Didática

Esta entrevista concedida ao jornalista Napoleão Saboia mostra-nos o pensamento de Edgar Morin, mestre das ciências humanas

 

Uma educação adaptada à sociedade globalizada

 

         As vantagens e desvantagens, as ameaças, riscos e chances que poderão marcar a aventura da Humanidade pelo novo século estão no centro dos estudos de Edgar Morin, o mestre das Ciências Humanas e Sociais na França. Pessimista “moderado”, ao longo da carreira de professor, pesquisador e pensador ele tem sido um precursor na produção de conhecimentos, conceitos e métodos de análise nos campos da Sociologia, Filosofia, Literatura, Política e Ciências Naturais. Pluridisciplinar, sua obra, abrangendo cerca de quarenta títulos, tem entre tantas virtudes a de pôr em perspectiva idéias e tendências que acabam se impondo na vida corrente.

         São de notoriedade mundial, por exemplo, seus estudos sobre o desenvolvimento da sociedade da informação, a irrupção do “star-sistema” na política, Maio de 68, as culturas adolescentes, o advento de uma ciência multidimensional do Homem e do pensamento complexo. Nesta entrevista exclusiva, Morin junta seu potente arsenal de dados e análises para apresentar algumas das principais questões que o mundo vai enfrentar no próximo século.

Napoleão Saboia: Se o Sr. Interpela a História, a Geografia, a Política, a Ciência, a Filosofia, tentando antever sinais de novas ameaças para a Humanidade nesta virada de século, a que conclusões chega?

Edgar Morin: Antes das conclusões, o diagnóstico. As ameaças são conhecidas, mesmo se não estão presentes na consciência de todos. A primeira ameaça, que encerra potencialmente a morte da Humanidade, é a nuclear, se uma guerra se desencadeia. As armas nucleares se disseminam e isso é um perigo com que o próximo século vai se confrontar. Temos a ameaça ecológica, da degradação da biosfera, que o progresso científico e tecnológico agrava. Progresso que já havia originado a ameaça nuclear. Agora, novas ameaças despontam no horizonte, como a que surge no desenvolvimento da inteligência artificial, suscetível não apenas de parasitar mas também de subjugar, dominar os seres humanos, dentro do espírito que informa certos textos de ciência-ficção, como o romance Hypérion, de Dan Simmns, por exemplo, e filmes do tipo Matrix.

N.S.  O robô suplantaria o homem então?

E.M. A hipótese não é absurda, sequer futurista. Na civilização contemporânea, a técnica e as máquinas foram concebidas para subjugar a energia – e nós bem vimos os operários depois subjugados por tais máquinas nas cadências vertiginosas da produção industrial. Ora, com os sucessivos aperfeiçoamentos, as máquinas se dotaram de uma lógica artificial bem mais elaborada, determinista, programada, estritamente cronometrada e hiperespecializada, lógica que se aplica hoje ao conjunto da sociedade.

N.S. E daí?

E.M. Trata-se de uma lógica fundada unicamente no cálculo, que ignora tudo o que se relaciona com a vida humana, os sentimentos, as emoções, as paixões. Essa gente que chamamos de tecnocratas, peritos, economistas ou econocratas, que só trabalha com as variáveis do cálculo, que aplica a todos os problemas humanos e sociais essa lógica artificial. Posso dizer, portanto, que a inteligência artificial já se encontra transplantada para o foro interior de certa categoria de seres humanos chamados tecnocratas.

N.S. A inteligência artificial poderia realmente alcançar autonomia em relação ao homem?

E.M. Num futuro não muito distante, ela não somente adquirirá a autonomia como ainda poderá desenvolver seu poder com base nas contribuições que o homem lhe ofereceu. Creio, entretanto, que haverá uma tomada de consciência, uma luta entre, digamos, o que é quantitativo e mensurável e a qualidade de vida. Iremos escolher entre o melhor ou menos inseguro, o boi biológico e a vaca louca, por exemplo. Temos que defender e desenvolver a qualidade de vida, eis um dos novos e grandes desafios que nos interpelam. A estes se juntam ainda os antigos desafios que acompanham a Humanidade desde seus primórdios, a que se definem como barbárie humana e que se deflagram um pouco por toda a parte. Basta ver os teatros de operação no mundo, hoje, mais de 30 conflitos nos últimos dez anos. Mais inquietante ainda da velha barbárie com a nova barbárie, a tecnocientífica. Esta tornou-se incontrolável ou quase, na medida em que o capitalismo, rompendo as barreiras que o regulavam, ficou praticamente absoluto a partir dos anos 90. No que vai desembocar o mundo no bojo da engrenagem formada pela técnica, a Ciência, o capitalismo e o burocratismo desabridos? Eis aí a ameaça profunda que recai sobre a Humanidade, para não falar da ecológica e das outras.

N.S. Os céticos dizem que a tentação totalitária espreita o novo século...

E.M. Até o presente, o totalitarismo tem sido um sistema monopolista de partido único, que controla a sociedade por meio da propaganda, da intimidação, da polícia e da prisão. O novo totalitarismo, se ele de fato se produzir, vai utilizar outros mecanismos de controle, ou seja, as manipulações genéticas e cerebrais. Eis aí um novo aspecto de luta entre a Humanidade e os produtos que ela terá gerado e que alcançarão suas autonomias para satisfazer ambições de poder e dominação entre outras.

 

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