| - Voc�s viviam do que a granja dava? - perguntei com interesse por este modo de vida simples e alternativo, enqu-anto olhava para o azul-celeste daqueles olhos, t�o bonitos, expressivos e bondosos. - Sim, mas o Oskar n�o estava conformado. Queria ter o mesmo n�vel de vida que tinha na Alemanha. Um dia decidiu montar um viveiro de lontras, porque supostamente dava dinheiro, e foi � fal�ncia. Esqueceu-se que as lontras precisa-vam de um lago ou de uma pequena lagoa por perto. Passei dias e dias enterrando aquelas pobres criaturas! Aos oitenta e sete anos vive sozinha, contando apenas com a ajuda de um vizinho, o Leo, que lhe faz as compras e a comida, e a ajuda a tratar do quintal e do jardim. No entanto, estas ajudas s�o acompanhadas de protestos vigorosos por parte de Emilie, que pretende executar todas as tarefas com as pr�prias m�os. Esta mulher que j� foi recebida pelo Papa no Vaticano e por Bill Clinton na Casa Branca, tem imenso pudor em falar destes momentos, preferindo recordar outras homenagens, para ela mais sentidas e gratificantes. - No final da guerra, quando os russos entraram triunfantes na Alemanha, muitas mulheres alem�s foram violadas. Eu, no entanto, fui poupada porque os meus amigos judeus me esconderam - conta, com a gratid�o no olhar. Quando lhe pergunto o que sente de cada vez que a condecoram nalgum lugar do mundo, responde apenas "Fiz o que pude!". - Nada mais? - insisto. - N�s salv�mos mil e duzentas pessoas. Eles mataram seis milh�es. . .!!! - diz com desalento. Percebe-se na sua res-posta uma ponta de frustra��o, como se n�o tivesse feito o bastante para aliviar o sofrimento alheio. Apesar de alguns achaques f�sicos, como uma h�rnia discal que lhe produz dores e lhe limita a mobilidade, e de uma incomodativa �lcera, Emilie conserva intacta uma caracter�stica desconcertante da sua personalidade: o seu enorme sentido de humor. - Porque nunca tiveram filhos? - pergunto. - Porque eu abortava sempre. Mas s� Deus sabe como tent�mos, e tent�mos, e tent�mos... � diz, e ri-se, com mal disfar�ada mal�cia. - Nunca pensou em voltar a casar-se? - questiono. - Preciso tanto de um marido como de um fur�nculo. Prefiro o meu c�o, que n�o protesta quando me zango com ele - ri, divertida como uma crian�a feliz. - No entanto esteve casada trinta anos. - afirmo em jeito de provoca��o. - Desculpe, estive equivocada trinta anos!!! - exclama perempt�ria. Quando lhe pergunto como se separaram, explica: "Ele um dia foi � Alemanha para receber uma indemniza��o de 50.000 d�lares pela f�brica que t�nhamos perdido e nunca mais regressou. Assim foi!" A conversa tinha-se alongado por quase tr�s horas. Sentia que, embora esta est�ica mulher nunca tenha deixado de sorrir ao longo da nossa conversa, aquele corpo pequeno e fr�gil - pequeno demais para a alma que leva dentro - necessitava de descanso. Para terminar, e em jeito de despedida, pergunto-lhe se tem algum momento feliz que queira recordar. Respira fun-do, olha-me nos olhos, e exclama: "A minha inf�ncia! A minha inf�ncia foi muito linda, muito feliz. O meu pai, Joseph, era agricultor. Viv�amos rodeados de animais: vacas, ovelhas, c�es, gatos, p�ssaros e at� um cavalo, que um dia me mor-deu". Ri-se. "Pap� dizia: "Emilie, se souberes o que queres, ter�s sempre aquilo que quiseres". Sei o que quero: sa�de, uma vida simples, paz interior, algum bom livro por perto e plantas e animais � minha volta. Por isso tenho aquilo que quero!". Sem coment�rios, acrescento eu. Igual a si pr�pria, Emilie, simplesmente Emilie! |
| continua��o de "Emilie. . ." |
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