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   O desenvolvimento da investigação científica e da especulação filosófica efectuaram-se durante muito tempo, por uma forma inteiramente paralela. Na Antiguidade e na Idade Média eram muitas vezes os mesmos homens que se entregavam a uma e a outra; os diversos ramos de conhecimento começavam, como que muito a custo, a diferenciarem-se no seio daquela massa confusa em que se encontravam misturados os dados da ciência e os primeiros sistemas filosóficos. No entanto, já certas ciências, como a geometria e a astronomia e a medicina, tinham feito progressos suficientes para conquistar a sua autonomia e, a partir do século XVI, verificou-se que cada uma das diversas disciplinas se foi desligando do velho tronco comum da filosofia e afirmando a sua independência. Se no século XVII e no século XVIII, contrariamente, não houve filósofos que não fossem também sábios, como se prova suficientemente com os nomes de Descartes, Leibniz e Kant, o século XIX, contrariamente, viu surgir o divórcio entre os sábios e os filósofos, visto que os primeiros olhavam com certas suspeitas as especulações filosóficas, que lhes pareciam muitas vezes com falta de bases precisas ou agitarem em vão problemas insolúveis, ao passo que os segundos começavam a desinteressar-se dos resultados, a seus olhos muito particulares, das diversas ciências.
  
   Esta separação foi prejudicial, não só para a filosofia, como também para a ciência.A razão de ser da filosofia é procurar resumir, numa síntese suprema, o conjunto dos conhecimentos humanos, submetendo a uma crítica comparativa os métodos empregues para os obter,e tentar depois ultrapassar esses conhecimentos, edificando sistemas e teorias gerais que, embora sejam construções bastante frágeis, correspondem às inquietações e aspirações da alma humana. Como poderia tal tarefa ser levada a cabo, duma maneira séria, por homens que não conhecesem, ao menos no seu conjunto, os resultados da ciência do seu tempo? Como se poderia comparar e criticar os métodos empregues pelas diversas disciplinas científicas e apreciar o valor dos seus resultados, se não houver um conhecimento prático e pessoal desses métodos e um conhecimento assaz extenso de tais resultados? Como será possível abordar a tentativa, sempre ousada, de criar uma representação geral do mundo, se, antes de tudo, não tiverem sido cuidadosamente estudados os dados que nos fornecem, sobre esse mesmo mundo, as investigações porfiadas da ciência ? Desconhecendo esses dados, o filósofo não pode executar seriamente a sua tarefa. Em compensação, poderá parecer que um sábio não arrisca grande coisa por desconhecer sistematicamente a filosofia, e é certo que muitos sábios eminentes puderam realizar grandes obras sem nunca se terem importado com interpretações filosóficas. No entanto, para os sábios, e em particular para os teóricos, há certo perigo em quererem ignorar o esforço dos filósofos e, principalmente, o seu trabalho de crítica. De facto, muitas vezes, por não terem analisado suficientemente os conceitos e os métodos de que se servem, certos sábios aceitam, inconscientemente e sem discussão, certo sistema filosófico, e tornam-se de tal modo dogmáticos que não submetem a nenhuma crítica as suas ideias preconcebidas. Assim, certos sábios dos tempos modernos, vítimas de um  ingénuo realismo, adoptaram, quase sem se aperceberem disso, uma metafísica de carácter materialista e mecanicista, e consideraram-na como expressão da verdade científica. Um dos grandes serviços prestados ao pensamento contemporâneo pela evolução recente da física é ter feito ruir essa metafísica simplista e ter conseguido chamar a atenção para certos problemas filosóficos tradicionais vistos agora sob aspectos inteiramente novos. Assim se preparou uma aproximação entre a ciência e a filosofia.Por outro lado, o desenvolvimento da ciência não se poderá efectuar sem que se abordem, pelo menos superficialmente, questões ligadas à filosofia, procurando para certos problemas, soluções novas e muito originais, por outro lado, a filosofia não poderá deixar de prestar a sua atenção aos elementos novos que são oferecidos à sua observação pelos trabalhos dos físicos.
 
                                                                                         L.de Broglie, Para além da Ciência
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