A análise
fenomenológica do acto de conhecer mostra-nos que para haver conhecimento
é necessário que o sujeito apreenda o objecto. Por isso,
podemos perguntar: o sujeito apreende realmente o objecto? A afirmação
de que o conhecimento é possível constitui o dogmatismo. A afirmação
de que o conhecimento não é possível caracteriza o cepticismo.
a) Dogmatismo- o homem nem
sempre se dá conta de que o conhecimento constitui um problema. Por
isso, o dogmatismo é essencialmente uma atitude ‘do homem ingénuo’
que acredita que os sentidos e a razão conseguem apreender os objectos
na sua corporeidade. Assume, portanto, uma posição de confiança
absoluta nos sentidos e na razão humana. Trata-se de uma posição
epistemológica que admite a possibilidade do conhecimento certo, sendo
a inteligência capaz de atingir a verdade e a certeza.
b) Cepticismo- o cepticismo
afirma que o sujeito não apreende o objecto. Por isso, o conhecimento
no ‘sentido de uma apreensão real do objecto’ não
é possível. Trata-se, portanto, da doutrina que nega a possibilidade
de atingir a verdade. Porém, esta doutrina admite diversas formas:
Cepticismo radical ou absoluto- defende que é
impossível todo e qualquer conhecimento. O seu fundador foi Pirro(365-272
a C) que afirma: ‘não devemos confiar nos sentidos nem na razão,
mas permanecer sem opinião, sem nos inclinarmos para uma parte ou para
outra, impassíveis’. Deve haver, então uma suspensão
do juízo.
Cepticismo moderado- em rigor, já não
se trata de cepticismo, mas de uma forma mitigada de dogmatismo, pois admite
a possibilidade da relação entre o sujeito e o objecto, em que
o sujeito apreende o objecto, embora de modo limitado.
Terá o cepticismo, sob qualquer das suas formas, justificação?
Não. O cepticismo não tem justificação. O cepticismo
anula-se a si mesmo. Afirma que o conhecimento é impossível.
Mas ao fazê-lo exprime já um conhecimento. Por isso, o cepticismo
cai em contradição consigo próprio.
Mas se o cepticismo não é sustentável, isso não
quer dizer que não tenha algum valor. O cepticismo é importante
para o desenvolvimento espiritual do indivíduo e da humanidade. Ele
representa o emergir da dúvida, do espírito crítico face
à experiência do erro. É, portanto, ‘um fogo purificador
do nosso espírito’ que, com a sua actuação inconformista,
permite a superação do dogmatismo dos sentidos,das aparências,
do ilusório.
O desenvolvimento da consciência humana exige que se mantenha uma saudável
atitude céptica, um cepticismo metódico, que se exerça
como um meio e nunca como um fim, um cepticismo em que a dúvida esteja
ao serviço da razão
O
problema da origem
a) Racionalismo
O racionalismo vê na razão, no pensamento, a fonte
principal do conhecimento humano. Os racionalistas consideram que só
é verdadeiro conhecimento aquele que for logicamente necessário
e universalmente válido. Tomam como modelo o conhecimento matemático.
Não negam o conhecimento da natureza, o conhecimento empírico.
Admitem-no. Consideram-no, porém, como simples opinião, desprovido
de todo o valor científico.
O conhecimento assim entendido, é constituído
por ideias ou essências. Como alcança a razão as ideias
ou essências? Este é um dos problemas básicos do racionalismo.
Para responder a esta questão, o racionalismo tem, ao longo da história,
revestido diferentes formas. Entre os vários pensadores de orientação
racionalista estão Platão (séc. IV a.C), Descartes e
Leibniz no século XVII.
b) Empirismo
O modelo empirista do conhecimento opõe-se radicalmente
ao modelo racionalista. Por exemplo, o essencial do racionalismo de Descartes
reside na afirmação de que as ideias fundamentais para o conhecimento
são ideias inatas, que existem a priori no entendimento humano. Ora,
a oposição a esse princípio constitui precisamente o
ponto de partida do empirismo, que considera a experiência como fonte
de todas as nossas ideias.
- O empirismo de Locke- J. Locke (1632-1704) ataca frontalmente
o princípio das ideias inatas, pois se a verdade é inata no
nosso espírito, de nada valem a observação e a experiência.
J. Locke, geralmente considerado o fundador do empirismo moderno, afirma que
adquirimos todas as nossas ideias de fora: todo o nosso conhecimento provém
da experiência. O próprio entendimento é concebido como
uma ‘tábua rasa’ e é a ‘experiência
sensível que nela escreve’. Antes de experimentarmos a sensação,
não podemos pensar, porque tudo ‘aquilo que se encontra no intelecto
deve passar primeiramente pelos sentidos’. Assim, todos os nossos conceitos,
mesmos os mais gerais e abstractos provêm da experiência. O pensamento
limita-se a unir uns com os outros os diferentes dados da experiência.
c) O apriorismo kantiano
O apriorismo é uma tentativa de mediação
entre o modelo racionalista e o modelo empirista. O verdadeiro fundador do
apriorismo é o filósofo alemão do século XVIII,
Kant. A filosofia de Kant procura conciliar o racionalismo de Leibniz e Wolff
com o empirismo de Locke e Hume. Como os empiristas, afirma que todo o conhecimento começa com a experiência, mas como os racionalistas defende que
isso não prova que todo ele derive da experiência.
A experiência é, portanto, a origem do conhecimento,
mas a sua validade só pode ser garantida pela razão. Se o conhecimento
tivesse a sua génese exclusivamente na experiência teria razão
Hume. Porém, se não deriva só da experiência,se
nenhum conhecimento é possível senão através da
síntese de um elemento material (contingente, particular) com um elemento
formal (universal, necessário) então o que Hume afirma já
não tem fundamento.
O empirismo e o racionalismo constituem dois pólos extremos.
Os empiristas, preocupados com a objectividade do conhecimento, salientam
sobretudo o papel desempenhado pela experiência, pois defendem queo
conhecimento deriva de factores exclusivamente empíricos. Os racionalistas,
preocupados com a universalidade, a verdade e a coerência do conhecimento,
acentuam o papel da razão. Entram assim em confronto duas posições
acerca do conhecimento que podemos considerar clássicas.
Como superar este conflito? Será possível resolvê-lo?
A filosofia contemporânea apresenta algumas tentativas de superar esta
clássica antinomia. Piaget, por exemplo, propõe uma nova relação
entre a razão e a experiência ao conceber o conhecimento como
um processo em que o sujeito tem um papel activo e construtivo.
O
problema da natureza
Directamente relacionado com o problema da origem está
o problema da natureza ou essência do conhecimento: o que é que
conhecemos? Os próprios objectos, ou as representações,
em nós, dos objectos? Para responder a estas questões a filosofia
apresenta duas grandes doutrinas: o realismo e o idealismo.
a) Realismo
É a doutrina que afirma que, no acto do conhecimento,
o sujeito apreende, por intuição directa, um objecto que é
independente e distinto dele.
Há, portanto, duas teses a considerar no realismo:
a) a existência dos objectos como realidade distinta
dosujeito;
b) a apreensão perceptiva, directa, dessa realidade.
Tradicionalmente
distinguem-se duas formas de realismo: o ingénuo e o
crítico.
O realismo ingénuo admite
que as coisas são tal e qual as apreendemos e que, por conseguinte,
a percepção sensorial nos dá a cópia fiel do mundo
externo. É, portanto,a atitude própria do homem comum, para
quem o conhecimento não é um problema.
O realismo
crítico concebe o conhecimento, não como cópia,mas
como interpretação,ou seja, como meio de atingir, para além
do sensível, a realidade oculta, inteligível, que por detrás
do sensível se esconde.Assim, as sensações não
nos dizem o que as coisas são em si próprias, mas dizem-nos o
que as coisas são para nós.Por isso, a sensação
não será conhecimento, como sustenta o realismo ingénuo,mas
o ponto de partida, ou o meio de atingir o conhecimento.
O realismo procura
demonstrar a existência transcendente dos objectos ao afirmar que as
coisas são independentes das nossas percepções, que existem
em si, não se reduzindo a estados da nossa consciência.
b) Idealismo
Defende que o objecto não existe independentemente do
sujeito. Não há coisas reais, transcendentes ou exteriores ao
espírito. Tudo quanto existe está no espírito, é
criação sua. Por conseguinte, não é o objecto
em si que conhecemos, mas o objecto tal qual se nos representa. A ideia de
um objecto independente da consciência é contraditória,
pois, no momento em que pensamos num objecto fazemos dele um conteúdo
da nossa consciência. O idealismo admite assim diversas formas e modalidades.
Idealismo subjectivo- as ideias não são representações
de uma realidade exterior e distinta delas mesmas, pois as coisas são
na realidade ideias e o seu ser consiste, portanto, em serem percebidas.As
ideias são sempre ideias de uma mente que as percebe. Se o ser das coisas
consiste em serem percebidas, o ser da mente consiste em perceber.
Idealismo objectivo- a realidade é reduzida a algo de
lógico. O problema do conhecimento é definir logicamente odado
da percepção e convertê-lo, deste modo, em objecto do conhecimento.
Os objectos são concebidos pelo pensamento.
Adaptado de A.Nunes e A Estanqueiro, Filosofia 11º ano
Obs: Poderá consultar a Enciclopédia Logos para aprofundar
o significado dos conceitos usados
