Didática

 

“A sociedade está enferma de egoísmos suicidas”

 

         Edgar Morin nos fala, na segunda parte desta entrevista exclusiva, da bioética, das aspirações dos adolescentes, da descontinuidade da memória, da civilização audiovisual, de uniformização cultural...

 

Napoleão Saboia: As leis internacionais sobre a bioética não seriam suficientes?

Edgar Morin: Por enquanto, a bioética se encontra em estado embrionário nos comitês de estudos e em algumas declarações de intenção. Seja como for, a bioética, uma vez sistematizada em leis, terá de considerar o aspecto positivo das intervenções genéticas que visam o transplante de órgãos, as reparações de tecidos do corpo humano, a substituição de genes deficientes...O problema grave é o das possíveis manipulações destinadas a “normalizar” as pessoas. Já a clonagem para a reprodução integral do homem tende a ser proibida. Mesmo se as ciências encerram enormes poderes de manipulação e de destruição, temos de reconhecer seus aspectos edificantes, igualmente incomensuráveis.

N.S. Fala-se muito da necessidade de um novo contrato social capaz de conciliar o progresso técnico-científico com a inserção dos jovens na vida ativa...

E.M. O contrato social nunca existiu. É um ideal. Os jovens aprendem facilmente o manejo das novas tecnologias. O verdadeiro problema é o da educação, que deveria sair desse esquema que fragmenta e segmenta os conhecimentos e fazer com que estes se integrem num conjunto global. Por outro lado, é preciso que os elementos da cultura científica sejam refletidos, tenham desdobramentos na cultura humanística.

N.S. Quais são as preocupações, aspirações, causas dos adolescentes nesta passagem de século?

E.M. Entre os anos 60 e 70, os adolescentes começaram a lutar por sua autonomia dentro da sociedade. Hoje, com o essencial dessa autonomia garantido, eles querem saber se vão ser integrados na vida ativa – e como. A inserção por meio de um trabalho tedioso e triste coloca um problema às vezes tão difícil quanto o desemprego. Eles se debatem entre aspirações e revoltas, sonham com uma outra vida, lembram Rimbaud e, já num plano de cultura de massa, James Dean. Ao mesmo tempo, nos subúrbios pobres da Europa e da América do Sul, dos Estados Unidos e do Brasil, por exemplo, você assiste à constituição de gangues de adolescentes que se entregam ao crime organizado na esteira da desintegração social e familiar. Estruturadas segundo o velho modelo das máfias euro-americanas, essas gangues se deram idênticos códigos de conduta, fundados nas noções de honra, vingança e respeito ao chefe, criaram um tipo de economia informal à base de roubos e tráfico de droga e fazem figura, em suma, de uma contra-sociedade. Não se pode remediar essa situação sem se cuidar do conjunto da sociedade que, nos seus escalões privilegiados, se encontra enferma de egoísmos suicidas.

N.S. Qual seria o lugar da memória nas culturas adolescentes que se nutrem de sensações audiovisuais, de formas virtuais, com pouco contato com o impresso e a leitura?

E.M. Infelizmente, o problema de memória também se põe para os adultos, que vivem no fluxo avassalador de informações diárias mas ignoram quase tudo o que se passou há 20 ou 40 anos. E acabam tendo uma visão falsa das coisas. Estamos diante do problema da descontinuidade da memória. Nas sociedades tradicionais, sem escrita, a memória era transmitida por meio das narrativas orais; nas sociedades com escrita, o impresso desempenhou o papel que se sabe; hoje, o cinema, com seus filmes históricos, e a televisão, com seus documentários, nos reconstituem em parte a memória do presente século.

N.S. A decadência do impresso seria fatal nesta civilização audiovisual?

E.M. Não creio. As pesquisas mostram que os adolescentes de hoje gostam de ler, apreciar muito a s narrativas e se dão conta de que a leitura oferece uma outra percepção das coisas que o cinema e a tv. Como as pessoas das gerações anteriores, formadas pela literatura, os jovens percebem o quanto o livro é cômodo, a gente pode levá-lo para toda a parte, abri-lo em qualquer lugar e a qualquer hora para reler as passagens que mais nos encantaram. Acontece que, na França pelo menos, uma coisa começa a afastar os jovens da leitura: os professores de Leitura, com suas análises semióticas, puramente formais. Eles não mostram aos jovens que os livros são reflexos da existência, que um Balzac, um Tolstoi, um Jorge Amado nos falam de emoções, de experiências vitais, nos ensinam sobre nós mesmos, ao mesmo tempo em que nos divertem.

N.S. Sob o impulso das culturas adolescentes, em que poderá desembocar o movimento de mestiçagem cultural ora em curso pelo mundo afora?

E.M. O Brasil vem instantaneamente ao espírito quando se ouve a palavra mestiçagem. O que ocorreu e ocorre ainda no Brasil nesse domínio tem seu equivalente em termos planetários na World Music, que condensa sincretismos melódicos de toda a parte. Agora, o essencial é que esses processos de mestiçagem se operem no respeito das tradições originais das artes, dos cultos e dos costumes de cada povo. Considero felicíssima a mestiçagem da música norte-africana com o rock. O flamengo também se mestiça de forma excepcional. Do Brasil, visto que a música já é referência maior no capítulo, prefiro falar das mestiçagens admiráveis que a macumba e o candomblé produziram na relação com o catolicismo. Há também no cinema exemplos fulgurantes de mestiçagem, basta citar o exemplo do O Leopardo, baseado no romance de Lampedusa, no qual o genial Visconti torna Burt Lancaster plausível, crível no papel de aristocracia siciliano. É preciso, enfim favorecer a liberdade criativa, deixar que o autor combine elementos diferentes de inspiração, pois nisso se acha o gênio da arte.

N.S. As novas tecnologias de comunicação não mudariam o modo de funcionamento das democracias?

E.M. Não sei bem. Sob certos aspectos, creio que as democracias padecem de dolorosa regressão, uma vez que problemas mais importantes, como o nuclear e dos armamentos, são tratados exclusivamente por tecnocratas e peritos. E tal situação só tende a se alastrar a outros setores estratégicos da vida da sociedade. Os cidadãos são cada vez mais isolados dos centros de decisão, privados dos conhecimentos que lhes permitiriam julgar os diferentes dossiês. Sem dúvida, a mídia pode favorecer a introdução de uma maior transparência no ato de governar, tornar mais fluida e conseqüente a comunicação entre governantes e governados e habilitar, assim, a sociedade civil para exigir uma participação mais direta na formulação das políticas públicas. O certo é que a saga democrática não pode mais ficar circunscrita ao parlamento. Outros corpos intermediários, como os movimentos sociais organizados, surgem em toda a parte e, na medida em que eles todos se articulem entre si, poderão tornar a vida pública bem mais democrática. Ao mesmo tempo, assiste-se à irrupção do fenômeno do “star-sistema” na política, os candidatos precisam aprender a falar ao microfone, ter uma cara simpática, telegênica, etc. Essa vedetização ou midiatização dos políticos não é em si uma ameaça. O essencial é que lhes seja assegurado o direito à palavra no regime pluralista de opiniões.

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