O NAVIO DE CRISTAL
Alberto Marsicano
Estão todos aí?
A cerimônia vai começar!
O carro seguia pela serpentinosa estrada que cruzava as Montanhas Rochosas rumo à Albuquerque. Negras nuvens acumulavam-se sobre os altos penhascos e relâmpagos flasheavam os contornos das rochas anunciando a tormenta. Jim, com seis anos, contemplava a cena que posteriormente definiria como o "momento supremo de sua vida". Começa a tempestade e no lusco-fusco do crepúsculo uma luz vermelha oscila à frente do carro, seguida de um forte estrondo. O pai de Jim freia bruscamente e sobre os reflexos na pista molhada uma cena dantesca. Um caminhão carregando índios pueblos na caçamba acabara de capotar e eles agonizavam no asfalto.
Seu pai correu até um telefone para chamar socorro e Jim não parava de chorar. Partiram e o menino não continha o pranto. Para acalmá-lo, falou: "Meu filho, nada disso aconteceu, foi tudo um sonho". Jim nunca mais esqueceu este episódio que inspirou sua composição "Riders On The Storm" ("Viajantes na Tormenta"), e segredou certa vez a amigos que, ao passarem pelo primeiro cruzamento após o acidente, a alma do xamã índio que acabara de morrer passara para seu corpo.
James Douglas Morrison nasceu em Melbourne, na Flórida, em 8 de dezembro de 1943. Seu pai era (e ainda é) um oficial de alta patente da marinha.
O Contra-Almirante George Steve Morrison, embora estivesse constantemente a serviço em distantes bases navais, procurou educar seus filhos segundo a tradição da disciplina militar e os valores americanos ainda que, no caso de Jim, os esforços em tal empenho resultassem no contrário ao esperado. Para se ter uma idéia do tipo de mentalidade deste Contra-Almirante que sempre recusou-se a fazer qualquer comentário sobre o filho*, o jornalista Michael Horowitz aproveitou o fato de Steve Morrison ter sido promovido para um importante posto Pentágono (responsável pelos mísseis Polaris) para trevistá-lo. A certo momento, perguntou-lhe se geralmente os filhos de oficiais seguem a tradição familiar de entrar na Academia Naval. "Nenhum de meus filhos demonstrou interesse em seguir a carreira militar, mas, mesmo assim, direi isto: se meus filhos quisessem alistar-se, a arma escolhida seria evidentemente a gloriosa marinha!" respondeu ele.
Em setembro de 1957, os Morrison mudam-se para Alameda, pequena ilha da baía de São Francisco, conhecida por sua importante base aero-naval. Bom aluno, embora fechado, Jim revelava já nessa época traços de anti-conformismo e desprezo total a qualquer forma de autoridade. Se Morrison via alguém conhecido no corredor da escola, simplesmente gritava: Oi, mother fucker!
Arredio às atividades normais e sadias a um adolescente de Hight School, trancava-se horas a fio em seu quarto, lendo. Certo livro o impressionou de maneira muito profunda: era On the Road (Na Estrada) de Jack Kerouac) sobre a geração beat.
O núcleo mundial dos beats era North Beach, local vizinho a São Francisco e distante apenas quarenta e cinco minutos de Alameda. Nos fins-de-semana Jim vasculhava a lendária livraria e editora City Lights situada na Columhus Avenue com a Broadway, em Chinatown, para folhear os livros. Certa vez viu um dos donos, o famoso poeta Lawrence Ferlinghetti, autor de Goney Island of the Mind. Acenou-lhe e quando o poeta respondeu o cumprimento, Jim desapareceu repentinamente.
Começa a ler Allen Ginsberg e se fascinar com o personagem anfetamínico dos livros de
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*Recentemente o almirante abriu uma exceção a u reporter da revista Time.
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Kerouac, Dean Moriaty. Esta bizarra figura era um dos "alucinados, daqueles que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para se salvar, tudo ao mesmo tempo, os que jamais bocejam ou dizem banalidades mas ardem, ardem e ardem..." Sim, Morrison era um deles, e já sentia este 'pathos', esta força inexprimível que o impelia de maneira irrevogavel ao caminho da arte.
No ano de 1958, parte para Alexandria, no estado de Virginia, com a finalidade de continuar seus estudos no famoso Liceu George Washington. Continuava o mesmo: se chegava atrasado a aula, contava histórias fantásticas como a de ter sido raptado por ciganos ou assaltado por marginais. Quando, certa vez, abandonou a sala repentinamente e o professor correu atrás dele, explicou que iria ser operado de um tumor no cérebro naquela tarde. Sua mãe ficou terrivelmente espantada quando o diretor telefonou-lhe no dia seguinte para saber como tinha sido a cirurgia.
Era excelente aluno e suas altas médias em todas as matérias colocaram-no por duas vezes no quadro de honra do Liceu. Estudou profundamente a filosofia de Nietzsche cujo pensamento errante e profético, fundamentado na tradição dionisiacaapolínea dos antigos gregos, o influenciaria não apenas na concepção ritualística de seu futuro grupo musical como também em sua postura devida. Leu tudo de Kerouac, Ginsberg, Ferlinghetti, McClure (de quem se tornaria muito amigo), Corso e todos os demais poetas beats. Em sua cabeceira estavam o Ulisses de James Joyce e Jhe Outsider do grande Colin Wilson.
Mas o poeta que realmente o impressionava, tanto por sua poesia quanto por sua vida bizarra, era o adolescente maldito Rimbaud: "O poeta torna-se vidente após um longo, desmesurado e sistemático desregramento de todos os sentidos". A poesia de Rimbaud, que seria musicada pelo grupo californiano Electric Flag, ofereceu-lhe os paradigmas necessários para sua formação poética. O escritor Louis Ferdinand Celine com seu Voyage au bout de Ia nuit (Viagem aos confins da noite) inspiraria seus futuros versos de ''End Of The Nights'('Confím da Noite'). Outra inegável influência literária que o estusiasmava por estes tempos era o poeta vidente inglês William Blake (o nome do grupo, The Doors, sairia futuramente de uma famosa frase deste mestre).
Seus campos de leitura eram tão vastos e os livros tao estranhos que certa vez um professor desconfiou que várias obras por ele citadas num trabalho não existiam e tinham sido arbitrariamente inventadas. Após extenuante pesquisa na enorme Biblioteca do Congresso, o mestre verificou que aqueles livros eram reais e versavam sobre a demonologia nos seculos XVI e XVII; pelo cunho de seus escritos, certamente Morrison os tinha lido.
Neste período, Jim inicia suas experiências literárias, escrevendo seu primeiro poema apos ter visto unia ilustração na qual cavalos eram atirados ao mar, de um galeão espanhol encalhado no Mar dos Sargaços:
Quando o mar calmo conspira Couraças
E suas couraças soturnas e abordadas engendram pequenos monstros
A verdadeira navegação se esvai
Terrivel momento
O primeiro animal e arrojado
Patas aqitado-se enfurecidas
o obstinado verde galope
Erquem-se as frontes
Equilibrio
Sutil
Pausa
Consentimento
na voracidade silente das narinas
cuidadosamente refinada
E selada
Embora seus pais a tivessem traçado os planos para que cursasse a Universiciacie da Flórida, Jim estava firmemente decidido a estudar cinema na UCLA (Universidade da Califórnia) e, sem dizer nada, enviou seu currículo escolar e documentos a essa instituiçao.
Em 1964 ingressa no Departamento de Cinema, tendo como colega Francis Ford CoppoIa e como professores cineastas como Jean Renoir, Stanley Kramer, Josef von Sternberg e outros. Começa
a escrever apontamento sobre o cinema que posteriormente constituiriam parte do livro The Lords & Nwe Creatunes. Elabora um roteiro sobre a vida de Rimbaud e colegas sugerem-lhe que faça o papel principal.
No fim do ano, existia uma espécie de exame de avaliação que constava da projeção de cerca de 40 filmes feitos pelos alunos. Jim não escreveu roteiro para seu filme que, além de não ter título, apresentava uma seqüência aleatoria de imagens definidas por seu amigo De Bella (futuro assistente de Coppola em Apocalipse Now) como "uma mescla difusa de imagens sobre o autor e seu olhar". Esta insólita película começava com um piano onde Jim dava uma forte tragada num cachimbo cheio de erva. Depois a imagem fixava a vinheta ondulante do programa de televisão Outer Límits. Seguia-se a cena de uma loura (a namorada alemã de Be Bella) dançando nua sobre um aparelho de Tv que mostrava um desfile nazista. Finalmente aparecia o apartamento de Jim, inteiramente coberto com fotos da Playboy, onde junkies caidos no chão observavam atónitos um filme mudo num plano em travelling que terminava com a imagem da TV sendo desligada.
A projeção foi mais caótica que o proprio filme. De inicio, este se partiu entrava no projetor. Quando finalmente as primeiras imagens apareceram, as reações variavam entre a confusão, hilariedade e decepção profunda. O filme não foi selecionado para a mostra do Royce Hall e Jim recebeu como nota um mísero D. Sentindo-se incompreendido, perambula pela praia de Venice e pensa em abandonar definitivamente o curso.
Certo dia, jim vislumbrou Ray Manzarek atravessar o campos. Ele também estudava cinema, além de tocar órgão no grupo Rick and the Ravens. Como um dos membros de sua banda desistira de tocar, e no contrato constavam seis musicos, Ray teve uma idéia imediata: "Ei Jim, não quer tocar conosco?"
"Mas eu não toco nada!"
"Não faz mal, tudo que tem a fazer é empunhar uma guitarra que não será ligada ao amplificador".
Morrison comentara depois que este tinha sido o dinheiro mais fácil ganho em sua vida.
Resolve deixar a faculdade. Não lhe interessava seu caráter acadêmico, bem como os milhares de 'uníversiotas' e 'universotários' que perambulavam lobotomizados pelo campus. Muda-se para um pweueno quarto na praia de Venice. Ao saber que seu exame medico no exército o classificara no grau altamente convocável de 1A e que, não estando matriculado na Universidade, não escaparia do serviço militar, inscreve-se nos mais variados cursos UCLA, sem a mínima intenção de freqüentá-los.
Venice era o Lugar ideal. Corpos bronzeados pela praia, rádios tocando. Guitarras distorciam ao ritmo dos tambores alegremente percutidos ao som do backing vocal do mar. Puríssimo LSD ('California Sunshine', 'White Rabbit', 'Sugarcube') era vendido abertamente sobre o balcão da loja principal (até 1968, o LSD era legal e produzido pelo lahoratório Sandoz, detentor da fórmula original). São Francisco tinha Haight e Los Angcles, Venice.
Era um dos "errantes" de praia: jeans desbotados pelo sal do mar, cabelos compridos e T-shirt. Mudou-se para um armazém abandonado cheio de clarabóias. Tinha uma vela como iluminação e um bico de bunsen onde aquecia enlatados. Raramente dormia ou ingeria alguma coisa, a não ser o ácido que rolava na praia.
Estávamos em 1965, e por essa época Jim escrevia secretamente muitas canções. Ao observar uma mulher caminhando na praia compusera 'Hello y Love You'. O pequeno e simpático restaurante Olivia’s servira-lhe de inspiração para 'Soul Kitchen'. Com seu amigo Denis Jacob já havia levantado a possibilidade de formar um grupo de rock cujo nome seria "The Doors: Open and Closed" ("As Portas: Abertas e Fechadas"). Mas as coisas iriam tomar forma apenas no verao seguinte. Jim encontra o tecladista Ray Manzarek na praia e começam a falar de música, O futuro cantor dos Doors lhe mostra uma de suas canções, 'Moonlight Drive':
Nademos até a Lua
Subamos pela maré
Penetremos a noite
Onde a cidade dorme
a velar-se...
Ray, estusiasmado, gritou: "E isso! Nunca ouvi palavras como essas num rock!" Trocaram algumas idéias e resolveram fundar o grupo que teria o nome blakeano de "The Doors". Manzarek, após ter estudado pintura e música no Conservatório de Chicago, inscrevera-se no Departamento de Direito e no de Cinema da UCLA. Era formado em Economia pela Universidade De Paul e passara vários anos no Oriente tocando em bandas de Okinawa (Japão) e da Tailândia. Seu conjunto, Rick and the Ravens (Rick e os Corvos), era inspirado em Edgard Allan Poe e tinha um contrato com a World Pacific. Manzarek freqüentava o centro de meditação de Maharishi onde conhecera o baterista John Densmore. Os três foram até um estúdio amador onde gravaram um demo com seis composições de Morrison.
Outro grande músico uniu-se ao grupo. Era o guitarrista Robbie Krieger, estudante de Física e Psicologia na UCLA que também freqüentava as reuniões de Maharishi. Ele é um dos mais sui generis guitarristas da história do rock. A começar por sua técnica de não usar palheta, utilizando o estilo da guitarra flamenca em sua Gibson SG Special. Além disso, tem uma teoria de que as cordas melhoram com o tempo e somente as troca de dez em dez meses. Foi um dos primeiros a utilizar a estrutura da música clássica indiana ("Raga") no rock. Na antológica 'The End', ele dedilha eletronicamente a peça clássica indiana "Raga Bhin Palasi". Sua formação como instrumentista provém do flamenco, cujo grande conhecimento pode ser degustado em 'Spanish Caravan'. Cita os guitarristas ciganos Manitas de Plata e Sabicas como sua grande influência. No campo do blues e do jazz (quando já dominava perfeitamente o "bottleneck", aprendeu a tocar ouvindo as gravações do jazzista cigano Django Rheinhard (um dos pioneiros da guitarra elétrica). Robbie e Densmore haviam tocado juntos no grupo Psicodelic Rangers.
Era uma manhã brumosa de novembro, quando Jim telefonou a Ray. Estava viajando de ácido com Phil Oleno e Felix Venable. Contemplavam silentes fotos de teias de aranhas inoculadas com LSD e Mescalina. As teias das primeiras eram geometricas e as das segundas, tortas, irregulares, "barrocas". Estas reveladoras imagens os motivaram a tomar um Chevrolet vermelho, caindo aos pedaços, e rumar para o deserto do Arizona em busca do cactus peyote. Voltaram dois dias depois, rasgados e cheios de feridas, contando uma história fantástica de terem encontrado feiticeiros índios que os haviam iniciado no ritual do cactus. Numa segunda versão narrada a outras pessoas (e que explicava as feridas), não haviam encontrado índios mas bandidos mexicanos mal encarados e fortemente armados.
A primeira aparição pública dos Doors deu-se em dezembro de 1965, durante a projeção de alguns filmes feitos por alunos da UCLA. Ensaiavam todos os dias e em fevereiro já contavam com um repertório de mais de quarenta músicas. Pensaram em convidar um baixisra, mas Ray era tão versátil que conseguia fazer perfeitamente a linha do baixo com os pedais de seu órgão. O metodo utilizado nos ensaios (e inventado por Jim) era denominado "Mente Comunal" e consistia num ritual dionisíaco em que os componentes do grupo ingeriam LSD e soltavam-se o máximo possível nas improvisações, deixando que o espírito da música os possuísse por completo. Nesse período (66/67) o LSD funcionou como catalisador, sendo amplamente utilizado. Seguiam a sugestão de Rimbaud:
"Embriaguês sagrada: te afirmamos método".
A demo que continha composições de Morrison foi parar na Columhia, que se interessou e até fez um pré-contrato, imediatamente cancelado após a prisão de Krieger e Densmore por posse de marijuana e a convocação de Jim para o exército na condição lA.
No início de 1966, começam a se apresentar num night club, o Whiskey a Go-Go. Embora tivessem constantes atritos com o proprietário (um ex-policial) sendo sistematicamente despedidos toda semana, o grupo despertava a curiosidade do público e frases do tipo "Vamos lá ver aquele cantor transtornado dos Doors" começavam a ecoar pela cidade. Jac Holzman, jovem proprietário da pequena gravadora independente Elektra, entusiasmou-se com o som diferente do grupo e, na quarta visita que fez ao estabelecimento, ofereceu-lhe um contrato de gravação.
Pouco tempo depois entram no estúdio Sunset Sound.
O local era pequeno e sem recursos sofisticados. Começa a gravação de 'The End' (é impressionante pensar que este registro antológico, que agora ouvimos em cristalino CD, tenha sido realizado naquelas condições "precárias"). A guitarra de Krieger oscila em arabescos espargindo aciduladas iridescências cromáticas. A voz de Jim ecoa profunda numa revelação solene e abissal. Morrison, narcotizado e com os olhos gázeos, canta colado ao microfone. Em certo momento, observa atentamente um pequeno aparelho de televisão e o atira violentamente contra o vidro da sala de gravação. Estilhaços voam para todo lado e o vidro grosso quase se parte. O som pára e o diretor interrompe a sessão pedindo encarecidamente que levem Jim para casa.
Na primeira semana de janeiro de 1967, o LP lhe Doors é lançado juntamente com o single (compacto) 'Break On Trough'. A fase de amadorismo havia acabado. Na sala de espetáculos Ciro’s, em Sunset Strip, tocam para mais de dez mil pessoas. Agora managers, percebendo o potencial econômico do grupo, começam a acionar a máquina.
A música mais tocada nas rádios era 'Light My Fire'. Esta composição de Krieger, fusion entre rock, música indiana e estrutura melódica da bossa nova brasileira - que nessa época invadia os EUA (tal influência fica evidente na interpretação de Jose Feliciano)-, foi rapidamente transformada em single. Possui solos intrumentais sublimes: de início, o órgão barroco-lisérgico de Manzarek percorre todos os diapasÃos da escala preparando a entrada de Krieger cujo swing latino infunde com todos os cromatismos a canção.
Na terceira semana de junho, 'Light My Fire' já estava entre as Dez Mais. Em 25 de julho, a Elektra comunica que os Doors haviam chegado à primeira colocação segundo o semanário Bilboard. O LP The Doors estava sendo analisado e comentado pelos principais críticos. Trouxe a inovação de contar com faixas de longa duração (como 'The End') que inexistiam em discos de rock, embora fossem normais em jazz e clássicos. Esta experiência abriu caminho para a quebra deste "tabu": discos como o Anthem for The Sun (67) do Greateful Dead nao possuiam mais faixas.
O sucesso de 'Light My Fire' foi tão repentino e espantoso que o grupo foi logo convidado para se apresentar no programa de maior audiência da TV americana, o Ed Sullivan Show (o SíIvio Santos americano). Era transmitido de costa a costa, atingindo índices recordes de audiência. Havia, porém, um problema: o verso 'Girl, we couldn’t get much highter' era incômodo pois a palavra hight (alto) estava sendo utilizada no sentido de entorpecimento através das drogas. Além disso, a frase 'Light my fire' ('Acenda meu fogo') remetia à idéia da marijuana, que tinha virado moda em todo o país e estava preocupando as autoridades, O palco dos Doors não era mais o restrito meio underground de Venice, mas todo o país, embora as músicas e a mensagem permanecessem as mesmas. O clima no camarim era de revertério. JiIn encostava-se à poltrona e o sogro de Sullivan Bob Precht, tentava explicar-lhe a questão: seria simples, bastaria que ele suprimisse a palavra highter ou inventasse outra durante a interpretaçao.
"Certamente", disse Jim, "acho que posso encontrar outro verso". Nisso, entra Mr. Sullivan e exclama: "Não fiquem tão serios! Vocês jovens ficam tão bem quando sorriem!"
"Bem", respondeu Morrison,'acho que somos um grupo meio mal-humorado".
O cenário não poderia ser mais kitsch: uma série de portas penduradas ao fundo com fios de nylon. A transmissão era nacional e ao vivo. Boh Precht, apreensivo, olha os monitores seguindo a letra quanto, na hora da supressão, Jim grita a todo volume: HIGHTER!!!
Precht, desesperado na sala de controle, coloca as mãos na cabeça e brada num tom ensurdecedor: 'Vocês não podem fazer isto comigo!"
Em 1967, vivia-se o pesadelo do Vietnã. Milhares de jovens estavam sendo massacrados naquela guerra absurda. Jim escreve nesse momento suas letras mais militantes. 'Unknown Solder' ('Soldado Desconhecido') teve seu título inspirado no famoso monumento. A força de Morrison residia em seu caráter inter-semiótico, ou seja, lidava com todas as artes: música, poesia, pintura, dança e cinema. 'Soldado Desconhecido' era na verdade uma performance teatral:
No café da manhã notícias são lidas
As crianças da televisão alimentam-se não-nascidos, vivos e mortos a bala estilhaça o capacete Tudo acabado para o soldado desconhecido
Tudo acabado para o soldado desconhecido
Nesse momento, Robby, Ray e Jim começavam a bater os pés em unissono simulando o som de marcha. Paravam, e Morrison assumia a postura de um prisioneiro prestes a ser fuzilado. Ray gritava: "apresentar armas!" Ouvia-se então um rufar de tambores e um forte toque na borda do aro da bateria simulava o tiro. Jim caía ao chão corno se tivesse sido atingido. Outro instante de silêncio e o órgão começava a tocar em surdina:
Façasse a tumba para o soldado desconhecido
Aninhado) na cavidade de teu ombro
O soladado desconhecido
A música recomeça a todo volume e Jim, de pé, canta num tom épico e exaltado:
Tudo acabado!
A guerra acabou!
Tudo acabado!
A guerra acabou!
O Navio de Cristal