hecer pessoalmente, como se passou comigo com a presente personagem, verdadeira  gi-gante do  Humanismo - n�o um humanismo feito de concep��es filos�ficas meramente  te�-ricas, ou de rendilhados discursos proferidos em sal�es com anafadas alcatifas ou reluzen-tes pisos de nobre madeira  ex�tica, mas um humanismo de ac��es  concretas no  terreno, como � o caso - ent�o sentimo-nos esmagados  perante  tanta  grandeza  de  alma. A  sua irrepreens�vel conduta �tica, o seu exemplo de vida e o seu  pensamento est�o  impregna-dos de  tanta humildade e coer�ncia que deixamos cair por  terra, envergonhados, as  nos-sas insignificantes vaidades, a nossa m�sera mesquinhez existencial.
S� dois anos depois de a "Lista de Schindler" ter sido estreada no grande ecr� � que tive a oportunidade de a ver em televis�o.No entanto, a raz�o que me impediu de ir a "um cinema perto de mim" - encontrava-me a viver algures num min�sculo
pueblito perdido da "querida civiliza��o", em plena mesopot�mia argentina - foi a mesma  que  me  possibilitou conhecer
pessoalmente esta anci� maravilhosa, mulher de car�cter forte, gestos decididos e sorriso f�cil, apesar dos seus oitenta e sete anos.
     A minha chegada a sua casa foi anunciada por um mestre-de-cerim�nias chamado Chupi que, aos latidos, me dava as boas-vindas. Uma idosa senhora, de farta cabeleira branca, encontrava-se no meio de um pequeno bosque, feito de �rvores de fruta e de sombra, plantas trepadeiras, flores vistosas e p�ssaros em quantidade indescrit�vel.
     - Boa tarde, se�ora - cumprimentei com respeito.
     - Ol�, boa tarde! - respondeu, enquanto iniciava uma esfor�ada caminhada na minha direc��o.
     - Passe, adiante! - acrescentou com firmeza e sinceridade.
Avancei ent�o com um passo pouco firme, visto ser seguido de muito perto por Chupi, com uma atitude de quem d� pou-cas facilidades a estranhos.
     - O meu nome � Jaime. Como � que quer que a trate,
se�ora? - perguntei.
     - Emilie, simplesmente Emilie.
     Emilie, simplesmente Emilie, para toda a gente, conhecidos ou n�o, todos por igual, ela que j� usou em tempos um a-pelido que a tornou famosa no mundo inteiro: Schindler !
A mulher que, conjuntamente com o seu marido, ajudou a salvar de uma morte certa mil e duzentos (!!!) judeus! Mil e du-zentos seres humanos que, deste modo, n�o foram engrossar a lista da barb�rie, do horror, composta por cerca de seis milh�es de almas. Gente que, para os "senhores" do Terceiro Reich, mais n�o eram do que n�meros, do que simples es-tat�stica no dizer de Goebbels, um dos principais mentores da maior inf�mia cometida at� hoje contra a ra�a humana.
     Rodeada por uma prole de in�meros gatos - talvez vinte, talvez trinta, talvez mais - e cercada de verde por todos os lados, que ela mesmo plantou e cuidou ao longo de trinta e nove anos, esta av�zinha, que teve tantos filhos mas nunca foi m�e biol�gica, � feliz cercada de vida. E, como se n�o bastassem os animais dom�sticos, tenta ainda atrair a aten��o da passarada, enchendo com sementes e restos de p�o um comedor em forma de tabuleiro, espetado no cimo de um pau, ao fundo do quintal.
     Um dos sobreviventes do holocausto nazi, o ex-juiz do Supremo Tribunal de Justi�a de Israel, Moshe Beinsti, teste-munhou numa carta, que foi lida em Buenos Aires em 14 de Setembro de 1993 aquando de uma cerim�nia de condeco-ra��o pelo seu trabalho humanit�rio, o seguinte: "
Ainda vejo diante de mim a imagem da senhora Schindler, carregando pesadas panelas com sopa de legumes que ela mesmo cozinhava, cuidando e alimentando a quase cem esqueletos vivos, alguns dos quais n�o pesavam mais de trinta e cinco quilos".
     A meio da conversa, e quando se deu a oportunidade, pois n�o queria que este inesquec�vel encontro - e tamb�m li-��o de amor e de vida, para mim - se transformasse em mais uma das in�meras entrevistas que esta mulher simples teve que dar, a partir do momento em que a fama for�ada lhe bateu � porta, perguntei-lhe como lidava ela com esta nova situ-a��o de estrelato compulsivo. "Mal!", respondeu sem hesitar. "Para que serve a fama? Quando tenho que viajar, como foi o caso das visitas a Roma e a Jerusal�m, durmo mal, doem-me as costas, canso-me... gostava mais antes! Porque antes, fazia o que queria e o telefone nunca tocava".
     Contou-me ent�o que vive de uma pequena reforma como trabalhadora aut�noma, e de trezentos e sessenta e cinco d�lares mensais que lhe s�o enviados, desde Nova Iorque, por duas organiza��es judias. Foi uma destas organiza��es, a Jont, que a trouxe a ela e ao falecido Schindler para a Argentina. Chegaram de barco, que foi a forma como sempre chegaram a este pa�s os deserdados da sorte. O grande Jorge Luis Borges dizia, como forma de ilustrar a g�nese deste povo feito de emigrantes das mais variadas proced�ncias, "n�s, os argentinos, somos filhos dos barcos". Como ajuda pe-o facto de serem refugiados de guerra, deram-lhe 15.000 d�lares, e decidiram ent�o montar uma pequena granja.
     "T�nhamos vacas, galinhas e ovos com fartura...", comenta, fazendo uma pausa e distanciando o olhar, como que � procura de imagens distantes.
     - Em que pensa? - pergunto-lhe
     - Nos ovos! Os nazis tinham proibido os judeus de comer ovos!
     Indago ent�o se sabia da raz�o de ser desta atitude dos verdugos hitlerianos, mas respondeu-me que era mais uma das tantas aberra��es ditadas por aquelas mentes retorcidas e perversas. Explica��o racional e plaus�vel n�o tinha!
H
         � pessoas, cujo exemplo de coragem, de entrega, de dedica��o,  em suma, de amor ao seu semelhante, nos marcar�o para sempre. Mas, se temos a oportunidade de as  con-
continua��o...
EMILIE, SIMPLESMENTE EMILIE
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