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Didática
Napoleão Saboia: O século 21 vai ser mais honesto, ético, cidadão?
Edgar Morin: Em
nenhum século o capitalismo vai se dar limites éticos. É ele que deve recebê-los.
Pelo próximo século, espero que se desenvolva a idéia da empresa cidadã,
surgida nos EUA mas ainda marginal dentro do capitalismo. Certos grupos
empresariais já fixaram limites éticos para suas atividades. Eles tendem, de
início, a atrair a clientela mais alerta, e isso logo terá inevitável
efeito de contaminação no conjunto da sociedade. De resto, há que se impor
normas éticas à agricultura e à pecuária, que hoje, movidas em geral pela
simples ambição do lucro acelerado, estão pondo em nossas mesas alimentos
nocivos, tóxicos, mortais, como a vaca louca, o frango criado com farinhas
animais repugnantes. Não basta o controle sanitário dos alimentos, é
preciso que a ética seja ressuscitada pelas instituições públicas e
colocada a serviço da sociedade nos processos de industrialização e
comercialização.
N.S. No Direito Internacional, veremos o próximo século consagrar o princípio ou cláusula da ingerência?
E.M. Por enquanto, o
direito de ingerência humanitária, passando, como é de sua essência, por
cima do princípio da soberania nacional, só foi aplicado aos casos de Kosovo
e de Timor Leste. Como, entretanto, não se invocou o mesmo direito para o
caso da Chechênia, sujeita a um massacre de iguais proporções ou talvez
pior, verifica-se que a ingerência humanitária, pelo menos nesse primeiro
tempo, não se faz em detrimento das grandes potências. O mesmo acontece com
o Tibet, onde ninguém fala em intervir porque a China que domina a área.
Trata-se de uma norma que se aplica ou não nessa ou naquela circunstância,
tudo dependendo da chamada política realista das grandes nações. Com seu
sentido atual, o direito de ingerência me deixa cético.
N.S. Apesar do declínio da idéia de soberania e do fortalecimento do princípio da interdependência, as previsões indicam que novos Estados serão criados em toda a parte. Não haveria uma contradição nisso?
E.M. Pode haver, mas
o surgimento de novos Estados é ainda, na grande maioria das vezes, a conseqüência
da colonização ocidental, do desenvolvimento hegemônico que os ocidentais
impuserem ao resto do mundo. Agora, com o fim da Guerra Fria, cada etnia
pretende se transformar em nação soberana. Nessa questão, o que importa é
o fato de que, mesmo se novos Estados forem criados, a soberania já não será
a mesma, absoluta. Ela será limitada porque o mundo está ficando menor com a
expansão demográfica e precisa que suas diversas regiões ajam em consenso a
fim de protegerem a própria sobrevivência. Há problemas globais que
ultrapassam as simples prerrogativas de um Estado nacional e fazem apelo a uma
competência comunitária. Os países da União Européia, soberanos no trato
de seus negócios internos, já se associaram em instâncias coletivas e agem
dentro do princípio da interdependência quando abordam questões vitais como
a ecológica, a nuclear, a monetária... A tendência é para a mundialização
dessas instâncias que podem assegurar maior unidade, coerência e espírito
de reciprocidade ao conjunto das políticas públicas dos Estados.
N.S. Quais seriam as chances e o risco do Brasil no século 21?
E.M. A chance do
Brasil é sua civilização rica e diversa, é a incrível criatividade de sua
gente. O País não se fecha num só modelo, o que é ditado pela indústria,
mas se abre em outras direções. Valoriza seus espaços e matrizes culturais
com olhos tão diferentes quanto as origens de seus imigrantes. Nas noites de
pagode, a gente vê a síntese desse caldeamento de civilizações que é uma
referência para o mundo e o trunfo para que o Brasil se converta no grande país
da América Latina. O risco do Brasil tem duas vertentes: a primeira,
representada pelo problema de São Paulo, cidade que possui todos os defeitos
de uma civilização hiperdesenvolvida; na segunda, e contraste, você se
depara com o Nordeste rural, com aquele resto de um mundo arcaico, sujeito a
uma denominação feudal. Como tratar, a um tempo só de tantos problemas
cruciais em níveis diferentes? O risco do Brasil, enfim, é o de ser acuado
em suas contradições internas e cair numa crise muito grave, talvez sem
precedente na história.
N.S. O que significa a virada do século para o humanista Edgar Morin?
E.M. Não sou nem
otimista nem pessimista. Trata-se de uma aventura aleatória, incerta, mas sei
o que quero – vou continuar a agir, a resistir às ameaças das barbáries
novas e antigas. Minha esperança nisso limita-se ao improvável, porque é
improvável, pelo que se vê no mundo de hoje, que se possa salvar a
Humanidade, fazê-la progredir moralmente. Porém, eu me digo por vezes que o
implorável já se realizou algumas vezes na história humana. Assim, como já
lutei contra o nazismo e mais tarde contra o stalinismo, tudo o que me resta a
fazer é prosseguir meu combate sem estar seguro da vitória.
(Napoleão Sabóia – “Caderno de Sábado” do JT – 22/07/00)