalmente, numa moral
católica e numa moral protestante, com toda uma série de variações e subdivisões
que vão desde a moral católica dos jesuítas e a moral ortodoxa dos protestantes,
até uma moral de certo modo liberal e tolerante. E, ao lado dessas, temos a
moderna moral burguesa e, ao lado da moral burguesa moderna, a moral proletária
do futuro. Portanto, somente nos países mais cultos da Europa, nos defrontamos
com três grupos de teorias morais, correspondentes ao passado, ao presente e ao
futuro, pretendendo esses três grupos dominar, concorrente e simultaneamente.
Qual delas é a verdadeira? Em sentido absoluto e definitivo, nenhuma; mas,
evidentemente, a que contém mais garantias de permanência é a moral que, no
presente, representa a destruição do presente, o futuro, ou seja, a moral
proletária.
Assim, verificando que as três classes que constituem a sociedade moderna, que
são a aristocracia feudal, a burguesia e o proletariado, possuem cada uma a sua
moral particular, teremos, necessariamente, de concluir, que os homens,
consciente ou inconscientemente, fazem derivar suas idéias morais, em última
análise, das condições práticas em que se baseia a sua situação de classe, ou
seja, das condições econômicas em que produzem e trocam os seus produtos.
Existe, porventura, algum elemento comum às três teorias morais mencionadas, um
só elemento que seja que possamos acatar como verdade perene e definitiva? Essas
três teorias morais representam outras tantas etapas distintas de um mesmo
processo histórico, e por isso têm um fundo histórico comum, o que faz com que
forçosamente elas contenham toda uma série de elementos comuns. E não é só. Em
fases idênticas ou aproximadamente equivalentes de desenvolvimento econômico, as
teorias morais devem necessariamente coincidir, numa extensão maior ou menor. Ao
surgir a propriedade privada sobre as coisas móveis, impôs-se, necessariamente,
em todas as sociedades nas quais existe essa instituição, um preceito de moral,
comum a todas elas: "Não roubarás". Transformou-se este preceito, por esse
simples fato, numa norma eterna de moral? Não. Numa sociedade em que tivessem
desaparecido os móveis do roubo, na qual, portanto, de um modo geral, somente
poderia roubar uma pessoa anormal, o pregador de moral que subisse ao púlpito
para proclamar solenemente a verdade eterna do "não roubarás", seria vitima de
zombaria generalizada.
Não estamos dispostos, pois, a deixar que nos imponham como lei eterna,
definitiva e imutável, um qualquer dogma de moral, sob o pretexto de que também
o mundo moral tem os seus princípios permanentes, que se colocam acima da
história e das diferenças existentes entre os povos. Pelo contrário, afirmamos
que, até hoje, todas as teorias morais foram, em última instância, produtos da
situação econômica das sociedades em que foram formuladas. E, como até o dia de
hoje a sociedade se desenvolveu sempre por antagonismos de classe, a moral foi
também. sempre e forçosamente, uma moral de classe; nalguns casos, construída
para justificar a hegemonia e os interesses da classe dominante, noutros, quando
a classe oprimida se torna bastante poderosa para rebelar-se contra a classe
opressora, a moral é construída para defender e legitimar a rebelião e os
interesses do futuro em geral, e da classe oprimida, em particular. Que esta
evolução se processa sempre, em largos traços, da mesma forma no campo da moral
como no dos demais ramos do conhecimento humano e sempre num sentido de
progresso, é o que nos parece indubitável. Mas, apesar de todos os progressos,
não se encontrou ainda nenhum modo de fugir da moral de classe. Para se chegar à
conquista de uma moral realmente humana, subtraída a todos os antagonismos de
classes ou mesmo à sua recordação, teremos, antes, que alcançar um tipo de
sociedade na qual não somente se tenha abolido o antagonismo das classes mas
também tenha sido esse antagonismo, além de abolido. esquecido e afastado das
práticas da vida. Considere-se, pois, quanto é grande a presunção do Sr. Dühring,
que, vivendo no seio da velha sociedade de classes, nas vésperas de uma
revolução social, tem a pretensão de impor à sociedade sem classes do futuro,
uma moral eterna, subtraída às leis do tempo e às mudanças da realidade. Assim
mesmo, supondo que conheça - o que até agora ainda não sabemos - ainda que seja
apenas em seus traços fundamentais, a estrutura dessa sociedade do futuro. E,
para terminar, lembramos uma sua descoberta "fundamentalmente original", mas nem
por isso menos "radical": estudando as origens do mal, deparamos com "o fato de
que o tipo de gato, que é encontrado nessa espécie animal com a falsidade que o
caracteriza, pode ser comparado com a contextura de certos caracteres humanos,
colocados, assim. no mesmo plano que esses bichos... O mal não é, pois, nada
misterioso. a menos que se queira farejar alguma coisa de místico na existência
do gato ou na dos felinos em geral." Concluímos, portanto, que o mal, segundo o
Sr. Dühring, é... um gato. O diabo mudou os chifres e as patas por unhas e olhos
verdes. Goethe cometeu um erro imperdoável quando, em seu "Fausto", apresentou
Mefistófoles na forma de um cão negro, em vez de dar-lhe a figura de um gato. O
gato, personificação do mal! Temos, aqui, uma moral aplicável não só a todos os
mundos habitáveis, mas também a todos os gatos.
Capítulo X - MORAL E DIREITO. A IGUALDADE
Já tivemos ocasião de conhecer várias aplicações do método do
Sr. Dühring. Consiste ele em analisar um determinado grupo de objetos do
conhecimento, em seus pretendidos elementos simples, aplicando a estes elementos
uns tantos axiomas não menos simples, considerados evidentes pelo autor, para,
em seguida, operar com os resultados assim obtidos. Do mesmo modo, os problemas
encontrados no campo da vida social, "devem ser resolvidos, axiomaticamente,
pela comparação com os diversos esquemas simples e fundamentais, exatamente como
se se tratasse de simples... esquemas fundamentais das matemáticas". Assim, a
aplicação do método matemático à história, à moral e ao direito, deverá nos
garantir, também aqui, a certeza matemática na verdade dos resultados obtidos,
imprimindo-se-lhes o selo de verdades autenticamente imutáveis.
Na realidade, não é mais do que um novo rodeio do velho e favorito método
ideológico, também chamado apriorístico, que consiste em estabelecer e provar as
propriedades de um objeto, não partindo do próprio objeto, mas derivando-as do
conceito que dele formamos. A primeira coisa a fazer, é converter o objeto num
conceito desse objeto; em segundo lugar, não é preciso mais que inverter a ordem
das coisas e medir o objeto pela sua imagem, o conceito. Não é, pois, o conceito
que se deve ajustar ao objeto, mas este é que se deve ajustar àquele. Nas
elucubrações do Sr. Dühring, são os elementos simples, últimas abstrações a que
se pode chegar, que desempenham o papel de conceitos, mas isso em nada modifica
os termos do problema, pois esses elementos simples podem ter, na melhor das
hipóteses, um caráter puramente conceitual. Como vemos, a "filosofia da
realidade" também aqui não é mais que uma pura ideologia, ou seja, uma realidade
que é deduzida, não de si mesma, mas da idéia.
Pois bem, se o ideólogo quer construir a moral e o direito, não baseado na
realidade das condições sociais em que vivem os homens que o rodeiam, mas
partindo do conceito "da sociedade", ou seja, daquilo que ele chama elementos
simples, com que materiais conta ele para uma tal tarefa de construção? Com duas
classes de materiais, evidentemente: a primeira, os escassos vestígios de
qualquer conteúdo real que possam existir ainda naquelas abstrações que servem
de base à construção, e uma segunda classe, que é o conteúdo que carrega o nosso
ideólogo, e que ele retira de sua própria consciência. Em sua maior parte,
intuições sobre moral e direito, que são uma expressão, mais ou menos adequada -
positiva ou negativa, favorável ou não - das condições sociais e políticas em
que ele vive. Talvez, além dessas intuições, possam encontrar-se idéias tomadas
da literatura sobre estes problemas e, por casualidade, em último lugar, uma
série de figurações pessoais. O que quer que faça o nosso ideólogo, colocando-se
onde quer que seja, o resultado será que a realidade histórica, que ele expulsa
pela porta, volta a entrar pela janela, e, quando acredita estar construindo uma
teoria da moral e do direito, para todos os tempos, e para todos os mundos, o
que na realidade está fazendo é esboçar uma imagem caricatural, - arrancada de
sua base real, invertida como se num espelho côncavo - das correntes
conservadoras ou revolucionárias de seu tempo.
O Sr. Dühring analisa a sociedade em seus elementos simples e descobre que a
mesma, reduzida em sua expressão mais simples, é formada, no mínimo, por dois
homens. Estes dois homens formarão, em seguida, o material para as suas
manipulações axiomáticas. Colocado neste ramo, chega-lhe às mãos, por si mesmo,
o axioma básico da moral: "duas vontades humanas são, como tais, absolutamente
idênticas uma à outra, e uma delas não pode, inicialmente, exigir nada de
positivo da outra". Fica, desse modo, "caracterizada a forma fundamental da
justiça moral" e, também, da justiça jurídica, pois, "para desenvolver os
conceitos fundamentais do direito, basta-nos desenvolver a relação simples e
elementar entre dois homens".
Afirmar que dois homens ou duas vontades humanas, consideradas como tais, são
absolutamente idênticas entre si, não somente não é um axioma, como também pode
ser considerado, pelo menos, um grande exagero. Dois seres humanos podem, mesmo
considerados como tais, diferir entre si, antes de mais nada, pelo sexo, e este
fato, tão simples. leva-nos, imediatamente, à conclusão de que os elementos
simples da sociedade - para nos entretermos um momento com estas infantilidades
- não são precisamente dois homens, doiis varões, mas um homem e uma mulher que
fundam uma família, forma primeira e mais simples da sociedade, colocada ao
serviço da produção. Mas isso não convém ao Sr. Dühring. de modo algum. Por quê?
Porque necessita, a todo transe, que sejam os dois fundadores de sua sociedade
completamente iguais, se possível, e também porque não seria capaz mesmo o Sr.
Dühring, de construir, baseado na família primitiva, a equiparação jurídica e
moral do homem e da mulher. Das duas uma: ou a molécula da sociedade
dühringuiana, de cuja multiplicação deve sair toda a sociedade, está condenada,
desde o nascimento, a perecer, pois que dois homens não procriarão nunca, ou são
eles representados como dois chefes de família. Mas, neste caso, voltamos de
repente ao singelíssimo esquema fundamental, que nos demonstra não a igualdade
humana, mas, em essência, a igualdade dos cabeças de família e, como nada se
pergunta com respeito às mulheres, demonstra também o fato da subordinação da
mulher.
Sinto muito ter de comunicar ao leitor uma notícia desagradável: não tardará
muito que tenhamos de vista estes dois famosos homens do Sr. Dühring. Estes dois
personagens vieram representar, aproximadamente, no campo das relações sociais,
o mesmo papel que até aqui estava destinada aos habitantes dos outros mundos,
dos quais, afortunadamente, já nos livramos. Existe algum problema de economia,
de política, etc... para resolver? Imediatamente se põem em campo os nossos dois
homens e resolvem a coisa "axiomaticamente", de um só golpe. É uma descoberta
magnífica, original, e "capaz de criar sistema', a desse nosso filósofo da
realidade! É pena que o respeito à verdade nos obrigue a dizer que a descoberta
não é precisamente sua! Esses dois homens de encomenda são patrimônios de todo o
século XVIII. Já os conhecemos em 1754 no "Discurso sobre as desigualdades dos
homens", de J. J. Rousseau, onde - seja dito entre parênteses - se demonstra,
também axiomaticamente, o contrário do que o Sr. Dühring afirma. Tornamos a nos
encontrar com eles, desempenhando um papel de relevo, na economia política,
desde Adam Smith até Ricardo, embora já não sejam, nesse assunto, completamente
iguais, pois que exercem ofícios diferentes - geralmente os de caçador e
pescador - e trocam entre si os seus produtos. Mas o século XVIII se utiliza, de
um modo quase exclusivo, desses personagens, a titulo de ilustração e exemplo; a
originalidade do Sr. Dühring consiste em tornar esse método puramente
ilustrativo como método fundamental aplicável a toda a ciência da sociedade e
como critério para o estudo de todas as manifestações históricas. Realmente, a
"concepção estritamente científica sobre coisas e homens" não poderia ser mais
fácil.
Mas, para extrair logo depois axioma fundamental, segundo o qual esses dois
homens e suas respectivas vontades são totalmente idênticos entre si, sem que
nenhum dos dois tenha nada a exigir do outro, não é suficiente que sejam dois
homens quaisquer. Deverão ser dois ares humanos tão fora de toda a realidade,
tão despidos de todas as condições nacionais, econômicas, políticas, religiosas,
existentes em nosso mundo, que, de todas as características e peculiaridades de
pessoa e de sexo, neles só deve restar o mero conceito de homem, de ser humano.
Somente assim, poderão ser "completamente idênticos". Como se vê, não estamos
precisamente diante de dois homens, mas de dois perfeitos fantasmas, evocados
por este mesmo Sr. Dühring. que vive a descobrir e a denunciar, por toda a
parte, as reações "espiritistas". Esses dois espectros são naturalmente
condenados a fazer tudo o que homem que os evocou deles exija; e por isso são
absolutamente indiferentes às outras coisas do mundo para as suas manipulações
artificiais.
Penetremos, um pouco, na axiomática do Sr. Dühring. Dizíamos que aquelas duas
vontades nada podiam exigir de positivo, uma da outra. Se uma delas falta a esse
dever e apresenta uma exigência, chegando mesmo a impô-la pela força, cria-se,
então, um estado injusto e, deste esquema fundamental, faz o Sr. Dühring derivar
a injustiça, a dominação, a escravidão, numa palavra, toda a condenável história
desde a antigüidade até os nossos dias. Entretanto, já Rousseau, no estudo que
citamos atrás, valendo-se exatamente de nossos dois homens, provou, de modo
axiomático, justamente o contrário, ou seja, que entre os dois homens, "A" não
pode escravizar "B" pela violência, a não ser colocando-o numa tal situação que
"B" não possa prescindir de "A". Esta concepção peca, no entender do Sr. Dühring,
por ser excessivamente materialista. Focalizemos, pois, essa mesma coisa, de
outro modo. Suponhamos que dois náufragos, sozinhos numa ilha, contratam uma
sociedade. Suas vontades, são formalmente idênticas, e ambos assim o consideram,
Mas entre os dois sócios existem grandes diferenças materiais. "A" é um homem
resoluto e enérgico; "B" ,é indeciso, indolente, preguiçoso; "A" é inteligente,
"B" é retardado. É natural que, cedo ou tarde, "A" acabe de impor a sua vontade
a "B", primeiramente pela persuasão e, a seguir, pouco a pouco, por força do
hábito, mas sempre de um modo livre e espontâneo. Significa a mesma coisa que
sejam respeitadas ou desprezadas as formas voluntárias: voluntária ou não, a
servidão é servidão. A aceitação voluntária da servidão é encontrada em toda a
Idade Média e, na Alemanha, chega mesmo até a Guerra dos 30 Anos. Quando, na
Prússia, depois das derrotas de 1806 e 1807, foi abolida a servidão e com ela a
obrigação imposta ao nobre feudal de zelar pelos seus súditos, em casos de
miséria, enfermidade ou velhice, dirigiram-se os camponeses ao rei para suplicar
que os deixasse continuar como servos, pois, de outro modo, quem iria cuidar
deles e ampará-los na miséria? O esquema dos dois homens encerra, pois, os
germes de desigualdade e servidão, tanto quanto os de igualdade e cooperação. E
como, além disso, devemos, a não ser que os condenemos a perecer, concebê-los
como cabeças de família, verificamos que esse esquema contém, além do mais, a
explicação da escravização hereditária.
Mas deixemos por um momento este assunto e suponhamos que nos tenha convencido a
axiomática do Sr. Dühring e que estejamos verdadeiramente entusiasmados com a
absoluta equiparação das duas vontades, com a "soberania humana geral", com a
"soberania do indivíduo", verdadeiras expressões' maravilhosas ao lado das quais
o "Único", de Max Stirner, com todas as suas propriedades, fica obscurecido,
embora também a ele seja devida uma parte modesta da criação. Admitamos pois que
somos todos absolutamente iguais e independentes. Todos? Não, todos não.
Existem, também, umas "dependências legitimas", mas estas não se originam de
"razões baseadas no exercício das duas vontades, como tais, mas num terceiro
fator, como acontece, por exemplo, com as crianças; nestas, este terceiro fator
provém da insuficiência de sua própria determinação".
Magnífico! Desse modo, não se deve buscar as razões a que se deve a dependência
no exercício de ambas as vontades como tais. Como se há de buscar aí a razão
quando justamente a dependência consiste em entorpecer o exercício de uma das
vontades? Essa razão, deve ser encontrada, como nos diz o Sr. Dühring, "num
terceiro fator". Esse terceiro fator é a insuficiente capacidade de determinação
concreta da vontade quando sujeita à coerção. O nosso filósofo da realidade
tanto dela se distanciou que, como vemos, comparado com expressões abstratas e
vazias como a da vontade, o conteúdo real de determinação, própria dessa
vontade, se lhe assemelha a um "terceiro fator". Mas, seja o que for, o caso é
que a equiparação das duas vontades tem exceções, pois uma vontade não se ajusta
à outra, a própria determinação de uma delas é reconhecida como insuficiente.
Limitamo-nos a consignar: reteirada número um!
Prossigamos. "Ali, onde homem e animal formam uma só pessoa, pode-se perguntar,
em nome de uma segunda pessoa completamente humana, se a sua conduta pode, neste
caso, ser a mesma que teria sido frente a pessoas exclusivamente humanas,
digamos assim... Começamos por supor duas pessoas moralmente desiguais, uma das
quais tem, de certo modo, um pouco do caráter das bestas, e, dessa forma,
criamos um esquema fundamental ap1icável a todas as relações que podem, de
acordo com essa diferença, ser encontrados... entre os grupos humanos e dentro
deles." E o leitor, se quiser, que procure entender o atormentado libelo que o
Sr. Dühring apresenta ao enveredar por esta última saída, na qual dá voltas e
mais voltas, deslizando por sendas tortuosas, como um jesuíta, para acabar
sentenciando, judiciosamente, até que ponto pode o homem humano proceder contra
o homem bestial; até que ponto lhe é licito empregar contra este último a
manobra, a astúcia guerreira e mesmo os recursos da violência, do terror, da
mistificação, sem faltar em nada aos postulados da moral imutável.
Assim, a igualdade também termina ali onde duas pessoas são "moralmente
desiguais". Então, para que esse esforço todo no sentido de reunir dois seres
humanos absolutamente idênticos, se sabemos que não existem duas pessoas que
sejam moralmente iguais? Pois é o Sr. Dühring quem nos diz que a desigualdade
consiste em que uma delas é pessoa humana, enquanto que a outra tem dentro de si
uma qualquer coisa de besta. Entretanto, a própria procedência animal do homem
já nos indica que ele não pode nunca se desprender totalmente da condição de
besta, e que, além disso, o problema da distinção entre a bestialidade e a
humanidade é puramente quantitativo, referindo-se apenas a uma diferença de
grau. A classificação dos homens em dois bandos nitidamente distintos e
separados, o dos humanos e os dos bestiais, os bons e os maus, os cordeiros e os
lobos, somente pode ser admitida pela filosofia da realidade e pelo
cristianismo, com a diferença de que este é mais conseqüente, pois cria um juiz
universal, que tem a seu cargo a tarefa da classificação de cada indivíduo num
dos dois grupos. Mas, na filosofia da realidade, quem há de ser o juiz
universal? Sucederá com ela o que costuma acontecer, na prática, entre os
cristãos, em que os piedosos cordeirinhos se encarregam da função, com grande
êxito, como sabemos, de juiz universal de seus próximos, os lobos deste mundo. A
seita dos filósofos da realidade, caso fosse fundada algum dia, não poderia ser
pior, com relação a esse assunto. Mas isto pouco nos importa; o que nos
interessa é tomar nota da concessão que acaba de nos fazer o Senhor Dühring de
que a desigualdade moral entre os homens acaba por anular a igualdade. Retirada
número dois.
Continuemos a leitura. "Se uma pessoa age, respeitando a ciência e a verdade,
enquanto que outra se deixa levar por preconceitos... necessariamente, haverá
entre elas algumas perturbações... Quando atingirem um certo grau a brutalidade
ou as tendências malignas do caráter, produzir-se-á forçosamente um choque...
Não são apenas as crianças e os loucos que conhecem outras armas além da força.
A sucessão dos grupos naturais e das classes culturais pode tornar uma
necessidade inadiável a submissão de cada vontade desviada e hostil, até
submetê-la aos vínculos coletivos. Ao fazer tal coisa, respeita-se como
igualmente legitima a vontade alheia; o que se dá é que o seu exercício,
coletivo quando hostil e prejudicial, provoca uma compensação e, se lhe faltam
forças, não faz mais que suportar os efeitos reflexos, provocados pela sua
própria injustiça".
Como vemos, não é só a desigualdade moral, mas também a desigualdade espiritual
que pode deitar por terra a "completa identidade" das duas vontades, instaurando
o reino de uma moral que justifica todas as infâmias praticadas pelos Estados
civilizados em sua cruzada de rapina contra os povos mais fracos, até mesmo as
repugnantes façanhas dos russos no Turquestão. Quando, no verão de 1873, o
general Kauffmann caiu, como um vendaval. sobre a tribo tártara dos jomudas,
incendiou suas tendas, massacrou. "à boa maneira caucasiana", como rezava a
ordem, as mulheres e as crianças, invocava ele também a necessidade inevitável
de submeter a vontade "desviada e hostil" daqueles selvagens, para reduzi-los
aos "vínculos coletivos", afirmando que os meios postos em prática por ele eram
os mais eficazes para conseguir tal coisa; e já se sabe, além do mais, que os
fins justificam os meios, O que verificamos é que o general conquistador era um
pouco menos cruel, pois não lhe ocorria, além de tudo, rir-se dos jomudas,
enganando-os com a fábula de que, ao exterminá-los, como "compensação", não
fazia mais que render homenagem à sua própria vontade, acatando-a como
"igualmente legitima". Neste conflito, os eleitos são ainda, em última
instância, os filósofos da realidade, que dizem agir de conformidade com a
verdade e a ciência, e que portanto são chamados a definir o que quer dizer a
superstição, o preconceito, a brutalidade, o que são as tendências malignas do
caráter e quando é que devem ser indicadas a dominação e a força como meios de
compensação. A igualdade fica reduzida, pois, ainda uma vez, à nivelação pela
força e a segunda vontade deve ser equiparada à primeira por meio de um ato de
submissão, Retirada número três, que, mais que retirada, é já uma fuga
vergonhosa.
Acrescentaremos, entre parênteses, que a frase segundo a qual a vontade alheia é
sancionada como "igualmente legítima", justamente por meio da nivelação pela
força, não é mais que uma deturpação da teoria de Hegel, de acordo com o qual o
criminoso tem direito à pena: "No fato de ver implícito na pena um direito
próprio do criminoso é que se reconhece e se honra a este como um ser racional".
(Filosofia do Direito, § 100, nota).
Acreditamos que isso é suficiente, Não é preciso seguir passo a passo o Sr.
Dühring para a destruição gradual de seu principio de igualdade, tão
axiomaticamente proclamado, de sua soberania humana geral, etc. etc.; é inútil
continuarmos a observar que, embora se necessitem apenas de dois homens para
construir a sociedade, é preciso, para edificar o Estado, mais um terceiro, sem
o qual - para resumir de um modo conciso - não se poderia resolver nenhum
problema pelo sistema da maioria e, sem esta, isto é, sem o domínio da maioria
sobre a minoria, não é possível conceber-se o Estado. Não precisamos ver como,
pouco a pouco, vai o Sr. Dühring navegando para as águas tranqüilas da
construção de seu Estado socialitário do futuro, no qual teremos oportunidade,
numa manhã de bom tempo, de fazer-lhe uma visita. Basta-nos o que foi dito atrás
para compreender que a completa igualdade entre as duas vontades fica liquidada
desde o momento e no ponto exato em que qualquer uma delas chegue a desejar
alguma coisa. Compreendemos, desse modo, que, desde o momento em que deixam de
ser vontades humanas como tais e passam a ser vontades reais, individuais,
acabou-se a igualdade das vontades de dois homens reais e concretos.
Compreendemos que a infância, a loucura, o que ele chama de bestialidade, a
suposta superstição, os preconceitos denunciados, a presumida incapacidade de um
lado e o prurido de humanidade de outro, o domínio da verdade e das ciências, ou
seja, que a mínima diferença do ponto de vista qualitativo entre as duas
vontades, ou no tocante à inteligência que as orienta, justificam ume
desigualdade que pode chegar até a submissão. Para que continuar, quando já o
próprio Sr. Dühring pulveriza tão radicalmente, em seus próprios fundamentos, o
seu edifício da igualdade?
Mas o fato de termos liquidado a absurda e tola construção que o Sr. Dühring
cria sobre a idéia da igualdade, não quer dizer que tenhamos liquidado a própria
idéia, que ocupa um lugar tão importante na teoria, principalmente a partir de
Rousseau, e que exerceu tanta influência na política prática da Grande
Revolução, e nos períodos que a seguiram e que, pela sua ação agitadora,
influencia ainda hoje o movimento socialista de quase todos os países.
Analisando o seu conteúdo científico, tentaremos pôr em evidência o valor que
tem esta idéia para o movimento proletário.
A crença de que todos os homens, pelo simples fato de sê-lo, têm alguma coisa de
comum que os torna iguais, na proporção em que exista esse ponto comum, é
naturalmente antiquíssima. Mas o postulado moderno da igualdade difere
radicalmente desta idéia e, pelo contrário, faz ressaltar da própria natureza,
comum a todos os homens, dessa igualdade dos homens como tais, o princípio da
equiparação política e social de todos os seres humanos, ou, pelo menos, de
todos os cidadãos de um Estado, ou de todos os indivíduos de uma mesma
sociedade. Foi preciso que muitos milhares de anos passassem e, de fato,
passaram, antes que aquela idéia primitiva da igualdade relativa inspirasse,
como um corolário, a idéia da igualdade dentro da sociedade e do Estado e muito
mais tempo seria preciso até que esta dedução se impusesse como algo evidente e
natural. Nas velhas comunidades naturais, somente se podia falar de igualdade,
de fato, entre os membros da mesma coletividade; as mulheres, os escravos, os
estrangeiros, ficavam excluídos, naturalmente, desta comunidade, e essa exclusão
era considerada como perfeitamente natural. Na Grécia e em Roma, as
desigualdades entre os homens tinham muito mais força que qualquer forma de
igualdade. E se ocorresse a alguém dizer, então, que os gregos e os bárbaros, os
livres e os escravos, os cidadãos do Estado e os estrangeiros acolhidos sob a
sua proteção, os cidadãos romanos e os súditos de Roma (para empregar um termo
geral) eram merecedores de um mesmo tratamento político, deveria essa pessoa
passar por louca aos olhos dos antigos; no Império Romano, estas desigualdades
foram desaparecendo pouco a pouco, com exceção apenas da que separava os
escravos dos homens livres, surgindo então entre estes últimos aquele sistema de
igualdade baseado no qual se desenvolveu o Direito Romano, a mais perfeita
expressão que se conhece de um Direito cimentado sobre a instituição da
propriedade privada. Mas, embora subsistisse a distinção entre os homens livres
e os escravos, não havia razão para se falar dos corolários jurídicos derivados
da igualdade de todos os homens; até há pouco tempo, podia-se ainda observar
este fenômeno nos Estados escravagistas da América do Norte.
O cristianismo reconhecia apenas uma igualdade entre os homens: a do pecado
original, igualdade essa que se enquadrava perfeitamente no seu caráter de
religião dos escravos e dos oprimidos. Ao lado desta, admitia no máximo a
igualdade dos eleitos, mas não insistia a respeito desta, a não ser muito nos
primórdios da religião. Os vestígios da comunidade dos bens, com que defrontamos
igualmente, nos primeiros tempos da nova religião, tinham a sua origem mais na
solidariedade entre os perseguidos do que numa verdadeira idéia de igualdade.
Ademais, a distinção entre os sacerdotes e os leigos veio logo pôr um fim a este
rudimento de igualdade cristã. A invasão do ocidente da Europa pelos germanos
varreu por vários séculos toda idéia de igualdade, levantando, pouco a pouco,
uma hierarquia social e política tão complicada como até então não se conhecera;
entretanto, ao mesmo tempo, a invasão germânica arrastava consigo, para o mesmo
movimento histórico. todos os países do ocidente e do centro da Europa, criando,
pela primeira vez, uma área compacta de cultura e sobre esta área erigindo
também pela primeira vez na história, um sistema de Estados predominantemente
nacionais, que se influenciavam e se contrapunham uns aos outros. Foi desse modo
que se preparou o terreno para, tempos mais tarde, ser possível falar-se da
igualdade humana e dos direitos do homem.
Além disso, no bojo da Idade Média feudal, entrou em gestação a classe chamada a
proclamar quando atingisse a idade madura, o postulado da igualdade humana
moderna: a burguesia. A burguesia, que também em seus começos era apenas uma
camada feudal imprimiu um grau relativamente elevado de desenvolvimento à
indústria artesanal e à troca de produtos dentro da sociedade feudal por ocasião
de abertura de novas rotas marítimas, como resultado das grandes descobertas dos
fins do século XV. O comércio extra europeu, que até então se realizava somente
entre a Itália e os portos do Levante, torna-se extensivo agora à América e à
Índia e logo ultrapassa em importância o intercâmbio entre muitos países
europeus e mesmo o comércio interior destes países. O ouro e a prata da América
inundaram a Europa e penetraram. como um ácido corrosivo, em todos os poros.
fendas e vácuos da sociedade feudal. Não bastava já a produção artesanal para
cobrir as crescentes necessidades; a manufatura tomou posições nos ramos da
produção mais importantes dos países mais adiantados.
Entretanto, este gigantesco crescimento das condições econômicas de vida da
sociedade não foi seguido de perto pela mudança correspondente da organização
política. O regime estatal continuava sendo feudal, embora a sociedade se fosse
tornando cada dia mais burguesa. O comércio em grande escala e principalmente o
comércio internacional e mais ainda o comércio mundial requerem livres
proprietários de mercadorias, desembaraçados em seus movimentos, capazes todos
de realizar transações, dispondo de um direito igual para todos, pelo menos
dentro de cada localidade. A passagem do artesanato para a manufatura pressupõe
a existência de um certo número de operários livres - livres, de um lado. dos
entraves gremiais e, de outro, donos dos meios de explorarem, por si próprios, a
sua força de trabalho - capazes de estabelecer contrato com o fabricante,
vendendo-lhe a sua força de trabalho, e que, portanto, sejam capazes de
contratar de igual para igual. Finalmente, a igualdade e a igual valorização de
todos os trabalhos humanos, na qualidade de manifestações do trabalho da homem,
encontrou a sua mais forte expressão. embora inconsciente, na lei do valor da
economia burguesa moderna, segundo a qual o valor de uma mercadoria se mede pelo
trabalho socialmente necessário contido nela. Mas ali onde as condições
econômicas clamavam por igualdade de direitos e por liberdade, a ordem política
lhes opunha, a cada passo, os entraves feudais e os privilégios de classe. Por
todas as partes se erguiam privilégios locais, barreiras alfandegárias para cada
produto, leis de exceção de todo o gênero, prejudicando o comércio não só dos
estrangeiros e dos habitantes das colônias, mas até, muitas vezes, de categorias
inteiras dos próprios súditos do país; por todas as partes, inúmeros privilégios
gremiais barravam-lhes o caminho e se antepunham ao desenvolvimento da
manufatura. Os competidores burgueses não encontravam liberdade e igualdade de
condições em nenhuma parte, e, entretanto, essa sua reivindicação era essencial
e cada vez mais premente.
A emancipação dos entraves feudais e a implantação da igualdade jurídica, pela
abolição das desigualdades do feudalismo, eram um postulado colocado na ordem do
dia pelo progresso econômico da sociedade, e que depressa alcançaria grandes
proporções. Embora proclamado este postulado da igualdade de direitos no
interesse da indústria e do comércio, não havia mais remédio senão torná-lo
extensivo também à grande massa de camponeses que, submetida a todas as nuanças
de vassalagem, que chegava até a servidão completa, passava a maior parte de seu
tempo trabalhando gratuitamente nos campos do nobre senhor feudal, além de ter
de pagar a ele e ao Estado uma infinidade de tributos. Postos neste caminho, não
havia outro remédio para os burgueses senão exigir também a abolição dos
privilégios feudais, da isenção de impostos para a nobreza, dos direitos
políticos singulares de cada categoria social feudal. E como a sociedade não
vivia mais num império mundial como o romano, mas sim dividida numa rede de
Estados independentes, que mantinham entre si relações de igualdade e tinham
chegado a um grau quase burguês de desenvolvimento, era natural que aquelas
tendências adquirissem um caráter geral, ultrapassando as fronteiras dos Estados
e era natural, portanto, que a liberdade e a igualdade fossem proclamadas
direitos humanos. Para compreender o caráter especificamente burguês de tais
direitos humanos, nada mais eloqüente que a Constituição norte-americana, a
primeira em que são definidos os direitos do homem, na qual, ao mesmo tempo, se
sanciona a escravidão dos negros, então vigente nos Estados Unidos, e se
proscrevem os privilégios de classe, enquanto que os privilégios de raça são
santificados.
Sabe-se, por outro lado, que a burguesia, desde o instante em que sai do embrião
da burguesia feudal, instante em que, de camada feudal se converte em classe
moderna, se vê ladeada, sempre e em todas as partes, inseparavelmente, como por
sua própria sombra, pelo proletariado. E ao movimento da igualdade burguesa
acompanha, também, como a sombra ao corpo, o movimento da igualdade proletária.
Desde o instante em que se proclama o postulado burguês da abolição dos
privilégios de classe, ergue-se o postulado proletário da abolição das próprias
classes postulado esse que adota primeiro a forma religiosa, baseada no
cristianismo primitivo, e que, mais tarde, se apoia nas próprias teorias
burguesas da igualdade. Os proletários colhem a burguesia pela palavra: é
preciso que a igualdade exista não só na aparência, que não se circunscreva
apenas à órbita do Estado, mas que tome corpo e realidade, fazendo-se extensiva
à vida social e econômica. E, desde que a burguesia francesa, sobretudo depois
da Grande Revolução, passou a considerar em primeira plano a igualdade burguesa,
o proletariado francês coloca, passo a passo, as suas próprias reivindicações,
levantando o postulado da igualdade social e econômica, e, a partir dessa época,
a igualdade se converte no grito de guerra do proletariado, e, muito
especialmente, do proletariado francês.
O postulado da igualdade tem, pois, na boca do proletariado, uma dupla acepção.
As vezes - como sucedeu sobretudo nos primeiros tempos, na guerra dos
camponeses, por exemplo, - este postulado significa a reação natural contra as
desigualdades sociais clamorosas, contra o contraste entre ricos e pobres,
Senhores e servos, famintos e glutões. Este postulado da igualdade não é mais
que uma explosão do instinto revolucionário e somente isso é que o justifica.
Outras vezes, no entanto, nasce esse postulado como reação contra o postulado de
igualdade da burguesia e tira dele muitas conseqüências avançadas, mais ou menos
exatas, sendo utilizado como meio de agitação para levantar os operários contra
os capitalistas, usando para isso frases tomadas dos próprios capitalistas e,
considerado desse aspecto, se organiza e cai por terra esse postulado juntamente
com essa mesma liberdade burguesa. Tanto num como noutro caso, o verdadeiro
conteúdo do postulado da igualdade proletária é a aspiração de alcançar a
abolição das classes. Qualquer outra aspiração de igualdade que transcenda a
tais limites desborda, necessariamente, para o absurdo. Demos já alguns exemplos
a este respeito e poderemos encontrá-los em abundância quando chegarmos às
fantasias sobre o futuro, do Sr. Dühring.
Como vemos, a idéia da igualdade, tanto na sua forma burguesa como na
proletária, é, por si mesma, um produto histórico que somente podia tomar corpo
em virtude de determinadas condições históricas, as quais, por sua vez, tinham
por trás de si um grande passado. Está longe, pois, de ser uma verdade eterna. E
se alguma coisa é atualmente evidente para o grande público - num ou noutro
sentido - se, como diz Marx, - alguma coisa "possui já a completa estabilidade
de um preconceito popular", não há de ser devido à sua verdade axiomática, mas
por ser resultado da difusão generalizada e da permanente atualidade das idéias
do século XVIII. Portanto, se o Sr. Dühring pode se dar ao luxo de colocar os
seus dois homens a viver num plano de igualdade, isso se dá. pura e
simplesmente, porque para o povo, devido a esse preconceito, parece essa
igualdade ser a coisa mais natural do mundo. Não esqueçamos que o Sr. Dühring
chama de filosofia natural à sua filosofia, por ser proveniente de toda uma
série de coisas que parecem a ele naturalíssimas. Por que é que lhe parecem
naturais é uma coisa que não merece a preocupação do Sr. Dühring.
Capítulo XI - MORAL E DIREITO. LIBERDADE E NECESSIDADE.
"No que se refere aos problemas políticos e jurídicos, os
princípios proclamados neste Curso repousam nos mais conscienciosos estudos
especializados. Portanto, o ponto de partida será... a matéria de que já
tratamos... a exposição conseqüente dos resultados das ciências jurídicas e
políticas. Comecei por dedicar-me ao estudo da jurisprudência e não só consagrei
a ela os três anos usuais da preparação teórica universitária, como ainda mais
três anos da prática judicial, ocupados por um constante estudo, principalmente
destinado a aprofundar o seu conteúdo científico... Também enfrentaria
seguramente a crítica das instituições de direito privado e suas correspondentes
imperfeições jurídicas, com idêntico domínio da matéria, se não estivesse certo
de conhecer todos os pontos fracos desta especialidade, da mesma forma que
conhecia os seus pontos fortes."
Um homem que possui títulos suficientes para falar de si mesmo em tais termos há
de nos infundir, forçosamente, uma confiança ilimitada, desde o primeiro
momento, ainda mais se compararmos a sua preparação com os "estudos jurídicos
primários do Sr. Marx, tão descuidados, segundo ele mesmo confessa". A única
coisa que nos assombra é que uma crítica às instituições do direito privado, que
se ergue com tanta segurança, se reduza a explicar que "a cientificidade da
jurisprudência... não é grande", que o direito civil positivo é a injustiça,
pois que sanciona a propriedade baseada na forma e que o "fundamento natural" do
direito penal é a vingança, afirmação que não prima pela novidade, a não ser com
a roupagem mística do "fundamento natural". Os resultados da ciência política
ficam reduzidos às já conhecidas negociações entre os três homens já conhecidos,
um dos quais, até agora, vem exercendo a violência sobre os outros, dois, além
do que, o Sr. Dühring investiga conscienciosamente se será o segundo ou o
terceiro que, em primeiro lugar, introduzirá a violência ou a escravidão.
Mas, observemos de perto os conscienciosos estudos especializados e o profundo
domínio da ciência, adquirido por nosso jurista, durante os três anos de prática
judiciária.
Quanto a Lassalle, conta-nos o Sr. Dühring, foi acusado e processado "como
instigador de tentativa de roubo de uma maleta", "mas não foi possível uma
condenação judicial, tendo-se aplicado a chamada absolvição de instância, que
ainda existia nesse tempo... essa meia absolvição".
O processo Lassalle, a que se refere, foi julgado em Colônia, em 1848, onde
estava em vigor, como em quase toda a província renana, o direito penal francês.
Só para os delitos e contravenções políticos era aplicado, em caráter
excepcional, o direito nacional prussiano, até que, em abril de 1848,
Champhausen aboliu também essa lei de exceção. O direito francês não admite, de
modo algum. essa desnecessária categoria do direito prussiano que se chama
"instigação a um delito", nem tampouco, como daí se depreende, a instigação a
uma tentativa de delito. Reconhece apenas a excitação ao crime; e esta, para ser
condenável, deve ser realizada "por meio de presentes, promessas, ameaças, abuso
de prestígio ou de força, astúcia ou artifícios culposos." (Código Penal, artigo
60). O Ministério Público, mergulhado no direito nacional prussiano, passou por
alto, da mesma forma que o Sr. Dühring, sobre a diferença essencial que
distingue o preceito francês, concreto e preciso, da confusa imprecisão da norma
prussiana, e, desse modo, pretendeu envolver Lassalle num processo tendencioso,
tendo saído fragorosamente derrotado. Afirmar que o direito processual francês,
assim como o prussiano, admite uma absolvição de instância, uma "meia
absolvição", exige uma audácia que só se pode permitir em quem desconhece
completamente o moderno direito francês. O direito francês admite apenas, com
relação ao processo penal, uma absolvição, ou uma condenação - não há meio
termo.
Podemos, pois, afirmar, que o Sr. Dühring não poderia aplicar a Lassalle, com o
modo seguro com que o faz, esta sua "historiografia de grande estilo", caso
tivesse em suas mãos, mesmo que fosse uma só vez, o Código de Napoleão. Não
temos outro remédio senão concluir que o Sr. Dühring ignora, de modo absoluto, o
único Código Civil moderno que se baseia nas conquistas sociais da Grande
Revolução Francesa e que traduz estas conquistas para a linguagem jurídica: o
moderno direito francês.
Noutro trecho, quando o Sr. Dühring crítica a instituição do jurado, implantada
em todo o continente, depois de se ter aberto o precedente francês, e no qual o
veredictum é tomado por maioria de votos, transmite-nos o seguinte ensinamento:
"Sim, teremos de aceitar mesmo a idéia, que não é sequer nova na história,
segundo a qual, numa comunidade perfeita, deveria ser considerada instituição
absurda uma condenação por votos contraditórios... Entretanto, esse modo sério e
profundamente espiritual de encarar as coisas há de nos parecer, forçosamente,
inadequado, em relação às instituições tradicionais, como já apontamos acima,
por ser demasiado bom para elas".
O Sr. Dühring continua ignorando que a unanimidade dos jurados, não só nas
condenações penais, mas também nas sentenças cíveis, é um requisito
indispensável de acordo com o direito comum inglês, ou seja, o direito
consuetudinário, não escrito, que vem sendo aplicado, na Inglaterra, desde
tempos imemoriais, pelo menos do século XIV em diante. Um modo tão sério e tão
profundamente espiritual de conceber as coisas, como esse que o Sr. Dühring
reputa demasiado bom para o nosso mundo, tem sido aplicado na Inglaterra, a
partir do período mais sombrio da Idade Média e, desse país, foi, a seguir,
exportado para a Irlanda, para os Estados Unidos da América e para todas as suas
colônias, sem que os conscienciosos estudos especializados do Sr. Dühring na
matéria lhe tivessem revelado nem uma informação sobre tais fatos. A área, na
qual é aplicado o princípio da unanimidade do jurado, não só é infinitamente
grande, em comparação com o diminuto raio de ação do direito prussiano, como
engloba também um território maior do que todos os países em que o principio da
maioria prevalece com relação à instituição do júri. Daí se conclui, pois, que o
Sr. Dühring ignora completamente não apenas o único direito moderno, o direito
francês, como demonstra mesmo idêntica incultura com respeito ao único direito
germânico que se desenvolveu até os nossos dias, estendendo-se aos quatro cantos
do mundo, fora de qualquer influência romana: o direito inglês. E é natural que
assim seja, pois o próprio Sr. Dühring nos afirma que o pensamento jurídico
inglês "não poderia ser comparado com a disciplina dos conceitos puros dos
juristas clássicos romanos, forjada dentro da Alemanha". E acrescenta: "O que
poderá significar o mundo de língua inglesa com o amalgama pueril de sua
linguagem, ao lado de nosso vigoroso e antiquíssimo idioma?" Basta-nos responder
a isto com as palavras de Spinoza: - "lgnorantia non est argumentum".
Depois da que acabamos de expor, somos forçados a concluir que os conscienciosos
estudos especializados do Sr. Dühring se reduziram a três anos de esforços
teóricos consagrados ao Corpus Juris e outros três anos de preocupações práticas
ao nobre Direito Nacional Prussiano. Estudos bastante meritórios, sem dúvida, e
que são suficientes para um respeitabilíssimo juiz distrital ou para um senhor
advogado prussiano. Mas quando se deseja criar uma filosofia do direito que seja
válida para todos os mundos e todos os tempos, achamos que não seria demais
acumular um pequeno conhecimento das instituições jurídicas de países como a
França, a Inglaterra e os Estados Unidos da América, que representaram na
História, e ainda representam, um papel bastante diferente que o direito desse
recanto da Alemanha onde floresce o direito nacional prussiano. Continuemos o
exame das teorias jurídicas do Sr. Dühring.
"A pitoresca mescla de direitos locais, provinciais e nacionais, que se
entrechocam nas mais diversas direções, adquirindo, de um modo caprichoso, ora a
forma de direito consuetudinário, ora a da lei escrita, reduzindo matérias
importantíssimas, não poucas vezes, à simples forma estatutária, este quadro,
modelo de desordem e de contradição, no qual, o concreto contradiz o geral, e,
às vezes, até mesmo as normas gerais contradizem os preceitos concretos, não é
certamente um quadro adequado para permitir a alguém a formação de uma clara
consciência jurídica." Mas, onde é que impera esse quadro de confusão que tanto
desnorteia o Sr. Dühring? Que saibamos, essa confusão reina no já referido
Direito Nacional Prussiano, no qual, ao lado de um direito nacional, por cima e
por baixo dele, vigora toda uma série de direitos provinciais e de estatutos
locais, combinados nalgumas localidades com o direito comum e com outras
complicações do mesmo estilo, numa inacabável gama de variáveis relativas, que
provocam em todo o jurista profissional esse grito de angústia que com tanta
simpatia recolhe aqui o Sr. Dühring. Mas nem sequer precisa cruzar as fronteiras
de sua amada Prússia; basta-lhe dar um passeiozinho pelo Reno para se convencer
de que aqui não exista, há mais da 70 anos, nada disso que ele descreve, sem
falar de outros países civilizados em que faz muito tempo que esse antiquado
regime desapareceu.
Continuemos: "De um modo menos flagrante, observamos que a responsabilidade
natural do indivíduo fica encoberta pelos juízos e pelos atos coletivos,
secretos e, portanto. anônimas. dos tribunais sob a forma de colégios ou de
outros órgãos da autoridade, nos quais se disfarça a contribuição pessoal de
cada membro." E noutro trecho: "No atual estado de coisas, seria considerado
surpreendente e excessivamente rigoroso um postulado que não permitisse que a
responsabilidade individual fosse encoberta ou disfarçada por tribunais
colegiais." Talvez seja uma noticia surpreendente para o Sr. Dühring. a de que,
nos territórios em que vigora o direito inglês, todos os juizes do tribunal
colegial são obrigados a emitir despachos e a expender individualmente a sua
opinião em sessões públicas; e talvez se surpreenda também quando souber que os
organismos administrativos colegiais. que nada tem de eletivos e de atuação e
votação públicas, são uma instituição eminentemente prussiana, desconhecida na
maioria dos países, razão pela qual o seu postulado acima referido somente pode
ser reputado surpreendente e excessivamente rigoroso... na Prússia.
A mesma coisa acontece com os seus lamentos a respeito das intromissões
injustificadas do ritual religioso no nascimento, no matrimônio, na morte e nos
enterros; de todos os países civilizados de certa extensão, tais lamentos se
aplicam somente à Prússia, e. mesmo nesta, já se tornam desnecessários desde a
implantação do sistema do Registro Civil. Até mesmo um Bismarck foi capaz de
resolver, há pouco tempo, por uma simples lei, o problema que o Sr. Dühring não
sonhava que se pudesse resolver a não ser por meio de seus planos "socialitários"
sobre o futuro. Na sua "queixa a respeito da defeituosa preparação dos juristas
para exercer a sua profissão", aliás extensiva até "aos funcionários da
administração", volta a martelar a tecla das lamentações especificamente
prussianas. Também o anti-semitismo, tendo ou não importância e que é levado a
extremos ridículos, merecendo o entusiasmo do Sr. Dühring, nos demonstra a mesma
qualidade, se não especificamente prussiana, pelo menos característica de uma
determinada região da Prússia: o Leste do Elba.
Com efeito, este filósofo da realidade, que contempla com um desprezo soberano
todos os preconceitos e superstições, se deixa influenciar profundamente pelas
quimeras pessoais até o ponto de querer qualificar o preconceito popular contra
os judeus, herdado da beataria medieval, de preconceito natural" baseado em
"fundamentos naturais" lançando a seguinte afirmação digna de nota: "O
socialismo é a única força capaz de fazer frente a Estados de população com uma
forte mescla judia." (Estados de mescla judia! Que linguagem!)
Parece que é suficiente. Todas aquelas pretensões de erudição jurídica, se
reduzem - no melhor dos casos - à vulgaríssimos conhecimentos profissionais de
um vulgaríssimo demagogo prussiano. E a ciência jurídica e política, cujos
frutos nos são oferecidos, consequentemente, pelo Sr. Dühring, se restringe ao
raio de ação do direito nacional prussiano, Afora os conhecimentos de direito
romano que possui qualquer profissional do direito, atualmente, mesmo na
Inglaterra, a sua ciência jurídica limita-se simplesmente ao direito nacional
prussiano, esse código ilustrado do despotismo patriarcal, escrito num alemão
que se parece com o que aprendeu o Sr. Dühring, código que parece estar cheio da
era pré-revolucionária, pelas suas glórias morais, pelo seu estilo vago e pela
falta de consciência jurídica, bem como pelos açoites que adotava como meio de
tortura e como pena. Fora disso, nada reza conforme a cartilha do Sr. Dühring:
para ele não existe o moderno direito civil francês, nem tampouco o direito
inglês, com a sua peculiaríssima evolução e suas garantias de liberdade pessoal,
desconhecidas estas em todo o continente. Uma filosofia "que não se deixa
limitar pela aparência de nenhum horizonte, mas que revolve numa profunda
comoção todas as terras e todos os céus interiores e exteriores da natureza",
não tem outro horizonte real senão as fronteiras das seis províncias orientais
do velho reino da Prússia, e, também, uns dois ou três palmos de terra, que
ficam do outro lado dessas fronteiras e nos quais vigora o nobre direito
prussiano; fora desses horizontes, não estremecem terras nem céus, não se
revolve natureza alguma exterior ou interior; o que somente se agita é um quadro
da mais crassa ignorância, com respeito ao que ocorre no resto do mundo.
Não é fácil falar de moral e de direito sem tocar no problema do chamado livre
arbítrio, o problema da responsabilidade humana, o problema das relações entre a
necessidade e a liberdade. Em relação a este problema, a filosofia da realidade
nos oferece não apenas uma, mas duas soluções.
"Todas essas falsas teorias da liberdade devem ser substituídas pelo caráter da
relação, em que se fundem, como a experiência nos revela, partindo, de um lado,
a penetração racional e, de outro, os impulsos instintivos, como para formar uma
força intermediária. A observação fornece-nos os fatos fundamentais dessa
espécie de dinâmica e podemos também calculá-los, com antecedência, de uma
maneira mais ou menos boa, no que concerne ao gênero e à grandeza, com relação
mesmo ao que não foi observado. Desse modo, caem por terra todas essas tolas
figurações a respeito da liberdade interior com as quais se remoeram e se
torturaram os homens durante milhares de anos, deixando, em seu lugar, alguma
coisa de positivo e de útil para a organização prática da vida." De acordo com
essa idéia, a liberdade consiste em que a penetração nacional leva o homem para
a direita e os impulsos irracionais para a esquerda, formando um paralelogramo
de forças em que o movimento real toma a direção da diagonal. A liberdade seria,
pois, a linha média entre a razão e o instinto, entre a inteligência e a
irreflexão, poder-se-ia determinar o grau de liberdade, em cada indivíduo, de
modo empírico, por meio de uma "equação pessoal", para dizê-lo em linguagem
astronômica. Vamos encontrar, páginas adiante, a seguinte afirmação: "Baseamos a
responsabilidade moral na liberdade, mas esta significa para nós apenas a
receptividade do homem em relação aos móveis conscientes, como resultado da
inteligência natural e adquirida. Todos estes móveis agem com o caráter
inflexível das leis naturais, apesar de se perceber um possível antagonismo
entre eles; e é precisamente com este caráter necessário e inelutável que
podemos contar como pontos de apoio para as alavancas morais."
Essa segunda definição da idéia da liberdade, que se choca flagrantemente com a
primeira, não é mais do que uma fraca vulgarização da filosofia hegeliana. Foi
Hegel o primeiro que soube expor de um modo exato as relações entre a liberdade
e a necessidade. Para ele, a liberdade não é outra coisa senão a convicção da
necessidade. "A necessidade somente é cega enquanto não compreendida," A
liberdade não reside, pois, numa sonhada independência em relação às leis
naturais, mas na consciência dessas leis e na correspondente possibilidade de
projetá-las racionalmente para determinados fins. Isto é verdade não somente
para as leis da natureza exterior, mas também para as leis que presidem a
existência corporal e espiritual do homem: duas espécies de leis que podemos
distinguir, quando muito, em nosso pensamento. mas que, na realidade, são
absolutamente inseparáveis. O livre arbítrio não é. portanto, de acordo com o
que acabamos de dizer, senão a capacidade de decisão com conhecimento de causa.
Assim, pois, quanto mais livre, for o juízo de uma pessoa com relação a um
determinado problema, tanto mais nítido será o caráter de necessidade
determinado pelo conteúdo desse juízo; ao contrário, a falta de segurança que,
baseada na ignorância, parece escolher, livremente, entre um mundo de
possibilidades distintas e contraditórias, está demonstrando, desse modo,
justamente a sua falta de liberdade, está assim demonstrando que se acha
dominada pelo objeto que pretende dominar, A liberdade, pois, é o domínio de nós
próprios e da natureza exterior, baseado na consciência das necessidades
naturais; como tal é, forçosamente, um produto da evolução histórica. Os
primeiros homens que se levantaram do reino animal eram, em todos os pontos
essenciais de suas vidas, tão pouco livres quanto os próprios animais; cada
passo dado no caminho da cultura é um passo no caminho da liberdade. Nos
primórdios da história da humanidade, realizou-se a descoberta que permitiu
converter o movimento mecânico em calor: a produção do fogo pela fricção; o
progresso tem, atualmente, como sua etapa terminal, a descoberta que transforma,
inversamente, o calor em movimento mecânico: a máquina a vapor. E apesar do
colossal abalo de libertação que a máquina a vapor trouxe ao mundo social - e
que até hoje ainda não deu sequer a metade de seus frutos - é indubitável que a
produção do fogo pela fricção, nos tempos primitivos, foi superior àquela
descoberta como condição emancipadora. O fogo, obtido dessa forma, foi que
permitiu ao homem o domínio sobre uma força da natureza, emancipando-o
definitivamente das limitações do mundo animal. A máquina a vapor não poderá
jamais representar um passo tão gigantesco na história do homem, por mais que
apareça, ante nossos olhos, como a representação de todas essas gigantescas
forças produtivas a ela incorporadas e sem as quais não seria possível instaurar
um regime social livre de todas as diferenças de classe, no qual desapareçam as
preocupações com relação aos meios de subsistência individual e se possa falar,
pela primeira vez, de uma liberdade verdadeiramente humana, de uma vida em
harmonia com as leis naturais que conhecemos. O simples fato de toda a história
anterior à nossa época poder ser designada como a história do período que começa
com a descoberta prática, que converte o movimento mecânico em calor e culmina
com a descoberta que transforma o calor em movimento mecânico, esse simples fato
indica como é jovem ainda a história humana, e também como seria ridículo querer
imprimir às nossas idéias atuais um caráter absoluto.
Mas o Sr. Dühring compreende a história de outro modo. De maneira geral, a
história, concebida como sendo a história dos erros, da ignorância e da
barbárie, da violência e da escravização, é matéria que repugna à filosofia da
realidade; para essa filosofia, a história, focalizada concretamente, se divide
em duas grandes épocas, a saber: 1) do estado da matéria idêntica a si mesmo até
a Revolução Francesa; e 2) da Revolução Francesa até o Sr. Dühring. Neste
segundo período, o século XIX continua sendo "ainda essencialmente reacionário
e, no terreno espiritual, chega a ser ainda mais (!) reacionário do que o século
XVIII", apesar de já trazer em suas entranhas o socialismo e, com este, "o germe
de um renascimento muito mais poderoso do que o concebido (!) pelos precursores
e heróis da Revolução Francesa. O desprezo em que a filosofia da realidade tem
toda a história anterior a este período se justifica da maneira seguinte: "Os
poucos milênios a que se pode remontar a recordação histórica, por meio de
documentos originais, para estabelecer a estrutura da humanidade até os nossos
dias, não significam grande coisa, quando se pensa na série de milênios que
ainda estão por vir... O gênero humano, considerado como um todo, é ainda muito
jovem, e, quando chegar o dia em que as documentações científicas retrospectivas
possam operar com dezenas de milhares e não apenas com milhares de anos, o
caráter espiritualmente pueril e incipiente de nossas instituições ter-se-á
imposto, indiscutivelmente, como sendo uma hipótese evidente sobre a nossa
época, que será, então, considerada como a mais primitiva das antigüidades."
Sem nos determos na configuração realmente "vigorosa e antiquíssima" dessa
última frase, teremos que observar duas coisas. Em primeiro lugar, essa "primitivíssima
antigüidade" será sempre, aconteça o que acontecer, um período histórico de
grande interesse para todas as gerações futuras, pois que constitui a base de
todo o progresso posterior, tendo por ponto de partida a emancipação do homem
das condições do reino animal e tendo, por conteúdo, a superação de dificuldades
tão grandes como jamais voltarão a se contrapor ao homem associado do futuro. Em
segundo lugar, o cancelamento de toda essa primitivíssima antigüidade, em
relação à qual os futuros períodos históricos, que não sofrerão contraposição
dos diques das mesmas dificuldades e obstáculos, prometem muitos triunfos
científicos, técnicos e sociais tão diferentes, esse cancelamento é, logo à
primeira vista, um modo brilhantemente escolhido para se poder ditar normas aos
séculos futuros por meio de verdades definitivas e inapeláveis, de verdades
imutáveis e de concepções baseadas no conhecimento das coisas até as suas
raízes, descobertas no estudo da infantilidade e da incipiência espiritual de
nosso século, tão "atrasado" e "retrógrado". É preciso que se seja um Richard
Wagner filósofo - embora sem o mesmo talento - para não se compreender que todos
os desprezos, que se costumam lançar sobre a história humana anterior aos nossos
dias, acabam por se voltar, necessariamente, contra o próprio resultado final de
suas investidas, a chamada filosofia da realidade.
Um dos capítulos mais eloqüentes dessa nova ciência radical é o que trata da
individualização e da potenciação do valor da vida. No decorrer de três
capítulos inteiros vemos fluir, aos borbotões, em fluxos irresistíveis, sempre
os mesmos lugares comuns, vestidos de roupagens oraculares. Limitar-nos-emos,
pois, infelizmente, a oferecer aos nossos leitores, apenas um par de botões como
amostra de toda essa riqueza.
"A essência profunda de todas as sensações, e, portanto, de todas as formas
subjetivas de vida, repousa na diferença de estados... Mas com relação à vida
íntegra (!) pode-se afirmar simplesmente (!) que o que exalta a sensação de vida
e desenvolve os impulsos decisivos não é a imobilidade, mas, sim, a passagem de
uma situação de vida para outra... O estado quase idêntico a si mesmo, inerte
por assim dizer, como que em equilíbrio, não significa nada de importante
qualquer que seja o caráter com que se apresente, como uma prova de vida... O
hábito e a assimilação, por assim dizer, acabam por converter-se em algo
completamente indiferente, que não se diferencia em grande coisa da morte. Em
resumo, manifestar-se como uma espécie de reação negativa de vida, a tortura do
tédio... Numa vida estagnada, desaparece, para os indivíduos como para os povos,
toda a paixão e todo o interesse pela existência. A nossa lei da diferença
explica todos esses fenômenos".
É verdadeiramente incrível a rapidez com que o Sr. Dühring sabe pôr em prática
as suas conclusões autenticamente originais. Nas linhas anteriores, a filosofia
da realidade foi explicada pelo lugar comum de que o friccionamento constante de
um mesmo nervo ou a repetição de um mesmo friccionamento acaba por fatigar a
qualquer nervo e a qualquer sistema nervoso. Assim, em circunstâncias normais,
impõe-se uma interrupção ou uma mudança das reações nervosas, lugar comum esse,
que é encontrado, há já muitos anos, em qualquer manual de fisiologia e que
qualquer pessoa conhece por experiência própria; mas apenas foi revestida essa
velha vulgaridade pelo misterioso postulado de que a essência profunda reside na
diferença dos estados, da qual emerge instantaneamente "a nossa lei da
diferença". E essa lei da diferença "explica perfeitamente" toda uma série de
fenômenos que não são, por sua vez, mais que outros tantos exemplos e
ilustrações de como são agradáveis as variações na utilização da cada nervo,
fato esse que não necessita de demonstração nem para a mais vulgar inteligência
de filisteu e não adquire nem um átomo de clareza pelo fato de ter sido invocada
em seu apoio essa pretensa lei da diferença.
Não se pense que com isso esgotamos a radicalidade "de nossa lei da diferença".
"A graduação das idades e as mudanças nas situações da vida, que dela derivam,
fornecem um exemplo, bem ao nosso alcance, para ilustrar o nosso princípio da
diferença. A criança, o adolescente, o moço, o homem, não experimentam a força
de suas respectivas sensações de vida, quer em cada estado fixo em que se
encontram, quer nas épocas de transição de um para outro estágio." Mas, continua
ainda: "Nossa lei da diferença pode ter uma aplicação ainda mais remota quando
se tem em conta o fato de que a repetição do fenômeno já experimentado ou
realizado não oferece encanto algum". Deixemos ao leitor que tire, por si mesmo,
as suas conclusões, sobre o remate oracular em que vão culminar todas essas
profundas e "radicais" afirmações. Não é de estranhar que, ao terminar o livro,
possa o Sr. Dühring exclamar, com um ar de triunfo: "Para a apreciação e a
potenciação do valor da vida, a lei da diferença teve um caráter decisivo, tanto
prática como teoricamente". Decisivo não só para esse efeito, mas também para a
apreciação que faz o Sr. Dühring do nível espiritual de seu público: pelo visto,
ele parte do suposto de que todos os seus leitores são uns asnos ou uns
mentecaptos.
Um pouco mais adiante, vamos encontrar as seguintes regras, extraordinariamente
práticas, de vida: "Os meios para incentivar o interesse geral pela vida" (bela
missão para filisteu ou para quem deseja chegar a sê-lo), "consistem em deixar
que se desenvolvam ou se substituam uns aos outros os interesses concretos, por
assim dizer elementares, de que se compõe a vida total, tendo como base os seus
períodos naturais. Simultaneamente, dentro de um mesmo estado, deverá também ser
utilizada a gradação na série dos apetites baixos e fáceis de satisfazer, até as
emoções mais altas e de eficácia mais duradoura, de modo a evitar que se
produzam lacunas de uma total ausência de interesse. Além disso, tudo dependerá
de se precaver contra a tendência das tensões, que se produzem naturalmente ou
no curso normal da existência social, se acumularem ou crescerem de um modo
arbitrário ou a tendência de uma aberração inversa, a de se satisfazer à menor
reação impedindo desse modo o desenvolvimento de um apetite capaz de causar um
prazer. A observação do ritmo natural é, neste como noutros casos, a condição
prévia que determina o movimento constante e atrativo. Não devemos tampouco nos
propor o objetivo irrealizável de ampliar os encantos de uma situação qualquer
além dos limites marcados pela natureza ou pelas circunstâncias, etc. etc." O
homem honesto, que aceitar como norma de vida todos esses oráculos solenes com
que o pedantismo caviloso de um filisteu reveste as mais desconexas
vulgaridades, não terá que se queixar, certamente, de "lacunas completamente
desprovidas de interesse" pois gastará todo o seu tempo para preparar e pôr em
ordem os seus prazeres obedecendo a esta receita e não lhe restará, sequer, um
minuto livre para os próprios gozos.
É preciso viver a vida, a vida íntegra. O Sr. Dühring nos proíbe apenas duas
coisas: "a imundície e o uso do tabaco" e as bebidas e alimentos que "provocam
sensação de nojo ou contêm qualquer outra qualidade contrária às sensações
delicadas". Mas como, no seu curso de economia, o Sr. Dühring dedica uma série
de ditirambos à destilação de aguardente, devemos por isso entender que a sua
proibição não é extensiva a estas bebidas, mas somente ao vinho e à cerveja.
Proíbe-nos, também, o uso da carne e essa proibição eleva a filosofia da
realidade àquelas alturas em que se colocou, em seu tempo, com tanto êxito.
Gustavo Strouvé: nas alturas da mais pura futilidade. Ademais, podia o Sr.
Dühring ser um pouco mais liberal no que se refere aos espirituosos. Um homem
que reconhece que não pode encontrar ainda a ponte entre a estática e a
dinâmica, devia ter razões de sobra para julgar com certa benevolência a um
pobre diabo, que, tendo dobrado o cotovelo mais do que podia, busca também, em
vão, a ponte entre a dinâmica e a estática.
Capítulo XII - DIALÉTICA. QUANTIDADE E QUALIDADE
"A primeira e mais importante das teses sobre as propriedades
lógicas fundamentais do ser refere-se à exclusão da contradição. O contraditório
é uma categoria que somente pode ocorrer numa combinação especulativa, mas nunca
na realidade. Não existem contradições nas coisas, ou, dito de outro modo, a
contradição posta na realidade é o cúmulo do absurdo... O antagonismo de forças
que se medem umas às outras em determinado sentido e, inclusive, a forma
fundamental de todas as ações na realidade do mundo e dos seres que nele
habitam. Mas esta divergência entre as diferentes direções de força dos
elementos e dos indivíduos, não se concilia, de modo algum, com a idéia de
absurdos contraditórios... Podemo-nos, sentir, neste ponto, satisfeitos por
poder desfazer, com uma imagem clara do verdadeiro absurdo que representa a
contradição na realidade, a névoa que parece levantar-se dos pretendidos
mistérios da lógica, demonstrando a inutilidade do incenso que se gastou, aqui e
ali, em homenagem ao fetiche de barro da dialética da contradição,
grosseiramente talhado e burilado na esquemática dos antagonismos do mundo". É
isso, mais ou menos, tudo o que o Curso de Filosofia nos diz sobre a dialética.
Na sua História Crítica, o Sr. Dühring focaliza, de um modo completamente
diferente, a dialética da contradição e nela, principalmente, a doutrina de
Hegel. "Na lógica hegeliana, ou melhor, na teoria do Logos, o contraditório não
reside no pensamento, que, por sua própria natureza, só pode ser representado
como função subjetiva e consciente, mas que existe objetivamente e pode ser
apalpado, digamos, de um modo corporal, nas coisas e nos próprios fenômenos; ou
seja, o contra senso não é de fato uma combinação impossível de pensamentos, mas
sim uma potência real. A realidade do absurdo é o primeiro artigo de fé na
unidade hegeliana da lógica e da falta de lógica... Quanto mais contraditório,
mais verdadeiro, ou melhor, quanto mais absurdo, mais verossímil. Esta máxima,
que nem sequer é nova, pois provém da teologia da revelação e da mística, é a
expressão pura e simples do chamado principio dialético."
A idéia contida nesses dois trechos citados pode ser resumida pela afirmação de
que a contradição é o absurdo e que, portanto, não pode se dar no mundo da
realidade. Com efeito, para quem se ufana de possuir um sadio senso comum esta
tese terá a mesma força de evidência que teria se disséssemos que uma reta não
pode ser curva, nem uma curva pode ser reta. Entretanto, o cálculo diferencial,
apesar de todos os protestos do sadio senso comum, equipara, em certas
circunstâncias, as retas às curvas, atingindo, assim, resultados que jamais
poderiam ser alcançados se os matemáticos comungassem com o presunçoso e sadio
senso comum em considerar como absurda a identidade da curva e da reta.
Considerando-se o papel de suma importância que a chamada dialética da
contradição tem desempenhado na filosofia, desde os gregos antigos até os
filósofos atuais, mesmo um adversário um pouco mais forte do que o Sr. Dühring
sentir-se-ia na obrigação de lançar contra ela argumentos que não fossem apenas
uma afirmação e umas tantas injúrias.
Certamente, desde que nos limitemos a focalizar as coisas como se fossem
estáticas e inertes, contemplando-as isoladamente, cada uma de per si, no tempo
e no espaço, não descobriremos nestas coisas nenhuma contradição.
Encontrar-nos-emos com determinadas propriedades, umas comuns e outras
diferentes e até mesmo contraditórias entre si, mas que não encerram uma
contradição verdadeira uma vez que esta se encontra distribuída entre diversos
objetos. Nos limites desta zona de observação podemos aplicar o método vulgar da
metafísica sem nenhum perigo. Mas a coisa é diferente se quisermos focalizar os
objetos dinamicamente, acompanhando-os em sua mobilidade, vendo-os
transformar-se, viver, e influir uns sobre os outros. Ao pisar neste terreno,
cairemos imediatamente numa série de contradições. O próprio movimento, por si
mesmo, é uma contradição; o deslocamento mecânico de um lugar para outro somente
pode ser realizado por estar um corpo, ao mesmo tempo, no mesmo instante, num e
noutro lugar e também pelo fato de estar e não estar o corpo ao mesmo tempo no
mesmo local. A sucessão continua de contradições desse gênero, ao mesmo tempo
formadas e solucionadas, é precisamente o que constitui o movimento.
Temos, pois, diante de nós, uma contradição "que existe objetivamente e que pode
ser apalpada, digamos, de um modo corporal, nas coisas e nos próprios
fenômenos". Que diz a este respeito o Sr. Dühring? O Sr. Dühring afirma que, até
hoje, "na mecânica racional não se encontra nenhuma ponte que ligue o
estritamente estático e o dinâmico". O leitor, finalmente, perceberá agora o que
está oculto por detrás dessa frase da predileção do Sr. Dühring e que se resume
no seguinte: A inteligência que só sabe pensar metafisicamente não pode, de modo
algum, passar da idéia do repouso à idéia do movimento, porque o obstáculo da
contradição lhe barra o caminho. Para os que assim pensam, o movimento é, como
contradição, alguma coisa de totalmente inconcebível. E ao afirmar que o
movimento é inconcebível dá como reconhecida, sem querer, a existência dessa
contradição, reconhecendo, portanto, a existência de uma contradição que se
encontra objetivamente nas coisas e nos fenômenos e, além disso, que esta
contradição é uma força efetiva.
E, se o simples movimento mecânico, a simples mudança de um para outro lugar,
contém uma contradição, suponha-se então a série de contradições que estarão
contidas nas formas superiores de movimento da matéria, e, em particular, na
vida orgânica e na sua evolução. Vimos atrás que a vida consiste, precisamente,
essencialmente, em que um ser é, no mesmo instante, ele mesmo e outro. A vida
não é, pois, por si mesma, mais que uma contradição encerrada nas coisas e nos
fenômenos, e que se está produzindo e resolvendo incessantemente: ao cessar a
contradição, cessa a vida e sobrevem a morte. Vimos também como, no próprio
mundo do pensamento, não poderíamos estar livres de contradições, como, por
exemplo, a contradição entre a capacidade de conhecimento do homem, ilimitada
interiormente e a sua existência real, no seio de um conjunto de homens, cujo
conhecimento é limitado e finito exteriormente. Essa contradição, no entanto, se
resolve na sucessão infinita, pelo menos para nós, das gerações, num progresso
ilimitado.
Como já vimos, uma das bases fundamentais das matemáticas superiores é,
precisamente, a contradição, que consiste em equiparar, em certas
circunstâncias, as retas às curvas. Uma outra contradição das matemáticas
superiores é a que se observa quando se cruzam duas linhas; estas, na distância
de cinco ou seis centímetros do ponto de interseção, se tornam linhas paralelas,
que, por mais que se prolonguem, até o infinito, não se hão de encontrar.
Entretanto, é por estas contradições e por outras, ainda mais acentuadas, não só
que se encontram resultados exatos, como também se alcançam resultados
perfeitamente inexeqüíveis nos limites das matemáticas inferiores. Não nos é
necessário, todavia, sair dos quadros limitados destas matemáticas inferiores,
para encontrar contradições em todos os terrenos. Não há uma contradição, por
acaso, no fato de que uma raiz de A seja uma potência de A, e, ainda mais, que
encontremos: ![]()
Não há uma contradição no fato de que uma grandeza negativa não possa ser
quadrado de nenhuma outra, embora toda grandeza negativa multiplicada por si
mesma dê um quadrado positivo? A raiz quadrada de menos um (- 1) é, pois, não
somente uma contradição, mas simplesmente uma contradição absurda, um verdadeiro
contra-senso. Entretanto,
é, em
muitos casos, o resultado necessário de uma operação matemática exata; e mesmo,
onde estariam as matemáticas, tanto as elementares como as superiores, se lhes
fosse proibido operar com a raiz quadrada de menos um?
As próprias matemáticas, ao tratar das operações sobre grandezas variáveis,
penetram no terreno dialético, e é significativo o fato de que foi o filósofo
dialético Descartes quem levou este progresso ao campo das matemáticas. Pois
bem; a relação que existe entre as matemáticas das grandezas variáveis e as de
grandezas invariáveis, é a mesma que medeia entre a lógica dialética e a
metafísica. Isso não impede, de modo algum, que a grande maioria dos matemáticos
não aceite a dialética fora desses limites e não poucos deles continuem a
servir-se dos métodos obtidos pelo método dialético, à maneira antiga, limitada
e metafísica.
Poderíamos deter-nos a examinar mais de perto o antagonismo de forças do Sr.
Dühring e a esquemática antagônica do mundo, se, sobre esse assunto, ele nos
oferecesse alguma coisa a mais que simples frases. Depois de as ter formulado,
não sabe o nosso autor apresentar esse antagonismo em ação, nem uma só vez, na
esquemática do mundo, nem na filosofia da natureza. Esta é a maior prova de que
o Sr. Dühring nada sabe fazer de positivo com "esta forma fundamental de todas
as ações na existência do mundo e dos seres que o habitam". Quando se tem
conhecimento de como se reduziu a "teoria do ser" de Hegel a esta vulgaridade de
forças que se movimentem em direção determinada, mas não por um processo de
contradições. o melhor que se tem a fazer é evitar cuidadosamente qualquer
aplicação de um tal lugar comum.
Um outro pretexto em que se apoia o Sr. Dühring para dar vazão à sua cólera
antidialética é O Capital de Marx. "Falta de lógica natural e inteligível, que
serve para evidenciar os labirintos e arabescos de idéias retorcidamente
dialéticas... Ao trecho que temos em nossa frente deve ser aplicado o princípio
de que, em certos casos e mesmo de modo geral, (!) em conformidade com o
conhecido preconceito filosófico, deve encontrar-se o todo em cada uma das
coisas e cada uma das coisas deve ser encontrada no todo e, de acordo com esta
idéia de mistura e confusão, tudo é, em última análise, uno." Isso quer dizer
que, penetrando no "conhecido preconceito filosófico", o Sr. Dühring pode prever
com absoluta segurança qual será o "fim" de toda a filosofia econômica marxista,
e, portanto, qual o conteúdo dos restantes volumes de O Capital faz essa
declaração sete linhas depois de ter afirmado que "entretanto, não há realmente
nenhuma maneira de se saber o que virá de fato, falando como homem e como
alemão, nos dois volumes."
Não é a primeira vez que as obras do Sr. Dühring se vêem incluídas entre as
"coisas" em que "o contraditório existe objetivamente e pode ser apalpado,
digamos, de um modo corporal". Isso não impede, entretanto, de prosseguir num
tom triunfal: "É de se esperar, todavia, que a verdadeira lógica triunfará sobre
a sua caricatura... O ar doutoral e a banalização dos mistérios dialéticos não
tentarão àqueles que conservam um pouco de senso comum e não se deixam envolver
por essas algaravias de pensamento e de estilo... Na agonia destes últimos
restos das tolices dialéticas, perderão estes processos de mistificação, a sua
enganosa influência... e já ninguém se considerará obrigado a se atormentar na
procura de uma profunda sabedoria lá onde, uma vez posto a nu o núcleo de todas
essas artimanhas retorcidas, encontraremos, na melhor das hipóteses, vestígios
de teorias vulgares ou, então, lugares comuns... É absolutamente impossível
reproduzir os labirintos (de Marx) referentes à teoria do Logos, sem que se
tenha de prostituir a lógica verdadeira". O método de Marx consiste em "realizar
milagres dialéticos, para pasmo dos seus crentes", etc., etc.
Também aqui se cogita de analisar a exatidão ou a falsidade dos resultados
econômicos a que chegam as investigações de Marx, mas apenas se analisa o método
dialético por ele aplicado. Pode-se bem afirmar que a maioria dos leitores de O
Capital começaram só agora a tomar conhecimento do que na realidade leram,
graças ao Sr. Dühring. E, entre esses leitores, se encontra o próprio Sr.
Dühring que, em 1867 (Erganzungsblatter, III, caderno 3) pode, todavia, fazer um
resumo deste livro, relativamente racional para um pensador de seu calibre, sem
se sentir na obrigação de traduzir o desenvolvimento da obra de Marx em termos
dühringuianos, como agora acredita indispensável. Embora já naquela época
incorresse no deslize de confundir a dialética marxista com a hegeliana, não
tinha ainda perdido por completo a capacidade de distinguir o método dos
resultados conseguidos por meio dele, nem tampouco o dom de compreender que,
para refutar de um modo concreto estes resultados, não basta lançar por terra,
de um modo geral, o método.
Mas a verdadeira surpresa que nos tinha reservado o Sr. Dühring é a de que, do
ponto de vista marxista, "em última análise tudo é uno", ou seja, que, para
Marx, por exemplo, capitalistas e operários assalariados, regimes de produção
feudal, capitalista e socialista, "tudo é uno" e acabamos, no fim de contas, por
concluir que Marx e o Sr. Dühring são também uno e o mesmo. Para não cair em tal
tolice e em semelhante simplismo, não temos mais que um caminho, que é o de
supor que, pronunciando a palavra "dialética", o Sr. Dühring se vê transportado
automaticamente para um estado de irresponsabilidade, no qual, partindo de uma
idéia de balbúrdia e confusão, acaba por achar que tudo é a mesma coisa,
parecendo-lhe que é "um todo" tudo quanto diz e faz.
Temos aí uma prova do que o Sr. Dühring chama "o meu grandioso sentido
histórico" ou, como diz noutra parte, "o processo sumário que ajusta contas com
a espécie e com o tipo sem, entretanto, se dignar a descer até prestar honrarias
ao que Hume chamava a plebe erudita, pondo a nu a sua ignorância com uma
minuciosidade microscópica"; este processo que é "no mais alto e mais nobre dos
estilos, o único admitido pelos interesses da verdade plena e que é compatível
com os deveres para com o público não arregimentado". A verdade é que o
grandioso sentido histórico e essa liquidação sumária de contas "com a espécie e
com o tipo" são bastante cômodos para o Sr. Dühring pois lhe permitem desprezar,
como microscópicos e nulos, todos os fatos concretos, eximindo-se do dever de
provar alguma coisa para se limitar a construir frases gerais e lançar
afirmações e palavras vistosas. Além disso, esse processo tem a vantagem de não
fornecer ao adversário qualquer pretexto material, não lhe deixando, portanto, a
menor possibilidade de refutação que não seja a de lançar, por sua vez, umas
tantas afirmações sumárias e grandiosas, perdendo-se em frases gerais e
respondendo às palavras do Sr. Dühring com outras tantas palavras vistosas, que
é o que se pode dizer - devolver a pelota; mas este processo não está no gosto
de todos. Devemos por isso solicitar ao Sr. Dühring que, excepcionalmente,
abandone o seu estilo alto e nobre para nos oferecer, ao menos, dois exemplos
dos erros em que incorre Marx em sua reprovável teoria do Logos.
"Como é cômico, por exemplo, o apelo à idéia nebulosa e confusa de Hegel, de que
a quantidade se converte em qualidade e, portanto, de que, ao chegar em
determinado limite, uma quantidade aumentada, pelo simples fato de crescer
quantitativamente, se converte em capital."
Com efeito, a idéia exposta dessa maneira pelo Sr. Dühring, depois de "podada"
cuidadosamente, não se pode negar que é bastante esquisita. Vejamos, porém, que
aspecto apresenta a idéia no original, tal como Marx a expõe. Na página 313 (2a.
edição de O Capital) Marx extrai da investigação anteriormente feita sobre o
capital constante e o capital variável e sobre a mais-valia, a conclusão de que
"nem toda a soma de dinheiro ou de valor, qualquer que seja, pode ser convertida
em capital, sem que esta transformação suponha antes, a existência de um
determinado mínimo de dinheiro ou de valor de troca nas mãos do possuidor de
dinheiro, ou de mercadorias." Dá como exemplo que, num ramo qualquer de
trabalho, o operário trabalha para si mesmo 8 horas diárias, ou seja, para criar
o valor de seu salário, trabalhando outras 4 horas para o capitalista a fim de
produzir a mais-valia que vai então para os seus bolsos. Para isso, deve,
necessariamente, existir alguém que disponha de uma soma de valor que lhe
permita fornecer aos operários matérias-primas, meios de trabalho e salários, do
modo a poder embolsar, todos os dias, a mais-valia necessária para poder viver,
pelo menos, tão bem como dois de seus operários. Mas como a produção capitalista
não tem como objetivo simplesmente o de viver e se sustentar, mas também, o de
incrementar a riqueza, não será suficiente que o nosso empresário tenha esses
elementos, para que, utilizando os seus dois operários, seja um verdadeiro
capitalista. Para poder viver duas vezes melhor do que um operário comum e para
voltar a transformar, além disso. em capital, a metade da mais-valia produzida,
deveria dar trabalho a oito operários, possuindo, portanto, quatro vezes a soma
de valor de que tiveram necessidade para sustentar dois trabalhadores. Somente
depois de estabelecer estas condições e, de acordo com outros desenvolvimentos
chamados a ilustrar e a fundamentar o fato de que não basta uma pequena soma
qualquer de valor para que se possa converter em capital, mas que, para isso, um
período todo de evolução e um ramo inteiro de produção deverão ultrapassar um
determinado limite mínimo, somente depois de tudo isso e em relação a estes
fatos é que Marx adianta: "Aqui, como nas ciências da natureza, se comprova a
verdade da lei descoberta por Hegel em sua Lógica, segundo a qual, ao chegar a
um determinado ponto, as mudanças meramente quantitativas se convertem em
variações qualitativas."
Poderá o leitor, agora, admitir o alto e nobilíssimo estilo que permite ao Sr.
Dühring, atribuir a Marx justamente o contrário do que ele na realidade diz.
Marx afirma que o fato de uma soma do valor poder se converter em capital
somente quando ultrapassa um limite mínimo, que varia segundo as circunstâncias,
mas que, em cada caso, é um limite concreto, que esse fato prova a verdade da
lei hegeliana. E que é que o Sr. Dühring diz sobre essa afirmação? O seguinte:
"Porque, de acordo com a lei formulada por Hegel a quantidade se transforma em
qualidade, por isso e em virtude disso, é que uma quantidade aumentada, ao
chegar a um determinado ponto, se converte em capital. Como vemos, é justamente
o contrário.
Quando examinávamos a crítica que o Sr. Dühring fazia de Darwin, tivemos ocasião
de conhecer esse método, que consiste em falsear as citações, sem dúvida porque
assim o exige "o interesse da verdade plena" e assim o reclamam os "deveres para
com o público não arregimentado". Essa prática constitui uma necessidade interna
arraigada na filosofia da realidade. O que não se pode negar é que ela oferece,
a quem a maneja. um processo bastante "sumário". Além disso, o Senhor Dühring
apresenta as coisas como se Marx tivesse falado de uma "quantidade aumentada"
qualquer, quando, na realidade, se trata, concretamente, de uma quantidade
invertida em matérias-primas, instrumentos de trabalho e salário. O Sr. Dühring
as prepara de modo a que apareçam nos lábios de Marx como um puro absurdo, e,
logo depois, comete a desfaçatez de considerar "cômico" e ridículo o absurdo que
ele mesmo acaba de engendrar. Faz com Marx exatamente a mesma coisa que com
Darwin. Constrói um Marx imaginário, feito à medida de suas forças, para poder,
logo depois, triunfar sobre ele. Não resta dúvida de que o seu "caráter
histórico" é "grandioso".
Mais atrás, ao examinarmos a esquemática do mundo, vimos que, com o Sr. Dühring,
se tinha passado a quase desgraça de ter reconhecido e aplicado, num momento de
debilidade, essa linha nodal de desproporções, como a chama Hegel, na qual, em
certos pontos, as transformações quantitativas se convertem de repente em saltos
qualitativos. Citávamos um dos exemplos mais conhecidos: o da transformação dos
estados da agregação da água que, sob a pressão normal do ar, ao chegar a zero
centígrado, se converte de um corpo líqüido em corpo sólido e aos 100°, de
líquido em gasoso, caso esse que demonstra como, ao alcançar esses dois pontos
decisivos, uma simples mudança quantitativa de temperatura provoca uma
transformação qualitativa no corpo.
Centenas de casos como estes, tomados da natureza ou da sociedade humana,
poderiam ser lembrados para demonstração dessa lei Assim, por exemplo, em O
Capital de Marx, toda a seção 4a., dedicada ao estudo da produção da mais-valia
relativa ao âmbito da corporação, da divisão do trabalho, e da manufatura, da
maquinaria e da grande indústria, contém inúmeros casos de simples mudanças
quantitativas que fazem transformar-se a qualidade e, de mudanças quantitativas
que fazem com que se transforme a qualidade das coisas podendo-se dizer,
portanto, para usar uma expressão que tanta indignação provoca no Sr. Dühring,
que a quantidade se converte em qualidade e vice-versa. Temos, por exemplo, o
fato de que a colaboração de muitas pessoas, a fusão de muitas forças numa só
força total, cria, como diz Marx, uma "nova potência de forças" que se
diferencia, de modo essencial, da soma das forças individuais associadas.
Para sua maior perplexidade, no trecho que, no interesse da verdade plena, o Sr.
Dühring virou às avessas, Marx acrescenta a seguinte observação: "A teoria
molecular, aplicada à química moderna e desenvolvida cientificamente pela
primeira vez por Laurent e Gerhardt, descansa nesta mesma lei." O que conclui de
tudo isso o Sr. Dühring? Ele sabe que "ali, onde, como acontece ao Sr. Marx, e a
seu rival Lassalle, a ciência sob medidas, aliada a um pouco de filosofia
rasteira, forma o mesquinho arcabouço das pretensões eruditas, ali é que se
nota, precisamente, uma maior ausência dos elementos eminentemente modernos de
cultura, que são os métodos das ciências naturais"; ao contrário disso, o Sr.
Dühring toma sempre por base de suas investigações, como já vimos, "os dados,
fundamentais das ciências exatas no campo da mecânica, da física, da química",
etc. Entretanto, para que também possam os outros julgar, com pleno conhecimento
de causa, vamos examinar um pouco mais detidamente o exemplo que Marx deu em sua
nota.
Trata-se das séries homólogas de combinações de carbono, muitas das quais já são
conhecidas, cada uma delas tendo a sua própria forma algébrica sintética. Assim,
pois, Se, do mesmo modo que os químicos, chamarmos um, átomo de carbono de C, um
átomo de hidrogênio de H um átomo de oxigênio de O e por n o número dos átomos
de carbono encerrados em cada combinação, podemos expor as fórmulas moleculares
de algumas dessas séries, do seguinte modo:
Série da parafina normal: CnH2n + 2
Série de alcooes primários: CnH2n + 20
Série dos ácidos graxos monobásicos: CnH2n O2.
Se tomarmos como exemplo a última dessas séries e adotarmos, sucessivamente,
n=1, n=2, n=3, etc., teremos os seguintes resultados (deixando de pôr os
isómeros): ácido fôrmico - CH2O2 - ponto de ebulição: 100 ° -
ponto de fusão: 1.°
ácido acético - C2H4O2 - ponto de ebulição: 118° - ponto de
fusão: 17.°
ácido propriônico - C3H6O2 - ponto de ebulição: 140° -
ponto de fusão: -
ácido butirico - C4H8O2 - ponto de ebulição: 162° - ponto
de fusão: -
ácido valeriânico - C2H10O2 - ponto de ebulição: 175° -
ponto de fusão: -
e assim sucessivamente, até chegar ao ácido melíssico (C30H60O2)
que não se funde até os 80° e não tem ponto de ebulição pela simples razão de
que esse ácido se decompõe ao se evaporar. Temos, pois, aqui, toda uma série de
corpos qualitativamente distintos, formados pela simples adição quantitativa de
elementos que são, além do mais, agregados sempre na mesma proporção. Esse
fenômeno ainda se torna mais claro quando todos os elementos, que entram na
composição, variam na mesma proporção e na mesma quantidade, como acontece com a
série das parafinas normais (CnH2n+2). A primeira fórmula é o
metano (CH4) que é um gás; a fórmula mais elevada que se conhece é o
hecdecano (C16H34), corpo sólido formado por cristais incolores,
que se funde a 21.°, e que só atinge o seu ponto de ebulição a 278°. Em ambas as
séries basta acrescentar CH2 ou seja, um átomo de carbono e dois de
hidrogênio, à fórmula molecular do membro anterior da série, para que se tenha
um corpo novo; donde se conclui que uma mudança puramente quantitativa da
fórmula molecular faz surgir um corpo qualitativamente diferente.
E estas séries são apenas um exemplo fácil e palpável; em quase todos os campos
da química, a começar pelos diferentes óxidos de nitrogênio ou pelos diversos
oxiácidos de fósforo ou de enxofre, pode-se observar, a cada passo, como "a
quantidade se converte em qualidade e como esta, que se considera como uma idéia
nebulosa e confusa de Hegel, pode ser tocada corporalmente, por assim dizer, nas
coisas e nos fenômenos, sem que exista a menor confusão nem a menor nebulosidade
a não ser na cabeça do Sr. Dühring. O fato de ter sido Marx o primeiro que pôs
em relevo esse fenômeno e o fato de ser o Sr. Dühring capaz de ler essa
argumentação sem entendê-la, nem superficialmente, pois, se a tivesse entendido,
não teria cometido essa inaudita atrocidade, bastam para tornar claro, sem que
seja preciso recapitular a famosa filosofia dühringuiana da natureza, se é Marx
ou Dühring que sente falta, neste terreno, dos "elementos eminentemente modernos
de cultura que são os métodos das ciências naturais", qual dos dois conhece, e
qual ignora os "dados fundamentais... da química".
Para terminar este capítulo vamos dar um testemunho final a favor da mudança da
quantidade em qualidade: o testemunho de Napoleão. Napoleão descreve o combate
travado entre a cavalaria francesa, cujos soldados eram pouco afeitos à
equitação, mas que eram, no entanto, disciplinados, e os mamelucos, cuja
cavalaria era a melhor do seu tempo para os combates individuais, mas que eram
indisciplinados. Eis o que nos diz Napoleão: "Dois mamelucos sobrepujavam,
indiscutivelmente, a três franceses; 100 mamelucos faziam frente a 100
franceses; 300 franceses venciam 300 mamelucos e 1.000 franceses derrotavam,
inevitavelmente, 1.500 mamelucos". Da mesma forma que, em Marx, a soma do valor
de troca tinha que alcançar um limite mínimo determinado, embora variável, para
se converter em capital, vemos que, na descrição napoleônica, o destacamento de
cavalaria tem que alcançar um determinado limite mínimo para que a força da
disciplina que se encerra na ordem unida de combate, e no emprego das forças,
com base num só plano, possa se manifestar e se desenvolver até o ponto de poder
aniquilar massas numericamente superiores de uma cavalaria irregular, composta
de melhores montarias e de soldados tão bravos pelo menos quanto os outros. Que
nos diz sobre isso o Sr. Dühring? Não acabou por sucumbir Napoleão na sua luta
contra a Europa? Não sofreu ele derrotas sobre derrotas? Por que foi derrotado
Napoleão? Pura e exclusivamente por ter desejado aplicar à tática da cavalaria a
confusa e nebulosa idéia de Hegel...
Capítulo XIII - DIALÉTICA. NEGAÇÃO DA NEGAÇÃO
"Este esboço histórico (o da gênese da chamada acumulação
primitiva do capital, na Inglaterra) é, até agora, o que há de melhor,
relativamente, no livro de Marx e ainda poderia ter sido melhor se não se
apoiasse na agudeza erudita e, além disso, na dialética. Recorre à negação da
negação de Hegel para que ponha a seu serviço, na falta de meios mais claros e
melhores, os seus serviços de parteira, ajudando-o a fazer brotar o futuro das
entranhas do passado. A abolição da propriedade individual, que se processou,
por esse modo, a partir do século XVI, é a primeira negação. Esta, será seguida
por outra, caracterizada como negação da negação e, portanto, como a restauração
da "propriedade individual", mas de uma forma mais elevada, baseada na
propriedade comum do solo e dos instrumentos de trabalho. O fato de o Sr. Marx
qualificar, em seguida, esta nova "propriedade individual" também com o nome de
"propriedade social", revela a unidade hegeliana de caráter superior, na qual a
contradição, conforme se verifica, fica cancelada; ou seja, de acordo com o já
conhecido jogo de palavras, a contradição se mantém, ainda que superada. A
expropriação dos expropriadores é, de acordo com isso, o resultado automático da
realidade histórica, em suas circunstâncias materiais externas... Naturalmente,
nenhuma pessoa que reflita deixar-se-á convencer só por terem sido invocados os
disparates de Hegel, e a negação da negação nada mais é que um dos tantos, da
necessidade de se implantar a comunidade da terra e dos capitais... Além disso,
a nebulosa ambigüidade das idéias de Marx não surpreenderá a quem já sabe que
ela pretende rimar com a dialética de Hegel, tomando-a como sua base científica,
ou melhor, tomando como conclusão o absurdo a que nos querem levar. Para quem
desconhece estes trechos, advertiremos que a primeira negação é, em Hegel, a
idéia do pecado original do Catecismo e a segunda é a idéia de uma unidade
superior que conduz à redenção do homem. E, sobre uma farsa desse gênero, tomada
à religião, não se pode, facilmente, fundar a lógica dos fatos. O Sr. Marx se
obstina em permanecer no mundo nebuloso de sua propriedade ao mesmo tempo
individual e social, deixando que os seus adeptos resolvam por si esse profundo
enigma da dialética." Assim fala o Sr. Dühring.
Isto quer dizer que Marx não consegue provar a necessidade da revolução social,
a necessidade da instauração de um regime de produção comum da terra e dos
instrumentos de produção criados pelo trabalho, a não ser pela invocação do
critério hegeliano da negação da negação; e, fundamentando a sua teoria
socialista "nesta farsa tomada à religião", conclui que na sociedade futura será
implantada "uma propriedade ao mesmo tempo individual e social", que é a unidade
superior hegeliana a que terá que atingir a contradição superada.
Deixemos por um momento a negação da negação e analisemos, mais de perto, essa
"propriedade ao mesmo tempo individual e social". O Sr. Dühring nos diz que é
"um mundo nebuloso" e, ainda que pareça estranho, dessa vez ele está com a
razão. O pior é que, como sempre, não é Marx que vive extraviado nesse mundo
nebuloso, mas, de fato, é o próprio Sr. Dühring. Com efeito, como já vimos, o
seu desembaraço no manejo do método hegeliano do "delírio", permitiu-lhe
definir, sem. dificuldade, o que conteriam os volumes ainda não publicados de O
Capital, e ainda aqui lhe é fácil retificar Marx de acordo com Hegel,
atribuindo-lhe a unidade superior de uma propriedade sobre a qual Marx não disse
uma só palavra.
Eis o texto de Marx: "É a negação da negação. Esta, restaura a propriedade
individual, mas baseada nas conquistas da era capitalista, baseada na cooperação
de operários livres e na sua propriedade coletiva sobre a terra e sobre os meios
de produção produzidos pelo próprio trabalho. A transformação da propriedade
privada e dispersa dos indivíduos que é baseada no seu próprio trabalho, em
propriedade privada capitalista é, naturalmente, um processo incomparavelmente
mais difícil, mais duro e mais trabalhoso que a transformação da propriedade
privada capitalista, repousada de fato num regime social de exploração, numa
propriedade coletiva." Isto é tudo o que disse Marx. Como se vê, o regime criado
pela expropriação dos expropriadores é designado como sendo a restauração da
propriedade individual, desde que seja baseada na propriedade social sobre a
terra e sobre os meios de produção, produzidos pelo próprio trabalho. Para
qualquer pessoa que saiba ler, isto significa que a propriedade coletiva se
tornará extensiva à terra e aos demais meios de produção, e a propriedade
individual se limitará aos produtos, ou aos objetos destinados ao consumo. E
para que essa idéia possa ser compreendida mesmo por crianças que tenham seis
anos, Marx, na página 40, fala de "uma associação de homens livres que trabalham
com meios comuns de produção e que despendem suas forças de trabalho
individuais, conscientemente, como uma força de trabalho social", isto é, de uma
associação organizada de forma socialista, e acrescenta: "O produto coletivo da
associação é um produto social. Uma parte desse produto volta a servir como meio
de produção. Continua sendo social. Mas uma outra parte é absorvida como meio de
vida pelos membros da associação. Deve, portanto, ser distribuída entre eles."
Isto está mais do que claro e até mesmo uma cabeça hegelianizada, como a do Sr.
Dühring, deveria compreendê-lo.
A propriedade ao mesmo tempo individual e social, esta ambigüidade confusa, esse
absurdo que necessariamente teria que brotar da dialética hegeliana, este mundo
nebuloso, esse profundo enigma dialético que Marx deixa para ser resolvido pelos
seus adeptos é, naturalmente, como de costume, uma livre e imaginativa invenção
do Sr. Dühring. Como suposto hegeliano, Marx deveria nos fornecer, como
resultado da negação da negação, uma verdadeira unidade superior, e, como não o
fez a gosto do Sr. Dühring, teve este de recorrer mais uma vez ao seu elevado e
nobre estilo, atribuindo a Marx, no interesse da verdade plena, coisas que são
um genuíno produto das suas elucubrações. Um homem absolutamente incapaz de
fazer, ainda que por exceção, uma citação ajustada à verdade, poderá também
deixar-se levar, por um acesso de indignação moral, a investir contra a
"erudição rebuscada" de outras pessoas que citam sempre com exatidão e que,
justamente por isso, não são capazes de "descobrir" a falta de penetração no
conjunto das idéias dos autores citados". Mas o Sr. Dühring tem razão! Assim
escrevem a história os historiadores de "sentido histórico grandioso"! Até aqui,
partimos do suposto de que as citações falsas, nas quais O Sr. Dühring insiste,
pelo menos, não atentavam contra a boa fé, mas eram devidas a uma incapacidade
total de compreensão por parte de quem as empregava, ou talvez a uma propriedade
característica dos que escrevem a história com um "sentido grandioso",
propriedade que, noutra pessoa, se chamaria de um mau costume de, por preguiça,
fazer citações de memória. Mas parece que chegou o momento em que o Sr. Dühring
também se converte de quantidade em qualidade. Com efeito, se tomarmos em
consideração que a frase de Marx é, por si mesma, perfeitamente clara, ainda
poderíamos completá-la com um outro trecho da mesma obra, caso fosse necessário,
de modo a não deixar lugar a dúvida. É preciso que se saiba que, na crítica a O
Capital, quer a publicada na obra a que nos referimos atrás, quer a que está
contida na primeira edição da História crítica, em nenhuma das duas consegue o
Sr. Dühring descobrir esse monstro da "propriedade ao mesmo tempo individual e
social", mas apenas adverte o leitor, na segunda edição de seu livro, e, assim
mesmo, depois de uma terceira leitura que se fizer. Nesta segunda edição,
refundida à maneira socialista, o Sr. Dühring mostrou grande interesse em
colocar nos lábios de Marx os maiores absurdos possíveis no que se refere à
organização futura da sociedade, para que, com isso, ressaltasse ainda mais
triunfalmente aquilo que ele chama de "Comuna econômica, por mim esboçada,
econômica e juridicamente, em meu Curso". Se tomarmos tudo isso em consideração,
teremos forçosamente de concluir que o Sr. Dühring, de um modo deliberado e
consciente, "ampliou beneficamente" - é claro que beneficamente para ele, - a
idéia de Marx.
Vejamos agora que papel desempenha para Marx a negação da negação. Nas páginas
791 e seguintes expõe ele os resultados finais das investigações econômicas e
históricas, que constam de cinqüenta páginas anteriores, sobre a chamada
acumulação primitiva do capital. Antes de sobrevir a era capitalista, dominava,
pelo menos na Inglaterra, a pequena indústria baseada na propriedade privada do
operário sobre os meios de produção. A chamada acumulação primitiva do capital
se caracterizou, nestas condições, pela expropriação desses produtores
imediatos, isto é, pela abolição da propriedade privada, baseada no trabalho do
próprio produtor. Efetivou-se tal coisa porque aquele regime de pequena
indústria era compatível somente com as proporções mesquinhas e primitivas da
produção e da sociedade, engendrando, tão logo os meios materiais de produção
atingiram um certo grau de progresso, a sua própria destruição. Esta destruição,
que consistiu na transformação dos meios individuais e dispersos de produção em
meios de produção socialmente concentrados, constitui a pré-história do capital.
A partir do momento em que os operários se transformam em proletários, em que as
suas condições de trabalho passam a ter a forma de capital, a partir do instante
em que o regime capitalista de produção começa a se mover por sua própria conta,
a socialização do trabalho e a mudança do sistema de exploração da terra e dos
demais meios de produção, e, portanto, a expropriação dos proprietários privados
individuais, é preciso, para continuarem progredindo, que seja adotada uma nova
forma.
"Não se trata mais de expropriar o operário que produz por sua própria conta,
mas o capitalista explorador de muitos operários. E essa nova expropriação se
realiza pelo jogo das leis imanentes da própria produção capitalista, pela
concentração dos capitais. Cada capitalista devora muitos outros. E, ao mesmo
tempo em que alguns capitalistas expropriam a muitos outros, desenvolve-se, em
grau cada vez mais elevado, a forma cooperativa do processo de trabalho, a
aplicação técnica e consciente da ciência, sendo a terra cultivada mais
metodicamente, os instrumentos de trabalho tendem a alcançar formas que são
manejáveis unicamente pelo esforço combinado de muitos, economizam-se os meios
da produção, em sua totalidade, ao serem aplicados pela coletividade come meios
de trabalho social, o mundo inteiro se vê envolvido na rede do mercado mundial,
e, com isso, o regime capitalista passa a apresentar um caráter internacional
cada vez mais acentuado. E, deste modo, enquanto vai diminuindo progressivamente
o número dos magnatas do capital, que usurpam e monopolizam todas as vantagens
desse processo de transformação, aumenta, no pólo oposto, proporcionalmente, a
pobreza. a opressão, a escravização, a degradação e a exploração. Mas, ao mesmo
tempo, cresce a revolta da classe operária e esta se torna cada dia mais
numerosa, mais disciplinada, mais unida e organizada pelo próprio método
capitalista de produção. O monopólio capitalista transforma-se nas grilhetas do
regime de produção que com ele e sob as suas normas floresceu. A concentração
dos meios de produção e a socialização do trabalho chegam a um ponto em que se
tornam incompatíveis com a sua envoltura capitalista. E a envoltura se
desagrega. Soou a hora final da propriedade privada capitalista. Os
expropriadores são expropriados."
Após termos transcrito este trecho, perguntamos ao leitor: onde estão os tais
labirintos dialéticos e os tais arabescos imaginativos, onde estão estas idéias
confusas e embrulhadas, segundo as quais tudo é uno e o mesmo, onde estão estes
milagres dialéticos feitos para os crentes, esse emaranhado de enigmas
dialéticos e essa deturpação da teoria do Logos de Hegel, sem os quais, Marx,
segundo o Sr. Dühring, é incapaz de desenvolver suas doutrinas? Marx demonstra,
apoiando-se simplesmente na história, conforme se vê no pequeno trecho
transcrito, que, do mesmo modo que, em sua época, a pequena indústria, ao
expandir-se, criou, por força de uma necessidade, as condições de sua própria
destruição, isto é, as condições para a expropriação dos pequenos proprietários,
o atual regime capitalista de produção engendra as condições materiais pelas
quais deverá necessariamente perecer. Trata-se de um processo histórico, e pelo
fato de ser esse processo não só histórico mas também dialético, por fatal que
isso possa parecer ao Sr. Dühring, a culpa não é precisamente de Marx.
Ao chegar a este ponto, depois de desenvolver e esgotar a sua demonstração,
baseada na História da Economia, Marx afirma: "O regime capitalista de produção
e de apropriação, ou, o que vem a significar a mesma coisa, a propriedade
privada capitalista, é a primeira negação da propriedade privada individual,
baseada no trabalho do próprio produtor. A negação da produção capitalista surge
dela própria, pela necessidade imperiosa de um processo natural. É a negação da
negação."
Vemos, assim, que Marx, ao encarar esse fenômeno como um caso de negação da
negação, não tem em mente a idéia de demonstrá-lo, por meio desse argumento,
como um fenômeno de necessidade histórica. Pelo contrário: somente depois de
haver provado historicamente o fenômeno que já se passara parcialmente e que
terá necessariamente que se desenvolver daqui por diante, é que o define como um
fenômeno sujeito em sua realização, a uma determinada lei dialética. E é
suficiente essa explicação. O Sr. Dühring volta a incorrer, pois, num ato de
falsificação, quando afirma que a negação da negação se vê aqui obrigada a
prestar serviços de parteira para fazer o futuro surgir das entranhas do passado
quando sustenta que Marx se socorre da negação da negação para convencer os seus
leitores da necessidade da aplicação do comunismo aos capitais e à terra, o que
é; seja dito entre parênteses, uma nova contradição corpórea do Sr. Dühring.
Já supõe uma total ausência de conhecimentos do que é a dialética, o fato de
considerá-la o Sr. Dühring como um expediente meramente probatório, que é,
aliás, o modo pelo qual as pessoas de horizonte limitado costumam usar a lógica
formal ou as matemáticas elementares. A lógica formal também é, antes de mais
nada e acima de tudo, um método de perscrutar novos resultados progressivos do
conhecido ao desconhecido. Dá-se o mesmo, ainda com um sentido mais evidente,
com a dialética que, além disso, rompendo os estreitos horizontes da lógica
formal, representa, por si mesma, o germe de uma ampla concepção do mundo. E a
mesma coisa ocorre também com as matemáticas. As matemáticas elementares, que
operam com grandezas constantes, se movem, pelo menos em termos gerais, dentro
das fronteiras da lógica formal; as matemáticas das grandezas variáveis, cujo
setor mais importante é o cálculo infinitesimal, não são, em essência, nada mais
que a aplicação da dialética aos problemas matemáticos. Aqui, o aspecto
puramente probatório fica, de uma vez por todas, relegado a um segundo plano,
substituído pela aplicação variada e constante do método a novas zonas de
investigação. Mas, a rigor. quase todas as demonstrações das matemáticas
superiores, a começar pelas introdutórias ao cálculo diferencial, são falsas do
ponto de vista das matemáticas elementares. O mesmo acontecerá, como se pretende
aqui, se desejarmos aplicar, por meio da lógica formal, os resultados obtidos no
terreno dialético. Querer provar alguma coisa, pela simples dialética, a um
metafísico tão declarado como o Sr. Dühring, seria perder tempo, e seria tão
infrutífero, como aconteceu quando Leibnitz e seus discípulos quiseram provar,
aos matemáticos de sua época, as operações do cálculo infinitesimal. As
diferenciais causavam àqueles cavalheiros exatamente a mesma indignação que hoje
a negação da negação causa ao Sr. Dühring, na qual, além do mais, a diferencial
desempenha, como veremos, um papel de relevo. Aqueles cavalheiros foram,
entretanto, pouco a pouco, pelo menos aqueles que sobreviveram àquela etapa, se
rendendo à nova doutrina, embora resmungando, não por que esta convencesse, mas
por que a verdade se impunha cada dia com mais força. O Sr. Dühring anda pelos
quarenta, conforme sua própria informação, e podemos garantir que passará pela
mesma experiência que aqueles matemáticos, se alcançar a idade avançada, como é,
aliás, nosso desejo.
Mas, afinal, em que consiste essa espantosa negação da negação, que amargura a
vida do Sr. Dühring, até o ponto de ver nela um crime imperdoável, algo como se
fosse um pecado contra o Espírito Santo a que os cristãos não admitem salvação
possível? Consiste, como veremos, num processo muito simples, que se realiza
todos os dias e em todos os lugares, e que qualquer criança pode compreender,
desde que o libertemos da envoltura enigmática com que o cobriu a velha
filosofia idealista e com que querem continuar cobrindo-o, porque assim lhes
convém, os fracassados metafísicos da têmpera do Sr. Dühring. Tomemos, por
exemplo, um grão de cevada. Todos os dias, milhões de grãos de cevada são
moídos, cozidos, e consumidos, na fabricação de cerveja. Mas, em circunstâncias
normais e favoráveis, esse grão, plantado em terra fértil, sob a influencia do
calor e da umidade, experimenta uma transformação específica: germina. Ao
germinar, o grão, como grão, se extingue, é negado, destruído, e, em seu lugar,
brota a planta, que, nascendo dele, é a sua negação. E qual é a marcha normal da
vida dessa planta? A planta cresce, floresce, é fecundada e produz, finalmente,
novos grãos de cevada, devendo, em seguida ao amadurecimento desses grãos,
morrer, ser negada, e, por sua vez, ser destruída. E, como fruto desta negação
da negação, temos outra vez o grão de cevada inicial, mas já não sozinho, porém
ao lado de dez, vinte, trinta grãos. Como as espécies vegetais se modificam, com
extraordinária lentidão, a cevada de hoje é quase igual à de cem anos atrás. Mas
tomemos, em vez desse caso, uma planta de ornamentação ou enfeite, por exemplo,
uma dália ou uma orquídea. Se tratarmos a semente e a planta que dela brota, com
os cuidados da arte da jardinagem, obteremos como resultado deste processo de
negação da negação, não apenas novas sementes, mas sementes qualitativamente
melhoradas, capazes de nos fornecer flores mais belas; cada repetição deste
processo, cada nova negação da negação, representará um grau a mais nesta escala
de aperfeiçoamento. E um processo semelhante se dá com a maioria dos insetos,
como, por exemplo, com as mariposas. Nascem, estas, também, do ovo, por meio da
negação do próprio ovo, destruindo-o, atravessando depois uma série de
metamorfoses até chegar à maturidade sexual, se fecundam e morrem por um novo
ato de negação, tão logo se consume o processo de procriação, que consiste em
pôr a fêmea os seus numerosos ovos. Por enquanto nada mais nos interessa, nem
que não apresente o processo a mesma simplicidade noutras plantas e animais, que
não produzem uma, mas várias vezes, sementes, ovos ou crias. antes que lhes
sobrevenha a morte; a única coisa que nos interessa é demonstrar que a negação
da negação é um fenômeno que se dá realmente nos dois reinos do mundo orgânico,
o vegetal e o animal. E não somente nestes reinos. Toda a geologia não é mais
que uma série de negações negadas, uma série de desmoronamentos de formações
rochosas antigas, sobrepostas umas às outras, e de justaposição de novas
formações. A sucessão começa porque a crosta terrestre primitiva, formada pelo
resfriamento da massa fluida, vai-se fracionando pela ação das forças oceânicas,
meteorológicas e químico-atmosféricas, formando-se, assim, massas estratificadas
no fundo do mar. Ao emergir, em certos pontos, as matérias do fundo do mar à
superfície das águas, parte destas estratificações se vêm submetidas novamente à
ação da chuva, às mudanças térmicas das estações, à ação do hidrogênio e dos
ácidos carbônicos da atmosfera; e a essas mesmas influências se acham expostas
as massas pétreas fundidas e logo depois esfriadas que, brotando do seio da
terra, perfuram a crosta terrestre, Durante milhares de séculos vão se formando,
dessa forma, novas e novas camadas que, por sua vez, são novamente destruídas em
sua maior parte e, algumas vezes, são utilizadas como matéria para a formação de
outras novas camadas. Mas o resultado é sempre positivo em qualquer hipótese: a
formação de um solo onde se misturam os mais diversos elementos químicos num
estado de pulverização mecânica, que permite o desenvolvimento da mais extensa e
variada vegetação.
Com as matemáticas ocorre exatamente o mesmo fato. Tomemos uma qualquer grandeza
algébrica, por exemplo a. Se a negarmos, teremos -a (menos a). Se
negarmos esta negação, multiplicando -a por -a, teremos +a2,
isto é, a grandeza positiva da qual partimos, mas num grau superior elevada à
segunda potência. Mas aqui não nos interessa que a este resultado (a2) se
possa chegar multiplicando a grandeza positiva a por si mesma, pois a negação
negada é algo que se acha tão arraigado na grandeza a2, que esta encerra,
sempre e de qualquer modo, duas raízes quadradas, a saber: a do a e a do
-a. E esta impossibilidade de nos desprendermos da negação negada, da
raiz negativa contida no quadrado, toma, nas equações dos quadrados, um caráter
de evidência marcante. Entretanto é maior ainda a evidência com que se nos
apresenta a negação da negação na análise superior, nessas "somas de grandezas
ilimitadamente pequenas" que o próprio Sr. Dühring considera como as supremas
operações das matemáticas e que são as que vulgarmente chamamos de cálculo
diferencial e integral. Como se desenvolvem essas operações de cálculo
Suponhamos, como exemplo, que, num problema qualquer que nos foi dado para
resolver, há duas grandezas variáveis x e y, nenhuma das quais pode variar sem
que varie também a outra, na proporção que as circunstâncias determinem.
Começamos, então, por diferenciar as duas grandezas, x e y isto é, por supor que
são tão infinitamente pequenas que desaparecem, comparadas com qualquer outra
grandeza real, por pequena que seja, não restando, portanto, de x e y
nada mais que sua razão ou proporção, despojada, por assim dizer, de toda a base
material, reduzida a uma relação quantitativa da qual se eliminou a quantidadedy/dx,
isto é, a razão ou proporção das duas diferenciais de x e y, se
reduz, portanto, a 0/0, mas esta fórmula - nada mais é que a expressão da
fórmula y/x. Observamos, de passagem, que esta razão ou proporção entre
duas grandezas eliminadas, bem como o momento exato em que se eliminam, é uma
contradição; mas esta contradição não nos deve desorientar, como não desorientou
os matemáticos de dois séculos atrás. Pois bem, que fizemos neste problema, além
de negar as grandezas x e y, mas negá-las não nos descartando
delas, que é o modo pelo qual a nega a metafísica, mas sim negando-as de um modo
que se ajusta à realidade da situação? Substituímos as grandezas x e y
pela sua negação, chegando, assim, em nossas fórmulas ou equações a dx e
dy. Isso feito, seguimos nossos cálculos operando com dx e dy
como grandezas reais, embora sujeitas a certas leis de exceção e ao chegar a um
determinado momento, negamos a negação, isto é, integramos a fórmula
diferencial, obtendo novamente, em vez de dx e dy, as grandezas
reais x e y. E, ao fazê-lo, não tornaremos a nos encontrar no
ponto do qual partimos, mas teremos resolvido o problema contra o qual se
debateram, em vão, por outros caminhos, a geometria e a álgebra elementares.
O mesmo acontece com a História. Todos os povos civilizados têm em sua origem a
propriedade coletiva do solo. E. em todos esses povos, ao penetrar numa
determinada fase primitiva, o desenvolvimento da agricultura, a propriedade
coletiva converte-se num entrave para a produção. Ao chegar a este momento, a
propriedade coletiva se destrói, se nega, convertendo-se, após etapas
intermediárias mais ou menos longas, em propriedade privada. Mas, ao chegar a
uma fase mais elevada de progresso no desenvolvimento da agricultura, fase essa
que se alcança justamente devido à propriedade privada do solo, esta, por sua
vez, se converte num obstáculo para a produção, conforme hoje se observa no que
se refere à grande e à pequena propriedade. Nestas circunstâncias, surge, por
força da necessidade, a aspiração de negar também a propriedade privada e de
convertê-la novamente em propriedade coletiva. Mas esta aspiração não tende
exatamente a restaurar a primitiva propriedade comunal do solo, mas a implantar
uma forma multo mais elevada e mais complexa de propriedade coletiva que, longe
de criar uma barreira ao desenvolvimento da produção, deverá acentuá-lo,
permitindo-lhe explorar integralmente as descobertas químicas e as invenções
mecânicas mais modernas.
Tomemos outro exemplo. A filosofia antiga era uma filosofia materialista, porém
primitiva e rudimentar. Esse materialismo não seria capaz de explicar claramente
as relações entre o pensamento e a matéria. A necessidade de se chegar a
conclusões claras a respeito desse problema, levou à criação da teoria de uma
alma separada do corpo e logo depois se passou à afirmação da imortalidade da
alma e, por fim, ao monoteísmo. Desse modo, o materialismo primitivo se via
negado pelo idealismo. Mas, com o desenvolvimento da filosofia, também o
idealismo se tornou insustentável e, por sua vez, teve de ser negado pelo
materialismo moderno. Este não é, entretanto, como negação da negação, a mera
restauração do materialismo primitivo, mas, pelo contrário, corresponde à
incorporação, às bases permanentes deste sistema, de todo o conjunto de
pensamentos, que nos provêm de dois milênios de progressos no campo da filosofia
e das ciências naturais e da história mesma destes dois milênios. Não se trata
já de uma filosofia, mas de uma simples concepção do mundo, de um modo de ver as
coisas, que não é levado à conta de uma ciência da ciência, de uma ciência à
parte, mas que tem, pelo contrário, a sua sede e o seu campo de ação em todas
elas. Vemos, pois, como a filosofia é, desse modo, "cancelada", isto é,
"superada ao mesmo tempo que mantida"; superada, com relação à sua forma;
conservada, quanto ao seu conteúdo. Pois ali onde o Sr. Dühring não vê mais que
"um jogo de palavras", se esconde, para quem sabe ver as coisas, um conteúdo e
uma realidade.
Finalmente, até a teoria rousseauniana da igualdade, que tem apenas um eco
apagado e falseado nas futilidades do Sr. Dühring, foi incapaz de se constituir
sem os serviços de parteira da negação da negação hegeliana: e isto, mais de 20
anos antes do nascimento de Hegel. Longe de se envergonhar de tal coisa, essa
teoria exibe, quase ostensivamente. em sua primeira versão, a marca de suas
origens dialéticas. No estado de natureza e de selvageria, os homens eram
iguais; e como Rousseau considera já a linguagem uma deturpação do estado de
natureza, tem razão quando aplica o critério da igualdade, assim como, ao mesmo
tempo, pretendeu classificar hipoteticamente, como homens-bestas, sob a
designação de "alalos" (seres privados de fala). Mas estes homens-bestas, iguais
entre si, levavam sobre os outros animais a vantagem de serem animais
perfectíveis, de terem capacidade de desenvolvimento; eis onde está, segundo
Rousseau, a fonte da desigualdade. Rousseau vê, assim, no nascimento da
desigualdade um progresso, mas este progresso é contraditório, pois implica, ao
mesmo tempo, num retrocesso. "Todos os demais progressos (a partir do estado
primitivo da natureza) foram, aparentemente, outros tantos dados para o
aperfeiçoamento do indivíduo humano", mas, na realidade, o que o progredia era a
decadência da espécie. A elaboração dos metais e o fomento da agricultura foram
as duas artes, cuja descoberta provocou esta grande revolução". (Rousseau se
refere à transformação das florestas virgens em terras e campos de trabalho, à
generalização da miséria e da escravidão, como efeito da implantação da
propriedade). "Para o poeta, o ouro e a prata, assim coma para o filósofo o
ferro e o trigo, civilizaram o homem e arruinaram o gênero humano". Cada novo
avanço da civilização é, por sua vez, um novo avanço da desigualdade. Todas as
instituições que nascem nas sociedades, no decorrer do processo de civilização,
se convertem no inverso de sua primitiva finalidade. "É indiscutível, sendo uma
lei fundamental de todo o direito político, que os povos começaram por aceitar
príncipes que protegessem a sua liberdade e não que a destruíssem. Entretanto.
esses príncipes se converteram, por força da necessidade, em opressores dos
povos que deveriam proteger, e levaram essa opressão até um ponto em que a
desigualdade, elevada ao máximo, tem que se converter novamente no contrário do
que é, isto é, em fonte de igualdade: frente ao déspota, todos os homens são
iguais, pois todos se reduzem a zero. "Ao chegar a essa fase, o grau máximo de
desigualdade é o ponto final que, fechando o ciclo, toca já o ponto inicial do
qual partimos: ao chegar a este ponto, todos os homens são iguais, pelo fato de
serem nada e, como súditos, têm todos, como única lei, a vontade de seu Senhor".
Mas o déspota é Senhor somente quando tem em suas mãos a força e, por isso, "no
caso de ser derrotado, não pode se queixar de ter sido derrotado pelo uso da
força..." "A mesma força que o susteve, o derruba, e tudo se passa, de acordo
com uma causa adequada e de acordo com a ordem natural". Significa isso que a
desigualdade se transforma novamente em igualdade, mas esta já não é a igualdade
rudimentar e primitiva do homem "alado", em estado natural, mas é a liberdade
superior do contrato social. Os opressores se convertem em oprimidos. É a
negação da negação.
Em Rousseau, já nos encontramos, pois, com um processo quase idêntico ao que
Marx desenvolve em O Capital. Além de todas as expressões dialéticas que são
exatamente as mesmas empregadas por Marx, encontramos também processos
antagônicos por natureza, cheios de contradições, contendo a transmutação de um
extremo em seu contrário e, finalmente, o ponto nevrálgico de toda a questão, a
negação da negação. Assim, já em 1754, Rousseau, que ainda não se podia exprimir
pela nomenclatura hegeliana, estava, 23 anos antes do nascimento de Hegel.
devorado até a medula pela peste da filosofia hegeliana, pela dialética da
contradição, pela teoria do Logos, pela teologia, etc.. etc. E quando o Sr.
Dühring, reduzindo a zero a teoria rousseauniana da igualdade, opera com os seus
dois homenzinhos triunfais, se vê forçado a deslizar por um plano perigoso, que
o leva, irremediavelmente, para a negação da negação da qual está querendo
fugir. O estado em que floresce a igualdade desses dois homens e que nos é
apresentado, sem dúvida, como um estado ideal, recebe à página 271 da Filosofia
o apelido de "estado primitivo". Mas, ao chegar à página 279, este "estado
primitivo" se transforma, por lei necessária, no "sistema de rapina": primeira
negação. Graças, entretanto, à filosofia da realidade, conseguimos abolir este
"sistema de rapina", para implantar, sobre suas ruínas, a Comuna econômica
inventada pelo Sr. Dühring e baseada na igualdade: negação da negação, igualdade
elevada a uma potência mais alta. É divertido ver como, além de ampliar de modo
benéfico o nosso horizonte visual, o próprio Sr. Dühring acaba cometendo,
também, sem que se dê conta, contra a sua augusta pessoa, o horrendo crime, que
é o de incorrer na intolerável negação da negação.
Que vem a- ser, finalmente, a negação da negação É uma lei extraordinariamente
geral, e, por isso mesmo, extraordinariamente eficaz e importante, que preside
ao desenvolvimento da natureza, da história e do pensamento; uma lei que, como
já vimos, se impõe no mundo animal e vegetal, na geologia, nas matemáticas, na
história e na filosofia. A esta lei, o próprio Sr. Dühring acaba por se
submeter, embora sem o saber, apesar de todos os obstáculos e maldições que
lança contra ela. Já se disse que o processo que atravessa, por exemplo, o grão
de cevada, desde a sua germinação até que desapareça a planta a que ele deu a
vida, é uma negação da negação, e, com isto, não se pretende, de modo algum,
prejulgar o conteúdo concreto deste processo. Pois, se se pretendesse afirmar o
contrário, quando se sabe que o próprio cálculo integral - como já vimos - é
também negação da negação, seria cair no absurdo de sustentar que o processo de
vida de um grão de cevada eqüivale ao cálculo diferencial, e o que fazemos com o
cálculo diferencial poderíamos aplicar até ao socialismo. Isso é o que os
metafísicos constantemente críticam na dialética. Quando se diz que todos esses
processos têm de comum a negação da negação, o que se pretende é englobar a
todos, sob esta lei dinâmica, sem se prejulgar, no entanto, de modo algum, o
conteúdo concreto de cada um deles. Esta não é a missão da dialética. que tem
apenas por incumbência estudar as leis gerais que presidem à dinâmica e ao
desenvolvimento da natureza e do pensamento.
Poder-se-ia objetar, ainda, que a negação, que se realiza neste processo, não é
a verdadeira negação; um grão de cevada é também negado quando é moído, da mesma
forma que um inseto é negado quando esmagado, e a grandeza positiva A quando é
negada se a anula etc. Ao se negar a afirmação: "a rosa é uma rosa", quando se
diz que "a rosa não é uma rosa", qual é o resultado se, logo depois, se torna a
negar esta negação, para dizer: "Sim, a rosa é uma rosa"? Outros não são, com
efeito, os argumentos principais levantados pelos metafísicos contra a
dialética, argumentos dignos da estreiteza de horizontes, característica dessa
maneira de pensar. Negar, em dialética, não consiste pura e simplesmente em
dizer não, em declarar que uma coisa não existe, ou em destruí-la por capricho.
Já Spinoza dizia: Omnis determinatio est negatio, toda determinação, toda
demarcação é, ao mesmo tempo, uma negação. Além disso, em dialética, o caráter
da negação obedece, em primeiro lugar, à natureza geral do processo, e, em
segundo lugar, à sua natureza especifica. Não se trata apenas de negar, mas de
anular novamente a negação. Assim, a primeira negação será de tal natureza que
torne possível ou permita que seja novamente possível a segunda negação. De que
modo? Isso dependerá do caráter especial do caso concreto. Ao se moer o grão de
cevada, ou ao se matar o inseto, está-se executando, inegavelmente, o primeiro
ato, mas torna-se impossível o segundo. Portanto, cada espécie de coisas tem um
modo especial de ser negada, que faz com que a negação engendre um processo de
desenvolvimento, acontecendo o mesmo com as idéias e os conceitos. No cálculo
infinitesimal, nega-se, de um modo diferente, a obtenção de potências positivas
que partem de raízes negativas. Mas estes métodos diferentes de negar devem ser
conhecidos e apreendidos, como acontece com todas as outras coisas. Não basta
que saibamos que a muda de cevada e o cálculo infinitesimal se encontram sob as
leis da negação da negação, para que possamos cultivar com sucesso a cevada ou
para que possamos realizar operações de diferenciação ou integração, da mesma
maneira que não nos é suficiente conhecer as leis que regem a determinação do
som, pelas dimensões das cordas, para que saibamos tocar violino. Mas é evidente
que não pode sair nada de um processo da negação da negação que se limite apenas
à puerilidade de escrever num quadro negro um A, e logo depois apagá-lo, ou a
dizer que uma rosa é uma rosa para, logo em seguida, dizer que não é. Somente se
poderia provar, dessa forma, a idiotice de quem se entrega a tais divagações.
Isso não obsta, porém, a que os metafísicos pretendam demonstrar que, se nos
empenharmos em raciocinar sobre a negação da negação, somente poderemos utilizar
este processo.
Chegamos, pois, à conclusão de que é o Sr. Dühring a única pessoa que quer
mistificar as coisas quando afirma que a negação da negação é uma quimera
analógica, inventada por Hegel, emprestada do campo da religião, e calcada sobre
o mito do pecado original e da redenção. Muito antes de saber o que era
dialética, o homem já pensava dialeticamente, da mesma forma por que, muito
antes da existência da palavra escrita, ele já falava. Hegel nada mais fez que
formular nitidamente, pela primeira vez, esta lei da negação da negação, lei que
atua na natureza e na História, como atuava, inconscientemente, em nossos
cérebros, muito antes de ter sido descoberta. E se o Sr. Dühring fica aborrecido
com um tal nome, e quer realizar o processo, sem que ninguém saiba que o está
realizando, ainda é tempo de inventar um nome melhor. Mas se o que deseja é
apagar a própria operação do pensamento, deverá, antes, encontrar o modo de
expulsar esse processo da natureza e da história e, para isso, deverá inventar
uma matemática na qual -a X -a não deve dar +a2 e na qual seja
proibido, sob penalidades diversas, o cálculo diferencial e integral.
Capítulo XIV - CONCLUSÃO
Acabemos o estudo da Filosofia. Trataremos, a seguir, de
outras fantasias contidas no "Curso" para, finalmente, examinarmos os
característicos da revolução que o Sr. Dühring introduz no terreno do
socialismo. Que nos havia prometido O Sr. Dühring? Tudo. E o que finalmente
cumpriu? Absolutamente nada. "Os elementos de uma filosofia real e orientada,
portanto, para a realidade da natureza e da vida", a "concepção rigorosamente
científica do mundo", as "idéias criadoras de sistema", e todas as demais
vitórias do Sr. Dühring, anunciadas por frases pomposas e retumbantes deram como
resultado, em todos os setores a que se aplicaram, uma pura farsa. A esquemática
do mundo, que "sem perder em nada a profundeza do pensamento, fixou as fórmulas
fundamentais do ser" era, como vimos, apenas um eco charlatanesco e
infinitamente desbotado da Lógica de Hegel, da qual extrai a superstição de que
"essas formas fundamentais" ou categorias lógicas existem misteriosamente, não
se sabe onde, antes da existência do mundo e à margem da realidade a que se
devem "aplicar". A filosofia da natureza nos oferece uma cosmogonia que tem por
ponto de partida um "estado da matéria idêntico a si mesmo", um estado que só
pode ser concebido. criando-se uma caótica e irremediável confusão a respeito
das relações entre a matéria e o movimento e, só pode ser concebido, além disso,
supondo-se a existência de um Deus pessoal e entronizado à margem do mundo que é
o único capaz, por seu impulso, de tirar o mundo deste estado de imobilidade e
de lançá-lo ao movimento. No estudo da natureza orgânica tivemos oportunidade de
ver que a filosofia da realidade, após condenar a luta pela existência e a
seleção natural, de Darwin, como "um caso de selvageria cometida contra a
humanidade", permitia que estas teorias se esgueirassem novamente pela porta
traseira, como fatores ativos da natureza, embora de segunda classe. O Sr.
Dühring soube endossar, além disso, no campo da biologia, uma ignorância que,
desde que se tornaram habituais as conferências de vulgarização científica, já
não é fácil encontrar e que, mesmo entre as senhoritas de boa sociedade,
ter-se-ia que procurar com uma lanterna. No campo da moral e do direito, foi tão
infeliz, ao caricaturar Rousseau, como antes, ao se apresentar caricaturando
Hegel. E endossou, ainda, inclusive no terreno da ciência jurídica, apesar de
seus esforços em nos demonstrar o contrário, um desconhecimento científico que
só pode ser concebido no mais vulgar e antiquado jurista prussiano. Uma
filosofia como essa, "frente à qual não resiste nenhum horizonte de mera
aparência", se limita, juridicamente, a um horizonte real, que não ultrapassa as
fronteiras dentro das quais vigora o direito nacional prussiano. Continuamos
esperando "pelas terras e céus da natureza exterior e interior" o que essa
filosofia prometia abrir aos nossos olhos "no seu potente arranco" e, desse
modo, continuamos esperando as prometidas "verdades definitivas e inapeláveis" e
"o absolutamente fundamental". Este filósofo, cujo método especulativo exclui,
como ele próprio o diz, toda a metamorfose, no sentido de uma "representação
subjetiva e ilimitada do mundo", não somente se considera como um homem
subjetivamente limitado, pela pobreza extrema de conhecimentos de que faz
alarde, por seu mesquinho método metafísico de especulação, como por suas
grotescas vaidades, sem falarmos de suas pueris manias pessoais. Não consegue
expor a sua filosofia da realidade, sem insinuar ao leitor a sua repugnância
contra o tabaco, contra os gatos e os judeus. Pretende impor os seus gostos e
repugnâncias como lei absoluta para toda a humanidade, sem incluir, como é
natural, os judeus. A sua "plataforma realmente crítica", com relação aos outros
autores, consiste em pôr, nos seus lábios, insistentemente, coisas que estes
nunca disseram e que são um produto genuíno e peculiar de sua própria cabeça. Os
pobres restos de sabedoria que nos oferece a respeito de assuntos próprios de
filisteus como, por exemplo, o do valor da vida e o melhor meio de gozá-la, tem
um tal caráter de vulgaridade que bastam para explicar, perfeitamente, a cólera
de seu autor contra o Fausto de Goethe. Com efeito, o Sr. Dühring, não poderá
perdoar jamais a Goethe, o fato de ter criado, como herói de seu drama, um ser
tão imoral como Fausto, em vez de pôr em seu lugar um ilustre filósofo da
realidade, como o seria Wagner.
Em resumo, a filosofia da realidade não é, mais que, afinal de contas, para usar
uma expressão de Hegel, "a mais vulgar lama do lamaçal alemão", com uma fluidez
e uma transparência feitas de lugares comuns, que só pode ser tornada mais turva
e mais densa com os coágulos oraculares que o seu autor nela dissolve. Quando
terminamos a última página do livro, sabemos tanto quanto antes de ter iniciado
a sua leitura e somos forçados a confessar que o "novo método especulativo" ao
lado dos "resultados e concepções fundamentalmente originais" e das "idéias
criadoras de sistema", nos revelou, de fato, não poucos absurdos, sem nos
oferecer, em troca, uma linha sequer em que possamos aprender alguma coisa. E
este homem, que tanta propaganda faz de suas artes e mercadorias, ao som de
fanfarras, como o mais vulgar camelot de feira, por detrás de cujas frases
grandiloqüentes não se encontra nada, mas absolutamente nada, este homem tem a
ousadia de chamar de charlatães a figuras como Fichte, Schelling e Hegel, o mais
humilde dos quais seria, ao seu lado, um gigante! Há charlatanismo, sim: mas
onde e por parte de quem?