Diferentes posições filosóficas
face ao problema
do sentido da existência
1-Filósofos que admitem que a vida não
tem qualquer sentido:são os chamados filósofos do absurdo.
“Absurdo”significa, por definição o que não
é passível de compreensão racional. Esta ausência
de inteligibilidade pode derivar da ideia de não existir qualquer racionalidade
na acção e na existência humanas, por exemplo, em acontecimentos
que, ao serem absolutamente injustificáveis, podem ser considerados
absurdos, como é o caso do sofrimento inútil de muitos inocentes.
Nos nossos dias,as filosofias do absurdo foram defendidas por
filósofos que se inserem num movimento conhecido por Existencialismo
[1], nomeadamente, Jean-Paul Sartre(1905-1980) e Albert Camus (1913-1960).
Camus diz em “O mito de Sísifo”que o ‘absurdo é
o confronto do irracionalismo(do mundo) como desvairado desejo de clareza,
cujo apelo ressoa no mais profundo do homem’.
A posição destes filósofos assenta na convicção
de que, ao contrário do que acontecia com filosofias anteriores, não
há uma natureza que condicione e destine o percurso da vida humana,
individual ou colectiva.Assim, os indivíduos são dotados de
uma vontade livre e, consequentemente,totalmente responsáveis pelo
seu destino. Assim, em vez de obedecer a uma essência que predetermina
a sua existência, é o indivíduo que, ao existir e ao fazer
as opções que se colocam inevitavelmenteno seu dia-a-dia, se
dá a si próprio uma essência, se constrói à medida que age. O existencialismo nega assim qualquer determinismo ou necessidade na existência.
Sartre, por exemplo,procura mostrar como a partir de uma interpretação
radical da liberdade é possível responder ao vazio da afirmação
da absurdidade da vida. Para Sartre o homem é inteira e radicalmente
livre e não pode não o ser, ou seja, ‘está condenado
a ser livre’. Esta concepção de liberdade é incompatível
com a afirmação da existência de Deus pois esta faria
do homem um ser com uma essência predeterminada. Ao negar a existência
de Deus, Sartre condena o homem à liberdade já que não
há nenhuma instância superior criadora da natureza humana. O
ser humano tem assim abertas todas as possibilidades de ser o que a sua vontade
escolher. O homem não pode deixar de escolher e é inteiramente
responsável pelas suas acções.
A angústia decorre do facto de o homem se sentir um estranho
no seio da existência.A náusea de que Sartre fala numa das suas
obras é precisamente o sentimento da apreensão e estranheza
do mundo, das coisas, de si próprio e dos outros homens. Os outros,
ao invés de se constituírem como uma saída para a ausência
de sentido, são antes,o que agrava ainda mais a angústia, daí
Sartre dizer que ‘o inferno são os outros’. Para este filósofo,
somos nós que devemos criar o sentido que procuramos e a nossa existência
será o que dela quisermos fazer. A vida não possui um sentido
prévio.Compete ao homem, radicalmente livre, construí-lo ao
vivê-lo.
2- Filósofos que encontram o sentido da existência
no plano da transcendência divina: trata-se da posição
daqueles que acreditam na existência de um ou vários deuses e
que, consequentemente,admitem que a vida humana não termina com o
fim da vida biológica.Distinguindo vida biológica e temporal
de vida espiritual e intemporal,acabam por atribuir maior valor ao lado espiritual da existência. O significado da existência adquire assim um significado transumano.Cada indivíduo é responsável por todos os
seus pensamentos e actos e essa responsabilidade não se refere apenas
aos outros humanos e aos outros seres vivos, mas a um (ou mais) ser superior
ao homem.
Neste quadro, as contrariedades da vida têm o sentido de
prova, ou seja, de aperfeiçoamento no caminho que Deus coloca a cada
indivíduo. Assim, as dificuldades da vida e o sofrimento adquirem sentido.
Alguns defensores desta concepção foram há muitos séculos
atrás Santo Agostinho, Santo Anselmo e outros, já nos nossos
dias, com sejam Karl Jaspers, Gabriel Marcel e Emanuel Mounier.
Para E. Mounier os outros não são o inferno, muito
pelo contrário, o outro é alguém que me revela e me ajuda
a descobrir o mundo. Ele é o meu semelhante ou o meu próximo
e, assim, a experiência fundamental da pessoa é, então,
a comunicação:o que eu sou só o posso saber no quadro
da relação pessoal com um tu. Comunicar é a capacidade
de compreender o outro, não no sentido intelectual, mas antes acolhê-lo
na sua singularidade. Mounier admite que o negativismo de Sartre a propósito
das relações humanas é uma realidade, mas considera que
se bem que a relação com o outro não seja “um jardim
de delícias” também não pode ser reduzida a “um inferno”.
3- Filósofos que defendem que é o próprio ser
humano que constrói o sentido da sua existência: trata-se dequeles que
não acreditando nem admitindo a existência de um plano divino
que dê sentido à vida humana aceitam a existência de um
horizonte que dê sentido global aos actos particulares praticados pelo
indivíduo. Assim, os esforços e sacrifícios de cada um
teriam um sentido, que seria, porventura, o de melhor permitir a evolução
e o aperfeiçoamento da própria espécie humana.
Melhorar as condições de existência de todos
os humanos, criar uma sociedade mais justa e fraterna, tudo isto não
por que se espere uma recompensa no além,mas apenas em obediência
a imperativos éticos que se traduzemem princípios morais como
a solidriedade, a justiça, a liberdade,por confiança nas capacidades
racionais do homem bem como na sua auto-regereneração.São
exemplo disso as grandes utopias políticas.
Estas doutrinas defensoras de um humanismo ateu apareceram
depois de o grande filósofo alemão Friedrich Nietzche ter anunciado
‘Deus está morto’. Morto Deus, o próprio Nietzche
se encarregou de proclamar a necessidade de o Humano se superar a si próprio,
transformando-se pelo seu esforço e vontade em Sobre-Humano que seria
uma espécie de auto-criaçãode si mesmo, isto é,
um ser humano emancipado e sem as tutelas da divindade,criador de novos valores
da vida.
Dos compêndios
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[1] Corrente contemporânea de pensamento que se afirma na Europa
entre as duas grandes guerras e conhece o seu apogeu nos anos 50 e 60. Tem,
pois, a ver com a experiência traumatizante do homem dilacerado pela
guerra, pelo totalitarismo e pela perda da liberdade.