EM
TORNO DA PRECE - No Templo do Socorro, instituição da cidade
espiritual de "Nosso Lar", André Luiz e demais companheiros ouviam
atentamente o Ministro Clarêncio, que prelecionava sobre a
sublimidade da prece. "Todo desejo, - dizia, convincente - é
manancial de poder. A planta que se eleva para o alto, convertendo a
própria energia em fruto que alimenta a vida, é um ser que ansiou
por multiplicar-se..."
"Cada prece, - prossegue o Ministro -
tanto quanto cada emissão de força, se caracteriza por determinado
potencial de freqüência e todos estamos cercados por Inteligências
capazes de sintonizar com o nosso apelo, à maneira de estações
receptoras... E quando alguém nutre o desejo de perpetrar uma falta
está invocando forças inferiores e mobilizando recursos pelos quais
se responsabilizará."
NO CENÁRIO TERRESTRE - Narra André: "Numa sala ampla,
em que numerosas entidades trabalhavam solícitas, Clarêncio recebeu
da jovem um pequeno gráfico que passou a examinar, cauteloso.
Tratava-se de uma prece refratada. Depois explicou, para André e
Hilário: "Temos aqui uma oração comovedora que superou as linhas
vibratórias comuns do plano de matéria mais densa. Parte de uma
devotada servidora que se ausentou de nossa colônia espiritual há
precisamente quinze anos terrestres, para determinadas tarefas na
reencarnação."
Curioso, Hilário deseja saber o que é prece
refratada e Clarêncio elucida: "A prece refratada é aquela cujo
impulso luminoso teve a sua direção desviada, passando a outro
objetivo."
Clarêncio solicita a presença de Eulália, mais íntima
do drama de Evelina, e indaga-lhe sobre as causas do comovente apelo
da jovem. Eulália explica que apesar da fragilidade do novo corpo,
Evelina vem sustentando imensa luta moral. O pai sobrecarregado de
questões íntimas, tem a saúde periclitante e a madrasta vem sofrendo
obstinada perseguição, por parte da desventurada Odila, mãe de
Evelina. A pobre menina, aflita, suplica a tenção da mãe, mas esta,
envolta nas teias das próprias criações mentais, não se mostra capaz
de corresponder à confiança da filha. No entanto, a jovem tanto tem
insistido na obtenção de socorro espiritual, que suas rogativas,
quebrando a direção, ou seja, esbarrando em Odila, sem resultados,
chegam até o Templo do Socorro, em "Nosso Lar".
Ante a narrativa,
Clarêncio volta-se para André e Hilário: "Compreendem agora o que
seja uma oração refratada? Evelina recorre ao espírito materno que
não se encontra em condições de escutá-la, mas a solicitação não se
perde... Desferida em elevada freqüência, a súplica de nossa
irmãzinha vara os círculos inferiores e procura o apoio que não lhe
faltará."
OBSESSÃO - Convidados por Clarêncio, André e Hilário
o acompanham até a residência de Evelina, uma encantadora
adolescente de catorze anos. André conta: "Magra e triste, parecia
concentrar a mente nos olhos grandes e serenos. Não nos assinalou a
presença, mas, ao contato das
mãos espirituais do Ministro, revelou indefinível
contentamento interior."
Penetrando o aposento mais espaçoso da
casa, deram com uma jovem senhora, repousando abatida e insone. De
aproximadamente vinte e cinco anos, mostrava no semblante torturado
harmoniosa beleza. O rosto delicado parecia haver saído de uma tela
preciosa, entretanto, a suavidade das linhas contrastavam com a
inquietação e o pavor nos olhos escuros e o abandono do cabelo em
desalinho. Ao seu lado, descansava outra mulher, já desencarnada.
Conservava ela e mão sobre a medula alongada da senhora vencida e
doente, como se quisesse controlar-lhe as impressões nervosas, e
fios cinzentos que lhe fluíam da cabeça, à maneira de tentáculos de
um polvo, envolviam-lhe o centro coronário, obliterando-lhe os
núcleos de força. Clarêncio explica: "A jovem senhora é Zulmira, a
segunda orientadora deste lar, e a irmã desencarnada que
presentemente lhe vampiriza o corpo é Odila, a primeira esposa de
amaro e mãezinha de Evelina, dolorosamente transfigurada pelo ciúme
a que se recolheu. Empenhada em combater aquela que considera
inimiga, imanta-se à ela, através do veículo perispirítico, na
região cerebral, dominando a complicada rede de estímulos nervosos e
influenciando os centros metabólicos, com o que lhe altera,
profundamente a paisagem orgânica."
SENDA DE PROVAS - Escreve André: "Zulmira
ausentara-se do corpo, mas não desfrutava a paz que se lhe estampara
na máscara física. Enlaçada por Odila, a cujo olhar dominador se
inclinava, submissa, não nos identificou a presença. Com evidentes
sinais de terror, ouvia as objurgatórias da rival que a acusava,
exclamando: "Que fizeste de meu filhinho? Assassina! assassina!
Pagarás muito caro a intromissão no lar que é somente meu!...
Destroçarei tua vida, não me furtarás o afeto de Amaro... Armarei o
coração de Evelina contra ti!..."
Clarêncio, bondoso, observa:
"Quando a pobrezinha consegue sossegar o corpo, cai no pesadelo
agitado. Acompanhemo-las. Dirigem-se à praia, onde ocorreu a morte
do pequenino. Premida pelo assédio de nossa irmã desequilibrada,
Zulmira ainda não se libertou das aflitivas reminiscências de que se
vê possuída."
Excessivamente ciumenta do esposo, Zulmira tudo fez
para que o pequeno Júlio perecesse, desejando ardentemente o seu
fim, o que ocorreu na manhã de domingo, durante um mergulho. Júlio
morreu afogado, o que constava em seu mapa de provas, por ser um
suicida reencarnado, mas Zulmira, adoecendo de remorsos, julgava-se
culpada pela morte do menino.
Era o momento que Odila, também
profundamente apegada ao ex-marido aguardava para lançar-se sobre
ela, projetando alucinada vingança.
VALIOSOS APONTAMENTOS - Alcançando a orla do mar, em
plena noite, André nota que a movimentação da
vida espiritual era ali muito intensa: "Desencarnados
de várias procedências reencontravam amigos que ainda se demoravam
na Terra, momentaneamente desligados do corpo pela anestesia do
sono. Dentre esses, porém, salientava-se grande número de
enfermos.
"Anciães, mulheres e crianças, em muitos aspectos
diferentes, compareciam ali, sustentados pelos braços de entidades
numerosas que os assistiam."
Clarêncio explica: "O oceano é
miraculoso reservatório de forças; até aqui, muitos companheiros de
nosso plano trazem os irmãos doentes, ainda ligados ao corpo da
Terra, de modo a receberem refazimento e repouso... Qual acontece na
montanha arborizada, a atmosfera marinha permanece impregnada por
infinitos recursos de vitalidade da Natureza. O oxigênio sem mácula,
casado às emanações do planeta, converte-se em precioso alimento de
nossa organização espiritual, principalmente quando ainda nos
achamos direta ou indiretamente associados aos fluidos da matéria
mais densa."
Chegando à praia, Zulmira joga-se ao mar, em busca
do pequeno Júlio. Perturbada e ensandecida, Odila põe-se em seu
encalço, mas, sentindo-lhe a aproximação, novamente, a pobre moça
roda nos calcanhares e retorna ao corpo.
NUM LAR
CRISTÃO - Narra André: "Propúnhamo-nos seguir o caso de Zulmira, não
só para cooperar, a favor de suas melhoras, mas também para
registrar os ensinamentos possíveis, e, solicitando o concurso de
Clarêncio, dele ouvimos judiciosas ponderações: - "Sim, para
auxiliar em processos dessa natureza, é preciso marchar para a
frente, mas, para compreender o serviço que nos compete e avançar
com segurança, é necessário voltar à retaguarda, armando-nos de
lições que nos esclareçam."
Como não soubessem, André e Hilário,
como interpretar-lhe a palavra, Clarêncio elucidou, após breve
pausa: - " Para realizarmos um estudo geral da situação, convém o
contato com outras personagens do drama que se desenrola. Ser-nos-á
interessante, para isso, uma visita ao pequeno Júlio, no domicílio
espiritual em estagia."
E, tomando o lugar de nobre cooperadora,
que na noite seguinte levaria duas mães para visita a dois filhinhos
desencarnados, Clarêncio alia a cooperação à preciosa lição de
trabalho aos dois acompanhantes.
Assim, André e Hilário são
levados para o lar de Antonina, num subúrbio remoto. Abandonada pelo
marido, mãe de quatro filhos, luta a pobre mulher bravamente para
educar seus três filhos. Recentemente, Antonina perdeu seu pequeno
filho Marcos. É a ele que fará uma visita na noite
seguinte.
André e Hilário são destacados por Clarêncio, para
auxiliá-la nas lições cristãs da noite.
CONSICÊNCIA EM DESEQÜILÍBRIO - No lar de Antonina,
aguardando-a pelo desdobramento do sono, André e Hilário repararam
melhor num velhinho desencarnado, que permanece à um canto da
pequena sala. Conservando integrais remanescentes da vida física,
abatido e trêmulo, aparenta inquietude e demência. Em vão, os dois
tentam uma aproximação. Ele não os vê. Então André lembra ao
companheiro que lhes é possível a densificação do seus veículos
espirituais, pela concentração da vontade, e então apressam-se na
providência.
Conta André: "Em momentos breves, fornecendo a
impressão de recém-chegados, atraímos-lhe o interesse. O velhinho
precipitou-se para nós, exclamando: "São oficiais ou praças? Estão
pró ou contra?"
Em lágrimas, depois, o velhinho narra-lhes longa
história, de amor, de traição e de morte, confessando-se perseguido
pelo homem que roubou-lhe a mulher amada e foi por ele aniquilado.
Diz André: "Pelas citações que ouvíramos, percebi que o nosso
interlocutor se reportava ao tempo da guerra do Paraguai."
DELICIOSA EXCURSÃO - Com a chegada de Clarêncio,
preparam-se, todos, para a bela excursão noturna. Conta André:
"Entrelaçando as mãos, e conservando nossas irmãs no circuito
fechado de nossas forças, empreendemos a formosa romagem." Antonina,
que fora do corpo denso se mostrava muito mais delicada e mais bela,
a certa altura, deliciando-se com os panoramas espirituais
deslumbrantes, exclama, apoiada nos braços paternais de Clarêncio:
"Porque não transformar esta excursão em transferência definitiva?
Pesa o corpo, à maneira de insuportável cruz de carne, quando
conseguimos sentir a Terra, de longe..."
Generoso, Clarêncio
elucida: "Compreendemos quanta inquietação punge o espírito
reencarnado, mormente quando desperto para a vida superior,
entretanto, é indispensável saibamos louvar a oportunidade de
servir, sem jamais desmerecê-la. Achamo-nos ainda distantes da
redenção total e todos nós, com alternativas mais ou menos longas,
devemos abraçar a luta na carne, de modo a solver com dignidade
nossos velhos compromissos. Somos viajores nos milênios incessantes.
Ontem fomos auxiliados, hoje nos cabe auxiliar."
Descreve André
Luiz: "O firmamento parecia responder às sugestões da palestra
admirável. Bandos de aves mansas pousavam na ramaria que brilhava
não longe de nós. O sol apresentava perceptíveis raios diferentes,
até agora desconhecidos à apreciação comum na Terra, provocando
indefiníveis combinações de cor e luz.
Por abençoada e colorida
colmeia de amor, harmonioso casario surgiu ao nosso
olhar."
NO LAR DA BÊNÇÃO - "Doce melodia que enorme conjunto
de meninos acompanhava, cantando um hino delicado de exaltação do
amor materno, vibrava no ar. Aqui e ali, sob tufos de vegetação
verde-clara, muitas senhoras sustentavam lindas crianças nos
braços.
"É o Lar da Bênção - informa Clarêncio, satisfeito -
Nesta hora, muitas irmãs da Terra chegam em visita a filhinhos
desencarnados. Temos aqui importante colônia educativa, misto de
escola de mães e domicílio dos pequeninos que regressam da esfera
carnal."
Antonina e companheira pareciam agora tomadas de
jubilosa aflição. O pequeno grupo as vê desgarrarem-se, de inopino,
qual se fossem atraídas por forças irresistíveis, precipitando-se
para os anjinhos que cantarolavam alegremente. Enquanto a outra
enlaçava louro petiz, com infinito contentamento a expressar-se em
lágrimas, dona Antonina abraçou um pequeno de formoso semblante,
gritando seu nome, feliz.
Após, o grupo dirige-se até o interior,
em busca de informações acerca do pequeno Júlio. Conta André: "Em
poucos minutos, chegávamos diante de pequenino castelos muito alvo,
em que se destacavam as ogivas azuis, coroadas de trepadeiras em
flor. Atravessávamos extenso jardim, embalsamado de aroma. Rosas
opalinas, ignoradas na Terra, de mistura com outras flores,
desabrochavam profusamente."
Irmã Blandina recebeu-os
sorridente... Em plena juvenilidade trazia ela nos olhos os
característicos de sublime madureza de espírito. E esclareceu acerca
do pequeno: "Nosso Júlio, até hoje, ainda não se refez
completamente. Ainda grita, sob pesadelos inquietantes, como se
estivesse a sofrer sob as águas. Chama pelo pai, constantemente,
apesar de parecer mais receptivo ao nosso carinho. Insiste pela
volta a casa, todos os dias... Lastimo que a mãezinha de nosso
doente não esteja em condições de ampará-lo. Creio que o concurso
dela poderia insuflar-lhe novas forças. Entretanto, com exceção da
irmãzinha que se lembra dele nas orações, ninguém mais da família o
ajuda..."
PRECIOSA CONVERSAÇÃO - André Luiz: Referindo-se ao
pequeno Júlio, cujo desencarne verificou-se consoante compromisso
infeliz adquirido no passado através do suicídio, esclarece
Clarêncio: "Há poucos instantes comentávamos a sublimidade da Lei.
Ninguém pode trair-lhe os princípios. A Bondade Divina nos assiste,
de múltiplas maneiras, amparando-nos o reajustamento, mas em todos
os lugares viveremos jungidos às conseqüências dos próprios atos, de
vez que somos herdeiros de nossas próprias obras."
Blandina, que
parecia bastante versada nas questões da infância, associando-se à
conversação que Clarêncio desenvolvia, considerou com interesse:
"Efetivamente, a lei é invariável, contudo, a criança desencarnada
muitas vezes é problema aflitivo. Quase sempre dispõe de afeiçoados
que a seguem, de perto, amparando-lhe o destino, entretanto tenho
observado milhares de meninos que, pela natureza das provações em
que se envolveram, sofrem muitíssimo, à espera de oportunidades
favoráveis para a aquisição dos valores de que necessitam."
E
sorrindo, bondosa, acrescentou: "O caso de Júlio não é para mim dos
mais dolorosos. Tenho visitado departamentos de reajuste em que se
demoram irmãos nossos, arrancados à carne, violentamente, como
frutos verdes da árvore em que desenvolvem... Processos de mente
enfermiça que só abençoadas estações regenerativas na carne
conseguem curar..."
NOVOS
APONTAMENTOS - Ainda Blandina: "A evolução, a competência, o
aprimoramento e a sublimação resultam do trabalho incessante. Quanto
mais se nos avulta o conhecimento, mais nos sentimos distanciados do
repouso. A inércia opera a coagulação de nossas forças mentais, nos
planos mais baixos da vida. O serviço é a nossa bênção."
André e
os demais, ouvindo referências tão sublimes ao trabalho, voltam-se
instintivamente para a devotada Mariana, vozinha de Blandina e
preciosa auxiliar da moça, e que se mantinha silenciosa. Estaria ela
ligada igualmente aos compromissos de proteção à infância?
pergunta-lhe delicadamente Hilário.
"Quanto à mim, - responde a
senhora,
polidamente, - coopero com minha neta nos serviços
que lhe foram conferidos aqui, entretanto, a minha tarefa pessoal
mais importante se verifica num templo católico, a que me vinculei
profundamente, quando de minha última encarnação."
Perante o
assombro dos dois aprendizes, a simpática senhora esclarece: "Não
estranhem. Partilho, com Blandina, o estudo das leis divinas para
renovar-me em espírito, com vistas ao grande futuro, mas o amor que
ainda trago por velhos companheiros de luta humana constrange-me a
larga demora, em serviço de cooperação, na antiga casa de fé
religiosa a que me afeiçoei."
Cada vez mais curioso, Hilário
indaga, frente aos apontamentos valiosos: "Em que base se formará o
processo de auxílio nas igrejas? Com o impedimento de nossa
comunicação direta, como será possível cooperar em favor de nossos
irmãos católicos romanos?"
"Muito simplesmente - esclarece
Mariana -, o culto da oração é o meio mais seguro para a nossa
influência. A mente que se coloca em prece estabelece um fio de
intercâmbio natural conosco..."
ESTUDANDO SEMPRE - Narra André: "Às despedidas,
retomamos as excursionistas sob a nossa guarda e, em pouco tempo,
achávamo-mos, de novo, no caminho terrestre. Antonina mostrava-se
calada, tristonha... Dir-se-ia teimava em permanecer, para sempre,
junto do pequenino, que a precedera na longa viagem da morte...
Atendendo ao orientador, demoramo-nos em observação, notando que a
Antonina de nossa maravilhosa viagem aderira ao corpo denso, qual se
fora por ele sugada, à maneira de formosa mulher, de forma sutil e
semi-lúcida, repentinamente engolida por bainha de
sombra."
Clarêncio informa, com atenção: "Nossa amiga não poderá
guardar positivas recordações... Raros espíritos estão habilitados a
viver na Terra, com visões da vida eterna. A penumbra interior é o
clima que lhes é necessário. A exata lembrança para ela redundaria
em saudade mortal."
Clarêncio, então, convida-os a socorrer o
velhinho desencarnado, avô de Antonina, e que estava a dormitar numa
velha cadeira. Observam os aprendizes que o ancião trazia o corpo
espiritual tão pesado e tão denso como se ainda estivesse encarnado.
O generoso instrutor esclarece: " psicossoma (do grego psykhé, alma,
espírito, e soma, corpo. - Nota da Editora) ou o perispírito da
definição espírita não é idêntico de maneira absoluta em todos nós,
assim como, na realidade, não existem dois corpos físicos totalmente
iguais... Conforme a vida de nossa mente, assim vive nosso corpo
espiritual. Nosso amigo entregou-se, demasiado, às criações
interiores de tédio, ódio, desencanto, aflição e condensou
semelhantes forças em si mesmo, coagulando-as, desse modo, no
veículo que lhe serve às manifestações. Daí, esse aspecto escuro e
pastoso que apresenta. Nossas obras ficam conosco. Somos herdeiros
de nós mesmos..."
ANÁLISE
MENTAL - Na noite seguinte, os três retornam à casa de Antonina, e
Clarêncio inicia o socorro ao velhinho desencarnado. Após singela e
vibrante prece, Clarêncio começa por aplicar-lhe forças magnéticas
no campo cerebral. O ancião mostra-se mais abatido e a cabeça
pende-lhe sobre o peito. Acariciando-o levemente, o Instrutor o
chama-o, de manso: "Leonardo, recorda! Volta ao Paraguai, onde
adquiriste o remorso que hoje te retalha o coração! A dor, quase
sempre, é culpa sepultada dentro de nós... Retrocedamos ao ponto
inicial de teu sofrimento!... Recorda! Recorda!"
Leonardo
transfigura-se. Mais jovem e parecendo animado de estranha energia,
vigoroso e móvel, clamou: "Lola! Lola! Estás aqui? Sinto-te a
presença... Onde te ocultas? Ouve-me! ouve-me!
Narra André: "Com
inexprimível espanto, vimos dona Antonina escapar do aposento, no
corpo espiritual com que a divisáramos na véspera. Avançou ao nosso
encontro, extremamente surpreendida e, avistando o avô
transfigurado, como se fosse tangida no imo da personalidade por
misteriosa influência, estampou súbita alteração facial,
renovando-se igualmente aos nossos olhos... As linhas do semblante
modificaram-se, de inopino, e vimo-la, realmente mais bela, todavia,
menos serena e menos espiritualizada.
Aterrada, Antonina rojou-se
de joelhos aos pés do ancião que se rejuvenescera ao influxo dos
passes de Clarêncio e gritou:
- Leonardo!...
Leonardo!..."
ENTENDIMENTO - Entre lágrimas e acusações de ambas as
partes, Lola e Leonardo ajustam os seus sentimentos. Uma terceira
personagem é trazida até ali, à forças das invocações de Leonardo:
Esteves, a sua vítima do passado e obessão martirizante em sua
mente. Esteves, ou Mário Silva, enfermeiro hoje, como o foi ontem,
quando assassinado, o fita com repugnância e, reconhecendo-o, grita:
"Conheço-te e odeio-te!... Assassino, assassino!..."
Conta André:
"Engalfinhar-se-iam, sem dúvida, como animais enfurecidos, mas o
nosso orientador interferiu, de imediato, imobilizando-os
prontamente. Tocado pelo ministro, Esteves enxergou-nos e,
surpreendido, aquietou-se.
Clarêncio confiou-o à nossa
vigilância e, dirigindo-se a Leonardo, em voz segura, concitou: "Meu
amigo, extirpa da mente a idéia do crime. Achas-te cansado, enfermo,
Receberás a medicação de que necessitas."
Num átimo, ausentou-se
e regressou trazendo ao recinto dois amigos de nosso plano, os quais
transportaram, semi-inconsciente, para um santuário de reajuste, em
que mais tarde nos receberia a assistência."
Esteves, taciturno,
parecendo carregar um fardo de aflição, recusa o braço amigo de
Clarêncio, julgando-o um delegado de polícia, acompanhado de dois
guardas, e volta sozinho para casa. Despertando no corpo denso,
pensa que sonhou com Amaro e Zulmira, sua ex-noiva adorada, que
perdeu para o odiado ferroviário. André e Hilário surpreendem-se com
os fios que vão ligando, a pouco e pouco, todos as personagens da
trama.
NOVAS
EXPERIÊNCIAS - Tornando outra noite ao domicílio de Mário Silva, o
enfermeiro, Clarêncio e os dois pupilos vão encontrá-lo insone,
mergulhado em pensamentos martirizantes. Pergunta-se se fora
realmente Amaro quem lhe surgira pela frente na forma de um
criminoso... E por que sentira tamanho afeto pela triste e chorosa
mulher que estava no sonhos, com eles? Seria Zulmira? Certo de que
fora evocado pelo rival, durante o sono, pensa que poderá
reencontrá-lo, igualmente, naquela noite, para revidar a
agressão.
Adormecido sob a ação de passes balsamizantes, Mário
Silva ressurge no plano espiritual, extravasando sua perturbação.
Lançando-se à rua, chama por Amaro, com veemência. Os três seguem-no
por inúmeras ruas. De repente, como imã atraído pelo ferro, surge
Amaro, em seu corpo sutil, defrontando-se, ambos, altivamente. Porém
Amaro, mais educado, esboça delicado recuo, porém o enfermeiro
brada, de forma desconcertante: "Não te acovardes, bandido! Não
fujas!... Temos contas a ajustar!..."
Voltando à casa, Amaro
posta-se frente à porta, protegendo-a, enquanto Mário provoca-o
duramente. O rival pede-lhe desculpas, diz-lhe da infelicidade que
se abateu sobre o seu lar, mas Mário gargalha de sua dor, para
espanto de André. Humilde, Amaro baixa a cabeça e ora, suplicando
proteção. Clarêncio então convida os dois pupilos para seguirem em
auxílio do ferroviário.
Divisando-os, Mário mais uma vez os
confunde com policiais e repele-os. Mas Clarêncio, levando a mão à
fronte do enfermeiro, o faz recordar da noite anterior e do homem
que confundira com Amaro. "Ah! agora!... me lembro!... Meu agressor
de ontem é Leonardo Pires... Como pude esquecê-lo assim tão
infantilmente?"
Conduzido por Clarêncio, Mário recorda-se do
passado e da mulher que amou: Lina Flores. Dois amigos, Júlio e
Armando, passam a freqüentar assiduamente sua casa, e um dia
surpreende Lina e Júlio em sua cama. Aturdido e desesperado,
afasta-se. Passados apenas três meses, vem a saber que Lina
abandonara Júlio por Armando. Júlio, desesperado e fraco, ingere
corrosivos, mas é salvo a tempo. Martirizado pela dor, busca as
águas do rio Paraguai, onde afoga. Mário então conhece então
Leonardo e Lola e, desiludido e amargo, separa o casal, por sua vez.
Mas Leonardo o envenena...
Aflito, rugindo de ódio, Mário clama
por Júlio, convocando-o a comparecer ali, para explicar-se, mas é
Blandina que surge, em seu lugar, rogando ao moço piedade para com o
estado do ex-suicida. André Hilário compreendem que o Júlio evocado
é o mesmo pequeno Júlio do Lar da Bênção. Conta André: "A irmã
Blandina, em pessoa, qual se fora nominalmente intimada, estancou
junto de nós. Envolvidos na doce luz que nos banhou, de improviso,
aquietamo-nos, perplexos, à exceção de Clarêncio que se mantinha
calmo, como se aguardasse semelhante visita. Depois de saudar-nos,
Blandina rogou, humilde: "Irmãos, por amor a Jesus, atendei!...
Temos Júlio, sob a nossa guarda. Acha-se doente, aflito..."
Após,
a presença de Lina é evocada e Clarêncio convida-os a entrar. No
leito, vencida por Odila, mais feia e mais dura, Zulmira prossegue
em sofrimento, magra e encovada. O Ministro mostra Lina à Mário, e
ele grita: "Zulmira! Zulmira então é Lina que volta?"
Odila vê o
marido e pede-lhe que expulse Zulmira dali, mas Amaro, entre o amor
e a piedade, nada responde, voltando para o corpo denso.
CONFLITOS DA ALMA - Blandina solicitou o concurso de
Clarêncio e dos dois aprendizes em favor do pequeno Júlio e eles,
deixando Mário em casa, partiram rumo ao Lar da Bênção.
Mariana,
a devotada avozinha de Blandina, o assistia com desvelo maternal. O
choro de Júlio infundia compaixão. Vendo Blandina inquieta, o
Ministro a tranqüilizou: "Espero conduzi-lo à reencarnação em breves
dias."
Assinalando-nos decerto a curiosidade, de vez que
também percebia Hilário interessado em adquirir informações e
conhecimentos em torno dos problemas que anotávamos de perto, o
instrutor convidou-nos a observar a infortunada criança,
comunicando: "Como não desconhecem, o nosso corpo de matéria
rarefeita está intimamente regido por sete centros de força, que se
conjugam nas ramificações dos plexos e que, vibrando em sintonia
unas com os outros, ao influxo do poder diretriz da mente,
estabelecem, para nosso uso, um veículos de células elétricas, que
podemos definir como sendo um campo eletromagnético, no qual o
pensamento vibra em circuito fechado. Nossa posição mental determina
o peso específico do nosso envoltório espiritual e,
consequentemente, o "habitat" que lhe compete. Mero problema de
padrão vibratório. Cada qual de nós respira em determinado tipo de
onda. Quanto mais primitiva se revela a condição da mente, mais
fraco é o influxo vibratório do pensamento, induzindo a compulsória
aglutinação do ser às regiões da consciência embrionária ou
torturada, onde se reúnem as vidas inferiores que lhes são afins. O
crescimento do influxo mental, no veículo eletromagnético em que nos
movemos, após abandonar o corpo terrestre, está na medida da
experiência adquirida e arquivada em nosso próprio espírito. Atentos
à semelhante realidade, é fácil compreender que sublimamos ou
desequilibramos o delicado agente de nossas manifestações, conforme
o tipo de pensamento que nos flui da vida íntima. Quanto mais nos
avizinhamos da esfera animal, maior é a condensação obscurecente de
nossa organização, e quanto mais nos elevamos, ao preço de esforço
próprio, no rumo das gloriosas construções do espírito, maior é a
sutileza de nosso envoltório, que passa a combinar-se facilmente com
a beleza, com a harmonia e com a luz reinantes na Criação
Divina."
Ouvíamos as preciosas explicações, enlevados, mas
Clarêncio, reparando que não nos cabia fugir do quadro ambiente,
voltou-se para a garganta enferma de Júlio e continuou:
"Não nos
afastemos das observações práticas, para estudar com clareza os
conflitos da alma. Tal seja a viciação do pensamento, tal será a
desarmonia no centro de força, que rege em nosso corpo a essa ou
àquela classe de influxos mentais. Apliquemos à nossa aula rápida,
tanto quanto nos seja possível, a terminologia trazida do mundo,
para que vocês consigam fixar com mais segurança os nossos
apontamentos. Analisando a fisiologia do perispírito, classifiquemos
os seus centros de força, aproveitando a lembrança das regiões mais
importantes do corpo terrestre. Temos assim, por expressão máxima do
veículo que nos serve presentemente, o "centro coronário" que, na
Terra, é considerado pela filosofia hindu como sendo o lótus de mil
pétalas, por ser o mais significativo em razão de seu alto poder de
radiações, de vez que nele assenta a ligação com a mente, fulgurante
sede da consciência. Esse centro recebe em primeiro lugar os
estímulos do espírito, comandando os demais, vibrando todavia com
eles em regime de interdependência, Considerando em nossa exposição
os fenômenos do corpo físico, e satisfazendo aos impositivos de
simplicidade em nossas definições, devemos dizer que dele emanam as
energias de sustentação do sistema nervoso e suas subdivisões, sendo
o responsável pela alimentação das células do pensamento e o
provedor de todos os recursos eletromagnéticos indispensáveis à
estabilidade orgânica. É, por isso, o grande assimilador das
energias solares e dos raios da Espiritualidade Superior capazes de
favorecer a sublimação da alma. Logo após, anotamos o "centro
cerebral", contíguo ao "centro coronário, que ordena as percepções
de variada espécie, percepções essa que, na vestimenta carnal,
constituem a visão, a audição, o tato e a vasta rede de processos da
inteligência que dizem respeito à Palavra, à Cultura, à Arte, ao
Saber. É no "centro cerebral" que possuímos o comando do núcleo
endocrínico, referente aos poderes psíquicos. Em seguida, temos o
"centro laríngeo", que preside aos fenômenos vocais, inclusive às
atividades do timo, da tiróide, e das paratiróides. Logo após,
identificamos o "centro cardíaco", que sustenta os serviços da
emoção e do equilíbrio geral. Prosseguindo em nossas observações,
assinalamos o "centro esplênico", que no corpo denso, está sediado
no baço, regulando a distribuição e a circulação dos recursos vitais
em todos os escaninhos do veículo de que nos servimos. Continuando,
identificamos o "centro gástrico, que se responsabiliza pela
penetração de alimentos e fluidos em nossa organização e, por fim,
temos o "centro genésico", em que se localiza o santuário do sexo,
como templo modelador de formas e estímulos."
O instrutor fez
pequena pausa de repouso e prosseguiu: "Não podemos olvidar, porém,
que o nosso veículo sutil, tanto quanto o corpo de carne, é criação
mental no caminho evolutivo, tecido com recursos tomados
transitoriamente por nós mesmos aos celeiros do Universo, vaso de
que nos utilizamos para ambientar em nossa individualidade eterna a
luz divina da sublimação, com que nos cabe demandar as esferas do
Espírito Puro. Tudo é trabalho da mente, no espaço e no tempo, a
valer-se de milhares de formas, a fim de purificar-se e
santificar-se para a Glória Divina."
"Quando a nossa mente, por
atos contrários à Lei Divina, prejudica a harmonia de qualquer um
desses fulcros de força de nossa alma, naturalmente se escraviza aos
efeitos da ação desequilibrante, obrigando-se ao trabalho de
reajuste. No caso de Júlio, observamo-lo como autor da perturbação
no "centro laríngeo", alteração que se expressa por enfermidade ou
desequilíbrio a acompanhá-lo fatalmente à
reencarnação."
IRMÃ
CLARA - Para auxiliar mais efetivamente à Odila e Zulmira, Clarêncio
convocou o auxílio de Clara, nobre espírito capaz de despertar a
pobre desencarnada para as responsabilidades justas. Clarêncio
explica aos dois aprendizes que ele, dentro de suas limitações,
encontra-se apto a falar à inteligência, mas sem sentir-se à altura
para redimir corações.
Narra André: "De olhos rasgados e lúcidos
a lhe marcarem magnificamente o semblante com os traços
aristocráticos do rosto emoldurados pela basta
cabeleira, clara parecia uma jovem madona, detida entre os melhores
dons da mocidade e da madureza."
Irmã Clara é levada até Odila.
Após maravilhosa prece, em que parecia irradiar de si formoso e
indescritível arco-íris, que Clarêncio esclareceu serem projeções
próprias de harmonia e beleza, visto já ter ela atingido o total
equilíbrio dos centros de força que irradiam ondulações luminosas e
distintas.
Odila, ao vê-la, desferiu um grito de encantamento
selvagem e caiu de joelhos. "Anjo de Deus - gritou a vampira de
Zulmira -, "socorre-me! socorre-me!..."
Clara conversa com ela
longamente, advertindo-a quanto à sua posição, esclarecendo-a
bondosamente, até Odila cair em si e dar-se conta do papel terrível
que vinha desempenhando no lar do homem que dizia amar. Seu
procedimento, verifica, não só prejudicou a saúde física e mental da
rival, mas também o bem-estar de Amaro e da filha Evelina.
É
transportada por Clara e demais para uma instituição, onde permanece
durante uma semana, corrigindo-se, intimamente, e preparando-se para
retornar ao ler terreno, desta vez para ser, ali, o anjo bom da
felicidade de todos.
Assim, com novo ânimo, recebe a visita de
Amaro, que lhe declara seu amor imenso e o profundo arrependimento
pelas novas núpcias. Zulmira, confessa, foi apenas decepção em sua
vida. Decidida a auxiliar o casal, embora o coração ainda frágil em
sentimentos superiores, Odila pede a Amaro que cuide de Zulmira, que
a ame e que a faça feliz. Amaro acata seu pedido, deixando claro,
porém, que seu amor pertence à ela, Odila.
Retornando ao antigo
lar, pelas mãos de Clara e também em companhia de Clarêncio, André
Luiz e Hilário, Odila, renovada, disposta a sacrificar seu ciúme
pela felicidade do antigo ninho doméstico, tem a ventura de receber
nos braços a filha Evelina, desligada do corpo pelo sono físico. A
menina a braça, enlevada, em lágrimas e conta-lhe das orações que
fizera, buscando o seu auxílio.
A mãezinha, agora cheia de bons
propósitos, convida a filha a ser mais atuante dentro de casa,
servindo de filha e irmã para Zulmira, auxiliando-a o quanto lhe
fosse possível para transformar o lar, novamente, em doce recanto de
felicidade.
Após, Odila abraça Amaro e o convida a estender a
felicidade de ambos para Zulmira e este então recorda-se da esposa,
desejoso de agradá-la. Odila estremece, porém não recua, atenta em
não perder a oportunidade de renovação. Mais tarde, Evelina vai até
o casal, levando palavras de carinho à madrasta, igualmente e esta,
surpresa, declara ser Odila, sem dúvida, o anjo protetor da casa, em
vista o contentamento geral.
Ouvindo-lhe as palavras sincera,
gratas, Odila recolhe-se ao colo de Clara, chorando copiosamente de
alegria e alívio.
RECONCILIAÇÃO - Graças à renovação de Odila, Amaro e
Zulmira voltam a entender-se. Nesse meio termo, Evelina, evocada
pela mãe, retorna ao quarto onde seu corpo repousa, e, vendo-a,
lança-se em seus braços, maravilhada.
Odila roga-lhe o auxílio
para que o lar não desapareça. Pede sua ajuda para o soerguimento de
Zulmira e o amparo ao pai, arrasado desde a morte de Júlio. Evelina
promete fazer o possível e assim que desperta, vai ao quarto da
madrasta levar à ela suas impressões de felicidade e o desejo
sincero de ser para ela misto de filha, irmã e amiga, colaborando
ativamente para a felicidade da pequena família.
Refeitos os
laços no antigo ninho doméstico, Odila tem a permissão para visitar
seu filho. Em lágrimas, abraça o pequeno, que, como por milagre,
transformou-se de súbito e indefinível expressão de felicidade
cobriu-lhe o semblante. Narra André: "Indubitavelmente, a Sabedoria
Universal colocou imperscrutáveis segredos no carinho materno. Algo
de milagroso e divino existe nos laços que unem mães e filhos que,
por enquanto, não podemos apreender."
Preocupada com o delicado
estado de saúde de filho, Odila pede esclarecimentos e Clarêncio a
elucida quanto a lei de causa e efeito. Mesmo assim, não lhe diz que
o pequeno só poderá melhorar através de nova reencarnação. Aos
demais, esclarece que será melhor que ela o faça, frente aos
intensos sofrimentos de Júlio, sem alívio justo, por ora.
Assim
ocorre. Odila roga auxílio para um novo corpo ao menino, e descobre
que apenas Zulmira poderá recebê-lo em seu regaço materno. Feliz,
Odila passa a colaborar na saúde da ex-rival, para a próxima
reencarnação de Júlio.
Logo nos primeiros meses, Zulmira passa
muito mal, vomitando excessivamente e Clarêncio, André e Hilário
visitam o conhecido lar de Amaro, visando a recuperação da jovem
senhora. Algum tempo depois, a garganta ferida de Júlio impõe à
futura mãezinha lancinantes dores na garganta supurada.
Mais uma
vez, recebe Zulmira a atenção de Clarêncio e equipe, sob as vistas
de Odila, sempre interessada em aprender mais, para servir melhor ao
seu pequeno grupo.
Após o nascimento de Júlio, que recebeu
novamente o mesmo nome, novas preocupações instalam-se no lar. O
pequeno tem a saúde frágil e, antes de completar um ano de idade,
teimosa amigdalite instalou-se na garganta enferma. Em estado grave,
o médico é convocado. Zulmira chora, fazendo André Luiz comover-se:
"Ó meu Deus, com tanto amor recebi o filho que me enviaste!... Não
me deixes agora sem ele, Senhor!..."
Clarêncio e demais
acompanham o pediatra até o hospital e lá tem grande surpresa: em
seu traje branco, Mário Silva conversava com Antonina, que trazia ao
colo a pequena Lisbela, ofegante e pálida. Atraído pela sovem
senhora, e sem poder explicar porque, Silva a acompanha até em casa,
para medicar a menina, com pneumonia. Lá, acompanha, pela primeira
vez, um culto doméstico qual o que Antonina realizava todos os dias
e ouve palavras comoventes sobre o perdão aos inimigos. Pensa então
consigo se perdoaria Amaro e Zulmira, algum dia, e, confuso e
encantado ao mesmo tempo, despede-se da simpática senhora, agora
viúva, prometendo retornar na noite seguinte.
Satisfeito,
dirige-se para outra casa, onde deve prestar socorro à uma criança
doente. Lá chegando, dolorosamente surpreso, descobre tratar-se da
casa de Amaro e Zulmira. Louco de ódio, ignora as palavras da
ex-noiva, a lhe pedir ajuda ao filhinho gravemente enfermo, e deseja
com todas as forças que o bebê pereça, pensando, que se pudesse, ele
mesmo injetaria substância letal no pequeno, apenas para ver a
extrema dor na face dos dois inimigos.
Clarêncio impede que os
fluidos negros e viscosos de Silva atinjam Júlio. Este se debate
entre o ódio e as palavras ouvidas na casa de Antonina. Ainda assim,
medica o garoto e, na varanda, aguarda ao lado de Amaro, silencioso
e sofrido, a morte do menino.
Amaro, percebendo os momentos
finais do filho no corpo, orou comovidamente, em lágrimas. Silva,
atormentado, ouvindo os gritos de "assassino! assassino!" dentro de
si mesmo, correu para a via pública, achando-se, atormentado, no
seio da sombra fria, soluçando...
APRENDIZADO - Após a morte de Júlio, Zulmira perdeu a
vontade de viver, entregando-se à indiferença por tudo e por todos.
Em vão, a família luta por fazê-la interessar-se pela vida, outra
vez. Chamado a auxiliar a pobre mãe, Clarêncio, em companhia dos
dois aprendizes, regressa ao lar de Amaro, verificando a gravidade
do estado de Zulmira.
Mário Silva, ainda acabrunhado com sua
atitude, é levado a procurar Antonina e esta, inspirada por
Clarêncio, o aconselha a voltar à casa dos dois inimigos do passado
e abrir o coração. Silva hesita, porém Antonina o acompanha. Amaro o
recebe com alegria, por ver desfazerem-se velhas animosidades. O
médico, chamado a cuidar de Zulmira solicita uma transfusão de
sangue e Silva se oferece. As energias do rapaz auxiliam grandemente
a moça, e ele sente que mágoas do passado se afastaram para sempre.
Naquela noite, Zulmira é levada a rever seu filhinho. Ao ver Odila,
pede-lhe perdão pela morte do outro Júlio e Odila, amorosa,
mostra-lhe que ambas os meninos são, na realidade, um só. "Somos
mães do mesmo amor" - diz.
Grande amizade surge entre o casal
Antonina - Mário Silva e Amaro- Zulmira. Amaro aconselha Silva a
casar-se com Antonina, devido a grande afinidade entre ambos e pelo
carinho que os filhos da jovem viúva nutrem pelo enfermeiro. Mário
acaba concordando e em dia festivo e belo, casam-se na residência de
Amaro.
Evelina, durante a festa, é auxiliada por um jovem e belo
rapaz, que a segue, enamorado. É Lucas, irmão de
Antonina.
CORAÇÕES RENOVADOS - Um ano depois, Leonardo Pires e
Júlio renascem nos lares de Antonina e Zulmira, quase ao mesmo
tempo, trazendo consigo elevados programas de trabalho.
Ao mesmo
tempo, nova cerimônia de casamento é realizada. Evelina e Lucas,
cumprindo o programa traçado, unem-se e vão residir em São
Paulo.
Na festa, Odila ora pela filha, comovida e transfigura-se.
No entanto, abraça Zulmira e Amaro, como filhos do coração. Mais
tarde, no Lar da Bênção, parece triste e Clarêncio indaga dela que
céu ela procura enquanto todos celebram a sua vitória. Odila,
abraçada a ele, pede-lhe que a deixe ficar em seu lar terreno, pois
ali está seu paraíso. O Ministro, colocando uma flor de luz sobre
seu peito, lhe diz: "Onde permanece nosso amor, aí fulgura o céu que
sonhamos. Retorna, Odila, ao teu lar quando quiseres..."
Finaliza
André Luiz: "Nesse instante, funda saudade assomou-me à alma
opressa... Experimentei a estranha sensação do pai que busca
inutilmente os filhos arrebatados ao seu carinho. Ave distante da
paisagem que a vira nascer, vi-me atormentado pelo anseio de
recuperar, de imediato, o meu ninho..."