O NAVIO DE CRISTAL
Parte II
Mas as performances dos Doors não eram simplesmente teatrais. Eram rituais catarticos e xamanísticos. Certa vez, Jim conversava sobre isso com Ray e contou-lhe a respeito dos xamas siberianos: "Quando o curandeiro prepara-se para entrar em transe, todos os aldeãos fazem um círculo à sua volta e percutem chocalhos e tambores. Existe um constante martelar". Nos Doors acontecia o mesmo: os concertos se iniciavam com uma pulsação rítmica vigorosa (marca registrada do grupo) até que a voz de Jim surgia como um xamã que acabara de mergulhar no estado de transe. Existe também a informação de que Morrison tivesse ligações (até em nível iniciatico) com rituais afro-americanos, a prova mais concreta disso é a evocação na música 'L.A. Woman' da entidade de vodu de Nova Orleans) Mr. Mojo Risin, cultuado principalmente pelos bluesmen.
No final de 1967, o grupo não se apresentava por menos de 10.000 dólares. Seis meses depois, esta quantia já havia sido dobrada . Jim vivia modestamente num motel, o Alta Ciniega, num quarto de 10 dólares. Tinha como companheira constante Pamela Courson, uma down freak que preferia barbitúricos a alucinógenos. Durante esta fase de prosperidade financeira, Jim começa a gastar furiosamente. Não em carros, casas e outras manias dos cantores de rock, mas em altas contas de bar e roupas feitas sob mediria, utilizando materiais estranhos como, por exemplo, couro de lagarto. Esse período marca também seu abandono dos alucinógenos, trocados pelo álcool.
Em 1968, sua atividade poética se intensifica. Começa a recolher rascunhos e poemas antigos. Musica um longo poema denominado "King Lizard" ("Rei Lagarto") e pensa em incluílo no próximo LP (a gravadora não permitirá). Os Doors começam a gravar o novo LP, quando o perfeccionismo do produtor exige até 20 takes da mesma música. Morrison queria que ele se chamasse King Lizard e tivesse a capa em couro de lagarto. Em julho de 1968 é lançado com o nome de Waiting For tbe Sun (Esperando Pelo Sol).
Maio de 1968: eclode na França uma rebelião estudantil sem precedentes, com repercussões em todo o mundo. Carros queimados, lojas saqueadas, paralelepípedos arrancados. Milhares de estudantes nas mas travavam com a polícia verdadeiras batalhas urbanas. Como bem definiu o poeta mexicano Octavio Paz, tanto no Leste quanto no Oeste havia para os jovens uma palavra proibida:
"prazer"; "prazer de viver livremente, segundo suas próprias concepções é idéias". Na Inglaterra, os Rolling Stones compõem 'Street Fighting Man' ('O Combatente Das Ruas') e nos Estados Unidos o sentimento de revolta contra a guerra do Vietnã e o antimilitarismo eram cada vez mais crescentes.
Os concertos dos Doors atraíam de quinze a vinte mil pessoas que cantavam em uníssono 'Unknown Soldier'. O Pentágono começou a irritar-se com estas manifestações. (Hoje eles culpam os jornalistas, artistas e pacifistas pela derrota no Vietnã, e este argumento foi utilizado na cobertura do conflito no Golfo Pérsico para censurar todas as cenas prejudiciais à imagem do Exército americano). O clip de 'Unknown Soldier' foi proibido de ser transmitido na TV (inclusive recentemente, na Inglaterra, por ocasião do episódio "Sadam"). Durante os concertos do grupo, eram freqüentes conflitos entre a policia e o público. Morrison, inúmeras vezes, foi retirado à força do palco por policiais e os camarins eram sempre revistados*. A associação dos Doors coma guerra do Vietnã é tão forte, e está de tal modo incutida no inconsciente coletivo americano, que Francis Coppola. em seu magistral Apocallpse Now, colocou a voz deJim na abertura do filme, cantando 'The End'.
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* Após o conturbado Concerto dc New Haven em 1967, jim foi preso.
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Mas os Doors já estavam prontos para a Europa e vice-versa.
Londres era um caleidoscópio lisérgico; descia-se por tortuosas escadas e penetrava-se em porões densos e esfumeados onde, entre difusas e opiáceas nuances de luz que espargiamse em borbulhas de cor, grupos como Soft Machine e Jimi Hendrix Experience eram apreciados.
O Roundhouse era uma construção circular imensa, antiga e com o teto alto. Dentro (cabiam 2.500 pessoas) o incenso misturava-se a outros aromas que circulavam entre a bizarra e felliniana multidão coberta de colares e de longos cabelos. Uns vestidos de couro e outros nus.
Entram os Doors! Milhares de pessoas amontoavam-se do lado de fora, sem ingresso. No pequeno palco, próximo ao público, a verve cênica de Jim emergia mais selvagem que nunca.
De lá, seguiram para FrankÍurt e Amsterdã. Nesta última, surge um problema que jamais abandonaria o grupo: o abuso do álcool por parte de Jim. Ojefferson Airplane abria o evento e, enquanto tocava, Morrison apareceu em cena totalmente embriagado e cambaleante, tentou acompanhar uma das canções. Depois, no camarim, em estado pré-comatoso encostou-se com os olhos gázeos e a tez cor de marfim num banco de piano. Foi levado para um hospital e os Doors entraram (sem o vocalista) e, após breve e seco aviso sobre o estado de Jim, tocaram como se sempre tivessem sido um trio.
Em Londres, Jim encontra o grande poeta beat Michael McClure. Após uma noite de abusos (onde o velho bardo dissolvera algumas pastilhas de mescalina na bebida), que havia definitivamente selado a amizade entre ambos, alguns poemas de Morrison dispunham-se sobre a mesa. McClure os lê e convence-o a publicá-los.
Os rituais dos Doors eram inspirados num dos autores mais queridos de Jim, o genial surrealista francês Antonin Artaud, que profetizara em sua obra O teatro e seu Duplo espetáculo orgiastico, dinisiaco e irrepetitível. Artaud, que já nos anos 30 (1937) experimentara o cactus peyote no ritual "Tutucuri" no México (descrito em seu livro Os Taraumara), dera a Morrison nos tempos de estudo todas as coordenadas de como conceber a cena ritualistica, na qual o pulsar magico e hipnotico do rock coube cmoo uma luva.
Por esses tempos, perambulava pela Califórnia o grupo radical experimental Living Theatre (Teatro Vivo) de julian Beck e Judith Melina (que estiveram no Brasil e irradiaram a muitos sua energia). As performances do grupo eram marcadas por transgressocs em todos os sentidos que visavam despertar reações no público.
Jim assiste ao espetáculo na primeira fila e em poucos minutos já está em pé, vociferando palavras de efeito. As reações do público começaram a intensificar-se e, a certa altura, a histeria e o caos detonaram um delírio coletivo que provocou a chegada de um forte contingente policial. No dia seguinte havia um concerto dos Doors marcado em Miami. O cantor talvez, neste momento, já pensasse no que iria fazer...
A fábrica de automóveis Buick entra em contato com o manager do grupo. propondo utilizar 'Light My Fire' num comercial onde o verso original seria alterado para 'Buick acenda meu fogo'. A idéia causou certa repulsa em Jim, mas a soma oferecida era de 50.000 a 75.000 dólares.
A noite em Miami estava quente e umida. Jim já havia tomado inúmeras cervejas (não se sabe ao certo se era apenas álcool ou se havia ingerido) encosta-se num enorme amplificador e pede mais uma. O local já começava a lotar. Era um grande hangar de hidroavioes, sem cadeiras ou ventilação. A coisa estava ficando tensa pois Ray, Robbie e Densmore não chegavam e a platéia (em pé) estava inquieta com o atraso de mais de uma hora.
Morrison, nessa noite fatídica, parece ter levado às últimas conseqüências a máxima de Blake:
"Os caminhos do excesso levam ao palácio da sabedoria". Barbado e trajando uma roupa de couro negro e um chapéu de pirata com uma caveira, cambaleante, tropeça nas letras e tenta provocar a platéia de todos os modos. Primeiro, pede bebida ao público e recebe uma garrafa de vinho barato. Grita ao microfone: "Vocês são um bando de fucking idiotas!" Tenta tirar a calça. A multidão urra. Um excêntrico que estava nos bastidores entra no palco com uma ovelha e a entrega ao cantor que faz um jocoso comentario: "Se não fosse tão Jovem, foderia com ela". O publico vaia. Denigre entao o sentimento bairrista do auditório dizendo: "Nasci aqui na Flórida mas logo me toquei e parti para o lindo estado da Califórnia!" Nova vaia. Abre a braguilha e brada: "Vocês querem meu pinto?" Põe o membro para fora e masturba-se aos olhos incrédulos da multidão. Aquele delírio coletivo que presenciara na véspera em algumas dezenas de pessoas era pequeno diante do enfurecido dragão humano de mais de vinte mil espectadores.*
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* Existem Várias versões divergentes sobre o que realmente aconteceu naquela noite e o número de espectadores.
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Mas o climax da convulsão é atingido quando Morrison aproxima-se de Krieger e, de joelhos, simula uma copulação oral. O auditório veio abaixo! Dezenas de pessoas começaram a invadir o palco, cuja estrutura balançava ameaçando desmoronar. O espetáculo foi suspenso.
O equipamento fora destroçado. O palco estava rachado e pelo chão espalhavam-se centenas de latinhas de cerveja, entre sutiens e calcinhas. Poucos dias depois, o presidente da Comissão de Crime e Contravenções requeriu um inquérito. O Capitão da Divisão de Segurança da Polícia de Miami emitiu um mandato de prisão contra Jim. Foi rapidamente articulado um movimento denominado "Cruzada pela Decência", organizado pelo Jovem catolico Mike Levesque, com a benção e total apoio do presidente Nixon. A imprensa de todo o país virou-se contra o grupo, que tornara-se o bode espiatorío de tudo que estava acontecendo de barbaridade nos Estados Unidos. O jornal Miami Heldada abre fogo com a manchete "O rei do rock orgástico"; o Miami Voice estampa na primeira página em letras garrafais "O Rasputin Louco do Rock", com a foto de Jim barbudo e com olhar transtornado. Até a revista dita "progressista" (na época) Rolling Stone ridiculariza o cantor exibindo em suas páginas centrais um poster de Morrison com o título "Procurado!", no estilo Velho Oeste.
Nas primeiras semanas que sucederam o insólito episódio, o clima era de hilariedade, tanto na gravadora quanto entre os membros do grupo. O incidente em Miami estava sendo paulatinamente absorvido como "mais uma do Morrison". Mas a graça acabou logo, quando a maioria dos concertos que fariam (Jacksonville, Providence, Syracuse, Filadélfia, Cincinati, Cleveland e Detroit) foram repentinantente cancelados. Uma notificaçao confidencial circulou entre os milhares de membros da Associação das Casas de Espetaculos advertindo sobre a imprevisibilidade desses concertos. Até a Universidade de Cleveland desistiu, e o grupo começava a sofrer um maciço boicote por parte dos meios de comunicação. A Buick abandonou totalmente a idéia de utilizálos como propaganda.
Mas o maior problema era a real e próxima perspectiva da condenação de Morrison pelo tribunal de Miami, a título de exemplo social. Jim levava todo o jeito de tornar-se o bode espiatório nacional quando a promotoria pediu, como sua pena máxima, sete anos e meio de prisão na pior penitenciária do Estado.
Deste dia em diante, as datas de shows marcadas na agenda do cantor foram substituidas por inúmeras audiências judiciais. Em 4 de abril entrega-se ao FBI acompanhado por seu advogado, sendo solto após pagar a fiança de 5.000 dólares. No decorrer do processo as testemunhas contradiziam-se em seus depoimentos. O clima dc absurdo kafkaniano atingiu extremos quando o jovem promotor (que condenava veementemente Jim na tribuna) aproxima-se do cantor num intervalo do processo e, vestindo um ousado terno verde e camisa laranla, embaraçado pediu-lhe um autografo em um de seus discos. Ficou claro através de sua atitude que, na verdade, lamentava a situação e estava apenas exercendo seu trabalho, pois fora designado pelo Estado para o caso. Mas o ápice desta farsa se deu dois anos depois, quando um circunspecto juiz Goodman (quem mais insistia no caráter imoral de Morrison) foi preso como corrupto.
A Elektra não estava gostando nada do que acontecia, pois investira a fabulosa soma de 80.000 dólares na produção do LP A Soft Parade (lançado em julho de 1969), cujos dispendiosos arranjos sinfônicos idealizados por Krieger foram recebidos pela unanimidade dos críticos como melosos, piegas e repletos de lugares comuns.
Mas, como o episódio Miami os tornara polêmicos em todo o país, o LP atingiu grandes índices de vendagem e a gravaciora decidiu produzir outro para o Natal. Este novo disco recebeu o mome Morrison Hotel, inspirado num pequeno estabelecimento que existe até hoje e foi utilizado nas filmagens de
The Doors, de Oliver Stone. O vigor de suas faixas mostrou que jamais houve crise de criatividade no grupo (mesmo após Miami), e seu lançamento no início de 1970 entusiasmou a crítica que recolocou os Doors no seu merecido lugar.
Morrison, por insistência de Pamela, trocou suas roupas de couro por outras do tipo
universitário, que usava no tempo da UCLA. Era preciso recolocar as coisas no lugar e procurava agora fazer o tipo "intelectual", pois acabara de lançar o seu primeiro Livro, The Lords & New Creatares. O crisol
alquímico que descreve nesta obra transformara-o profundamente no espaço de poucos anos: de promissor estudante secundário a marginal residente num armazém abandonado, e desta condição (em apenas seis meses!) a ídolo mundial do rock, decaindo finalmente à irônica realidade de inimigo público N 1, prestes a ser encarcerado na pior penitenciária da Flórida...
A verdade é que Morrison era um hardcore que estava pelo menos vinte anos à frente da ideologia daquele tempo; tanto a do sistema quanto a pseudocontestatória, deslumbrada e pasteurizada que controlava as mentes de milhões do jocosamente chamado "rebanho que saca". Um dos poucos comentários feitos pelo cantor sobre Miami foi o seguinte: "O que qoe mais os revoltou foi tê-los chamado de idiotas. Mas de qualquer maneira, o que faziam eles lá? A idéia básica era mostrar-lhes que não estávamos naquele lugar apenas para ouvir música. Estava-se lá para muita coisa além disso. E também não agüentava mais manter aquela imagem que tinha sido criada em volta de mim. A única obscenidade que conheço é a violência!".
Por incrível que pareça, um dos poucos lugares que não cancelou os concertos foi a Cidade do México. O maior sucesso do grupo por aqueles lados era 'The End'. O México foi o único país onde esta longuíssima canção (de forma alguma comercial) tinha estourado como single chegando ao primeiro lugar em vendagem.
Quando Morrison começou a declamar o insólito monólogo:
Pai!
Sim filho?
Quero te matar.
Mãe, eu quero...
o silêncio era total no estádio, seguido de uma ensurdecedora aclamação. Após o espetáculo, Jim perguntou a um amigo mexicano qual a razão
por tanta admiração à 'The End'. "Acho que o México é uma nação edipiana", respondeu ele...
Encontra-se com o antropólogo brasileiro Carlos Castañeda* e lhe propõe a filmagem de seu livro Ensinamentos de Don Juan. cujo roteiro procurari abordar a questao do xamanismo de forma radical e realista.
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* Carlos Castañeda é brasileiro, nascido no interior de São Paulo. Radicou-se posteriormente no Peru e na Califórnia, onde doutorou-se em Antropologia.
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O grupo desloca-se à ilha de Wight, ao norte da Inglaterra, onde se realiza um grande concerto dc rock com os nomes confirmados de Hendrix, The Who e outros. Apresentam-se às duas da manhã sob frio intenso e péssimas condições de som. Nunca tinham se dado bem ao ar livre e o resultado foi catastrófico. Um crítico inglês definiu a apresentação como "O mesmo que ouvir um disco dos Doors num equipamento com defeito". Morrison, nestes dias, participa da gravação de um disco pirata na casa de Robert Plant onde canta ao lado das guitarras de Hendrix e Johnny Winter. Jim parece estar totalmente narcotizado e balbucia palavras sem nexo nesse registro denominado SkyHight.
Bebe cada vez mais e seu corpo começa a ficar totalmente inchado. Vive continuamente num estado de suspensão etílicoheroinado bem definido por suas palavras: "Ninguém tem forças para agüentar as viagens alucinógenas para sempre. Em vez de procurar pensar cada vez mais tenta-se num segundo estágio anular o pensamento. Entra-se então no reino dos narcóticos sendo o álcool apenas um deles junto com a heroína e os barhitúricos".
Em 30 de outubro de 1970, o tribunal de Miami julga-o culpado, dando-lhe a pena de sessenta dias por profanação e seis meses por exibição indecorosa que seriam cumpridos sob a forma de trabalhos forçados na penitenciária de Dade Country, além de 500 dólares de multa. Após a pena, teria ainda pela frente dois anos e quatro meses de condicional. Seu advogado apela e Jim é solto provisoriamente, após pagar a fiança de 50.000 dólares.
A Elektra tem a idéia de utilizar várias gravações ao vivo (detêm até hoje grande material inédito) e lançá-las num álbum duplo, o Absolutely Live. No fim do ano foi produzido outro disco (para o Natal) contendo seleções dos anteriores, que recebeu o nome de 13.
Em janeiro de 1971, o estúdio estava preparado para mais uma antológica gravação: recebia, além dos membros do grupo, Jerry Schef, o baixista de Elvis Presley, e Marc Benno na guitarra base. Após as duvidosas experiencias orqyestraus de A Soft Parede, O ideal de todos era tentar reencontrar o ímpeto dos primeiros registros. O clima era de grande apoteose pois O contrato com a Elektra termirara. O disco receberia posteriormente o nome de L.A. Woman (Mulher de Los Angeles).
Uma das musicas do LP, Riders On The Storm (Viajantes na Tormenta), foi escrita inspirada no episodio do índios que tanto emocionara Jim. Entre distantes estrondos de trovões, o piano elétrico de Manzarek emite fluidas gotas cristalinas de puro som mandalizadas num contraponto preciso a reveverbaçao magmática da voz de Morrison. LA. Woman foi gravado em apenas uma semana e recebeu a aclamação unânime dos críticos, apos seu lançamento em abril de 1971.
Jim parte para Paris. Mas por quê Paris? Talvez por suas Ieituras que tanto o haviam entusiasmado na adolescência. Rimbaud, Baudelaire. Lautreamont... Começa a escrever freneticamente.
Suas relaçoes com Pamela estavam ótimas e resolvem partir para uma viagem idílica pela Espanha e Marrocos. Em París, hospedam-se no George V e no discreto L'HoteI, além de terem a disposição o apartamento vazio de um amigo na rua Beautrellis. Raspada a barba e caminhava freneticamente pelas ruas, visitando sempre o hotel de Lazun onde Baudelaire se reunia no lendário "Clube de Hashish". Começa a frequentar o Rock and Roll Circus, local favorito dos junkies parisienses. Numa destas incursões, bebeu até altas horas da noite, quando foi levado até o apartamento de Hervé Muller (qie posteriormente traduziria, a pedido de Morrison, os pemas deste para o francês).
É de Muller, amigo de seus últimos dias, o depoimento mais preciso sobre o que aconteceu naquele 2 de julho de 1971.
Jim mais urna vez dirigiu-se ao Rock and Roll Circus, procurando heroína. Existe o relato de um chinês que até detalha a qualidade da substância vendida: era extremamente pura (99%) e o traficante pediu-lhe que fosse devagar ao cheirá-la. Jim começou a beber demais e ao que parece entrou em "over" no banheiro do Circus (este bar existe até hoje e, por ironia, com o nome de Whískey a Go-Go). De lá, foi retirado às pressas pelos fundos e transferido, em coma (ou já morto), para o apartarnento da rua Beautrellis.
Segundo o relato de Parnela, Jim não estava passando bem há vários dias e, nessa noite, foi tomar banho e teve uma parada cardíaca na banheira, onde morreu entre quatro e cinco da madrugada. A partir deste momento, existe urna conspiração de silêncio: Morrison foi enterrado no Pêre Lachaise e na verdade ninguém, a não ser Pamela (morta em 77 de overdose de heroína), viu o corpo.
Este mistério vem dando margem a todo tipo de especulações que vão desde a teoria de que ele teria sido envenenado pela CIA (juntamente com Joplin e Hendrix) até a que afirma categoricarnente que Jim está vivo morando no Marrocos com outro nome e não quer nem ouvir falar em arte (como Rimbaud).
Sua obra desperta hoje um interesse crescente. Seus livros tornaram-se best-sellers e são estudados em universidades. Suas músicas continuam (em CD) cada vez mais atuais e um filme que refaz sua trajetória biográfica, The Doors, está atraindo milhões de pessoas em todo o mundo, sendo considerado pouco após o lançamento um campeão de bilheteria. Dirigido pelo grande cineasta Oliver Stone (Platoon), traz VaI Kilmer no papel principal e conta até com a participação de John Densmore. A trilha sonora, lançada em disco, apresenta uma seleção não muito representativa das músicas dos Doors mixadas com a voz de Kilmer, além de trazer outras faixas como, por exemplo, a antológica 'Heroin' de Lou Reed. Manzarek, ao saber do filme, não gostou pois queria ele mesmo rodá-lo ejá possuía até um roteiro pronto. Robie Krieger o achou muito melhor que esperava e, segundo suas palavras, "Receava, pois não tínhamos o menor controle sobre Stone, mas creio que foi melhor assim; antes a visão dele, que é brilhante, do que a de um diretor medíocre."
Mas é realmente impressionante a semelhança de Kilmer Com Morrison em certas cenas. Numa delas, a cãmera sohrepoe a imagem do ator a de Morrison, numa fusão "tautológica".
Segundo o diretor Oliver Stone, o filme utiliza imagens que vão do psicodélico ao infernal e, através de um "assalto aos sentidos", refaz a trajetória deste heroi mítico de nossos tempos - "parte Dionísio, parte Orfeu, parte Fausto."
O ultimo poema de Jim foi encontrado após sua morte, em Paris:
Todo o humano se esvai de sua face
Logo ela desaparecerá no calmo pântano vegetal
Fique!
Meu amor selvagem!