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TEXTOS |
Alain, Libres Propos (atitude
filosófica) J.M
Bochenski, O objecto da filosofia J.M
Bochenski, O que é a Filosofia?
Mª
Helena R. Pereira, Os Sofistas C.W.
Guthrie, O relativismo ético
e gnoseológico dos sofistas |
P.
Ricoeur, O discurso da acção (a
acção humana) António
Sérgio, Sobre a dimensão
crítica da Filosofia John
Searle, Acção Humana e Liberdade
J. Luis
Aranguren, O sentido da liberdade humana |
Alain, Libres ProposPensar é dizer não. Notai que o sinal é do homem que adormece; pelo contrário, o despertar sacode a cabeça e diz não. Não a quem? Ao mundo, ao tirano, ao pregador? Só aparentemente. Em todos estes casos é a si mesmo que o pensamento diz não. Ele quebra a concordância repousante. Separa-se de si mesmo. Combate contra si mesmo. Não há no mundo outro combate. É por eu consentir, por não procurar outra coisa, que o mundo me engana com as suas perspectivas, o seu nevoeiro, a sua confusão. Por respeitar, em vez de examinar, é que me torno escravo do tirano. Mesmo uma doutrina verdadeira cai em falso por causa da sonolência. É por acreditarem que os homens são escravos. Reflectir é negar o que se crê. Quem acredita não sabe sequer aquilo em que crê. Quem se contenta com o seu pensamento não pensa em mais nada. O mesmo se diga em relação às coisas que nos cercam. Que é que vejo ao abrir os olhos? Que é que eu veria se acreditasse em tudo? Uma confusão, uma tapeçaria incompreensível. Porque é interrogando cada coisa que eu a vejo. A sentinela que perscruta o horizonte é um homem que diz não (...) E os astrónomos afastaram de nós o Sol, a Lua e as estrelas por dizerem não. Notai que na primeira apresentação tudo parece verdadeiro (...).
Toda a religião é verdadeira, como também o primeiro aspecto do mundo. Mas não é com isso que eu avanço. É necessário dizer não aos sinais. Não há outra maneira de os compreender. Mas esfregar os olhos e perscrutar o sinal, isso é vigiar e pensar. O resto é dormir (...). É necessário ultrapassar a aparência (...) é preciso compreender, o qual é sempre dizer não. Não és o que pareces ser. Como o astrónomo diz ao Sol. Como qualquer homem diz às imagens invertidas na água.
Todos os termos da rede (conceptual intencionalista) convergem aqui: acção, intenção, motivação e, por último agente.
a) a acção é "de mim", depende de mim; está no poder do agente;
b) por outro lado, a intenção compreende-se como uma intenção de alguém; decidir é decidir-se a...;
c) por fim, o motivo remete também para a noção de agente: que é que levou A a fazer X? Qual a razão porque eu? Por que é que eu fui?Atribuir uma acção a alguém é, em primeiro lugar, identificar o sujeito da acção. A acção está aí, de quem é ela? A quem pertence? A um tal, e não a um tal outro. Esta atribuição (...) procede a uma identificação singular. (...) Nomeia-se a pessoa como sujeito indivisível (tal pessoa fez isto e não a sua mão) e como sujeito idêntico (aquele que fez isto é o mesmo que fez esta outra coisas) e como re-identificável (aquele que fez isto ontem é o mesmo que hoje a justifica). (...)
- A relação agente-intenção.
Atribuir uma acção a alguém é dizer que ele é o portador da intenção. Inversamente, a intenção leva a marca da pessoa. É o que se quer dizer quando se inputa a acção a alguém: atribui-se-lhe a intenção.(...)
A noção de "agency" (relação do agente com o seu poder) é tão essencial à rede de intersignificação da acção como o próprio termo de acção ou o de intenção, ou o de motivo ou o de disposição; pois a intenção é de alguém, o motivo é o que leva alguém a fazer algo; por fim, o agente é quem pode responder à pergunta: quem fez isso? mediante a resposta: Eu.
A filosofia distingue-se das restantes ciências pelo seu ponto de vista. Quando considera um objecto, vê-o sempre e exclusivamente do ponto de vista do limite, dos aspectos fundamentais. Neste sentido, a filosofia é uma ciência dos fundamentos. Onde as outras ciências param, onde elas não perguntam e dão mil coisas por supostas, aí começa a perguntar o fi1ósofo.As ciências conhecem; o filósofo pergunta o que é conhecer. Os outros estabelecem leis; o filósofo pergunta o que é a lei.0 homem vulgar fala de sentido e finalidade.0 filósofo estuda o que se há-de entender propriamente por sentido e finalidade. Assim, a filosofia é também uma ciência radical, pois vai à raiz de uma maneira mais profunda que nenhuma outra ciência. Onde as outras se dão por satisfeitas, a filosofia continua perguntando e investigando.Nem sempre é fácil dizer onde está o limite entre uma ciência particular e a filosofia. Assim, o estudo dos fundamentos da matemática, que tão belamente se desenvolveu no nosso século é, com toda a certeza, um estudo filosófico, mas está estritamente ligado à investigação matemática. Há ,no entanto, alguns terrenos onde a fronteira aparece clara. Tal é, por um lado, a ontologia ,disciplina que não trata desta ou de outra coisa, mas sim das coisas mais gerais, como o ente, a essência, a existência, a qualidade.( ... )Por outro lado, a filosofia pertence também o estudo dos valores como tais, não como aparecem na evolução da sociedade, mas sim em si mesmos. Nestes dois terrenos, a filosofia não se circunscreve a nada.
Assim viram a filosofia a maior parte dos filósofos de todos tempos: como uma ciência. Não como poesia, não como música, mas sim como estudo sério e sereno. Como uma ciência universal, no sentido em que não os um se fecha em nenhum caminho e emprega todos os métodos que sejam acessíveis .Como ciência dos problemas limite e das questões fundamentais é, por isso também, uma ciência radical que não se dá por satisfeita com os supostos das outras ciências, mas que quer investigar até à raiz.H5 que dizer também que é uma ciência extremamente difícil.(...)
Não é de admirar opiniões possam diferir tanto filosofia. Um grande pensador e não em céptico( ...)S.Tomás de Aquino, disse uma vez que só muito poucos homens, ao fim de longo tempo e não sem erros à mistura, são capazes de resolver as questões fundamentais da filosofia.
Mas o homem está, quer queira quer não, destinado à filosofia. Ainda tenho de dizer-lhes, para terminar, outra coisa: apesar' da sua enorme dificuldade, a filosofia é uma das belas. e nobres coisas que se podem fazer na vida. Aquele que alguma vez tenha entrado em contacto com um autêntico filósofo, se sentirá sempre atraído pela filosofia".
Traduzido e adaptado de
J.M. Bochenski, Introducción al pensamiento filosofico, Editorial Herder, Barcelona, 1992.
António Sérgio, A dimensão
crítica da Filosofia
Ao aprendiz de filósofo (ao jovem aprendiz, pretendo eu dizer, e na minha qualidade de aprendiz mais velho) rogo que se não apresse a adoptar soluções, que não leia obras de uma só escola ou tendência, que procure conhecer as argumentações de todas e que queira tomar como primário escopo a singela façanha de compreender os problemas: de compreendê-los bem, de os compreender a fundo, habituando-se a ver as dificuldades reais que se deparam nas coisas que se afiguram fáceis ao simplismo e à superficialidade do que se chama senso comum (...).
Ora, se o fundamental da filosofia é de facto a crítica, e se, pois, a filosofia deve ser estudada não pelo mérito das respostas precisas sobre um certo número de questões primárias, senão que pelo valor que em si mesma assume, para a cultura do espírito, a mera discussão de tais problemas, segue-se que é ideia inteiramente absurda a de se dar a alguém uma iniciação filosófica pela pura transmissão das respostas precisas com que pretendeu resolver esses tais problemas um determinado autor ou uma certa escola. Deverá pois a iniciação filosófica assumir um carácter essencialmente crítico e consistir num debate dos problemas básicos que não seja dominado pelo intuito dogmático de cerrar as portas às discussões ulteriores. (...) .
Repito: seja a filosofia para o aprendiz de filósofo não uma pilha de conclusões adoptadas, e sim uma actividade de elucidação dos problemas. É esta actividade o que realmente importa, e não o aceitar e propagandear conclusões. (...) Por isso mesmo, ao lermos um filósofo de genuíno mérito, de dois erros opostos nos cumprirá guardar-nos: o primeiro, o de nos mantermos aí eternamente passivos e de tudo aceitarmos como se fossem dogmas, de que depois tentaremos convencer o próximo; o segundo, o de criticarmos demasiado cedo, antes de chegarmos à compreensão do texto. Para evitar o escolho do segundo erro, á atitude inicial do aprendiz de filósofo deverá ser receptiva e de todo humilde.
Se achar uma ideia no texto de um Mestre que lhe pareça de fácil refutação, conclua que ele próprio é que a não percebe, e que o pensar do autor deverá ser mais fino, mais meandroso, mais facetado, mais verrumante do que ao primeiro relance se lhe afigurou: e que se lhe impõe portanto uma atenção maior (...) e o melhor processo, nessa primeira fase, é talvez o de refazermos por iniciativa nossa, com exemplos familiares da nossa própria experiência, a doutrina exposta pelo autor que estudamos, até que a tenhamos como coisa nossa, porque feita de matéria verdadeiramente nossa, e reconstruída pelo nosso espírito.Prefácio de António Sérgio a Os problemas da Filosofia, de Bertrand Russell
John Searle, Acção Humana e Liberdade
O que é que na nossa experiência nos impossibilita abandonar a crença na liberdade da vontade? Se a liberdade é uma ilusão, por que é que é uma ilusão que, aparentemente, somos incapazes de abandonar? A primeira coisa a observar a próposito da concepção da liberdade humana é que ela está essencialmente ligada à consciência. Apenas atribuímos'. liberdade aos seres conscientes. Se, por exemplo, alguém construir um robô que cremos ser totalmente inconsciente, nunca sentiríamos qualquer inclinação a dizer que ele é livre. Mesmo se achássemos o seu comportamento aleatório e impredizível, não diríamos que actua livremente no sentido em que nos pensamos a nós mesmos como agindo livremente. Se, por outro lado, alguém construir um robô acerca do qual nos convencemos de que tem consciência, tal como nós temos, então, seria, pelo menos, uma questão aberta de se ou não este robô tinha liberdade da vontade.
O segundo ponto a observar é que não é qualquer estado da consciência que nos fornece a convicção da liberdade humana. Se a vida consistisse inteiramente na recepção de percepções passivas, então, parece-me que nunca conseguiríamos formar a ideia da liberdade humana. Se nos imaginássemos a nós mesmos totalmente imóveis, totalmente' incapazes de nos movermos e incapazes até de determinarmos o curso dos próprios pensamentos, mas, apesar de tudo, recebendo estímulos, por exemplo, suaves sensações dolorosas periódicas, não haveria a menor inclinação para concluirmos que temos liberdade da vontade
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A maior parte dos filósofos pensam que a convicção da liberdade humana está essencialmente. ligada ao processo da decisão racional. Mas penso que isso é só parcialmente verdadeiro. De facto, ponderar razões é apenas um caso muito especial da experiência que nos fornece a convicção da liberdade. A experiência característica que nos dá a convicção da liberdade humana, e e uma experiência da qual somos incapazes de arrancar a convicção da liberdade, é a experiência de nos empenharmos em acções humanas voluntárias e intencionais. Na nossa discussão da intencionalidade, concentrámo-nos naquela forma de intencionalidade que consistia em intenções conscientes na acção, intencionalidade que é causal da maneira como a descrevi, e cujas condições de satisfação são' que certos movimentos corporais ocorram e que ocorram como causados por aquela genuína intenção na acção. É esta experiência a pedra basilar da nossa crença na liberdade da vontade. Porquê? Reflictamos com todo o cuidado no carácter das experiências que temos, quando nos empenhamos nas acções humanas normais da vida da cada dia. Veremos a possibilidade de cursos alternativos de acção incrustados nessas experiências. Levantemos o braço ou atravessemos a rua ou bebamos um copo de água e veremos que em qualquer ponto da experiência teremos um sentido de cursos alternativos de acção para' nós disponíveis.Se alguém tentar expressar em palavras a diferença entre a experiência de percepcionar e a experiência de agir é que, na percepção, se tem esta sensação: «Isto está a acontecer-me», e, na acção, a sensação é a seguinte: «Faço isto acontecer.» Mas a sensação de que «faço isto acontecer» traz consigo a sensação d.e que «poderia fazer' alguma coisa mais». No comportamento normal, cada coisa que fazemos suscita a convicção válida ou inválida de que poderíamos fazer alguma coisa mais, aqui e agora, isto é, permanecendo idênticas todas as outras condições. Eis, permito-me afirmar, a fonte! da nossa inabalável convicção na nossa vontade livre. É talvez importante salientar que' estou a discutir a acção humana normal. Se alguém está a braços com uma grande paixão, se alguém se encontra numa cólera imensa, por exemplo, perde esse sentido da liberdade e pode mesmo surpreender-se ao descobrir o que está a fazer.
( ..) Mas, no caso típico da acção intencional, não existe modo algum de erradicarmos a experiência da liberdade. Ela é uma parte essencial da experiência do agir. Isto explica também, creio eu, porque é que não podemos abandonar a nossa convicção de liberdade. Achamos fácil abandonar a convicção de que a Terra é chata, logo que compreendemos a prova para a teoria heliocêntrica do sistema solar. De modo semelhante, L, quando olhamos para o pôr do Sol, apesar das aparências, não nos sentimos compelidos' a crer que o Sol está a pôr-se por detrás da Terra. Cremos que a aparência do pôr do Sol é simplesmente uma ilusão criada pela rotação da Terra. Em cada caso, é possível abandonar uma convicção de sentido comum, porque a hipótese que a substitui explica as experiências que levaram a essa convicção em primeiro lugar e explica igualmente um vasto conjunto de outros factos que a concepção de senso comum é incapaz de explanar. Eis porque deixámos de lado a crença numa Terra chata e o «pôr do Sol» literal em favor da concepção copernicana do sistema solar. Mas não podemos de modo semelhante abandonar a convicção de liberdade, porque esta convicção está inserida em toda a acção intencional normal e consciente. E usamos esta convicção para identificarmos e explicarmos as acções. Esse sentido de liberdade não é apenas uma característica de deliberação, mas é parte de' qualquer acção, seja premeditada ou espontânea. O ponto nuclear nada tem essencial mente a ver com a deliberação. A deliberação é apenas um caso especial.
Não navegamos na Terra com base na suposição numa Terra chata, mesmo se a Terra' parece chata, mas agimos no pressuposto da liberdade. Efectivamente, não podemos agi' de outra maneira senão com base na suposição da liberdade, pouco importando o que aprendemos acerca do modo como o mundo funciona enquanto sistema físico determinado.
John Searle, Mente, Cérebro e Ciência, pp-114-118
Topo
Filipe Rocha, As condicionantes da acção humana
Consideremos a situação existencial, concreta, do homem no mundo. Encontra-se ele mergulhado nos acontecimentos que o envolvem, sujeito à fortuna, à adversidade, ao acaso, às variantes e caprichos dos outros. Também as coisas sobre ele influem pela necessidade que delas tem. Os outros homens motivam-no, de mil formas variadas, influenciando-o até no mais íntimo dos seus sentimentos. Diversíssimas as solicitações, os gastos, as antipatias, as inclinações que povoam o mais recôndito da sua consciência. Interesses, paixões, aspirações secretas, tudo conspira, no sacrário íntimo do seu ser, para o induzir a uma preferência, tudo participa, a seu modo, na formação do carácter humano e, através dele, na elaboração da própria personalidade. (...)
Eu sou um indivíduo corado, forte, pensativo que vive num quarto pintado de verde e gosta de ler bons livros. Estas facticidades não determinam a minha liberdade, mas é a! partir delas que a minha liberdade se exerce efectivamente. Por outras palavras: todo o homem existe em «situação. E a situação de cada um é todo aquele complexo de facticldades de natureza corpórea e mental, social e económica, libertadoras ou amarfanhantes, construídas ou gratuitamente aceites. Começa logo pelo corpo. A minha carne é a primeira facticidade, agradável ou incómoda, que tenho de aceitar. Não me posso desfazer dela. E, com a carne, advieram-me certos modos preferenciais de reacção, determinados complexos instintuais com matizes específicos, para não falar da «fortuna» hereditária das inúmeras gerações que me precederam. A facticidade física pode modificar-se com o andar dos tempos, de acordo com leis, tantas vezes, independentes da minha vontade. A cada idade, a cada época biológica corresponde, no seu conjunto, uma fórmula instintiva diversa.
A liberdade do homem é assim a liberdade duma pessoa, desta pessoa concreta, portadora de determinada herança psicobiológica e colocada voluntária ou involuntariamente em determinada situação, perante ela mesma, perante o mundo das pessoas e das coisas e perante os valores que a transcendem. Ser livre exige, antes de mais, que se aceitem estas condições, em ordem a fazer delas pontos de partida para a conquista duma liberdade sempre maior. «A liberdade - escreve E. Mounier -, tal como o corpo, só progride perante obstáculos, opções e sacrifícios. (...)
De facto, o existente sou eu enquanto encarnado. O corpo coloca-me em relação com as criaturas materiais - asserção igualmente verdadeira para o homem actual, como para o homem primitivo. No seu livro Journal Métaphysique, reflectia Marcel acerca da ligação do seu eu com o próprio corpo e pergunta-se ansiosamente qual o significado desta expressão «meu corpo„. Quanto mais o homem se torna senhor do universo, mais dele tem necessidade. O homem domina á matéria; mas quanto mais perfeitamente a domina, mais intensamente por ela é condicionado. A influência do universo sobre o homem é palpável v. g. no influxo do clima sobre os temperamentos e as raças...
Pertença rigorosamente pessoal, o meu passado está Inevitavelmente vivido, não apenas sob a forma das circunstâncias que me envolveram durante os anos da minha existência, mas ainda sob a forma do conjunto de decisões mais ou menos pessoais, graças às quais tomei posição face ao ambiente que me rodeava. Não posso deixar de ter feito o que fiz: não sou capaz de viver de novo aquele entusiasmo que me fez herói ou o temor que de mim fez um cobarde e agora me definem como o homem que, em dada ocasião, foi herói e, noutro momento, foi reles.
O passado não abrange apenas, em seu âmbito, uma série maior ou menor de factos irreversíveis, senão que me levou também a tomar determinado compromisso pessoal que definiu - e talvez ainda hoje defina - a minha tarefa mundana. Vivi, até hoje, desta ou daquela maneira; e essas modalidades «vivenciais» condicionam a minha hodierna maneira de viver - já que o viver presente é, normalmente, o prolongamento natural do viver passado. Encontro-me engolfado, desde o nascimento, em certas coordenadas ambientais, ideológicas, educacionais. Não só nasci de uma família católica e fui educado numa casa de educação católica, mas sinto-me comprometido a continuar a viver como católico. Este compromisso condiciona - embora de modo nenhum a destrua inevitavelmente a minha liberdade. É a partir do “que trago comigo” que posso escolher. Por vezes, essa opção realiza-se na plenitude da consciência lúcida; outras vezes, quase não se pode falar de opção pessoal- trata-se mais de um consentir, de um deixar-se levar, que uma decisão premeditada: continuo, sem tomar consciência plena das dimensões da minha existência, a viver de determinada maneira, na linha pachorrenta de um passado tranquilamente aceite.
Filipe Rocha, Liberdade em situação
J.Luis Aranguren, O sentido da liberdade humana
0 condicionamento da liberdade pela vida é pois triplo: a) condicionamento psicobiológico, «naturalização» da liberdade, pois esta não é o puro e simples adeus à natureza, mas emerge precisamente deste; b) condicionamento pelo "situs", ou seja, pela situação: agora já não está na minha mão dar à minha vida uma certa orientação que teria sido perfeitamente possível há vinte anos atrás: quem fundou uma família já não pode voltar e dedicar-se à vida monástica. A situação concreta arrebata-nos um grande número de possibilidades e impõe-nos uma mudança de deveres ineludíveis. Cada homem poderia ter sido muito diferente do que agora é, mas já passou a oportunidade (o Kairós) para isso; c) Finalmente, em terceiro lugar, há o condicionamento pelo «habitus». Os hábitos que contraímos restringem a nossa liberdade, empurram-nos para estes ou aqueles actos. Os hábitos são qualidades reais, impressas em nós mesmos. Adquiridos os hábitos é quase impossível dominá-los: e, contudo, isso poderia ter sido feito a seu tempo. Os hábitos tiverem uma geração voluntária embora uma vez adquiridos e enraizados já não o sejam. Por isso a responsabilidade principal recai não sobre o acto cometido hoje, mas sobre o hábito contraído ontem (no passado) e que nos inclina a cometer determinado acto hoje.A natureza, o hábito e a situação cercam triplamente a nossa liberdade actual. Podem chegar a anulá-la? Não. A liberdade está inscrita na natureza, mas em maior ou menor medida nem todos os homens dispõem de igual força de liberdade, de igual força de vontade -transcende-a ou ultrapassa-a. O animal está sempre determinado pela engrenagem dos estímulos e das suas estruturas biológicas. O homem, ao contrário, é uma realidade inconclusa no que respeita aos seus actos, não está ajustado à realidade e por isso é livre. Inconclusão quer dizer indeterminação. Mas esta indeterminação é propriamente sobredeterminação, porque o homem é uma "essência aberta" que está sobre si, sobreposto à sua natureza, às suas tendências ou hábitos, projectando as suas possibilidades, definindo o conteúdo da sua felicidade e a figura da sua personalidade. Por outro lado é sobredeterminação porque o homem, por definição, quer sempre mais, quer mais do que aquilo que em concreto está querendo da cada vez; ao querer esta realidade está, no fundo, a querer a realidade. (...)
À vida chegamos com uma natureza, um ser dado. Ao longo da vida conquistamos um carácter, um ser adquirido (formado por nós) e isto é o que eticamente importa: o que se chegou a ser com o que se era por natureza, o que nela e sobre ela imprimimos: o carácter.
0 carácter, eticamente considerado, é a personalidade moral, o que o homem vai formando como seu à medida que a vida passa: hábitos, costumes, virtudes, vícios, em suma, um modo de ser (ethos). A tarefa da acção humana consiste em chegar a ser o que se pode ser com o que já se é. Porque, como disse Xavier Zubiri, somos ao mesmo tempo agentes, autores e actores dos nossos actos. Agentes, enquanto emergem da nossa natureza; autores enquanto são livres, dependem, não daquela mas da nossa vontade; actores enquanto definimos a nossa própria figura naquilo de que não somos donos - a natureza - e transformamos em «destinação» aquilo que, deixado a si mesmo, seria «destino». A personalidade não descansa sobre si mesma, mas tem que ser montada sobre a natureza psicobiológica, precisamente para a determinar, refazer ou transformar.
0 ethos, carácter ou personalidade moral, vai sendo definido através de cada um dos actos humanos. Cada nova possibilidade de que nos apropriamos, cada actualização de um vício ou de uma virtude, descreve, corrige ou acentua os rasgos do nosso carácter.
Esta criação ou quase criação em que o ethos consiste é constitutivamente temporal. Isto significa o seguinte: 1 °- O homem projecta, propõe e esforça-se por realizar determinados actos no tempo; 2°- O homem dispõe de um tempo limitado para se fazer a si mesmo, para realizar a sua qualidade ética; 3°- O homem está situado num tempo que não é nem reversível nem uniforme, no sentido de intermutável, mas essencialmente qualitativo.Os nossos projectos formam-se no tempo, a perfeição é qualitativamente diferente ao longo dos anos, "a experiência da vida" é experiência do tempo vivido. (...) Por isso a perfeição da criança (abertura à realidade, olhos abertos perante o mundo, docilidade face ao superior) é qualitativamente diferente da perfeição do jovem (entusiasmo, rebeldia, aspirações infinitas) da perfeição do homem maduro (sentido do que é possível e de que "a paciência é tudo") e da perfeição do velho (um grande "sim" de arrependimento, de aceitação e de fidelidade a tudo quanto se foi ao longo da vida).
A morte é o acto definitivo. Antes havia tempo. O homem conservava perante si algumas possibilidades - muitas ou poucos - de modificar o seu ethhos, o seu carácter moral. Com a morte, o ethos vai ficar definido e terminado, as possibilidades ficarão fixa das, esgotadas para sempre, coincidentes com o ser. Começamos a ser, definitivamente, o que fizemos e quisemos fazer de nós mesmos.
Montagem de textos de José Luís Aranguren, Ética, Alianza Editorial, Madrid
Mª Helena R. Pereira, Os Sofistas
A sua aparição vem preencher uma necessidade da democracia ateniense, o espírito de competição política e judiciária exigia uma preparação intelectual cada vez mais completa (...).
É difícil caracterizar com segurança estas figuras- tento mais que só dispomos de fragmentos muito curtos das suas obras (...)- e defini-los em conjunto. Há, contudo, uma atitude comum a todos (...): a direcção do pensamento deixa de ser cosmológica, para se tornar antropológica.
Este antropocentrismo é, sem dúvida, a marca fundamental do movimento: é o famoso "Homem, medida de todas as coisas" , célebre fragmento de Protágoras"- " O Homem é a medida de todas as coisas, das que são enquanto existem, e das que não são enquanto não existem".
(...) Vindos de todas as partes do mundo grego (...) andam a fazer conferências e a dar aulas por diversas cidades, sem se fixarem, embora demorem mais tempo em Atenas. Aproveitam as ocasiões em que há grande concurso de cidadãos para exiibirem os seus méritos. (...) O seu ensino é, portanto, itenerante. Com grande escândalo dos seus contemporâneos, é também remunerado. Fazem o exame crítico das tradições e questões de ordem moral. Pretendem saber de tudo: é o enciclopedismo(...).
Este novo ensino (...) compreende disciplinas novas ou renovadas: a dialéctica, a eloquência (...), a crítica literária, a gramática de que são iniciadores (...). Reconhecem ainda o valor formativo da matemática e do ensino teórico.
(...) Não será exagerado dizer que os sofistas deslumbraram a camada jovem do seu tempo (...). Os mais velhos, porém, encaravam o fenómeno com suspeitosa reserva (...). São eles verdadeiramente os primeiros professores e conferencistas (...) desenvolvem o espírito crítico e a facilidade de expressão. A nova ordem de estudos e a criação da prosa de arte são dois dos seus melhores títulos de glória. Mas a preocupação da universalidade (...) pode levar à superficialidade, e a crítica sistemática à tradição e à religião desorienta os espíritos, senão lhes dá açgo de melhor. A arte da dialéctica que ensinam pretende a vitória da posição que se defende, ainda que seja preciso (...) "fazer prevalecer a causa pior sobre a melhor".
O grande serviço dos sofistas foi voltar a filosofia para o estudo do homem, considerado quer como indivíduo, quer como ser social ( de onde o seu interesse pelas questões da justiça) e lançar os alicerces da eduacação sistemática dos jovens.
Se quisermos individualizar alguns dos mais notáveis, principaremos por Protágoras (...). Era agnóstico, em matéria de religião, e proclamou o relativismo do conhecimento ("as coisas são para mim o que me parecem a mim, e para ti o que te parecem a ti"). Esta afirmação transfere o problema do conhecimento do objecto para p sujeito e assim torna possível uma teoria do conhecimento.
Mª Helena R. Pereira, Estudos de História da Cultura Clássica, I vol.
| Estamos na segunda metade de
sec. V
a.C. É nesta altura que se produz uma reacção
contra
a especulação fisica e os filósofos começam
a
dirigir o seu pensanento para a vida humana. (...) Foi uma
rebelião
do sentido comum contra a incompreensibilidade do mundo tal como os
físicos
o apresentavam. (...) Nenhuma das teorias era satisfatória nem particularmente credível. (...) Atenas era agora a cidade directora da Grécia.(...) Além disso, Atenas era uma democracia, uma democracia bastante pequena para garantir que a participação de todos os cidadãos livres na vida política fosse uma realidade,e não simples questão de votar de tantos em tantos anos num representante politico. Alguns cargos eram providos por sorteios e todos tinham possibilidades de representar um papel activo nos negócios do Estado. Isto alimentava a ambição de saber cada vez mais acerca dos princípios que servem de fundamento à vida politica e as artes que garantem o êxito nessas actividades. (..) A base da ciência fisica grega foi, como vimos, a busca da permanência, da estabilidade e da unidade subjacente a un universo manifestamente mutável e instável, o qual surge na pluralidade mais confusa. Parecia ao homem vulgar que os físicos tinham falhado. Davam-lhe a escolher entre Parménides e os atomistas.(...) A reacção para o humanismo está associada com o aparecimento de uma classe nova: os sofistas. Eram mestres ambulantes que fizeram modo de vida do desejo que os homens começaram a sentir de serem instruídos nos assuntos práticos. (...) Os sofistas tinham em comum determinadcs pontos. Um era a natureza essencialmente prática do seu ensino, o qual procurava inculcar a areté. (...) A filosofia moral e a política nasceu na Grécia numa atmosfera de cepticismo. A combatê-lo, consagraram as suas vidas, Sócrates e os seus sucessores. No terreno físico, Demócrito tinha dito quo as sensações de doce e amargo, quente e frio, eram meros termos convencionais.(...) Tudo é questão da disposição acidental dos átomos do nosso corpo e de sua reacção à combinação igualmente acidental em que encontram os do objecto chamado sensível. (...) Outro era o cepticismo que caracterizava a sua atitude filosófica: a desconfiança relativamente à possibilidade do conhecimento absoluto. Era o resultado do beco sem saída a que conduzira (assim parecia) a filosofia natural. 0 conhecimento depende de duas coisas: a posse de faculdades que nos ponham en contacto con a realidade e a existência de uma realidade estável capaz de ser conhecida. (Tinha sido negado valor aos sentidos bem como tinha sido posta em causa a fé na unidade e estabilidade do universo e não surgira ainda a ideia de conceber uma realidade permanente e cognoscível fora e para lá do mundo físico). A transferência para o terreno moral era muito fácil e foi realizada por Arquelau, discípulo do Anáxagoras: se o calor e o frio, o doce e o amargo não existem na natureza mas dependem da nossa sensibilidade num determinado momento, porque nao podemos admitir qua a justiça e a injustiça, o bem e o mal têm uma existência igualmente subjectiva e irreal? Não pode haver na natureza princípios absolutos que rejam as relações entre os homens. Tudo a questão do que em cada momento nos pareça.(...) Górgias escreveu um livro com o título "Sobre a natureza ou o não existente", no qual se propunha demonstrar três coisas: a - Nada existe; b - Se algo existisse nao podíamos conhecê-lo; c - Se conhecessemos alguma coisa não podíamos comunicá-la. Protágoras afirmava que o "homem é a medida de todas as coisas” , o que significa que a maneira como as coisas.se apresentam a um indivíduo é a verdade para ele, e como se apresentam a outro é a verdade para este. Nenhum deles pode achar erro no outro.(...) A verdade é relativa. Apesar de tudo, Protágoras concedia um certo espaço às opiniões convencionais sobre a verdade e a moral, acrescentando que nenhuma opinião é mais verdadeira que outra, mas pode ser melhor. (...) Assim, a prova da verdade ou da falsidade é substituida pela prova pragmática. 0 irreverente cepticismo dos sofistas afectou a sanção das leis não discutidas até aí por se acreditar na sua origem divina. (este fundamento religoso das leis ía sendo minado, quer pela tendência ateia da filosofia natural, quer por circunstâncias externas tais como o crescente contacto dos gregos com outros países e a quantidade enorme de leis que foi necessário fazer para regular as relações com as novas colónias. (...) Protágoras foi o primeiro a formular a teoria sobre a origem das leis que hoje conhecemos com o nome de contrato social. (...) Admitindo a premissa inicial de que as leis e códigos morais não eram de origem divina, mas imperfeitos e feitos palos homens, era possível deduzir amplamente conclusões práticas diferentes. Diz Protágoras que elas existem porque são necessárias. Por esta razão foi um defensor do contrato social a pediu a submissao às leis. Ainda que alguns sofistas defendessem o direito natural do mais forte ( ...), todos defendian a ausência total de valores e princípios absolutos. Para os sofistas toda a acçao humana se baseava unicamente na experiência e era ditada pela sua utilidade ou eficácia. 0 justo e o injusto, a sabedoria, a justiça e a bondade são meros nomes, ainda que por vezes seja prudente agir como se fossem algo mais que isso. É nesta situação mental que aparece Sócrates, o qual irá dedicar a sua vida a combatê-la por lhe parecer intelectualmente errónea e moralnente má. C. W. Guthrie, Los Filosofos Griegos |
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