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azia calor, muito calor! E fazia-se acompanhar  por  uma  taxa  de  humidade
tque colocava a agulha do meu higr�metro port�til nos  85%, o  que  tornava  os nossos corpos pegajosos, indesej�veis.
      Mas, como  aquele que corre por gosto sempre se cansa um pouco  menos, suport�mos com estoicismo a inclem�ncia daquele abrasador  sol  africano, aju-dados, � certo, pela sombra de uma  providencial mangueira, de porte imponen-te e secular, que se encontrava � beira da estrada.
      J�  tinham passado cerca de duas  horas, quando uma long�nqua  miragem, ondulante e muda, se tranformou num cami�o de verdade, rangendo e tossindo de verdade, com ferrugem, muita ferrugem, feita de muitas verdades. Vinha car-regado de arroz, o saboroso man� das bolanhas da Guin�-Bissau, e o seu apa-
recimento, constribuiu para o renovar da esperan�a de poder continuar a atravessar este pa�s africano � boleia.
Mamadu D�Jal�, o sorridente motorista, seguramente de bem com a vida, quase n�o esperou que ped�ssemos o que era mais que �bvio.
      Os quinze quil�metros que separam a tabanca de Sindjamade da localidade do Saltinho foram percorridos  num  �pi-ce, apesar do reum�tico e das patologias v�rias de que padecia este velho dinossauro das  picadas  africanas, porque o asfalto, recentemente colocado pela coopera��o italiana, estava em �ptimo estado.
      Saltinho � o nome da pequena � leia-se min�scula � povoa��o na margem esquerda  do  Rio  Corubal. Foi  lugar  de import�ncia estrat�gica militar, durante a guerra colonial, visto que a ponte de quatro arcos que passa sobre  os  r�pidos do rio � da� a designa��o do lugar � era o elo de liga��o entre o sul e o norte do pa�s, ou, mais exactamente, entre o sul e a capital, Bissau.
      Poucos anos ap�s a constru��o da referida ponte, em 1955, houve necessidade de ali colocar uma guarni��o militar permanente, visto a col�nia se ter come�ado a confrontar com um movimento  de  guerrilha  pr�-independ�ncia, liderado pelo PAIGC � Partido Africano para a Independ�ncia da Guin� e Cabo Verde.
      Resolvemos procurar um pequeno bar onde matar a sede com algo que se deixasse beber melhor que  a  �gua  que lev�vamos � nesse momento em condi��es de poder preparar uma qualquer  infus�o � mas  tal  redundou  em  fracasso total.
      N�o esperava encontrar nenhuma �loira� geladinha, visto estar num pa�s essencialmente mu�ulmano � as loiras, com e sem aspas, s� se encontram na capital � mas nem sequer um exemplar, fresco, daquela  universal  e  quase  omnipre-sente mistela yankee, que se pode encontrar nos lugares mais rec�nditos do  planeta. E  cujo  vasilhame  pode, com  um pouco de �sorte�, atingir um pac�fico bosqu�mano, em pleno deserto do Kala�ri!Tamb�m as sombras n�o abundavam  ali na povoa��o. Repar�mos ent�o que na margem oposta a vegeta��o  era  bastante  frondosa, e  explicaram-nos  que  ali existia uma tabanca, a principal do lugar.
      Era uma tabanca implantada no meio de frondosas mangueiras, com o seu terreiro central bem varrido, e com  o  ha-bitual cen�rio das pequenas aldeias africanas: as crian�as, em bando, as galinhas esgravatando um  pouco  por  todo  o lado, um ou outro cabrito passeando livremente, um c�o com sarna, um par de robustas  mulheres  esmagando  o  milho no  enorme pil�o, tudo em perfeita harmonia. Uma jovem
bajuda (1), de corpo esbelto e firme, cruzou-se connosco �  en-trada da aldeia e aproveitei para lhe perguntar se o �homem-grande� estava. Apontou na direc��o da fresca e  sombrea-da varanda da palhota mais linda e grande, e pude ent�o perceber que, �  sua  sombra, numa  quase  penumbra, se en-contrava algu�m repousando numa rede.
      � medida que nos �amos aproximando, pude perceber que um anci�o, de carapinha  branca  mas  idade  indefinida - imposs�vel de adivinhar para os nossos padr�es fision�micos � fumava, com ar digno e  pose  selecta, um  pequeno  ca-chimbo artesanal. Foi ent�o que, dando pela nossa presen�a, o velho se p�s de p� num �pice, com  inesperada  agilida-de e eu, tomando a dianteira � mulher que me acompanhava, segundo a tradi��o local, cumprimentei-o com um  firme  e sincero aperto de m�o, inclinando respeitosamente a cabe�a.
      Fez-se sil�ncio na aldeia. Percebi, ent�o, que n�o era todos os dias que naquele lugar perdido no meio do continen-te negro, a quase duas d�cadas da  partida dos �ltimos homens brancos, uma cena como esta acontecia. Abdu-Fati, de seu nome, chefe tribal mu�ulmano respeitad�ssimo, da idade da sabedoria, e o �Homem-Grande� da tabanca do Saltinho, na margem esquerda do Rio Corubal, apertou, vigorosa mas solenemente, a minha m�o, sorrindo. Era um  ine-qu�voco sinal de boas-vindas !
      Est�vamos em pleno Ramad�o, e os rituais di�rios sofrem algumas altera��es, ficando toda a vida  da  aldeia  condi-cionada por este per�odo de renova��o e purifica��o dos crentes mu�ulmanos. Dos hor�rios para orar, at� ao regime de jejum e abstin�ncias v�rias que vigora, tudo muda um pouco. No entanto, e justamente porque n�o cheg�mos na melhor altura, real�o ainda mais a disponibilidade e a fraternidade deste soberano local, que p�s toda aquela aldeia  por  nossa conta, come�ando por ele pr�prio, que nos disponibilizou a sua bela e fresca casa, retirando-se para  um  humilde  quar-tinho, onde mal cabia uma esteira para se deitar. Gostaria de saber quantos pretensos civilizados fariam o mesmo!


(1) - mo�a jovem, adolescente, supostamente virgem
continua��o. . .
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