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O século XVI   O século XVII  Razões para duvidar Características da dúvida  O Cogito Provas da Existência de Deus  Críticas

A – Contextualização de Descartes

            O século XVI 

          Descartes viveu numa época turbulenta, instável e, por isso, talvez uma das mais profundas da história europeia. Descartes viveu numa época dividida, possuída por uma enorme curiosidade que se traduziu nas viagens realizadas, no conhecimento das antigas civilizações, enfim, numa época percorrida por uma enorme diversidade de opiniões e doutrinas onde nenhuma autoridade permanecia incontestável: ciência, filosofia ou fé.

       É a destruição das antigas crenças, das antigas concepções que davam ao homem a certeza e a segurança. Os alicerces do aristotelismo vão sendo cada vez mais destruídos pelas descobertas e determinados factos históricos: guerras religiosas (diferentes crenças fazem vacilar a fé numa única verdade); a descoberta da Terra; a descoberta do Céu (o novo sistema desenvolvido por Kepler e Copérnico muda a ideia que os homens têm da relação dos corpos celestes com a Terra. Esta deixa de ser o centro do universo e é apenas um planeta como outro qualquer. Começa, assim, a rachar o sistema aristotélico e instala-se a dúvida. O saber humano entra numa profunda crise).

            A dúvida, o cepticismo, é a situação essencial do homem de então, o resultado mais grave e ameaçador que é professado por autores que parecem ver renunciar a qualquer certeza, esperança, solidez no pensamento e na vida.

            Tudo isto trouxe consequências fundamentais: “um amontoado de riquezas e de escombros”, nas palavras de Koyré, amontoado esse de que Descartes, melhor do que ninguém, se apercebeu.

            Mas o cepticismo não é uma posição cómoda ou sustentável. O homem precisa de certezas, não pode renunciar definitivamente, sem esperança, á certez, à segurança do juízo. Precisa dela para viver. Assim, a partir do século XVI, desenvolve-se um movimento de reacção a este estado de coisas: fé, experiência e razão, sendo Descartes um dos motores desse movimento.

            A transição do “mundo fechado para o universo infinito”, também nas palavras de Koyré, só se faz pagando caro, com o vazio de uma situação onde nada é seguro. Esta situação de fracasso do século XVI impõe a necessidade de uma nova filosofia que supere o cepticismo exigindo a elaboração de um novo método que só será alcançado no século seguinte.

       O século XVII

            No plano cultural, o século XVII caracteriza-se pela substituição progressiva da Igreja pelo Estado. Realiza-se a separação entre a Razão e a Fé. Essa mudança de mentalidade reflecte-se em vários planos:

a)      Plano económico – em virtude das descobertas e do consequente triunfo do capitalismo mercantil, dá-se o desenvolvimento do comércio mundial e formam-se as grandes companhias marítimas;

b)      Plano social – com o desenvolvimento do comércio foi introduzida uma nova ordem de valores influenciada pela actividade mercantil e pela crescente valorização do dinheiro como fundamento de riqueza. Assiste-se à promoção da burguesia mercantil e ao enfraquecimento da nobreza;

c)       Plano político – acentua-se o desenvolvimento do sentimento nacionalista;

d)      Plano ideológico – a emancipação da autoridade da igreja fomentou o individualismo, ou seja, o homem pode agora contar consigo mesmo devendo-se realizar pelo estudo e pelo trabalho. Assiste-se à predilecção pela vida activa em detrimento da vida contemplativa, monástica. O homem é, fundamentalmente, um ser prático. As viagens e os descobrimentos viraram para o naturalismo. Formam-se, também, centros de cultura, as Academias, que se vão transformar nos pólos defensores das novas descobertas científicas. As academias são centros laicos, à margem das universidades que, em grande parte, permanecem aristotélicas.

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B – O projecto cartesiano

            Descartes pretende colocar de lado, fazer tábua rasa, de tudo o já dito e começar de novo, do princípio, como se fosse possível partir do zero. Pretende encontrar uma verdade a partir da qual possa reconstruir tudo de novo.

            Começa, então, por duvidar do que o rodeia. A dúvida cartesiana não é uma mera suspensão do juízo enquanto não existem sólidas razões para que o espírito dê o seu assentimento. A dúvida é solidária de um determinado conceito de ciência de acordo com o qual o que é apenas provável ou duvidoso é rejeitado como falso.

            A dúvida é o primeiro momento do processo de fundamentação metafísica da ciência. A sua acção é propedêutica, purificadora para que o espírito se liberte dos sentidos e apreenda os verdadeiros fundamentos de natureza intelectual.

 

RAZÕES NATURAIS PARA DUVIDAR

Os erros e as ilusões dos sentidos. Trata-se de ver em que fundamentos assenta o soer tradicional e as verdades recebidas desde a infância, nas quais nos habituamos a acreditar (a fonte desse conjunto de verdades são os sentidos). Os sentidos enganam-nos acerca da natureza ou essência das coisas (não quanto à sua existência). Por outro lado, também cometemos erros ao raciocinar. Uma terceira razão tem a ver com mo facto de, muitas vezes, não distinguirmos o sono da vigília.

 

RAZÕES METAFÍSICAS PARA DUVIDAR

            Para reforçar a dúvida e assegurar a solidez dos fundamentos que procura, Descarteis decide duvidar daquilo que já não é naturalmente duvidoso. Na 1ª meditação, Descartes elabora duas hipóteses: a do Deus Enganador e a do Génio Maligno, intencionalmente hiperbólicas e excessivas. A dúvida radicaliza-se, embora se mantenha voluntária.

            Ao nível das Meditações a dúvida é m ais radical do que no Discurso do Método, pois é posta em causa a própria existência das coisas e não apenas a sua correspondência entre a percepção e os objectos. Descartes põe em causa a validade da sua razão e a capacidade para distinguir a verdade. A dúvida torna-se metafísica.

CARACTERÍSTICAS DA DÚVIDA

           - Metódica: Descartes considera provisoriamente falso aquilo em que pode duvidar para submeter tudo isso a uma análise. Trata-se de um caminho, de um método para atingir a verdade. Não é um estado, é um acto;

           - Voluntária: é uma decisão pessoal, própria que visa alcançar um objectivo determinado: uma verdade indubitável;

       - Hiperbólica: não se limita a suspender o juízo, mas ejeita como falso tudo aquilo que apenas seja duvidoso;

          - Radical: estende-se a todos os domínios do conhecimento à excepção das normas da religião e da moral provisória. A possibilidade de construir conhecimento é posta em causa;

          - Metafísica: admite a existência de um Deus Engnador, de um Génio Maligno eu se diverte a fazer-nos cere ser realidade aquilo que é apenas aparência.

 

O COGITO

            O que resiste ao processo destruidor da dúvida é a afirmação da existência de um “eu” que existe (eu sou, eu existo; nas Meditações, Descartes reforça este aspecto ao substituir o “penso, logo existo” por “eu sou, eu existo”).

            O Cogito é uma intuição fundamental a partir da qual é possível reconstruir tudo o que fora destruído pela dúvida e construir todo o edifício da ciência, agora sobre bases sólidas. Posso duvidar de tudo o que é naturalmente duvidoso, mas por mais longe que eu leve a dúvida, subsiste um resíduo sem o qual a dúvida não seria sequer possível.

            Posso abstrair de tudo o que existe fora de mim e do meu corpo, posso supor que tudo o que penso é ilusão. Todavia é certo que sou eu que assim duvido, que abstraio, que suponho ser enganado. Assim, posso concluir que “eu sou, eu existo”, é uma proposição necessariamente verdadeira. Só duvida quem existe e pensa. Há uma existência acerca da qual o sujeito não pode duvidar: é a sua própria existência. Trata-se de uma inferência imediata entre o pensamento e a existência que a razão capta por intuição.

É uma verdade absolutamente primeira e absolutamente evidente que brota da dúvida mais radical e constitui o ponto firma e inabalável para reconstruir a filosofia. A 1ª verdade é o fundamento a partir do qual se poderão deduzir outras verdades e, ao mesmo tempo, indicar as condições a que outras verdades devem obedecer.

Descartes não se fica pela intuição da existência, pois esta tem de revelar-se a si mesma, tem de manifestar a sua natureza. É tão importante saber que sou, como saber o que sou. A afirmação da existência revelou-se numa afirmação da essência. A essência s do eu é de uma coisa pensante. O eu que existe é um eu que pensa e que existe enquanto pensa. O homem é um ser que pensa e cujo atributo fundamental é pensar.

Um dos aspectos negativos do Cogito é a sua limitação ou finitude, pois o eu só tem certeza de que existe enquanto pensa. E quando não pensa? Daí que Descartes sinta a necessidade de fundar o Cogito num pensamento infinito que o garanta. Um dos outros aspectos negativos é a sua clausura, ou seja, se eu sou apenas uma coisa pensante, cm que direito o meu pensamento se refere aos outros seres pensantes, às coisas exteriores e a Deus? Como reencontrar o mundo natural, os outros sujeitos e sair do solipsismo? Descartes vai recorrer a Deus como garante absoluto da relação entre a essência e a existência, como criador de um espírito que se pensa a si mesmo e é criador das verdades e coisas materiais pelo espírito pensador.

 

AS PROVAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS

            “Penso, logo existo” é uma evidência que pode servir como 1º princípio da filosofia. Ao inventariar as ideias que tem presentes no espírito, Descartes encontra uma muito importante – a Ideia de Infinito – que o conduzirá à existência de Deus por três vias distintas.

 

            1ª Prova- Prova a priori pela consideração da ideia de Ser Perfeito ( a existência em mim da ideia de Perfeito).

            Sou imperfeito, pois duvido. Se fosse perfeito não duvidaria -era capaz de certeza e de afirmação. Todavia, tenho em mim a ideia de Perfeito. Como posso tê-la se o não sou? Não posso ser eu o autor dessa ideia. Alguém a colocou em mim-DEUS.

            2ª Prova- Prova a posteriori baseada na contingência do espírito (pela existência de mim que penso o Perfeito).

            Um ser que pudesse ser causa de si mesmo, realizaria todas as perfeições. Um ser imperfeito e contingente que tem em si a ideia de Perfeito não pode ser a causa de si. A causa da qual depende é DEUS.

            3ª Prova- Prova a posteriori ou da causalidade das ideias (pela essência de Perfeito que eu penso – Argumento Ontológico).

            A ideia de Perfeito implica necessariamente a sua existência. Pertence à natureza do Perfeito a existência real. A não-existência seria imperfeição. Logo, o Perfeito existe e o Ser Perfeito é DEUS.

 

            Uma vez que Deus existe e é bom, não pode querer enganar Descartes e assim, Deus é o garante de verdade das ideias que concebe de forma clara e distinta, bem como a correcção dos raciocínios.

            A partir daqui, Descartes pode deduzir muitas verdades e construir com segurança o edifício do conhecimento. Pode agora saber que tem corpo, que existe um mundo. Desapareceu o problema do cepticismo.

 

CRÍTICAS AO FUNDACIONISMO CARTESIANO

            Descartes quer passar para Deus através da razão demonstrativa. A demonstração já pressupõe o que se pretende estabelecer como verdade. O sujeito racional e pensante é a condição da prova da existência de Deus, mas é Deus o garante da racionalidade do sujeito (falácia!). Como pode Descartes ter certeza de que não se engana quando pensa a ideia de perfeição? A verdade é que neste ponto ainda não foi eliminado o Génio Maligno…

 
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