Yoko Hiyama
Capítulo 7 - Fragmentos de Coração
O despertador tocou às cinco horas da manhã com um barulho que pareceu mil vezes mais enervante do que o normal, a ponto de Gui sentir ímpetos de atirá-lo pela janela. Mas apesar disso, o ruivo desligou o alarme com nada mais do que um suspiro conformado e tratou de se levantar.
Mal humorado, foi direto ao banheiro e tomou um banho rápido antes de se vestir com a primeira roupa que encontrou ao abrir o armário e sair de casa sem tomar café da manhã.
Tirou o carro da garagem e foi direto para o apartamento de Julinho, como fazia todos os dias desde que os dois começaram a namorar. Ele como sempre o esperava na portaria e abriu aquele mesmo sorriso fantástico, que o deixava ainda mais fascinante, assim que o viu. E então trocaram um beijo apressado dentro do carro antes de Gui dar a partida novamente.
- Bom dia, meu amor.
- Bom dia. Pra onde vamos hoje? - Gui perguntou enquanto manobrava o carro.
- Hum... por que a gente não sobe o Alto?
- Alto da Boa Vista a essa hora?
- Por que não? Ainda tenho duas horas...
- Legal...
- É sim. Eu gosto da Floresta da Tijuca.
- Bom, você que sabe... - Gui deu de ombros.
- Oba! - Júlio festejou jovialmente - tua faculdade ainda tá em greve?
- Tá.
- Já faz um mês, não é? A greve começou uma semana depois da gente começar a namorar...
- Quase isso.
- Chato, não é mesmo?
- De jeito nenhum. Tô dando é graças a Deus. Essa greve caiu do céu. Droga de sinal. - Gui deu um resmungo quando o sinal fechou bem na frente dele.
- Por que diz isso?
- Por um monte de bons motivos.
- Por exemplo... ?
- Deixa pra lá...
- Tá bom. - Julinho concordou - O dia tá bonito, né?
- Finalmente. Tava cansado de tanta chuva.
- Tem chovido demais nesses últimos tempos, não é verdade?
- É sim. Bota o cinto, vai?
- Ah, é... esqueci.
- Você sempre esquece.
- Nunca precisei me lembrar. - ele riu - sempre houve alguém pra fazer isso por mim.
- É mesmo, é?
- É. Primeiro o Paulo e agora você.
Gui olhou para o namorado.
- Será que você tá falando só do cinto de segurança?
- Gui, o sinal...
- Hum... - Gui voltou a dar atenção ao trânsito por alguns instantes. - você não me respondeu.
- Sobre o cinto?
- Não. Sobre fazer as coisas por você...
- Ah... isso? Você me entendeu mal. Interpretou as coisas como se eu estivesse reclamando.
- Não estava?
- Claro que não. Por que você achou isso?
- Pode ser que você não tenha percebido, mas a cada vez que você me compara com o Paulo eu sinto como se eu tivesse sendo criticado.
- Gui... não é nada disso. Eu só fiz um comentário bobo. Não foi uma reclamação...
- Então você gosta que os outros digam o que você deve fazer por você?
- Gui...
- Olha, desculpa... deixa isso pra lá. O meu humor não tá dos melhores hoje e eu tô descontando em você.
- Não... melhor mesmo esclarecer... - Júlio deu um suspiro e encolheu os ombros, conformado em prosseguir o assunto, por mais desagradável que fosse. - Não é que eu goste...
- Então não gosta?
- Não é isso também...
- Bem, ou você gosta ou não gosta.
- Poxa... eu não sei explicar direito. Você não vai me entender.
- Temos a subida do Alto inteira pra você me fazer entender. - Gui sorriu.
- Ok. Então vou tentar. - Júlio pareceu mais relaxado ao perceber que a conversa tinha perdido o tom de briga - É que eu acho que não tenho muita escolha quanto a isso.
- É... A sua primeira tentativa realmente não deu certo. Tenta de novo.
- Bem... Eu sinto que se eu agisse de forma diferente, não seria a mesma coisa... quer dizer, se um belo dia eu entrasse no carro e colocasse o cinto logo de cara, sem precisar que você me lembrasse disso, você se sentiria inseguro. Eu sei que o exemplo é estúpido, mas... você entendeu, não entendeu?
- Entendi que você realmente não tá falando do cinto de segurança.
- É sério.
Gui passou a mão pelos cabelos duas vezes a ponto de despenteá-los.
- Julinho... você tá tentando me dizer que você é do jeito que é por insegurança? Por medo de não agradar?
- Não! Não é isso. Eu sou exatamente como sou, Gui. Acontece que eu tenho consciência dos meus defeitos mas nem tento mudar porque sei que isso não seria legal... pra nós dois...
- E você tinha essa mesma sensação com o Paulo?
- É...
- Hum... - Gui franziu a testa - acho que já entendi.
- Você tá chateado, né?
- Sei lá se estou chateado. Talvez esteja.
- Desculpa... eu não queria...
- Não se desculpe. - Gui respondeu sem conseguir ignorar o vazio que estava sentindo - olha... vamos deixar esse assunto de lado... só por enquanto... tá legal?
- Tudo bem. - Júlio sorriu, deixando sua mão esquerda deslizar pra coxa do namorado numa carícia sedutora.
- Se você continuar... nós vamos bater, capotar e morrer.
- Hum... tentador.
*****
- Bom dia. - Júlio cumprimentou Hélio com um sorriso largo assim que entrou na loja.
- Grande Júlio! Como é que tá, meu chapa?! - Hélio retribuiu o cumprimento com bom humor.
- Tudo ótimo! E contigo? Como é que foi o fim de semana?
- Foi uma beleza! Principalmente porque o Botafogo deu um pau no Flamengo de 3 a 1. E sabe qual foi a melhor parte? Eu tava lá no Maraca e vi tudo! Você não imagina como foi bom ver aquele bando de rubro negro saindo tudo triste do estádio, cara. - Hélio gargalhou - Nada pode serr melhor do que isso! Nem sexo, meu amigo. Posso garantir!
- Putz... você é doente mesmo, vou te contar... - Júlio deu um sorrisinho - Mas eu pensei que a Marlene tinha te proibido de ir ao Maracanã...
- É verdade... Acontece que a patroa tá ciente do quanto que eu tô sofrendo aqui no trabalho e resolveu dar uma aliviada... você sabe como é, né? Se eu não puder nem ver o meu Fogão depois de uma semana inteira trabalhando 11 horas por dia, acabo tendo um troço.
- Lamento muito por isso, de verdade...
- Não esquenta.. eu gostcho. - Hélio deu uma palmadinha amistosa no ombro do amigo. - E enquanto o Botafogo estiver no campeonato, ainda há esperanças!
Júlio deu uma risada muito gostosa, que foi cortada pela voz mal humorada de Paulo.
- Tô vendo que o papo tá uma beleza, não é mesmo? Vocês não querem que eu traga uma cervejinha? Um aperitivo, talvez?
- Bom dia, Paulo. - Júlio cumprimentou.
- Ah... bom dia, senhor Júlio... Ótimo dia, sem dúvidas... Deve ser realmente muito bom sair por aí com o seu... príncipe encantado, se divertir bastante a manhã toda e depois chegar no trabalho com duas horas de atraso. Deve ser formidável.
- Desculpa, Paulo. Eu...
- ... você não precisa chegar na hora! Pra quê, né? Você não precisa ser responsável, não precisa lembrar que tem trabalho te esperando. Você tem o idiota, burro de carga do Paulo que segura a barra toda, não é mesmo?
- Paulo... não é assim...
- Claro que é! É sempre assim! Você não se preocupa com nada, Júlio. É esse o problema. Quem tem que se preocupar com tudo, quem tem que resolver tudo sou eu! Você só precisa é aproveitar!
- ...
- Ah... do que adianta? Vai... vai trabalhar de uma vez.
- Tá... tudo bem. - Júlio respondeu e tratou de subir as escadinhas estreitas da loja em silêncio.
- Paulo... - Hélio comentou, num tom sério que estava longe de ser o seu comum. - Eu acho que você tá exagerando.
- Ah... não venha você também com esse papo! Faz um mês que ele...
- Você sabe muito bem que o motivo da sua irritação com o Júlio tá longe de ser esse, não sabe?
- Dá pra você não se meter nesse assunto, por favor? - Paulo fez um gesto de incômodo.
- Como quiser.... só tô achando que essa sua atitude só serve pra deixar o Julinho magoado.
- Ainda bem que você não tem que achar nada! Trabalhe! - Paulo deu um resmungo, voltando a sua atenção para as faturas que trazia nas mãos.
Três minutos de silêncio total se seguiram antes que Paulo levantasse os olhos dos papéis novamente, retirasse os óculos de leitura e perguntasse num tom bem menos agressivo, quase temeroso.
- Você acha mesmo que ele ficou magoado?
- Provavelmente.
- Bobagem. Ele já está acostumado comigo.
- Se você acha...
- É... acho sim...
Mais dois minutos de um silêncio opressivo se seguiram antes que Paulo finalmente desistisse de tentar prestar atenção nas faturas pra dar um pesado suspiro.
- Vou lá em cima entregar essas contas pro Julinho dar uma olhada melhor.
- Isso... vai lá falar das contas. - Hélio deu uma risadinha cruel.
- É ... eu vou mesmo. - Paulo ignorou a espetada do amigo e tratou de subir as escadas de três em três degraus.
Encontrou Júlio sentado na sua mesa, com a cabeça apoiada nas mãos, olhando pro nada. Aquela visão fez a expressão fechada de Paulo se transformar imediatamente numa de preocupação que ele tentou disfarçar quando se sentou na cadeira do lado oposto da mesa.
- Ah, Paulo... quer que eu dê uma olhada nessas faturas, né? - o louro falou, meio distraído.
- Você está bem, Julinho? - Paulo perguntou, desta vez explicitando a sua preocupação.
- Se eu estou bem? Claro. Estou ótimo! - Júlio respondeu mas não teve como esconder um certo tom de amargura da voz.
- Olha, Julinho... você me conhece... sabe como eu sou e...
- Não, Paulo. Você tá certo. - Júlio deu uma palmada seca no ccolo - você tá certo. Não precisa se desculpar...
- Também não é assim. Er... eu reconheço que exagerei, ok? Na verdade... não tem muita importância se você chega cedo ou tarde... o que me importa mesmo é que você seja feliz... eu... eu me preocupo... demais... com você... Julinho.
- Eu sei disso, Paulo... - Júlio sorriu - você sempre se preocupou comigo....
- É... eu sei que é besteira minha, sei também que hoje você é um homem crescido e independente, mas... eu me sinto meio que responsável por você. Talvez seja porque você saiu de casa e deixou a proteção dos seus pais mais cedo pra ficar comigo e eu não pude deixar de sentir que tinha que cuidar de você... Eu sei que eu deveria me controlar, eu sei também que agora você não é mais nada meu mas mesmo assim... - Paulo não conseguiu terminar a frase, deixando que um curto silêncio tomasse o lugar da sua voz antes que Júlio sorrisse para ele e respondesse.
- Sabe o que eu acho?! Que você se preocupa demais com coisas que não valem tanta pena assim...
- O que você quer dizer com...?
- Olha aqui essa fatura, por exemplo... - Júlio lhe mostrou o papel com a mesma naturalidade que teria se o assunto entre os dois naquele momento fosse realmente o trabalho. - eu não entendi o porquê de tanta preocupação com a quantidade desse modelo aqui se nos últimos dois semestres, ele quase não saiu.
Paulo colocou os óculos de leitura rapidamente, tomando o papel das mãos do amigo:
- De que modelo que você tá falando?! Daquela blusa de linho? A vermelha?!
- Exatamente!
- Mas esse é um dos modelos mais caros da loja!
- Pois é...
- E um dos mais bonitos também!! Tinha que vender como água!!
- Isso é bem discutível! - o louro deu uma risada.
- Você tá brincando comigo!
- Em compensação, aquela calça que você diz que é horrorosa e que se recusa a comprar é a mais procurada pelos clientes, que não ficam nem um pouco felizes quando o Hélio diz que tá em falta.
- Aquela porcaria que só marginal usa?!
- Essa mesma! E... pra resumir a história
toda... sabe o que isso significa?
- O quê?!
- Que você está perdendo dinheiro!
- De jeito nenhum! Cadê o telefone daquela
fábrica?! Me recuso a permitir que o mau gosto dos meus clientes
me faça perder dinheiro. - Paulo puxou o telefone pra perto de si,
já totalmente esquecido da conversa que estava tendo com Júlio
anteriormente.
****
Júlio deixou a faculdade bem antes das aulas acabarem. Não precisou quebrar mais de dois pincéis pra perceber que realmente não estava se concentrando em nada do que fazia e então concluiu que era inútil permanecer ali.
A rua estava fria e úmida e o chão um pouco escorregadio por causa de um chuviscar persistente que começava a incomodar os pedestres. O louro olhou pro céu nublado, estremecendo de frio, sem conseguir deixar de pensar que nos últimos tempos nem parecia que estava no Rio de Janeiro e também que não deveria ter deixado o casaco pra trás antes de sair de casa. Mas mesmo se sentindo incomodado pelo frio, Julinho caminhava tranqüilamente pelas ruas, dando especial atenção às pedras portuguesas que adornavam a calçada na tentativa de esvaziar a própria cabeça dos pensamentos ruins e o coração do vazio persistente que andava sentindo.
Já fazia algum tempo que aquela sensação de vazio lhe corroía o peito, batendo direto de frente com a sua realidade atual. Ele simplesmente não conseguia entender os seus próprios sentimentos e mesmo assim, por mais que se esforçasse para transformá-los, não conseguia. Mesmo que sua cabeça não fosse capaz de adivinhar o que estaria faltando na sua vida nem o que poderia estar lhe impedindo de se considerar plenamente feliz, não era capaz de esquecer aquele vazio.
O que estava faltando?
Por que aquela sensação de que estava pelo fio de uma navalha? Por que sentia como se estivesse num mar revolto, prestes a se afogar? Por que seu espírito não encontrava nem um instante de paz?
A chuva tornou-se pesada no instante em que Júlio alcançou uma praça e então se transformou num temporal em questão de segundos. A rua tornou-se deserta, tirando algumas pessoas que ainda tentavam buscar qualquer abrigo em qualquer marquise de loja. Júlio olhou em volta, um pouco atordoado. Quase não podia ver nada e só soube que estava próximo de uma rua porque a luz forte dos faróis lhe feria os olhos. Mesmo assim, o louro não se moveu do lugar, ficou lá parado, sentindo a chuva ensopar suas roupas cada vez mais e mais.
Ele olhou para o céu mais uma vez e então sentiu suas próprias lágrimas, quentes, deslizarem pelo seu rosto e pescoço.
"Por que... eu estou chorando?!"
- Sabia que se continuar parado aí, perto dessas árvores, corre o sério risco de que um raio lhe parta em dois?!
- O ... o quê?! - Júlio mal conseguiu distinguir os contornos do seu inesperado acompanhante - Como me achou aqui?
- Eu não te achei aqui... estou te seguindo desde a faculdade... aliás, eu te chamei algumas dezenas de vezes mas você não me ouvia... onde estava com a cabeça?! Minha nossa, você está completamente ensopado... vai acabar ficando doente... Venha, vamos voltar. Deixei o carro na porta da faculdade pra vir atrás de você.
Júlio só reconheceu Gui completamente quando foi puxado para debaixo do guarda-chuva e pôde sentir o perfume das suas roupas. O contato com o calor do corpo do namorado pareceu fazer com que todo o seu corpo despertasse e ele sentiu um frio imenso, como se os ossos tivessem sido congelados e que até os seus tênis estavam tão encharcados que tinha a sensação de estar pisando numa poça d'água enquanto andava.
- Gui... você estava me esperando?
- Está com frio?! Vamos rápido... você precisa trocar essa roupa.
- Eu saí mais cedo... você estava me esperando?
- É... eu vi o tempo mudar de repente e... você sabe... não queria que você pegasse essa chuvarada toda.
Júlio se apertou mais ao corpo de Gui.
- Gui... por que você se esforça tanto... por minha causa? Não... não vale a pena, sabe?
Gui estacou e então olhou pro namorado como se tivesse sido picado por uma vespa.
- Olha pra mim. - ele pediu, segurando seu rosto com as mãos - Olha bem pra mim! Nunca... nunca mais diga que você não vale a pena!
- Gui!
- Você é meu, Julinho... tá ouvindo bem?! Meu. Eu seria capaz de... qualquer coisa por você... qualquer coisa! Você tem noção disso? Tem noção de que eu enfrentaria até o inferno por sua causa? Só pra te proteger?!
- Mas, Gui... eu não...
- Shii... - ele encostou dois dedos nos lábios do louro, impedindo-o de falar qualquer coisa - mais uma palavra sua e não conseguirei conter a vontade de te beijar e de fazer amor com você.
Júlio se calou. Não por causa do pedido do namorado mas sim porque aquelas palavras, longe de fazer com que se sentisse melhor ou menos vazio, só havia provocado um sentimento ainda mais incômodo. Naquele instante, enquanto sentia o seu calor e se aconchegava junto ao peito de Gui, uma pergunta perturbadora se formou no seu peito tão forte e exigente que simplesmente não havia como ser ignorada.
O que ele estava sentindo naquele momento... era culpa?
*****
Gui encontrou a cama vazia quando acordou na manhã seguinte. Sem ânimo algum para levantar, ficou apenas observando com alguma atenção as pinturas que Júlio havia feito em todas as paredes do quarto. Não se cansava de olhar aquelas paisagens. De observar com cuidado aquela mistura de cores, reparar bem em cada pequeno detalhe... Gui podia não entender nada de arte mas, mesmo assim, sentia um pouco do seu querido em cada pincelada daqueles murais. Era como se, mais do que uma simples pintura, aquele trabalho fosse uma parte da alma do seu criador. Gui podia perceber a alegria, a vontade de viver, a doçura... aos seus olhos, era como se estivesse vendo um retrato completo de Júlio.
Gui sorriu ao imagina-lo pintando aquele mural. Com certeza estaria com uma roupa velha, manchada de tinta... talvez com o peito nu, para aliviar o calor... os cabelos presos num coque, deixando aquela nuca deliciosa a mostra como se fosse um convite.
Um convite irresistível para um beijo, uma mordida... - Gui sorriu consigo mesmo, passando a mão pelos cabelos na tentativa de cair um pouco mais em si. E foi nesse preciso instante que ele se lembrou que na verdade, quem teve a oportunidade de ver aqueles murais sendo pintados foi o engomado metido a perfeito do... Paulo! E ele realmente odiou a idéia! Imaginar Júlio sendo beijado por aquele cara o deixava transtornado de raiva. Chegava a ter vontade de esmurrá-lo só de pensar que Paulo tinha morado anos com Júlio. Já imaginá-lo dormindo com ele naquela mesma cama... definitivamente não era nada agradável. Tanto que foi esse pensamento que estimulou o ruivo a pular da cama e ir ver aonde Júlio tinha se metido pra fazer com ele o que aquele ruim do Paulo não poderia mais.
Gui não teve como controlar um sorriso malvado quando encontrou o namorado sentado na frente do computador, distraído. Vítima perfeita para o ataque surpresa que se seguiu.
Uma mordida sensual na orelha fez com que o louro pulasse na cadeira na mesma hora.
- Gui! Você acordou?! - Júlio perguntou, ofegante pelo susto.
- Faz uns quinze minutos... - os braços
deslizaram dos ombros para o peito numa carícia - O que tá
fazendo?!
- Checando os meus e-mails... minha caixa de
entrada já tava estourada... Também, quase não tenho
entrado na net...
- Por que não?! - Gui perguntou, apesar de parecer estar bem mais interessado em explorar o corpo do namorado com seus carinhos.
- Porque não consigo entrar na net sem pensar em você o tempo todo.
- E isso é tão ruim assim?
- Claro que não, seu bobo... - ele deu um sorriso - acontece que se fico pensando em você o tempo todo, não consigo me concentrar em nada.
- Sei... e no que você pensa mais... especificamente... - as mãos de Gui desceram para o baixo ventre de Júlio, provocadoras - hêm?
- Huum.... você sabe... - a voz saiu meio sem forças.
- Mesmo assim, adoraria ouvir você falando...
- Eu me lembro de tanta coisa... do nosso encontro na net... - Julinho mordeu os lábios por alguns instantes - na sensação boa que tive quando conversei com você pela primeira vez...
- Que sensação foi essa?
Júlio respondeu, sem perceber que o tom de voz de Gui não era o mesmo de antes.
- A sensação maravilhosa de que talvez... talvez eu não estivesse vivo por nada... aah .... de que havia uma razão ... um motivo de existir nesse mundo.
- E por que uma conversa com um completo desconhecido que podia muito bem não ser nada do que você pensava te fez pensar dessa forma?
- Eu... não sei explicar... mas me senti assim... - Júlio abriu os olhos e jogou a cabeça pra trás pra poder encará-lo melhor - pensei que me entenderia...
Gui acariciou o rosto de Júlio como se fosse a última vez.
- Eu entendo... é claro que entendo...
- Não... não entende... Não se sentiu assim, não foi?! Não se sentiu como eu me senti...
- Não é nada disso! Eu... - Gui nem percebeu que fazia ainda mais pressão sobre a pele clara do rosto do seu namorado, a ponto de lhe deixar marcas. - Olha... pra mim, tudo que importa é aqui e agora. É estar com você... te amar como nunca pensei que seria capaz... ah... Julinho... você não pode pensar... que eu não amo você...
- Eu não penso isso, Gui.
- A cada dia que passa, eu fico mais louco por você... eu não posso me imaginar vivendo sem você. Júlio.... eu queria ser... queria ser tudo que você esperava de mim.
- E você é, Gui. Você é...
- Você não sabe o quanto que eu queria...
- as palavras deram lugar às morddidas e aos beijos famintos no pescoço
- você não imagina...
- Gui...
- Esqueça esse chat... esqueça esse
computador... eu estou aqui... eu sou real... o meu amor não é
virtual. É real! - Gui precisou de um puxão para arrancá-lo
da cadeira onde estava sentado e outro para retirar o nó bem feito
que prendia o robe branco ao corpo de Júlio. O louro apenas recebia
as carícias e beijos com uma expressão variável entre
a confusão e o prazer enquanto caía meio desequilibrado no
chão da sala, soltando um gemido ao sentir todo o peso de Gui e
os beijos e chupões que ele lhe dava, sem qualquer trégua.
- Você lembra? Foi aqui... exatamente nesse
pedacinho de chão que eu fiz amor com você pela primeira vez....
você lembra?!
Júlio deu um sorriso excitado e correspondeu
aos beijos exigentes, mesmo que sua cabeça estivesse cada vez mais
cheia de perguntas...
Por que Gui argumentava contra ele próprio?!
Por que ele tentava provar com seu beijos e com aquela penetração
possessiva que ele era melhor do que... ele mesmo? Júlio não
entendia isso.
Mas seus pensamentos logo se desmancharam, rendidos
pelo enorme prazer e não demorou mais do que alguns segundos para
que se entregasse por completo a Gui, se esquecendo por completo daquela
mesma sensação estranha que andava sentindo no peito.
A sensação de que o que ele realmente
sentia por Gui era um amor virtual.
Continua....
****
notas - Não sei se esse capítulo
ficou muito bom.... na verdade, eu demorei muito tempo pra terminá-lo
e, acreditem, este foi realmente difícil de ser escrito... Aliás,
creio que a partir de agora escrever esse fanfic vai se tornar cada vez
mais difícil, mas mesmo assim espero conseguir chegar ao final.
^^"
er... ganha um doce quem adivinhar o meu time...
:P
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11-02-2002
capítulo
8
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