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Fichas de Trabalho

 
A busca de sentido na existência humana- Ficha 1
A busca de sentido na existência humana- Ficha 2
O problema do sentido nos dias de hoje
Da percepção à Razão
 
A busca de sentido na  existência humana

      Texto1
     É da condição   humana querer saber o porquê e o para quê e qual o sentido das coisas. Já muitos perguntaram, por exemplo: o que significa em termos de moral, o facto horrível de um animal carnívoro ter de matar outro para subsistir? Ou de um tremor de terra que mata milhares de pessoas?Que é que significa um universo feito provavelmente desimples bolasde pedra e fogo? E que tudo se afunde um dia em matériainerte? Que é que significa, nesta absurdidade sem fim, a ideia incrível ou abdicativa da existência de Deus? (Virgílio Ferreira)

    Há, efectivamente, problemas perante os quais nos colocamossem a perspectiva de uma fuga possível. São os problemas respeitantesà nossa condição humana, resultantes daquilo que somos,enquanto indivíduos, e do nosso posiocionamento no mundo e peranteo mundo.
    A questão do sentido da existência está intimamente ligadaà situação concreta de cada um. É a partir dessa   condição, particular a cada um, que cada um põea questão do sentido, procura e, eventualmente encontra esse sentido.Um dos nomes que assume o sentido da vida é a felicidade.
    Desde a Antiguidade até aos nossos dias, a felicidade surge como uma aspiração do homem, em nome do qual ele organiza e reorganiza o seu agir. O que somos, o que vamos projectando ser através da nossa acção, somo-lo com o objectivo de nos encaminharmos para aquele estado que é legítimo a todo o ser humano aspirar, a felicidade, cujo sentido deverá ser encontrado na realização de si mesmo. Será, todavia, possível atingir e sse objectivo?
    A par da aspiração à felicidade que tem acompanhado o homem ao longo dos tempos, também a interrogação, a perplexidade, a angústia, o medo, a sensação de ausência de sentido, se mantêm hoje, como sempre, companhias muito íntimas do homem. Se a relação homem- mundo nunca foi pacífica, hoje, talvez mais do que nunca, este faz com que o homem sinta como uma necessidade irrecusável o voltar-se para si mesmo em busca de sentidos, de respostas para os problemas da sua condição existencial.

      Texto 2

    Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder a uma questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois, São apenas jogos; primeiro é preciso responder.
     (...) Se pergunto a mim próprio como decidir se determinadainterrogação é mais premente do que outra qualquer,concluoque a resposta depende das acções a que elas incitam,ou obrigam.Nunca vi ninguém morrer pelo argumento ontológico.Galileu quepossuía uma verdade científica importante, dela abjurou coma maior das facilidades deste mundo, logo que tal verdade pôs a suavida em perigo. Fez bem, em certo sentido. Essa verdade não valia afogueira. Qual deles, a Terra ou o Sol gira em redor do outro, é-nos profundamente indiferente. A bem dizer, é um assunto fútil. Em contrapartida, vejo que muitas pessoas morrem por considerarem que a vida não merece ser vivida. Outros vejo que se fazem paradoxalmente matar pelas ideias ou pelas ilusões que lhes dão uma razão de viver ( o que se chama um razão de viver é ao mesmo tempo uma excelente razão de morrer). Julgo pois que o sentido da vida é o mais premente dos assuntos- das interrogações.(Albert Camus)

QUESTÕES

1-    Caracteriza a pergunta pelo sentido da existência.
2-    Explica a afirmação sublinhada no texto deCamus.
3-    Por que é que Camus considera que o suicídio é o único problema filosófico verdadeiramente sério???

 

O problema do sentido nos dias de hoje
     Mais doque em qualquer outra época, a humanidade enfrenta uma encruzilhada.Um dos caminhos conduz ao desespero e ao completo desânimo. O outro,à extinção total...
    Posto na sua forma mais simples, a questão é: como é possível encontrar um significado para a vida num mundo finito, se forem dados a medida da minha cintura e o meu número de camisa? É uma pergunta muito difícil, dado que a ciência falhou no que nos diz respeito. É verdade que fez muitas conquistas, penetrou no código genético e até colocou seres humanos na Lua...mas os verdadeiros problemas permanecem. Afinal de contas, é possível entrever a alma humana num microscópio? Sabemos que o computador mais avançado do mundo não tem um cérebro tão sofisticado como o de uma formiga. (...) A ciência é algo de que estamos constantemente dependentes. Se apanho uma dor no peito tenho de tirar uma radiografia. E se as radiações dos raios X provocam problemas ainda maiores? Aí vou eu para a cirurgia. É verdade que a ciência nos disse como pasteurizar o queijo. O que até pode ser divertido com uma companhia mista- mas, e a bomba H? Já viram o que acontece quando uma dessas coisas cai acidentalmente de cima de uma secretária? E onde está a ciência quando alguém pensa nos enigmas eternos? Qual é a origem do cosmos? Há quanto tempo anda às voltas? A matéria começou por uma explosão, ou pela palavra de Deus?
   (...)Penso muitas vezes na vida confortável que o homem primitivo deve ter tido, acreditando num poderoso e benevolente Criador que cuidava de todas as coisas (...) O homem contemporâneo, claro, não tem uma tal paz de espírito. Encontra-se no meio de uma crise de fé. É o que se chama, na linguagem da moda, um “alienado”. Assistiu às devastações da guerra, soube de catástrofes naturais. (...) É claro que a crença numa inteligência divina inspira tranquilidade. Mas isso não nos liberta das nossasresponsabilidades humanas. (...) Sentindo menos a Deus, fizemos da tecnologiaDeus. Mas pode a tecnologia ser a resposta quando um Buick novinho em folha,guiado pelo meu sócio N. Zipsky, entra pela janela de um restaurante,obrigando centenas de fregueses a debandar? A minha torradeira nunca funcionoucomo deve ser, durante quatro anos. Sigo as instruções, metoduas fatias de pão nas ranhuras e, uns segundos depois, saltam. Umavez partiram o nariz a uma mulher que eu amava profundamente. Podemos contarcom engenhocas, com a electricidade, na resolução dos nossosproblemas? Sim, o telefone é uma boa coisa, o frigorífico,e o ar condicionado. Mas nem todos.
   (...) O problema é que os nossos dirigentes não nos preparam para uma sociedade mecanizada. A violência produz mais violência. O excesso de população exarcerberáos problemas até ao ponto de ruptura(...).
   Em vez de enfrentar estes desafios, viramo-nos para as distracções (...) 
Somos um povo que necessita de objectivos definidos. Nunca aprendemos a amar. Precisamos de dirigentes e de projectos coerentes. Não temos um pólo espiritual. Andamos, sozinhos, à deriva no cosmos, saciando-nos de mútua violência, cheios de frustração e dor. (Woody Allen)

QUESTÕES:

1) Que "quadro" traça Woody Allen do homem contemporâneo?
2) Como é que o autor vê o papel da ciência na nossa vida?
3) A questão do sentido passará, segundo o autor, por Deus, pela Ciência ou pelo Homem?
4) Explica o sentido da afirmação sublinhada no texto.



TEXTO 1

Os deuses tinham condenado Sísifo a empurrar sem descanso . um rochedo até ao cume de uma montanha, de onde a pedra caía de novo, em consequência do seu peso. Tinham pensado, com alguma razão, que não  há castigo mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.(...)
Os mitos são feitos para que a imaginação os anime. Neste, vê-se simplesmente todo o esforço de um corpo tenso, que se esforça por erguer a enorme pedra, rolá-la e ajudá-la a levar a cabo uma subida cem vezes recomeçada; vê-se o rosto crispado, a face colada à pedra, o socorro de um ombro que recebe o choque dessa massa coberta de barro, de um pé que a escora, os braços que de novo empurram, a segurança bem humana de duas mãos cheias de terra. No termo desse longo esforço, medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, a finalidade está atingida. Sísifo vê então a pedra resvalar em poucos instantes para esse mundo inferior de onde será preciso trazê-la de novo para os cimos. E desce outra vez à superfície.
Albert Camus, O Mito de Sísifo, 1942, pp. 147-149

1) Qual é o objectivo de Sísifo?
2) A vida de Sísifo não tem sentido. Porquê?
2) A vida é absurda se...

Problemas:

1) Terá a vida humana sentido?
2) Será esse sentido alcançável?
3) Terá esse objectivo algum valor?
 

TEXTO 2
 
 

«Muito bem, serás mais famoso do que Gógol, Púshkin, Shakespeare, Molière e do que todos os escritores do mundo - e depois?» E eu não conseguia de maneira alguma responder. [...]
Isto aconteceu-me quando estava rodeado pelo que se considera a completa felicidade. Tinha uma mulher bondosa e dedicada que eu amava, bons filhos e bens que cresciam sem qualquer esforço da minha parte. Era mais do que nunca respeitado pelos meus vizinhos e amigos, era elogiado por estrangeiros e, sem qualquer auto-ilusão, podia considerar que o meu nome era famoso. Além disso, não estava louco nem com problemas mentais - pelo contrário, tinha um controle perfeito das minhas capacidades mentais e físicas [...].
Involuntariamente, imaginava que, algures, alguém se divertia à minha custa ao olhar para mim e ver uma pessoa que tinha vivido 30 ou 40 anos, instruindo-se, desenvolvendo-se, crescendo em corpo e espírito, e agora que eu tinha atingido a força mental e o cume da vida de onde podia avistar tudo, estava como o mais completo idiota nesse cume, vendo claramente que nada havia na vida e que nada haveria. E ele divertia-se...
Mas houvesse ou não alguém que se divertia à minha custa, isso não tornava as coisas mais fáceis para mim. Eu não conseguia atribuir qualquer valor sensato a um único acto nem a toda a minha vida. 0 que me surpreendia era não ter compreendido isso desde sempre. Toda a gente soubera sempre disso. Mais cedo ou mais tarde os que eu amava e eu próprio seríamos vítimas da doença e da morte (como já antes acontecera), e nada restaria senão podridão e vermes. Tudo aquilo de que me ocupava, seja lá o que for, seria mais cedo ou mais tarde esquecido, e eu próprio deixaria de existir.
Leão Tolstoi, Confissão, 12-23

Questão:
-Retire as ideias fundamentais.

Problemas:

1) Mesmo que a minha felicidade não tenha valor, a vida terá sentido desde que eu possa ser para sempre feliz?
2) Uma condição necessária e suficiente para que a felicidade tenha valor é não ser transitória

TEXTO 3

Talvez já tenhas pensado que nada importa realmente, porque daqui a duzentos anos estaremos todos mortos. Esta é uma ideia peculiar, porque não é claro por que motivo o facto de que estaremos todos mortos daqui a duzentos anos deva implicar que nada do que agora fazemos tem realmente importância.
Parece que a ideia consiste em que, nesse caso, estamos todos numa espécie de corrida de ratos, lutando para alcançarmos os nossos objectivos e fazermos alguma coisa das nossas vidas, mas que isto só faz sentido se o que conseguirmos for permanente. Mas nada do que conseguirmos será permanente. Mesmo que produzas uma grande obra literária que continue a ser lida daqui a milhares de anos, o sistema solar acabará por arrefecer, ou o universo acabará por parar ou sucumbir, e todos os sinais do teu esforço desaparecerão. De qualquer modo, não podemos esperar nem mesmo por uma fracção deste tipo de imortalidade.
Thomas Nagel, Que Quer Dizer Tudo Isto?, 1987, pp. 87-88

Questão:
-Retire as ideias-chave.

(A imortalidade da alma aparece como uma resposta à questão do sentido e da felicidade (passamos de um nível de existência a outro)
 

TEXTO 4

Acostuma-te à ideia de que a morte não é nada para nós. Pois todo o bem e todo o mal consistem na sensação, mas a morte é a privação da sensação. E portanto uma compreensão correcta de que a morte nada é para nós faz a mortalidade da vida aprazível, não por lhe acrescentar uma duração infinita, 
mas porque acaba com a ânsia de imortalidade. Pois nada há de terrível na vida para o homem que compreendeu que nada há de terrível em não viver. De modo que fala sem saber quem diz temer a morte não por ser dolorosa quando chegar, mas por ser dolorosa a sua antecipação. Pois o que não traz qualquer problema quando chega em antecipação não passa de uma dor vazia. Assim a morte, o mais aterrorizador dos males, nada é para nós, dado que enquanto existimos a morte não está connosco; mas, quando a morte chega, nós não existimos. A morte não diz respeito portanto nem aos vivos nem aos mortos, pois para os primeiros nada é, e os segundos já nada são.
Epicuro, Carta a Meneceu, pp. 124-125.

1) Qual é a posição de Epicuro?
2) Quais os argumentos que apresenta?

Problemas:

- Não é a mortalidade que torna a vida absurda mas o facto de ansiarmos pela imortalidade .

- A morte não tem importância porque enquanto estamos vivos ela não existe e quando morremos, já não existimos nós.
 

CONFLITO:

-Se a vida é mortal não faz sentido..se não é mortal também não faz sentido...

TEXTO 5
 

O dramaturgo checo Karel Capek (1890-1938) escreveu uma peça de teatro intitulada O caso de Makropulos, transformada em ópera pelo compositor checo Leos Janáèek (1854-1928). O caso de Makropulos sugere que é impossível sermos felizes se formos imortais. A história fala-nos de uma mulher chamada Elina Makropulos, ou Emilia Marty, ou Ellian Macgregor, ou várias outras coisas com as iniciais «EM», cujo pai, o médico da corte de um Imperador do século XVI, lhe deu um elixir da vida. Quando decorre a acção ela tem 342 anos. A sua vida sem fim chegou a um estado de aborrecimento, indiferença e frieza. Nada lhe dá qualquer alegria: «no fim tanto faz», diz ela, «cantar ou ficar em silêncio». Ela recusa-se a tomar o elixir outra vez; morre; e a fórmula é deliberadamente destruída por uma mulher jovem, por entre os protestos de alguns homens mais velhos.
0 estado de EM sugere pelo menos que a morte não é necessariamente um mal, e não apenas no sentido em que quase toda a gente concordaria, no caso em que a morte acaba com o sofrimento, mas no sentido mais fundamental de que pode ser uma boa coisa não viver demasiado tempo. Sugere mais do que isso, pois sugere que o facto de a vida sem fim não ter qualquer significado não era uma peculiaridade de EM.
Bernard Williams, ,0 Caso de Makropulos: Reflexões sobre o tédio da imortalidade», 1973, pp. 82-83.

Questão:
-Retire as ideias-chave.
 

TEXTO 6

 Morreram todos, morrerão todos, mas...e eu? Eu também? (...)
A morte não é apenas necessária como se torna o próprio protótipo do necessário na nossa vida (...) que outras coisas sabemos acerca da morte?  Muitas poucas por certo. Uma delas é que é absolutamente pessoal e intransmissível: ninguém pode morrer por outro, quer dizer, torna-se impossível que alguém com a sua própria morte possa evitar definitivamente a outra pessoa o transe de morrer mais cedo ou mais tarde.
(...)Numa tragédia de Eurípides, a submissa Alceste oferece-se para descer ao Hades - isto é, para morrer - em vez de sseu marido Admeto, um egoísta com muito medo. No fim terá que ser Hércules que desce para a resgatar do reino dos mortos e resolver um pouco a ousadia. Mas nem mesmo a abnegação de Àlceste conseguiu que Admeto escapasse para sempre ao seu destino mortal. Apenas conseguiu retardá-lo: a dívida que todos temos com a morte, cada qual tem que a pagar com a sua própria vida, não com outra. Nem mesmo outras funções biológicas essenciais, como o comer ou fazer amor parecem tão intransmissíveis: além do mais, qualquer pessoa pode comer a minha parte no banquete ao qual eu deveria ter assistido, ou fazer amor à pessoa a quem eu teria podido e querido amar também, poderiam até alimentar-me à força ou fazer-me renunciar ao sexo para sempre. Em contrapartida a morte, a minha morte ou a de outro, têm sempre nome e apelido insubstituíveis,. Por isso, a morte é o mais individualizador e ao mesmo tempo o j, mais igualitário: nesse momento crítico, ninguém é mais nem menos que ninguém, sobretudo ninguém pode ser outro em vez do que e. Ao morrer, cada um é definitivamente o próprio e mais ninguém. Do mesmo modo que_ ao nascer trazemos ao mundo aquele que nunca antes havia sido, ao morrer levamos o que nunca mais voltará a ser.
Quando a morte nos angustia é por qualquer coisa de negativo, pelos gozos da vida que perderemos com ela no caso da nossa própria morte ou porque nos deixa sem as pessoas amadas se se tratar da morte alheia. Quando a tomamos como um alívio (não é impossível considerar em certos casos, a morte como um bem) é também pela parte negativa, pelas dores e preocupações da vida que a sua chegada nos poupará. Quer seja temida .ou .desejada, a morte em si mesma é pura ,negação, reverso da vida ,que por isso, de um modo ou de outro, nos remete sempre à própria vida, como o negativo de uma fotografia está sempre a pedir ser positivado para que o vejamos melhor. É assim que a morte serve para nos fazer pensar, não sobre a morte mas sobre a vida. Como numa parede impenetrável, o pensamento despertado pela morte ressalta contra a própria morte e regressa para se lançar várias vezes sobre a vida. Para lá de fechar os olhos para a não ver ou deixar-nos cegar estremecedoramente pela morte, é-nos oferecida a alternativa mortal de tentar compreender a vida. Mas como podemos compreendê-la? Que instrumento utilizaremos para nos pormos a pensar sobre ela?
F.Savater, As perguntas da Vida, pp-34/5 e 43

Questões:

a) Em que sentido a morte nos torna realmente humanos? 
b)Existe algo mais pessoal que a morte?
c)Pensar será exactamente tornar-se consciente da nossa humanidade pessoal?
d)Os animais serão mortais no mesmo, sentido que nós?
e)Porque é que se diz que a morte é intransmissível ?
f)Em que sentido a morte é sempre iminente e não depende da idade ou dás doenças?
g)Porque é que Epicuro afirma que não devemos recear a morte? 
h)Existe algo de positivo na morte para pensarmos?
i)Porque é que a morte pode despertar um pensamento que se concentrará depois na vida?
 

TEXTO COMPLEMENTAR

 Diz-se por vezes que nada do que fazemos agora terá importância daqui a um milhão de anos. Mas se isso for verdade, então nada do que acontecer daqui a um milhão de anos terá igualmente importância agora. Em particular, não importa agora que dentro de um milhão de anos nada do que fazemos agora terá importância. Além disso, mesmo que o que agora fazemos tivesse importância daqui a um milhão de anos, como poderia isso impedir que as nossas preocupações actuais fossem absurdas? Se o facto de serem importantes agora não é suficiente para conseguir isso, como poderia o facto de serem importantes daqui a um milhão de anos fazer alguma diferença?
A questão de saber se o que agora fazemos terá importância daqui a um milhão de anos só poderá fazer toda a diferença se o facto de ter importância daqui a um milhão de anos depender de ter importância, sem mais. Mas, então, negar que seja o que for que aconteça agora terá importância daqui a um milhão de anos é uma petição de princípio com respeito à sua importância, sem mais; pois nesse sentido não podemos saber que não terá importância daqui a um milhão de anos se (por exemplo) alguém agora é feliz ou miserável sem saber que não tem importância, sem mais.
 0 que dizemos para exprimir o absurdo das nossas vidas tem muitas vezes a ver com o espaço e o tempo: somos minúsculas partículas na vastidão infinita do universo; as nossas
vidas são meros instantes até numa escala geológica, quanto mais numa escala cósmica; estaremos todos mortos em breve. Mas é claro que não pode ser qualquer destes factos evidentes que faz a vida ser absurda, se for absurda. Pois suponha que vivíamos para sempre; não será uma vida que é absurda se durar setenta anos infinitamente absurda se durasse toda a eternidade? E se as nossas vidas são absurdas dado o nosso tamanho actual, por que razão seriam menos absurdas se abrangêssemos todo o universo (ou por sermos maiores ou por o universo ser mais pequeno)? A reflexão sobre a nossa pequenez e brevidade parece estar intimamente ligada com a sensação de que a nossa vida não tem sentido; mas não é claro qual é a ligação.
Outro argumento inadequado é o seguinte: porque vamos morrer, todas as cadeias de justificação têm de ser interrompidas no vazio: estudamos e trabalhamos para ganhar dinheiro para pagar vestuário, casa, diversão, comida e para nos sustentarmos ano após ano, talvez para sustentar uma família e ter uma carreira - mas com que fim último? Tudo isto é uma viagem elaborada que não conduz a lado algum. (Teremos também algum efeito sobre as vidas das outras pessoas, mas isso limita-se a reproduzir o problema, pois também elas irão morrer).
Há várias respostas a este argumento. Em primeiro lugar, a vida não é uma série de sequências de actividades em que cada uma delas tem como propósito outro membro qualquer da sequência. As cadeias de justificação chegam repetidamente ao fim no seio da vida, e a questão de saber se o processo como um todo pode ter justificação não tem qualquer influência na finalidade destas pontas finais. Não é preciso qualquer justificação complementar para que seja razoável tomar uma aspirina contra a dor de cabeça, visitar uma exposição de um pintor que admiramos ou impedir uma criança de colocar a sua mão num fogão quente. Não precisamos de um contexto mais vasto nem de um propósito complementar para impedir que estes actos não tenham objectivo.
Mesmo que alguém desejasse fornecer uma justificação complementar para fazer todas as coisas na vida que habitualmente encaramos como coisas que habitualmente encaramos como coisas que se justificam a si mesmas, também essa justifica ção teria de parar algures. Se nada pode justificar a não ser que tenha justificação em termos de algo fora de si, que também tenha justificação, temos como resultado uma regressão infinita e nenhuma cadeia de justificação pode ser completa. Além disso, se uma cadeia finita de razões não pode justificar coisa alguma, o que ganharíamos com uma cadeia infinita, em que cada elo tem de ter justificação em algo exterior a si mesmo?
Dado que as justificações têm de chegar ao fim algures, nada ganhamos em negar que acabam onde parecem acabar, no seio da vida - nem ganhamos seja o que for ao tentar subsumir as múltiplas e muitas vezes triviais justificações comuns da acção sob um esquema de vida único e controlador. Podemos satisfazer-nos com menos do que isso. De facto, por representar erradamente o processo de justificação, o argumento faz uma exigência vácua. Insiste que as razões disponíveis no seio da vida são incompletas, mas sugere desse modo que todas as razões que chegam ao fim são incompletas. Isto torna impossível fornecer quaisquer razões.
Os argumentos habituais a favor do absurdo parecem portanto falhar como argumentos.
Thomas Nagel, «0 Absurdo», 1971, pp. 11-13

Questões:

1.Qual é o objectivo de T.Nagel no texto?
2. Que argumentos ele apresenta no texto a propósito da absurdidade da vida?
3.Podemos concluir das afirmações do autor que a vida não é absurda?
 


 
 
 
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