O problema do sentido nos dias de hoje
Mais doque em qualquer outra época, a humanidade enfrenta uma encruzilhada.Um
dos caminhos conduz ao desespero e ao completo desânimo. O outro,à
extinção total...
Posto na sua forma mais
simples, a questão é: como é possível encontrar
um significado para a vida num mundo finito, se forem dados a medida da
minha cintura e o meu número de camisa? É uma pergunta muito
difícil, dado que a ciência falhou no que nos diz respeito.
É verdade que fez muitas conquistas, penetrou no código genético
e até colocou seres humanos na Lua...mas os verdadeiros problemas
permanecem. Afinal de contas, é possível entrever a alma
humana num microscópio? Sabemos que o computador mais avançado
do mundo não tem um cérebro tão sofisticado como o
de uma formiga. (...) A ciência é algo de que estamos constantemente
dependentes. Se apanho uma dor no peito tenho de tirar uma radiografia.
E se as radiações dos raios X provocam problemas ainda maiores?
Aí vou eu para a cirurgia. É verdade que a ciência
nos disse como pasteurizar o queijo. O que até pode ser divertido
com uma companhia mista- mas, e a bomba H? Já viram o que acontece
quando uma dessas coisas cai acidentalmente de cima de uma secretária?
E onde está a ciência quando alguém pensa nos enigmas
eternos? Qual é a origem do cosmos? Há quanto tempo anda
às voltas? A matéria começou por uma explosão,
ou pela palavra de Deus?
(...)Penso muitas vezes na vida
confortável que o homem primitivo deve ter tido, acreditando num
poderoso e benevolente Criador que cuidava de todas as coisas (...) O homem
contemporâneo, claro, não tem uma tal paz de espírito.
Encontra-se no meio de uma crise de fé. É o que se chama,
na linguagem da moda, um “alienado”. Assistiu às
devastações da guerra, soube de catástrofes naturais.
(...) É claro que a crença numa inteligência divina
inspira tranquilidade. Mas isso não nos liberta das nossasresponsabilidades
humanas. (...) Sentindo menos a Deus, fizemos da tecnologiaDeus. Mas pode
a tecnologia ser a resposta quando um Buick novinho em folha,guiado pelo
meu sócio N. Zipsky, entra pela janela de um restaurante,obrigando
centenas de fregueses a debandar? A minha torradeira nunca funcionoucomo
deve ser, durante quatro anos. Sigo as instruções, metoduas
fatias de pão nas ranhuras e, uns segundos depois, saltam. Umavez
partiram o nariz a uma mulher que eu amava profundamente. Podemos contarcom
engenhocas, com a electricidade, na resolução dos nossosproblemas?
Sim, o telefone é uma boa coisa, o frigorífico,e o ar condicionado.
Mas nem todos.
(...) O problema é que
os nossos dirigentes não nos preparam para uma sociedade mecanizada.
A violência produz mais violência. O excesso de população
exarcerberáos problemas até ao ponto de ruptura(...).
Em vez de enfrentar estes
desafios, viramo-nos para as distracções (...)
Somos um povo que necessita de objectivos
definidos. Nunca aprendemos a amar. Precisamos de dirigentes e de projectos
coerentes. Não temos um pólo espiritual. Andamos, sozinhos,
à deriva no cosmos, saciando-nos de mútua violência,
cheios de frustração e dor. (Woody Allen)
QUESTÕES:
1) Que "quadro" traça Woody Allen do
homem contemporâneo?
2) Como é que o autor vê o papel
da ciência na nossa vida?
3) A questão do sentido passará,
segundo o autor, por Deus, pela Ciência ou pelo Homem?
4) Explica o sentido da afirmação
sublinhada no texto.

TEXTO 1
Os deuses tinham
condenado Sísifo a empurrar sem descanso . um rochedo até
ao cume de uma montanha, de onde a pedra caía de novo, em consequência
do seu peso. Tinham pensado, com alguma razão, que não
há castigo mais terrível do que o trabalho inútil
e sem esperança.(...)
Os mitos são
feitos para que a imaginação os anime. Neste, vê-se
simplesmente todo o esforço de um corpo tenso, que se esforça
por erguer a enorme pedra, rolá-la e ajudá-la a levar a cabo
uma subida cem vezes recomeçada; vê-se o rosto crispado, a
face colada à pedra, o socorro de um ombro que recebe o choque dessa
massa coberta de barro, de um pé que a escora, os braços
que de novo empurram, a segurança bem humana de duas mãos
cheias de terra. No termo desse longo esforço, medido pelo espaço
sem céu e pelo tempo sem profundidade, a finalidade está
atingida. Sísifo vê então a pedra resvalar em poucos
instantes para esse mundo inferior de onde será preciso trazê-la
de novo para os cimos. E desce outra vez à superfície.
Albert Camus, O
Mito de Sísifo, 1942, pp. 147-149
1) Qual é o objectivo de Sísifo?
2) A vida de Sísifo não tem
sentido. Porquê?
2) A vida é absurda se...
Problemas:
1) Terá a
vida humana sentido?
2) Será esse
sentido alcançável?
3) Terá esse
objectivo algum valor?
TEXTO 2
«Muito bem,
serás mais famoso do que Gógol, Púshkin, Shakespeare,
Molière e do que todos os escritores do mundo - e depois?»
E eu não conseguia de maneira alguma responder. [...]
Isto aconteceu-me
quando estava rodeado pelo que se considera a completa felicidade. Tinha
uma mulher bondosa e dedicada que eu amava, bons filhos e bens que cresciam
sem qualquer esforço da minha parte. Era mais do que nunca respeitado
pelos meus vizinhos e amigos, era elogiado por estrangeiros e, sem qualquer
auto-ilusão, podia considerar que o meu nome era famoso. Além
disso, não estava louco nem com problemas mentais - pelo contrário,
tinha um controle perfeito das minhas capacidades mentais e físicas
[...].
Involuntariamente,
imaginava que, algures, alguém se divertia à minha custa
ao olhar para mim e ver uma pessoa que tinha vivido 30 ou 40 anos, instruindo-se,
desenvolvendo-se, crescendo em corpo e espírito, e agora que eu
tinha atingido a força mental e o cume da vida de onde podia avistar
tudo, estava como o mais completo idiota nesse cume, vendo claramente que
nada havia na vida e que nada haveria. E ele divertia-se...
Mas houvesse ou
não alguém que se divertia à minha custa, isso não
tornava as coisas mais fáceis para mim. Eu não conseguia
atribuir qualquer valor sensato a um único acto nem a toda a minha
vida. 0 que me surpreendia era não ter compreendido isso desde sempre.
Toda a gente soubera sempre disso. Mais cedo ou mais tarde os que eu amava
e eu próprio seríamos vítimas da doença e da
morte (como já antes acontecera), e nada restaria senão podridão
e vermes. Tudo aquilo de que me ocupava, seja lá o que for, seria
mais cedo ou mais tarde esquecido, e eu próprio deixaria de existir.
Leão Tolstoi,
Confissão, 12-23
Questão:
-Retire as ideias
fundamentais.
Problemas:
1) Mesmo que a minha
felicidade não tenha valor, a vida terá sentido desde que
eu possa ser para sempre feliz?
2) Uma condição
necessária e suficiente para que a felicidade tenha valor é
não ser transitória
TEXTO 3
Talvez já
tenhas pensado que nada importa realmente, porque daqui a duzentos anos
estaremos todos mortos. Esta é uma ideia peculiar, porque não
é claro por que motivo o facto de que estaremos todos mortos daqui
a duzentos anos deva implicar que nada do que agora fazemos tem realmente
importância.
Parece que a ideia
consiste em que, nesse caso, estamos todos numa espécie de corrida
de ratos, lutando para alcançarmos os nossos objectivos e fazermos
alguma coisa das nossas vidas, mas que isto só faz sentido se o
que conseguirmos for permanente. Mas nada do que conseguirmos será
permanente. Mesmo que produzas uma grande obra literária que continue
a ser lida daqui a milhares de anos, o sistema solar acabará por
arrefecer, ou o universo acabará por parar ou sucumbir, e todos
os sinais do teu esforço desaparecerão. De qualquer modo,
não podemos esperar nem mesmo por uma fracção deste
tipo de imortalidade.
Thomas Nagel, Que
Quer Dizer Tudo Isto?, 1987, pp. 87-88
Questão:
-Retire as ideias-chave.
(A imortalidade da alma aparece como uma resposta à questão
do sentido e da felicidade (passamos de um nível de existência
a outro)
TEXTO 4
Acostuma-te à
ideia de que a morte não é nada para nós. Pois todo
o bem e todo o mal consistem na sensação, mas a morte é
a privação da sensação. E portanto uma compreensão
correcta de que a morte nada é para nós faz a mortalidade
da vida aprazível, não por lhe acrescentar uma duração
infinita,
mas porque acaba
com a ânsia de imortalidade. Pois nada há de terrível
na vida para o homem que compreendeu que nada há de terrível
em não viver. De modo que fala sem saber quem diz temer a morte
não por ser dolorosa quando chegar, mas por ser dolorosa a sua antecipação.
Pois o que não traz qualquer problema quando chega em antecipação
não passa de uma dor vazia. Assim a morte, o mais aterrorizador
dos males, nada é para nós, dado que enquanto existimos a
morte não está connosco; mas, quando a morte chega, nós
não existimos. A morte não diz respeito portanto nem aos
vivos nem aos mortos, pois para os primeiros nada é, e os segundos
já nada são.
Epicuro, Carta a
Meneceu, pp. 124-125.
1) Qual é
a posição de Epicuro?
2) Quais os argumentos
que apresenta?
Problemas:
- Não é
a mortalidade que torna a vida absurda mas o facto de ansiarmos pela imortalidade
.
- A morte não
tem importância porque enquanto estamos vivos ela não existe
e quando morremos, já não existimos nós.
CONFLITO:
-Se a vida é
mortal não faz sentido..se não é mortal também
não faz sentido...
TEXTO 5
O dramaturgo checo
Karel Capek (1890-1938) escreveu uma peça de teatro intitulada O
caso de Makropulos, transformada em ópera pelo compositor checo
Leos Janáèek (1854-1928). O caso de Makropulos sugere que
é impossível sermos felizes se formos imortais. A história
fala-nos de uma mulher chamada Elina Makropulos, ou Emilia Marty, ou Ellian
Macgregor, ou várias outras coisas com as iniciais «EM»,
cujo pai, o médico da corte de um Imperador do século XVI,
lhe deu um elixir da vida. Quando decorre a acção ela tem
342 anos. A sua vida sem fim chegou a um estado de aborrecimento, indiferença
e frieza. Nada lhe dá qualquer alegria: «no fim tanto faz»,
diz ela, «cantar ou ficar em silêncio». Ela recusa-se
a tomar o elixir outra vez; morre; e a fórmula é deliberadamente
destruída por uma mulher jovem, por entre os protestos de alguns
homens mais velhos.
0 estado de EM sugere
pelo menos que a morte não é necessariamente um mal, e não
apenas no sentido em que quase toda a gente concordaria, no caso em que
a morte acaba com o sofrimento, mas no sentido mais fundamental de que
pode ser uma boa coisa não viver demasiado tempo. Sugere mais do
que isso, pois sugere que o facto de a vida sem fim não ter qualquer
significado não era uma peculiaridade de EM.
Bernard Williams,
,0 Caso de Makropulos: Reflexões sobre o tédio da imortalidade»,
1973, pp. 82-83.
Questão:
-Retire as ideias-chave.
TEXTO 6
Morreram todos,
morrerão todos, mas...e eu? Eu também? (...)
A morte não
é apenas necessária como se torna o próprio protótipo
do necessário na nossa vida (...) que outras coisas sabemos acerca
da morte? Muitas poucas por certo. Uma delas é que é
absolutamente pessoal e intransmissível: ninguém pode morrer
por outro, quer dizer, torna-se impossível que alguém com
a sua própria morte possa evitar definitivamente a outra pessoa
o transe de morrer mais cedo ou mais tarde.
(...)Numa tragédia
de Eurípides, a submissa Alceste oferece-se para descer ao Hades
- isto é, para morrer - em vez de sseu marido Admeto, um egoísta
com muito medo. No fim terá que ser Hércules que desce para
a resgatar do reino dos mortos e resolver um pouco a ousadia. Mas nem mesmo
a abnegação de Àlceste conseguiu que Admeto escapasse
para sempre ao seu destino mortal. Apenas conseguiu retardá-lo:
a dívida que todos temos com a morte, cada qual tem que a pagar
com a sua própria vida, não com outra. Nem mesmo outras funções
biológicas essenciais, como o comer ou fazer amor parecem tão
intransmissíveis: além do mais, qualquer pessoa pode comer
a minha parte no banquete ao qual eu deveria ter assistido, ou fazer amor
à pessoa a quem eu teria podido e querido amar também, poderiam
até alimentar-me à força ou fazer-me renunciar ao
sexo para sempre. Em contrapartida a morte, a minha morte ou a de outro,
têm sempre nome e apelido insubstituíveis,. Por isso, a morte
é o mais individualizador e ao mesmo tempo o j, mais igualitário:
nesse momento crítico, ninguém é mais nem menos que
ninguém, sobretudo ninguém pode ser outro em vez do que e.
Ao morrer, cada um é definitivamente o próprio e mais ninguém.
Do mesmo modo que_ ao nascer trazemos ao mundo aquele que nunca antes havia
sido, ao morrer levamos o que nunca mais voltará a ser.
Quando a morte nos
angustia é por qualquer coisa de negativo, pelos gozos da vida que
perderemos com ela no caso da nossa própria morte ou porque nos
deixa sem as pessoas amadas se se tratar da morte alheia. Quando a tomamos
como um alívio (não é impossível considerar
em certos casos, a morte como um bem) é também pela parte
negativa, pelas dores e preocupações da vida que a sua chegada
nos poupará. Quer seja temida .ou .desejada, a morte em si mesma
é pura ,negação, reverso da vida ,que por isso, de
um modo ou de outro, nos remete sempre à própria vida, como
o negativo de uma fotografia está sempre a pedir ser positivado
para que o vejamos melhor. É assim que a morte serve para nos fazer
pensar, não sobre a morte mas sobre a vida. Como numa parede impenetrável,
o pensamento despertado pela morte ressalta contra a própria morte
e regressa para se lançar várias vezes sobre a vida. Para
lá de fechar os olhos para a não ver ou deixar-nos cegar
estremecedoramente pela morte, é-nos oferecida a alternativa mortal
de tentar compreender a vida. Mas como podemos compreendê-la? Que
instrumento utilizaremos para nos pormos a pensar sobre ela?
F.Savater, As perguntas
da Vida, pp-34/5 e 43
Questões:
a) Em que sentido
a morte nos torna realmente humanos?
b)Existe algo mais
pessoal que a morte?
c)Pensar será
exactamente tornar-se consciente da nossa humanidade pessoal?
d)Os animais serão
mortais no mesmo, sentido que nós?
e)Porque é
que se diz que a morte é intransmissível ?
f)Em que sentido
a morte é sempre iminente e não depende da idade ou dás
doenças?
g)Porque é
que Epicuro afirma que não devemos recear a morte?
h)Existe algo de
positivo na morte para pensarmos?
i)Porque é
que a morte pode despertar um pensamento que se concentrará depois
na vida?
TEXTO COMPLEMENTAR
Diz-se por
vezes que nada do que fazemos agora terá importância daqui
a um milhão de anos. Mas se isso for verdade, então nada
do que acontecer daqui a um milhão de anos terá igualmente
importância agora. Em particular, não importa agora que dentro
de um milhão de anos nada do que fazemos agora terá importância.
Além disso, mesmo que o que agora fazemos tivesse importância
daqui a um milhão de anos, como poderia isso impedir que as nossas
preocupações actuais fossem absurdas? Se o facto de serem
importantes agora não é suficiente para conseguir isso, como
poderia o facto de serem importantes daqui a um milhão de anos fazer
alguma diferença?
A questão
de saber se o que agora fazemos terá importância daqui a um
milhão de anos só poderá fazer toda a diferença
se o facto de ter importância daqui a um milhão de anos depender
de ter importância, sem mais. Mas, então, negar que seja o
que for que aconteça agora terá importância daqui a
um milhão de anos é uma petição de princípio
com respeito à sua importância, sem mais; pois nesse sentido
não podemos saber que não terá importância daqui
a um milhão de anos se (por exemplo) alguém agora é
feliz ou miserável sem saber que não tem importância,
sem mais.
0 que dizemos
para exprimir o absurdo das nossas vidas tem muitas vezes a ver com o espaço
e o tempo: somos minúsculas partículas na vastidão
infinita do universo; as nossas
vidas são
meros instantes até numa escala geológica, quanto mais numa
escala cósmica; estaremos todos mortos em breve. Mas é claro
que não pode ser qualquer destes factos evidentes que faz a vida
ser absurda, se for absurda. Pois suponha que vivíamos para sempre;
não será uma vida que é absurda se durar setenta anos
infinitamente absurda se durasse toda a eternidade? E se as nossas vidas
são absurdas dado o nosso tamanho actual, por que razão seriam
menos absurdas se abrangêssemos todo o universo (ou por sermos maiores
ou por o universo ser mais pequeno)? A reflexão sobre a nossa pequenez
e brevidade parece estar intimamente ligada com a sensação
de que a nossa vida não tem sentido; mas não é claro
qual é a ligação.
Outro argumento
inadequado é o seguinte: porque vamos morrer, todas as cadeias de
justificação têm de ser interrompidas no vazio: estudamos
e trabalhamos para ganhar dinheiro para pagar vestuário, casa, diversão,
comida e para nos sustentarmos ano após ano, talvez para sustentar
uma família e ter uma carreira - mas com que fim último?
Tudo isto é uma viagem elaborada que não conduz a lado algum.
(Teremos também algum efeito sobre as vidas das outras pessoas,
mas isso limita-se a reproduzir o problema, pois também elas irão
morrer).
Há várias
respostas a este argumento. Em primeiro lugar, a vida não é
uma série de sequências de actividades em que cada uma delas
tem como propósito outro membro qualquer da sequência. As
cadeias de justificação chegam repetidamente ao fim no seio
da vida, e a questão de saber se o processo como um todo pode ter
justificação não tem qualquer influência na
finalidade destas pontas finais. Não é preciso qualquer justificação
complementar para que seja razoável tomar uma aspirina contra a
dor de cabeça, visitar uma exposição de um pintor
que admiramos ou impedir uma criança de colocar a sua mão
num fogão quente. Não precisamos de um contexto mais vasto
nem de um propósito complementar para impedir que estes actos não
tenham objectivo.
Mesmo que alguém
desejasse fornecer uma justificação complementar para fazer
todas as coisas na vida que habitualmente encaramos como coisas que habitualmente
encaramos como coisas que se justificam a si mesmas, também essa
justifica ção teria de parar algures. Se nada pode justificar
a não ser que tenha justificação em termos de algo
fora de si, que também tenha justificação, temos como
resultado uma regressão infinita e nenhuma cadeia de justificação
pode ser completa. Além disso, se uma cadeia finita de razões
não pode justificar coisa alguma, o que ganharíamos com uma
cadeia infinita, em que cada elo tem de ter justificação
em algo exterior a si mesmo?
Dado que as justificações
têm de chegar ao fim algures, nada ganhamos em negar que acabam onde
parecem acabar, no seio da vida - nem ganhamos seja o que for ao tentar
subsumir as múltiplas e muitas vezes triviais justificações
comuns da acção sob um esquema de vida único e controlador.
Podemos satisfazer-nos com menos do que isso. De facto, por representar
erradamente o processo de justificação, o argumento faz uma
exigência vácua. Insiste que as razões disponíveis
no seio da vida são incompletas, mas sugere desse modo que todas
as razões que chegam ao fim são incompletas. Isto torna impossível
fornecer quaisquer razões.
Os argumentos habituais
a favor do absurdo parecem portanto falhar como argumentos.
Thomas Nagel, «0
Absurdo», 1971, pp. 11-13
Questões:
1.Qual é o
objectivo de T.Nagel no texto?
2. Que argumentos
ele apresenta no texto a propósito da absurdidade da vida?
3.Podemos concluir
das afirmações do autor que a vida não é absurda?
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