De
1964 em diante, com o garrote militar intimidando a criação
artística, vi-me obrigado a enveredar, de fato, pelo teatro
do Absurdo. São dessa época o texto perdido intitulado A Casa
Sitiada e, ainda, Quem Roubou meu Anabela?, Queridíssimo Canalha
e Sexta-Feira das Paixões e a comédia tardia Surpresa de Verão.
Embora
definidos como teatro do Absurdo ou, na melhor das hipóteses,
como dramaturgia ligada à literatura Fantástica que, então,
caracterizava a criação literária na América Latina, esses textos
denunciavam, a seu modo, o caráter letal da ditadura. As peças
produzidas transpõem a violência, presente no âmbito político,
para o círculo familiar ou para, digamos, o círculo do gangsterismo,
como é o caso de Queridíssimo Canalha.
Quando
nos defrontamos com um oponente das dimensões de uma ditadura
-e ditaduras sempre se fizeram presentes nesta nação infeliz-
fica-se questionando qual o teatro possível em condições tão
adversas. Por isso, antes de tudo, era preciso driblar o regime
e manter-se vivo. Depois, seguiam-se outras mazelas: enfrentar
uma censura boçal e castradora, as naturais dificuldades para
levantar um espetáculo e, mais uma vez, a censura da peça antes
da estréia.
Escrever
sem ser preso ou sem sofrer maiores violências do que passar
um final-de-semana prestando depoimento numa delegacia qualquer,
era uma verdadeira proeza, já que os informantes estavam por
toda parte.
Quando
os ditadores cansaram do poder, parecia que bons ventos soprariam.
Podíamos rir de novo e fazer rir. Em 1981, estréia O Cabaré
de Maria Elefante, colagem de vários textos curtos costurados
por uma situação básica. E a partir daí, atenuado o caráter
absurdista dos textos, pude mergulhar, amparado pelos mitos
gregos, nas paixões que movem os atos e os gestos humanos: sem
ter de denunciar nada, era-me possível, agora, examinar a alma.
A Trilogia Perversa resultou dessa descida aos Infernos.
No
entanto, o que parecia uma etapa de bonança nos céus brasileiros,
era apenas um breve intervalo em que nos foi possível respirar
mais tranqüilamente. Aguardava-nos o presente estado de coisas.
Que
teatro escrever, é a pergunta que novamente retorna.Como denunciar,
como atacar um sistema visivelmente nocivo ao homem? Como trabalhar
com as questões que se nos apresentam, sem retornar ao surrado
teatro de panfleto e sem ter de fazer uma enfadonha dramaturgia
de tese? A pergunta é de difícil resposta e qual o modo mais
eficaz para denunciar o terror e a miséria neo-liberais no Brasil,
só o tempo poderá apontar.
Ivo
Bender