| O | D | E | S | P | E | R | D | Í | C | I | O |
As novas tecnologias desempenharam um papel importante nesse processo, fazendo com que muitos aparelhos melhorassem seu desempenho (embora essa melhora nem sempre fosse perceptível ou realmente necessária) e diminuindo a vida útil do produto. Para citar apenas alguns exemplos: há 20 anos atrás, um tênis de boa qualidade podia ser mal tratado na prática de todos os esportes e, ainda assim, duraria mais de cinco anos. Hoje, com toda a tecnologia existente, não dura mais de 6 meses.Um detergente para lavar louça, há alguns anos atrás, lavava mais do dobro do que um detergente de hoje. Agora criaram o super concentrado que lava a mesma quantidade que o antigo, porém é mais caro. As lâmpadas incandescentes têm sua vida útil reduzida a cada ano que passa e, como queimam com mais facilidade, têm de ser trocadas com mais frequência. Uma boa medida da evolução da qualidade dos produtos é a garantia. Uma geladeira trinta anos atrás tinha 5 anos de garantia; hoje tem apenas um ano. Outros produtos passaram de dois anos de garantia para um ano, seis meses, e muitos não passam de apenas trinta dias. No caso de aparelhos mecânicos ou elétricos, a falta de peças de reposição também funcionou como um empurrão para a compra de novos produtos. Tudo isso simplesmente para manter a economia girando, produzindo cada vez mais e levando o desperdício de matéria prima às alturas. Mas foi a propaganda que realmente conseguiu tornar realidade a era do descartável.
A propaganda consegue tornar necessários aspectos que são apenas secundários nos produtos: é um botãozinho a mais que faz não-sei-bem-o- quê, um novo design ou novas cores da moda. Tudo isso faz com que os consumidores troquem os seus bens por outros (e cada vez mais rapidamente), sem que haja uma sensível melhora que justifique a troca. Com isso a produção aumenta, o lixo dos aparelhos antigos abarrota as cidades, os recursos naturais se esgotam e os lucros dos industriais engordam. Um tremendo desperdício só para satisfazer aos capitalistas.
Não é só o desperdício industrial que faz parte do cotidiano de nossa sociedade. Há o desperdício na agricultura, por exemplo, quando safras inteiras são jogadas fora porque não alcançaram o preço mínimo que o produtor pretendia. Ou seja, quando o alimento fica muito barato, é melhor jogar fora para diminuir a oferta e, com isso, aumentar o preço, do que vendê-lo a preço baixo ou doá-lo para os carentes. Esse tipo de coisa é característico e único na sociedade capitalista.
Há ainda o principal desperdício de todos: o desperdício humano. Todos os seres humanos nascem com determinados talentos e vocações que não conseguem concretizar-se durante sua vida. (v. trabalho). Por exemplo, há o indivíduo que tem talento para a música, mas como é uma atividade que rende pouco no Brazil, ele procura uma faculdade de medicina, engenharia ou computação, porque são profissões que pagam melhor. Em vez de se tornar um bom músico ele acaba por exercer mal a medicina. Isso sem falar daqueles que nem têm direito a qualquer opção. Jamais saberemos quantos "Einsteins" ou "Beethovens" existem entre os operários, cortadores de cana ou balconistas, porque eles não tiveram acesso à educação livre para saberem quais eram as suas verdadeiras vocações. Enfim, o desperdício humano é aquele que é responsável pela grande quantidade de profissionais em determinada área de trabalho e maus profissionais na maioria das atividades necessárias ao funcionamento da sociedade em que vivemos.