Yoko Hiyama
Capítulo 6 - A Dor da Culpa
- Tudo bem se você faltar o serviço?
- Tudo bem. O Paulo vai reclamar muito de qualquer jeito. Então não faz muita diferença se será hoje ou amanhã, não é mesmo? - Júlio respondeu, enquanto cuidava de regar as plantas da casa.
Guilherme sentou-se no sofá, prestando atenção ao número de gaiolas penduradas próximas a janela. Eram quatro ao todo. Dentro delas, passarinhos minúsculos cantavam com toda empolgação.
- Você tem que limpar essas gaiolas todos os dias?
- Bem, pelo menos era o que eu deveria fazer... mas confesso que não tenho muito ânimo pra limpar quatro gaiolas por dia. Então divido... lavo duas gaiolas por dia. Mas tem que botar água e comida novos todos os dias, claro. Dá certo.
- Hum... entendi...
Gaspar pulou no colo de Gui e tratou de se deitar, preguiçoso.
- Olha só... que gatinho mais abusado. - Júlio protestou quando viu aqquilo - você mal chegou e ele já está se apossando... não o deixe se acostumar senão ele te faz de almofada mesmo e não quer nem saber.
- Tudo bem. Não me incomoda.
- Gosta de animais?
- Não gosto nem desgosto. - ele fez um cafuné no bichano - mas esse seu gatinho é simpático demais.
- É mesmo, né? O Paulo também é louco por ele.
- Sério? Estou chocado!
- Ah... louco à maneira dele... não ficava de beijos e abraços com o gato, claro.
- Eu imagino... seria muito estranho imaginar aquele cara fazendo festa a um gatinho.
- Vocês dois não foram mesmo com a cara um do outro, não é?
- É. Acho que não.
- Que pena. Eu queria que vocês fossem amigos.
- Bem, Julinho... eu não posso fazer milagre, né? Bom, é melhor eu ir... já tá mais do que tarde. Eu tenho um monte de coisas pra resolver.
- Ah, Gui. Fica mais um pouco. Já tá quase na hora do almoço... por que não come comigo?
- Eu...
- Pode deixar que eu preparo algo bem rapidinho, ok? O que acha? Aceita?
Gui deu um suspiro, conformado:
- Tá bem... eu fico... mas tem que ser rápido mesmo, viu? Tipo um sanduíche ou algo assim.
- Pode deixar que vai ser bem rápido... - ele falou enquanto lavava as m&atildde;os e puxava uma panela de dentro do armário, debaixo da pia da cozinha. - Você pode ir arrumando a mesa enquanto eu preparo? Aí a gente apressa ainda mais as coisas...
- Está bem. - Gui colocou o gato de lado e se levantou - Onde ficam os talheres?
- Eu guardo naquela gaveta ali. A terceira. A toalha tá na segunda gaveta. Encontrou?
- Encontrei.
- Os pratos tão aqui na cozinha. Mas não precisa buscar não que eu já vou servir a comida direto pros pratos.
- Tá.
Gui fez uma arrumação bem simples e rápida na mesa e não teve que esperar muito pra que Julinho viesse, todo sorridente, com dois pratos ainda fumegantes.
- Ai, ai... tá quente, tá quente! - ele reclamou enquanto colocava os prratos na mesa - tá aí. É a minha especialidade!
- É miojo. - Gui, com cara de playmobil.
- Isso mesmo! O que você queria que eu fizesse em cinco minutos? Mas não é qualquer miojo. É o MEU miojo.
- Eu tô vendo que não é qualquer miojo... você colocou alguma coisa nele... - Gui remexeu o macarrão com o garfo, tentando reconhecer aquele cheiro.
- Você não adivinha o que seja?
- Não, claro que não... o que você colocou aqui? Me desculpa, mas tá parecendo um tanto... grudento...
- Ah, você está partindo o meu coração. Eu pensei que ia saber o que era na mesma hora. Afinal, você também me disse que adorava!
Gui não pôde deixar de olhar pra cara de Júlio como se ele fosse um extraterrestre.
- Quê?!
- Gui! Você tá brincando comigo, né? Não vai dizer que logo você não sabe reconhecer um bom miojo com requeijão.
- Miojo... com requeijão?!!!
- Isso mesmo! E dos bons! Anda! Prove logo que
já está esfriando. - Julinho falou, empolgado, enquanto metia
o garfo no meio daquele macarrão peguento e tratava de provar um
bom bocado.
Gui se sentiu como se estivesse diante de um prato de veneno. Só de imaginar o que lhe aconteceria se colocasse uma só colher daquilo na boca, seu estômago deu uma reviravolta. Não podia comer nada que viesse do leite. Passaria muito mal porque era alérgico desde criança.
Mas por outro lado... lá estava Julinho, cobrando com o olhar que ele provasse da sua comida e que a aprovasse! Tinha esquecido completamente que Amanda também gostava daquelas gororobas! Pior do que isso! Foi muito estúpido em aceitar aquele convite pra almoçar. Mas e agora? O que faria? Se não comesse, Júlio ficaria chateado porque não tinha como lhe explicar que era alérgico a leite.
- Gui! O que foi? Será que tá com uma cara tão ruim assim? - Júlio deu um sorriso triste - se for isso, eu lhe prometo que o gosto não vai decepcionar. Eu virei o copo inteiro de requeijão dentro da panela. Tá uma delícia!
- Julinho...
- Sim?
- Obrigado... - Gui se serviu de uma farta garfada de miojo, mastigou e se forçou a engolir - Hum... tá uma delícia! Nunca comi um macarrão tão gostoso como esse!
- Que bom que gostou! - Júlio deu um sorriso largo - por um instante eu juro que pensei que não ia nem querer comer.
- Por que pensou isso?
- Não sei.... bobagem minha. Só passou pela minha cabeça. Bobeira pura.
- Hum... isso aqui tá bom mesmo! Botou o copo inteiro?
- O copo inteiro!
- É.... o copo inteiro... muito gostoso!
Júlio chegou a dar risada.
- Que bom.... fico feliz em te ver comendo com tanto gosto.
- É que realmente... tá uma delícia! Melhor não poderia ser!
****
- Filho, o que aconteceu?
- Leite, mamãe! - Gui pôde falar antes de voltar a se inclinar sobre o vaso sanitário e vomitar.
- Mas você comeu coisa com leite, meu filho? Você sabe que não pode fazer isso...
- Eu não pude evitar mãe... - e toca a vomitar.
- Aposto que você comeu algum doce que juraram que não tinha leite, não é mesmo?
- Ai, mãe...
- Calma, meu filho... - a mãe de Gui colocou a mão sobre a testa suada do filho - Viu? Você já tá com febre... isso acaba mesmo com a sua imunidade. Vai ter que ficar de cama hoje.
- Ah, não... eu não posso! Eu não posso! Tenho que ir no hospital ver a Amanda.
- Ah, eu sinto muito, meu filho! Mas daqui de casa você não sai de jeito nenhum!
- Mãe... eu vou ficar bem... pára com isso! - foi só dizer isso e as ânsias de vômito voltaram na mesma hora.
- Até parece que não conheço o filho que tenho... você não pode sair de casa! Está doente, com febre.... lá fora tá chovendo, tá frio!
- Mas, mãe...
- Não e não! Eu sinto muitíssimo, meu filho. Sei bem o quanto a Amanda representa pra você, só que eu não quero que você termine num hospital, exatamente como a sua amiga...
- Isso não vai acontecer.
- Sem discussão, ok? Hoje você fica em casa. De repouso! Olha só... já tá vomitando bile! Que coisa, filho! Você é sempre tão atento com essas coisas... você sabe como fica quando como laticínios, né?
- Eu sei, mãe... me desculpa.
- Vamos... cama! Eu tenho que voltar pro trabalho, mas nem pense em fugir! Eu vou te ligar o resto da tarde inteira!
- Tudo bem, mãe.
****
- Doente?
- Isso!
- Mas... Gui... você saiu daqui super bem. Como ficou doente de uma hora pra outra, desse jeito?
- Ah, isso acontece... não se preocupa. Eu só te liguei mesmo pra você não ficar preocupado comigo...
- E como que eu não vou ficar preocupado? O que você tem?
- Uma virose qualquer...
- Tá com febre?
- Estou...
- Muita febre?
- Não... nada demais... já disse que não é nada pra se preocupar... amanhã mesmo eu já devo estar novo em folha.
- Você sabe o que eu tô achando disso tudo, Guilherme?
- O quê? - aquele tom de voz fez com que, por um milésimo de segundo, passasse por sua cabeça a louca idéia de que Julinho estava desconfiado de alguma coisa.
- Eu estou achando que você não tá se tratando do jeito que deveria!
- Não, quanto a isso pode ficar tranqüilo. Esqueceu que eu estudo medicina? Eu sei muito bem que...
- Bah... isso não me interessa nem um pouco! Me dá o seu endereço.
- O meu endereço?
- Isso aí. Eu vou já praí.
- Mas... mas... e a sua faculdade?
- Faltei ao trabalho, Também posso faltar à faculdade, não é mesmo?
- Mas não é necessário.
- É claro que é. Alguém tem que cuidar de você, não é mesmo? Anda! Eu não aceito um não como resposta. Trata de me dar esse endereço.
- Tudo bem. Vem de ônibus, né?
- Isso.
- Você conhece a Prudente de Moraes?
- Claro que eu conheço!
- Então... você só precisa saltar no segundo ponto depois da General Osório e atravessar a rua que vai estar na frente do meu prédio.
- Tá. Que apartamento?
- 302. Somos vizinhos.
- Tudo bem. Chego aí num instantinho, tá? Te amo.
- Eu também...
Gui não teve como evitar um suspiro quando desligou o telefone. Ainda se sentia terrivelmente mal. E o pior é que não tinha mais nada no estômago pra vomitar. O miojo com requeijão tinha sido botado pra fora a meia hora, mesmo assim ele continuava se sentindo péssimo. Mas o pior era que o frio só aumentava e as cobertas já estavam muito molhadas pelo suor, tornando o desconforto ainda maior. Gui se encolheu todo, abraçando o próprio corpo, numa tentativa de se aquecer um pouco mais que acabou não dando muito certo. Seu corpo doía inteiro. Estava exausto!
De repente, foi ficando cada vez mais difícil manter os olhos fechados e o estômago doía tanto!
- Ai... vida longa ao leite de soja... - ele debochou de si mesmo antes se entregar completamente ao sono.
****
Sem dor.
Sem frio.
Sem desconforto.
Gui abriu os olhos lentamente. Por um instante, teve que se esforçar para ver alguma coisa, tudo estava meio turvo. Foi bem lentamente mesmo que conseguiu distinguir as feições delicadas de uma pessoa que conhecia tão bem.
- Amanda?
Ela sorriu pra ele. Lhe fez um cafuné. Desarrumou seus cabelos do jeitinho que sempre fazia quando ele se deitava no seu colo e simplesmente falava da vida.
Como tinha sentido falta daquilo!
Mesmo assim, seu coração doeu muito quando passou por sua cabeça que o que estava acontecendo não podia ser real, que Amanda não estava mesmo lá.
Mas quando ele esticou o braço, conseguiu alcançar o rosto dela, sentiu sua pele. E era tão macia... tão quente... tão real! Tão absurdamente real!
- Amanda.... é você mesmo?
- Claro que sou eu, seu bobo. Você achou que ia te deixar sozinho em casa com essa febre toda?
- Eu sei me cuidar. - ele sorriu.
- Isso não importa... - ela sorriu de volta.
- Amanda... eu tenho tanta coisa pra te contar! Nossa! Tanta coisa aconteceu! Eu o conheci! Eu fui naquele encontro no seu lugar! Eu queria ser você.
- Eu sei.
- Mas... deu tudo errado! Deu tudo tão errado... deu tudo tão errado! Eu não sei... eu não consegui ser você! Mas... mesmo assim.... e o amei... eu o amei tanto, Amanda!
- E ele o amou também.
- Não! Ele ama você! Ele procura você em mim com os olhos o tempo todo! Eu sinto isso! Me perdoa... eu não queria... eu não queria mesmo...
- Eu sei disso, seu bobo. Não precisa chorar. - ela recolheu num carinho as láe;grimas que Gui nem tinha se dado conta que estava derramando.
- Amanda... por que você não volta pra mim? Eu preciso... ele precisa... de você... tanto...
- ...
- Amanda... me responde, por favor?
****
- Gui?! Gui?! Tá tudo bem? Acorda, vai?
- Ah? - ele abriu os olhos de uma só vez, assustado.
Não era no colo de Amanda que ele estava deitado.
Em cima do seu corpo havia um cobertor muito pesado e confortável mas a dor estava de volta, ainda mais forte do que antes.
Um sonho...
- Julinho?
- Que foi, meu amor? A empregada abriu a porta pra mim... você tava dormindo, todo encolhido. Eu troquei o seu pijama... coloquei umas cobertas... - ele fez um carinho nos seus cabelos - tava dormindo tão gostoso... e então, você começou a chorar como um bebê de uma hora pra outra... me deu um aperto no coração tão grande! O que foi? Um sonho ruim?
- É... mais ou menos...
- Tá se sentindo melhor agora?
- Estou... - mentiu - não se preocupe comigo. Não há motivo.
- Claro que há. Você tá doente e eu quero cuidar de você.
- Não precisa perder o seu tempo...
- Gui? Que besteira é essa? Quem disse que cuidar de você é perder tempo?!
Gui não respondeu. Apenas fechou os olhos. Estava cansado e deprimido demais. Júlio também não insistiu. Deixou que ele descansasse, sem parar de lhe fazer cafuné um segundo.
****
- Droga! Que inferno! Pra quê serve o celular se ele não deixa ligado?! - Paulo bateu com o telefone com força no gancho.
- Oh, chefinho... não fica assim... na certa ele deixou o telefone desligado porque tá no meio de uma aula. - Hélio tentou consolar.>
- Que nada!! Essa é a hora do intervalo! Você pensa que eu sou idiota a ponto de não saber dos horários dele?!
- Não é nada disso! Que temperamental! Ele pode muito bem ter desligado o telefone durante a aula e depois se esqueceu de ligar de novo.
- Ah, que nada!! Eu não sou idiota pra acreditar numa besteira dessas! E tem mais! Eu vou te dizer o que realmente aconteceu! O que aconteceu é que ele sabia que eu ia ligar, claro! E o que ele fez? Deixou o telefone desligado de propósito!
- A bateria também pode ter acabado...
- É um absurdo! Aposto que ficou namorando e nem se lembrou das responsabilidades! Faltou o trabalho e tenho certeza de que faltou à faculdade também.
- Quem sabe ele não esqueceu o celular em casa, né?
- E ele pelo menos teve a boa vontade de ligar e avisar ao idiota aqui o motivo do desaparecimento? Claro que não! Mas sabe qual é o problema? O problema é que esse idiota que vos fala é otário o suficiente pra permitir que todo mundo deite e role em cima dele! Lógico! O problema é comigo! Claro! Por isso que todo mundo nessa merda de loja estipula os seus próprios horários, seus próprios feriados, decidem até quando é que vão trabalhar e quando vão ficar de sacanagem por aí sem dar uma satisfação sequer. Eu tô cercado é de exploradores, isso sim! A verdade é toda essa!
- Agora eu fiquei magoado...
- É essa a intenção! - ele esbravejou - E você é outro!!!
- Euuuuu?
- É! Você mesmo! Por acaso já terminou de fazer o que eu mandei? Aposto que não!
- Nem se eu fosse o Super Homem eu teria terminado. - Hélio resmungou.
- Não reclame! O problema todo é que você está acostumado demais com a boa vida! Aí quando tem que trabalhar um pouquinho, a coisa complica!
- Tá magoando os meus sentimentos de novo.
- Não me importo.
- Pare senão vou começar a chorar.
- Eu não sei aonde estou com a cabeça! Como é possível que eu ainda não tenha te demitido?!
- Ah, é que o senhor me ama.... mas não quer aceitar a verdade!
- Eu odeio você! Odeio!
- Até quando você vai deixar que esse orgulho idiota atrapalhe a nossa relação?!
- Cala a boca ou vou ter que te demitir de verdade!
- Ah, deixa disso e me dá um beijinho! - Hélio falou em meio àss gargalhadas.
- Grr!!
- Nossa que selvagem! Tô todo arrepiado.
- Deixa a sua esposa saber disso!
- Olha, vai ser uma boa explicação. Ela não vai acreditar mesmo que você me prendeu na loja por mais três horas depois do horário só pra me fazer trabalhar...
- Três horas? Tudo isso? - Paulo olhou pro relógio, descrente.
- É... tudo isso. - Hélio deu um suspiro.
- Droga... tudo bem, termina com isso depois. Pode ir.
- Agora sim, estou com vontade mesmo de te dar um beijo.
- Tente e amanhã ganha uma estadia no hospital com todas as despesas pagas.
- Nossa.... tá mesmo com ciúmes do Julinho, hêm?!
- Deixa de ser pateta! Eu não tenho nada com ele. Não faz sentido ter ciúmes do Julinho!
- Sei.
- É verdade! Não é ciúme!! É preocupação! Preocupação! Apesar dele não merecer!
- Ah , sim. Faz sentido. Afinal, o Julinho é um bebê indefeso que não sabe o que faz da própria vida..
- Não é nada disso! Acontece que o Júlio é muito inocente! Quando se apaixona não enxerga a realidade! Ele é um tolo sentimental que vive num mundo de sonhos todo colorido! Por isso mesmo é que ele se nega a enxergar a realidade!
- Qual realidade?
- Não é mais do que óbvio?! A realidade é que esse rapaz que ele acha que é alma gêmea dele - Paulo acentuou cruelmente as palavras "alma" e "gêmea"- não passa de uma tremenda enganação! A enganação mais suja e covarde que eu já presenciei em toda a minha vida. Isso é que ele é.
- Bah! Pelo menos assume que você tá morrendo de ciúmes. Eu o conheci ontem e posso dizer que é um cara legal.
- Você diz isso porque é outro idiota! Igualzinho a ele! Mas deixa.... o tempo vai me dar razão. Pode esperar que não demora muito e vocês dois vão se arrepender por terem feito pouco caso das minhas palavras.
- Tá certo! Tá certo! Vai pra casa, tá? Pára de trabalhar que nem um maluco e descansa. Você tá muito estressado. Até amanhã, chefe. - Hélio deu uma palmadinha amistosa no ombro do amigo e saiu.
- Hunf... estressado... vocês vão
ver...
****
- Está se sentindo melhor? - Júlio perguntou, preocupado.
- Estou sim. Não precisa se preocupar. A febre cedeu. Eu tô me sentindo muito bem. Amanhã mesmo fico novinho em folha.
- Que bom!
- Julinho, eu te agradeço muito por ter ficado aqui comigo, viu?
- Não precisa agradecer. - Júlio fez um carinho no rosto do namorado - você pode contar comigo pra tudo... eu te amo.
- Eu também te amo. - Gui tomou a mão do namorado entre as suas e a beijou várias vezes, com muita suavidade.
- Gui?
- O que foi?
- Eu tava pensando... você ainda não me mostrou seus desenhos...eu queria dar uma olhada neles antes de ir embora.
- Julinho, tá tão tarde... não quer deixar pra amanhã? Você tem que ir.
- Ah! Por favor! Eu quero tanto ver os seus desenhos! Deixa, vai? Eu juro que não vou demorar muito. Vai ser só uma olhada.
Gui olhou pra cara ansiosa do namorado e teve que ceder. Mostraria os desenhos de Amanda que tinha guardado.
- Tudo bem... vou pegar a pasta. - ele falou enquanto revirava uma gaveta e outra em busca dos desenhos - Pronto! Está aqui. Divirta-se!
- Oba! Obrigado! - Júlio pegou a pasta jogada por Gui, animado.
- Não fique tão contente. São só uns rabiscos...
- Duvido! - Júlio respondeu com convicção e abriu a pasta.
A expressão que Gui viu se formar no rosto de Júlio, quando este começou a ver os desenhos, foi impressionante. Por um milésimo de segundo, teve a impressão de que ele iria cair no choro. Mas isso não aconteceu... Júlio foi virando os plásticos da pasta onde estavam guardados os desenhos de Amanda, enquanto olhava cada um deles com uma seriedade incrível, como se estivesse analisando o que eles queriam dizer. Chegou mesmo a acariciar um desenho em especial, mas nem por isso sorriu.
Gui inclinou a cabeça. Estava cismado com aquela expressão de Júlio. Mais do que isso: estava se irritando com ela. Aquele olhar de reconhecimento o incomodava tanto! E o fato de não conseguir alcançar a profundidade disso é o que lhe deixava mais revoltado. Simplesmente não estava agüentando ver o seu namorado olhando aqueles desenhos. Parecia mesmo que, enquanto estava concentrado naquelas ilustrações, Júlio se distanciava dele como nunca. E senti-lo longe daquele jeito lhe matava por dentro. Era doloroso demais! Não suportava aquilo por mais que tentasse.
- Chega, Júlio. Você tem que ir embora! - a voz saiu bem pouco amistosa, mas aainda paciente.
- Calma, Gui. Eu ainda não acabei de ver. - ele respondeu, sem nem tirar os olhoos dos desenhos.
- Você vê outro dia. Anda! Eu vou te levar até a porta.
- Então posso levar a pasta comigo?
- Não.
- Mas... eu prometo que cuido bem dela. Eu só quero levar pra casa e olhar cada um deles com calma. É importante pra mim!
- Por que? Por que isso é tão importante pra você? Eu não entendo. São só desenhos!
- Não são só desenhos! - Júlio respondeu, zangado - em cada um deles, está um pouco de você, um pouco da sua alma! Um pedaço seu que eu quero ser capaz de tocar! Assim como eu toquei quando a gente estava naquele chat.
- Você se importa mais com aquele chat do que com a realidade que a gente está vivendo agora!
- Não, Gui! Não é isso, eu só...
- Você prefere viver nesse mundo de sonhos do que no mundo real. Aposto que estaria muito mais feliz se a gente nunca tivesse se conhecido! Se você só tivesse tido contato comigo naquele chat!
- Gui, não diz uma coisa dessas! Eu adorei te encontrar! Eu adoro estar com você. - Júlio se aproximou, tentando acariciar o rosto do namorado - mas eu quero você por inteiro! Eu quero tudo!
- Você já tem tudo! Você tem tudo de mim! O que você quer mais?! O que esses desenhos podem te dar que eu não posso? - Gui se afastou do toque carinhoso com um passo brusco pra trás.
- Meu amor, isso não faz nenhum sentido. Esses desenhos são você. Gui... meu amor... os seus desenhos são como um espelho do que passa na sua alma, você não entende? Quando eu bati com os olhos neles, você se tornou claro pra mim. Está tudo ali, eu pude entender tudo.
- Entender o quê?! O que esses rabiscos poderiam transmitir de tão importante? São só... desenhos!
- Eles são importantes porque são transparentes!
- E daí??!!! - Gui deu um grito. Estava tão desnorteado, tão desesperado, que não sabia mais o que falava, não tinha mais a mínima noção do que estava fazendo. Tudo que existia era um medo enorme, uma insegurança sem limites que dominava todo o seu corpo e espírito - O que isso tem de importante??!!
- É porque eu queria que você fosse transparente comigo da mesma forma que é com o papel! - a voz de Júlio de irritada se tornou triste - o que eu vejo aqui... nessa pasta... me diz mais de você do que você mesmo...é só isso. Eu só queria que você pudesse confiar em mim... assim como confiou nessas folhas... e como confiou em mim naquele chat... é só isso.
Gui sentiu como se o chão lhe tivesse sido arrancado. Por um instante, a sua cabeça girou como se o mundo inteiro estivesse desabando. Nunca em sua vida tinha experimentado aquela vontade de sumir, de virar pó, de morrer. E o pior de tudo é que não teve como disfarçar o choque que aquelas palavras lhe causaram e Júlio percebeu isso na mesma hora.
- Ai, Gui... desculpa... eu não tinha que ter dito isso. Eu sinto muito! Não fica assim, por favor. - ele se aproximou de Gui e segurou seu rosto entre as mãos com carinho - Olha, eu tô errado em cobrar iisso de você. Eu é que tenho que ser capaz de ser a sua folha em branco e é isso que eu vou fazer, tudo bem? Eu sempre serei a sua folha em branco... Gui... por que está chorando? Não chora... não chora, por favor...
Júlio secou as lágrimas do namorado com os dedos e o beijou. A verdade é que ele não esperava aquela reação. Se imaginasse que magoaria Gui daquele jeito, nunca teria dito aquelas palavras tão duras. E mesmo sem entender direito o que estava acontecendo, sentiu-se tão culpado que não teve como evitar também as lágrimas.
- Gui, eu...
- Está tarde... eu vou te levar pra casa.
- Mas você tá doente... e lá fora tá um tempo tão feio...
- Não me importa. Tá muito tarde. Não quero que você volte sozinho a essa hora.
- Você ficou chateado comigo, não é?
- Não, não fiquei.
- Ficou sim. Você está chateado.
- Eu não estou chateado com você. Estou chateado é comigo mesmo.
- Gui...
- Não vamos mais falar disso, tá? Olha... se você quiser levar os desenhos, tudo bem. Eu não me importo.
- Não... tudo bem. É melhor que eu não fique com eles.
- Vai, Júlio... leva isso logo de uma vez. - ele pegou a pasta esquecida em cima da cama e empurrou na direção do louro.
- Obrigado. - ele deu um grande sorriso. - eu juro que te devolvo amanhã mesmo, tá?
- Não... eu não quero. Fique com eles. São seus.
- Meus? Não, isso eu não posso aceitar, Gui! Eu...
- Leva logo, tá? É um presente.
- Tudo bem. - ele deu um sorriso largo - mas com uma condição: eu pego um táxi e você fica em casa descansando.
- Aceito... mas me liga quando chegar em casa. Não esquece?
- Pode deixar. Muito obrigado, Gui. - Julinho lhe deu um gostoso beijo - eu vou guardar essa pasta com o maior carinho.
- Eu sei que vai. Te levo até a porta...
- Ok.
Gui guiou Júlio pelo corredor até a porta principal do apartamento e se despediram com um beijo rápido e promessas de se encontrarem no dia seguinte antes de Gui fechar a porta e, com um suspiro desconsolado, encostar a cabeça na madeira.
Ficou lá. Ouvindo o barulho do elevador descendo e mesmo quando o silêncio voltou a dominar o local, ele permaneceu parado ali, sem forças pra se mexer.
- Não me agradeça... isso é tudo que você vai ter dela... e é tão pouco, meu amor... tão pouco...
Continua...