Index
 
SÍNTESES TEMÁTICAS

 
 
 
A construção configuradora da experiência

Facto bruto e facto científico

A Filosofia: o que é? 

A atitude filosófica/O valor da Filosofia

Senso Comum e Ciência

O Método Científico

O movimento da sofística
O estatuto do conhecimento científico

O problema da oposição 

wwExplicação/Compreensão
 
A filosofia pré-socrática

Natureza e função do Mito

Sensação, percepção e razão

A perspectiva psicogenética de Piaget
 
 
A Sofística

 Com os sofistas as filosofia volta-se para o estudo do homem considerado já não como simples ser de natureza, mas como ser social e como indivíduo estando assim lançados os alicerces de uma educação sistemática dos jovens. Abandona-se, assim, a direcção cosmológica entrando num período que podemos designar de antropológico. O antropocentrismo é, deste modo, uma das principais características da sofística.

   A reflexão da sofística assenta na defesa de um relativismo tanto gnoseológico como ético. Constatando, em virtude das suas viagens, que as leis variam, bem como os usos e costumes de povo para povo, os sofistas defendem uma perspectiva relativista. Para isto em muito contribuiu também a constatação da multiplicidade de respostas dadas pelos filósofos pré-socráticos.

   Os sofistas concluem pela impossibilidade de um conhecimento universalmente válido, pois se a propósito de um mesmo assunto surgem tantas e variadas respostas e todo o conhecimento assenta na sensação, ( para eles não há outro conhecimento para além daquele que adquirimos pelos sentidos e a sensação é subjectiva...) então não pode haver ciência porque esta, como dirá Aristótoteles, é sempre do universal. Assim sendo, todo o conhecimento é sensação e variando esta de sujeito para sujeito, o conhecimento é relativo à forma como, num dado momento, aparece ao indivíduo uma dada realidade.

   A crítica que fizeram à religião tradicional conduziu, por seu turno, a um agnosticismo.Protágoras dizia que a propósito dos deuses não podemos saber se eles existem ou não, pois muitas coisas nos impedem de o saber: por um lado as características do próprio assunto que é, por demais obscuro; por outro, a curta duração da vida humana.

   Tudo isto tem como resultado o abalar do valor religioso da lei pois afirmam que a lei é convencional e que todos os códigos e leis morais são feitos pelos homens. É fomentado um espírito de individualismo competitivo que acaba por desembocar num certo amoralismo- não há valores nem princípios absolutos.

   A célebre afirmação de Protágoras " O Homem é a medida de todas as coisas, das que existem enquanto existem e das que não são, enquanto não existem" significa a própria afirmação do primado das convenções humanas sobre qualquer outra forma de conhecimento absoluto. Os sofistas transformam os antigos valores aristocráticos baseados na areté (virtude que se adquire no nascimento, isto é, tratava-se de uma virtude ligada à ascendência), defendendo que não se nasce virtuoso; a virtude é algo que se adquire, se conquista pela educação e pela participação na vida política.   Com os sofistas, o filósofo começa a ser o Homem político, o Homem da cidade que reflecte livremente sobre todos os actos do quotidiano. A sabedoria deixa de ser o privilégio de alguns para passar a estar ao alcance de todos.

A construção configuradora da experiência


  Não há experiência pura. Na experiência está sempre uma multiplicidade de factores que derivam da personalidade, das característicasdo que é experienciado e do contexto em  experiência se realiza. Uma experiência nunca existe isoladamente mas integra-se,sim,numa cadeia de experiências, quer social e histórica,quer individualmente.Os homens vão, pois, organizando a experiência de uma certa  forma. Isto quer dizer que o modo de organizar a experiência varia de cultura para cultura, ao longo do tempo. Como cada homem vive sempre numa dada cultura, também ele organiza as suas experiências de um modo situado e condicionado por um espaço físico, cultural e histórico.Apesar de tudo a experiência de cada homem é sempre a sua  experiência.A experiência,como já sabemos,é a fonte de grande parte do nosso conhecimento. 

    O saber baseado na experiência é comum ao homem e ao animal só que, enquanto o animal se fica pelo seu instinto, o homem eleva-se à arte do raciocínio,istoé, ele écapaz de submeter o que lhe é dado na experiência a sucessivas elaborações dando origem a diversas e diferentes formas de   experiência.Aexperiência é, de facto, o ponto de partida,mas a concepção humana do real não é o resultado imediato da experiência em bruto. A percepção da realidade,bem como o senso comum, implica uma estruturação. Na realidade,o homem experiencia e compreendeo que lhe acontece e o que o rodeia, interpretando tudo o que lhe vem do exterior. 

    No senso comum os conteúdos e as generalizações resultam de uma acumulaçãode experiências.A experiência sensorial que temos do mundo exterior(cores,aromas,sons, etc.) bem como a experiência vivencial de diversas situações(medo,angústia,fúria, etc.) são igualmente submetidas a uma síntese integradora. 

     Na nossa vida organizamos o nosso saber e as nossas experiências utilizando a razão, a imaginação ea afectividade. Numas organizações predominam os factores afectivos,emotivos e imaginários - a arte-, por exemplo- e noutras a razão- a ciência,por exemplo. 

    A Arte é uma configuração da experiência e um modo muito especial de acesso ao real. É algo de aberto no qual o ser humano se revela e manifesta e, enquanto arte, tudo o que "escapa" ao discurso racional. A Arte dá forma à experiência e essa configuração é feita pelo artista e depende da maneira como ele está implicado na situação. Para além de configurar a experiência,a arte também é transfiguradora na medida em que transforma a realidade de tal modo que a autêntica obra de arte é aquela que ultrapassa o real e se afasta da realidade tal qual ela é. A Ciência não é um mero registo de factos nem o cientista se limita a organizá-los de uma forma linear e neutral. ACiência organiza os factos procurando estabelecer relações. Na realidade,tanto a arte como a ciência são recriações da natureza e não meras cópias.O acto criador não termina com o seu autor; o acto criador e o seu resultado,podem ser sempre recriados por cada um. 

   Baseado em Rumos da Filosofia de A. Reis e M. Pissarra.

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A Filosofia:o que é?

    A filosofia é um assunto que não pertence apenas ao professor dela. Por muito raro que pareça, provavelmente, não há nenhum homem que não filosofe.0u,pelo menos, todo o homem tem momentos na sua vida em que se converte em filósofo.( ... )Tarde ou cedo, todos se metem em 'farinha' filosófica. Realmente, não digo que com isso se faça um eminente serviço à humanidade. Os livros dos leigos filosofantes-fisicos, poetas ou políticos, - são normalmente maus e frequentemente só contêm uma filosofia ingenuamente infantil e geralmente falsa. Mas isto é aqui acessório.0 importante é que todos filosofamos e, ao que parece ,não temos outro remédio senão filosofar.

Daí, para todos ,a importância da questão:'0 que é propriamente a filosofia? 'Lastimosamente, esta é uma das questões filosóficas mais difíceis. Poucas palavras conheço que tenham tantos significados como a palavra 'filosofia'. Algumas semanas atrás assisti, em França, a um colóquio de pensadores europeus e americanos de primeira fila. Todos falavam de filosofia e por filosofia entendiam coisas absolutamente distintas. Examinemos alguns desses significados e tentemos logo encontrar um caminho para a inteligência nesse formigueiro de opiniões e definições.

    Há primeiramente uma opinião segundo o qual a filosofia seria um conceito colectivo para tudo aquilo que não pode ainda ser tratado cientificaniente. Tal é por exemplo a opinião de Bertrand Russel e de muitos filósofos positivistas. Os partidários desta opinião chamam-nos a atenção para o facto de, em Aristóteles, filosofia e ciência significavam o mesmo, e que posteriormente as ciências particulares se foram desprendendo da filosofia: primeiro a medicina, logo a lógica formal( ... )Por outras palavras: não haveria absolutamente uma filosofia, no sentido, por exemplo ,em que há uma matemática, com objecto próprio. Tal objecto da filosofia não existe. Assim se designariam unicamente tentativas de resolver ou clarificar diversos problemas ainda imaturos.

É certamente, um, ponto de vista interessante e os argumentos aduzidos parecem convincentes. Mas, observando melhor, surgem dúvidas muito graves. Em primeiro lugar, se fosse como estes filósofos dizem, actualmente teria de haver menos filósofos do que há mil anos. E não é assim. Hoje não há menos filosofia, mas muito mais do que antes. E isto não no que refere ao número dos que a cultivam- o que se calcula actualmente em dez mil- como também à quantidade dos problemas tratados. Se se compara a nossa filosofia com a dos gregos, vê-se que no século XX depois de Cristo nos colocamos muito mais problemas do que os que os gregos conheceram.

Em segundo lugar, é certo que no decurso do tempo se desprenderam da filosofia várias disciplinas. Mas o chocante é que, ao tornar-se independente uma ciência, quase simultaneamente surgiu uma disciplina filosófica paralela. Assim, nos últimos anos, ao separar-se da filosofia a lógica formal, surgiu imediatamente uma filosofia da lógica, muito difundida e calorosamente discutida. (...)Os factos demonstram que a filosofia, longe de morrer em virtude do desenvolvimento das ciências, se enriquece ainda mais.

E finalmente, uma pergunta maliciosa aos que afirmam que não há filosofia: 'em nome de que disciplina ou ciência assenta essa afirmação? 'Já Aristóteles argumentava aos negadores da filosofia: ou há que filosofar ou não há que filosofar. Se não há que filosofar, será em nome da filosofia. Logo, se não que filosofar, há que filosofar. E o mesmo se pode argumentar hoje. Nada há de tão divertido como o espectáculo dos supostos inimigos da filosofia aduzindo grandes argumentos filosóficos para demonstrar que não existe a filosofia. Dificilmente, pois, pode dar-se razão à primeira opinião. A filosofia tem de ser algo distinto de um recipiente geral de problemas imaturos.(...)

A segunda opinião afirma, pelo contrário ,que a filosofia não desaparecerá nunca ainda que dela se desprendam todas as ciências possíveis, pois a filosofia, segundo esta opinião, não é ciência. O seu objecto -diz-se - é o suprarracional, o incompreensível, o que se encontra acima da razão ou, pelo menos, nas fronteiras dela. Tem, pois, muito pouco em comum com a razão ou com a ciência. O seu domínio está situado fora do racional. Segundo tal, filosofar não significa investigar com a razão, mas de outro modo, mais ou menos irracionalmente .Está aí uma opinião muito difundida hoje   no  continente europeu e que está representada, entre outros, pelos chamados filósofos existencialistas. Um representante extremo desta direcção é certamente o professor Jean Wahl, o principal filósofo de Paris, para quem no fundo não há distinção entre filosofia e poesia. Mas também o conhecido filósofo existencialista Karl Jaspers está neste aspecto perto de já de Jean Wahl.(...)

Também esta opinião és uma tese filosófica respeitável. A verdade é que em seu favor podem aduzir-se diferentes argumentos. Em primeiro lugar, que nas questões limite -e tais são geralmente questões filosóficas o homem há de servir-se de todas as suas forças, portanto, do sentimento, da vontade, da fantasia como faz o poeta. Em segundo lugar, que os dados fundamentais da filosofia não são acessíveis à razão. Há que tratar, portanto, de compreendê-los por outros meios. Em terceiro lugar, que tudo o que toca à razão pertence já a uma ou outra ciência. Não fica ,pois, para a filosofia reais do que este pensar poético na fronteira ou mais além da fronteira da razão.(...)

Contra esta opinião se defendem numerosos pensadores, entre outros os que são fiéis a Ludwig Wittgenstein: 'sobre o que não se pode falar há que calar-se'. Por falar entende aqui Wiittgenstein o falar racional, quer dizer, o pensamento. Se algo não pode compreender-se com os meios normais do conhecimento humano, quer dizer, pela razão, dizem estes impugnadores da filosofia poética, não pode compreender-se pura e simplesmente. O homem não tem mais que dois meios ou métodos possíveis de conhecer as coisas: vendo directamente de alguma modo, pelos sentidos ou pela inteligência, o objecto e deduzindo-o. Ora bem, em ambos os casos se realiza uma função cognoscitiva e, essencialmente, um acto de razão.(...)

Se observamos a história da filosofia( ... )constatamos que o filósofo sempre tratou de esclarecer a realidade. Ora bem, esclarecer, clarificar, iluminar a realidade não significa outra coisa que interpretar racionalmente o objecto dado.(...) ...O filósofo é um homem que pensa racionalmente e tenta levar claridade- quer dizer, ordem e por fim razão - ao mundo e à vida. Historicamente, é dizer( ... )que a filosofia foi sempre uma actividade racional e científica, uma doutrina ou teoria, não urna poesia. De vez em quando os fi1ósofos tinham também dotes poéticos. Assim um Platão ou um Santo Agostinho. (... )Na sua essência, como acabamos de dizer, a filosofia foi sempre uma teoria ,uma consciência.

Mas se isto é  assim, novamente surge a pergunta: 'uma ciência de quê? 'O mundo corpóreo é estudado pela física, o da vida, pela biologia, o da consciência pela psicologia, a sociedade pela sociologia. O que fica para a filosofia como ciência? Qual é o seu terreno próprio? A esta pergunta respondem várias escolas com respostas muito variadas.(...)

Cada uma delas tem, os seus argumentos e é defendida de maneira quase convincente. Cada defensor destas opiniões diz na cara dos outros partidários de outras opiniões que não são, de forma alguma, filósofos.(...)

 Agora se vos hei-de dizer qual é a minha modesta opinião pessoal, experimento um certo mal-estar face a essa firme crença numa ou noutra concepção de filosofia. Parece-me muito razoável que se diga que a filosofia se deve ocupar do conhecimento dos valores, do homem e da linguagem. Mas porque só disto? Já demonstrou algum filósofo que não há mais objectos da filosofia?(...)Nada de semelhante já se demonstrou. E se damos uma vista de olhos ao mundo, este apresenta-se-nos repleto de problemas não resolvidos, de importantes problemas não resolvidos que pertencem a todos os campos citados e que não são nem podem ser tratados por uma ciência particular. Tal é, por exemplo, o problema da lei. Este não é, certamente, um problema matemático. O matemático pode tranquilamente formular e estudar as suas leis sem se colocar a questão da lei.'Também não pertence à ciência da linguagem, pois não se trata de uma língua, mas de algo que está no mundo ou, pelo menos, no pensamento. Por outro lado, a lei matemática não é um valor, pois não é algo que deva ser, mas sim ,que é. Não entra, por isso, na teoria dos valores. Se se limita a filosofia a uma ciência particular ou a alguma das disciplinas que enumerei, este problema não pode ser elucidado. Não há lugar para ele. E, no entanto, é um autêntico e importante problema.

Parece, pois, que a filosofia não pode ser identificada com as ciências particulares nem limitada a um só terreno. É, em  certo sentido, uma ciência universal.0 seu domínio não se limita, como o das outras ciências, a um terreno estritamente limitado. Mas, se isso é assim, ode acontecer e, de facto acontece, que a filosofia trate dos mesmos objectos de que se ocupam as outras ciências.

Em que se distingue então a filosofia relativamente a uma ou outra ciência? Distingue-se -responderemos- tanto pelo seu métoodo como pelo seu ponto de vista. Pelo seu método, porque ao filósofo não é vedado nenhum dos métodos de conhecer. Assim, não está obrigado como o físico, a reduzi-lo aos fenómenos observados de forma sensível. Quer dizer ,o filósofo não tem de limitar-se ao método empírico. Pode também valer-se da intuição do dado e de outras coisas.

 Traduzido de J.M Bochenski, Introdicción al pensamiento filosófico, Editoral Herder, Barcelona, 1992.


Facto bruto e facto científico

    A ciência parte de factos, respeita-os. A ciência começa por estabelecerfactos, mas não é possível respeitar inteiramente os factos quando se analisam, ou seja, o cientista, o físico, por exemplo, perturba o átomo que deseja"espiar"; o biólogo, modifica e pode, inclusivé,matar o ser vivo que analisa,etc.   Nenhum deles apreende o seu objectotal qual ele é,mas como fica modificadopelas suas própriasoperações.Parece-me então pertinente, perguntar agora,legitima ou pacificamente,se poderemos distinguir "facto bruto" e facto científico!... 

   Pressupor a existência de um "facto bruto" equivale a subscrever pressupostospositivistas de acordo com os quais se nega a "existência" de outra realidadeque não seja a dos factos, bem como a investigação de outras coisas que nãosejam as relações entre esses mesmos factos.   Não devemos, por isso, aceitarpacificamentea distinção entre "facto bruto" e facto científico,porquequalquer facto pressupõe sempre uma teoria. Nada podemos perceberou sentir,sem contribuirmos com algo de nós próprios. O nossoposicionamento face àscoisas nunca é neutral, ingénuo,puro, mas sempre pré-conceptual. Muitasdas nossas inferênciase interpretações entram nos factos que percebemos.Nãonos podemos separar das nossas vivências e crenças.   Ocientista intervémactivamente escolhendo os factos que merecem serobservados. Um facto isoladonão tem, por si mesmo, qualquer interesse.Quem escolhe os factos que merecemdireito de cidadania em ciência éo cientista.      

   Daqui decorre o papelda interpretação no conhecimento. Quando se qualifica um facto de "descoberta",não é o factoem si que constitui a descoberta, mas a ideia nova que delederiva. Uma grande descoberta, por exemplo, é um facto que ao aparecer naciência dá origem a muitas ideias "luminosas", cuja claridade dissipa numerosas sombras e abre caminhos ignorados. Há outros factos que não dizem nada aninguém e a esses poderíamos chamar, numa certa medida, "factos brutos".Um facto nada é em si próprio, pois só vale pelas ideias a que se liga. Ocientista não cria livremente o facto científico, pois é o "facto bruto"que lho impõe. O que o cientista cria é a linguagem na qual enuncia o facto.Recordemos, a este nível, Newton e Arquimedes. Consta-se,"anedoticamente",queo que esteve na origem da enunciação da Lei da Gravidade porNewton,foi a queda de uma maçã. Este facto teria despertadoNewton para uma questão:será que a força de atracção exercida pela Terra para fazer cair a maçã éa mesmaque faz a Lua "cair" para a Terra ,colocando-a assim numa órbitaelíptica à volta do nosso planeta? A força de atracção que actuava a partirdo Sol era a gravitação e Newton identificou essa atracção propondo um conceitode atracção universal segundo o qual cada corpo no universo atrai todos osoutros, mantendo o universo sob uma lei básica.        Foi igualmente um"facto pitoresco"  que esteve na origem da formulação do célebre Princípiode Arquimedes. Conta-se que tudo surgiu a propósito da coroa do Rei HierãoII. Este, sendo amigo deArquimedes e suspeitando que a sua coroa não era,na realidade, deouro puro mas de ouro fundido com prata, perguntou a Arquimedeso que poderiafazer para averiguar a veracidade dessa suposição sem que,paratal, tivesse de  estragar a sua coroa.       

   Diz-se que Arquimedesteria encontrado a solução quando tomava banho, ao constatar que a quantidadede água que derramava quando entrava na banheira era igual ao volume do seucorpo quando imerso. Supôs, então, que se a coroa fosse de ouro puro, deveriadeslocar uma quantidade de água semelhante àquela deslocada por umamassade ouro de igual peso.      

   Tanto no caso de Newton como no caso de Arquimedes,o que esteve na origem do facto científico, foi um "facto bruto",diria até, pitoresco.       O que o cientista faz é enunciar cientificamente um certofacto e nisso consiste, de um modo geral, a construção do facto científico.Aos factos diversos e pitorescos a ciência substitui um sistema de relaçõesinteligíveis: o real é  despejado da sua riqueza emotiva e da sua variedadeperceptiva, para dar lugar a um real inteligível, constituído por uma teia de relações puramente racionais.       

   A realidade científica não é, portanto, uma realidade espontânea, mas sim construída, e a construção científica deum facto implica, na maior partedas vezes, uma série de artifícios técnicosque permitam a transposição dos campos visual e espacial. A observação científica requer a manipulação de instrumentos que têm,na sua base,teorias.      


  Ter em atenção as relações estabelecidas no texto entre facto científico/facto bruto, objectividade científica e algumas das características da ciência.

BIBLIOGRAFIA
AA.VV, Pensar a Ciência, Ed. Gradiva, 1998.
ASIMOV, L., O Universo da Ciência,Lisboa, Ed. Presença, 1977.
BRONOWSKI, J., A Responsabilidade do Cientistae Outros Escritos ,Lisboa,Pub. D. Quixote, 1992.
CARAÇA, J., Ciência, Lisboa,Difusão Cultural,1977.
COLLINGWOOD, R. G., Ciência e Filosofia, Lisboa, Ed.Presença, 1976.
GOODMAN, N., Facto, Ficção e Previsão, Ed. Presença, 1991.
A atitude/ o valor da Filosofia

 
O objectivo da Filosofia é a compreensão crítica da realidade. A reflexãofilosófica implica uma crítica estruturada. A Filosofia é uma reflexão queprocura atingir um nível muito aprofundado da realidade pondo em acção ascaracterísticas do sujeito distinguindo-se assim do conhecimento científicoque implica uma validaçãouniversal.      

Mais do que uma forma de conhecimento,a Filosofia implica uma atitude existencial, uma forma de estar no mundo.O que caracteriza a atitude filosófica é o facto de ela exprimir a totalidadedo ser humano como uma postura constante face à realidade, face à norma habitual de reagir e de se comportar, de ver as coisas e se relacionar com elas.      

   A atitude filosófica é plenamente humana e caracteriza-se pelos seguintesaspectos: vigilância, lucidez, coragem, autonomia, liberdade de pensar ede agir.      

   A Filosofia implica uma atitude de abertura,sem preconceitos e implica um caminhar constante e progressivo. Como dizia K.Jaspers, "Filosofar é estar a caminho", isto é, é preciso manter os olhos bem abertos, curiosidadee interesse pelo saber e procura da verdade já que a Filosofia se caracterizapela procura e não pela posse.      

   Não se procuram respostas definitivase únicas- o valor da Filosofia reside na sua própria incerteza (assim dizRussel). Precisamente por isso, ela apela à reflexão críticae à interrogaçãoconstante. A Filosofia levanta assimum olhar crítico sobre a realidade,levantando dúvidas, sugerindo interrogações que alargam os nossos horizontese nos libertam do hábito e das ideias feitas.      

   O filósofo caracteriza-se,precisamente, pela constante interrogação. A necessidade de encontrar explicação para tudo o que nos rodeia é-nos próprio e já desdea infância. Mesmo obcecadopelas exigências práticas diárias, o homem não deixa de sentir uma imensacuriosidade e desejo de conhecer. O homem é o único ser capaz de se questionar,de se interrogar. O filósofo assume nesta problematização um papel importante já que afirma a necessidade imperiosa de saber! Embora outros especialistas (economistas, políticos, etc.) procurem também responder aessas preocupações,fazem-no de uma forma diferente, pois o filósofo interroga-se de uma maneiramais global sobre a realidade,sobre a natureza, o homem, procurando uma orientaçãoque conduza a uma actuação eficaz.       O valor da Filosofia não dependede um suposto corpode conhecimentos, assegurados definitivamente. Ela deveser estudada não por causa das respostas que possa dar aos problemas queevoca, mas por causa dos próprios.

BIBLIOGRAFIA

ANZENBACHER, A., Introducción a la Filosofia, Barcelona,Herder, 1984.
BLACKBURN,Simon., Pense: uma Introdução à Filosofia , Lisboa, Ed. Gradiva,2001
GEVAERT,Joseph., El Problema del Hombre. Introduccion a la Antropologia Filosofica,Salamanca, Sígueme, 1987.
JASPERS, K., Iniciação Filosófica, Lisboa, Guimarães Ed., 1987.
MACEIRAS, Manuel.,Que es Filosofia? El Hombre y su Mundo, Madrid,Ed. Cicel,1985.
SAVATER, Fernando, As Perguntas da Vida, Lisboa, Pub. D. Quixote,1999.

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Senso comum e ciência

Das diferentes organizações da experiência resultam diferentessaberes e/ ou conhecimentos. Estes tipos de saberes e conhecimentos estãosujeitos à mudança, ao progresso, sobretudo a filosofia e a ciência.     

   O senso comum apresenta-se, desde logo, como um "conhecimento" que assenta,quase exclusivamente na experiência de vida que todos os homens possuem,isto é, trata-se de um saber empírico   no  sentido de "saber fazer". É umsaber de tipo funcional que orienta as nossas actividades quotidianas nomundo. Basta, neste sentido,à sobrevivência.Aqui reside a sua validade eindispensabilidade.Tem como principais fontes os sentidos (é pelos sentidosqueo mundo"nos chega"), a experiência (experiência de vida,saber fazer,experiência vivencial) e a tradição (por ela nos chegam "conhecimentos" essenciais, conjuntosde "palavras práticas" que aparecem cristalizadas em provérbios).   

   Apesar de válido e indispensável, o senso comum apresenta bastantes insuficiênciasou limites: trata-se de um "conhecimento"ingénuo e acrítico por acreditarque as coisas são tal qual nos aparecem e por não se questionar enquantosaber. Ao assumir uma posição tão realista,aparece-nos baseado na aparênciadas coisas e assim é fundamentalmente superficial. Para além destesaspectos, o senso comum apresenta-se extremamente influenciado por juízospessoais, sentimentos,emoções que o tornam demasiado subjectivo e pouco rigoroso. É ainda um "conhecimento" fragmentário,parcelar e particular;particularporque se bem que referido a uma pequena amostra darealidade (aum "pequenomundo" superficialmente conhecido do ponto de vistado rigor) propõe-se elaborargeneralizações apressadas,imprecisas, pois os dados são seleccionados semnenhum rigor de forma ametódica e subjectiva.    
   O conhecimento científicopossui objectivos diferentes. Desde logo, a ciência estuda os fenómenos como intuito de encontrar relações, afastar do seu domínio elementos/ factores de ordem emotiva, afectiva e, por esse facto, subjectivos. A ciência caracteriza-se, neste sentido, como sendo objectiva - pretende ser um conhecimento válido para todos. Possui um método, contrariamente ao senso comum, que lheconfere objectividade. A positividade constitui uma outra característica da ciência que consiste,fundamentalmente,numa plena aderência aos factos(os factos sãofactos) e submissão à fiscalização da experiência(o critériode verdade reside na verificação experimental).Trata-se de um saber racionalpois visa através de uma racionalização  progressiva dos dados, ultrapassara heterogeneidade e diversidade que caracterizam o senso comum. Pretende-setornar o mundo inteligível,simplificá-lo,procedendo a uma unificação lógica.Noentanto, esta racionalização não está feita de uma vez por todas,não é eterna mas antes provisória, pois o aparecimentode factos novos não previstos, bemcomo o aperfeiçoamento tecnológico levam frequentemente à revisão de concepçõesanteriorese, eventualmente, à sua substituição. Nisto consistea sua dinâmica e o seu progresso.

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O método científico


O método científico procede, pois, por círculos sucessivos...
   A observação científica tem sempre implícita uma teoria prévia que a guia e que determina o que deve ser observado e como deve ser observado. Ela é uma observação metódica e sistematicamente preparada, que utiliza instrumentos e uma sofisticadaaparelhagem técnica para prolongar e precisar o alcance dos nossossentidos, registando, medindo, enfim, construindo o facto científico.
   Não há observação pura (teoricamente neutra). Estas ideias (hipóteses) não aparecem no espírito do investigador por acaso e espontaneamente:
   a) podem surgir de um problema, de factos novos nãoexplicáveis à luz das teorias existentes, ou de factos queapenas são inspiradores para alguns ou somente numa dada ocasião;há factos que permanecem durante muito tempo diante dos nossos olhose, um dia, inexplicavelmente,há um momento de inspiração,e descobrimos neles um novosentido, novas relações ou interpretações;
   b) podem também basear-se na reflexão e na procura de relações e conexões entre leis e teorias anteriormente construídas;
   c)resultam da criatividade do nosso espírito, sobretudo de alguns espíritos mais dotados para descortinar essas interconexões, uma espécie de intuição racional, um pressentimentode que as coisas se poderão passar de um certo modo.
   d) a criação de uma hipótese éuma tentativa de explicação e como tal tem um carácterprovisório que tem necessariamente de ser verificável e controlávelpela experimentação. Ela constitui o momento criativo da pesquisa, o momento em que o cientista inventa uma suposta solução, isto é, em que constrói um cenário que desencadeará o processo de confirmação ou refutação. Por isso as hipóteses têm de ser adequadas ao facto-problema em análise. A invenção de hipóteses abre ao espírito científico novos horizontes de descoberta. Por isso, o modelo de método é designado por hipotético-dedutivo. Este modelo: formula hipóteses a partir de um facto-problema; infere consequências preditivas da hipótese; testa as consequências a fim de confirmar ou refutar a hipótese. Esta verificação pode ser feita por observação/ experimentação. Deste procedimento resulta a formulação de uma lei . Pode-se então ligar esta lei a outras leis, por relações também matematicamente expressas, ou seja, procurar uma lei comum, formular hipóteses sobre a sua generalidade e deduzir, dessas hipóteses, consequências que depois se têm de confrontar com os factos para verificar a sua validade: se a experimentação verificar essas consequências teóricas, a hipótese que está na sua base transforma-se em teoria; se; se a experimentação demonstrar que essas consequências estão em desacordo com os factos, as hipóteses que estiveram na sua base terão de ser revistas.
   A ciência é pois constituída por leis gerais que relacionam, sempre que possível, matematicamente, enunciados factuais e expressam relações constantes de forma mais ou menos operacional. Combinando e interligando conjuntos de leis e hipóteses coerentesformamos explicações mais vastas a que chamamos teorias científicas.






 

 

 

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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