Yoko Hiyama
Capítulo 4 - Prazer Corrompido
Gui não saberia dizer quanto tempo os dois ficaram de pé, ao lado na mesa, apenas se contemplando. Júlio parecia estudá-lo em todos os mínimos detalhes. Olhava pra ele de cima a baixo, sem nem se preocupar com o constrangimento que poderia estar causando com aquilo. Guilherme sentiu como se sua alma estivesse sendo analisada por aquele olhar tão terrivelmente profundo, tão perturbador... tão parecido com o olhar de Amanda....
- Senta, senta... por favor. - Gui falou, apressado, desejando se livrar por um instante daqueles olhos.
- Ah, sim... obrigado. - ele se sentou diante de Gui, sem deixar de sorrir um segundo sequer - Eu... confesso que estou um pouco nervoso...
- Isso é inevitável, não é mesmo? - Gui respondeu meio distraído em chamar o garçom.
- Sim, é porque eu esperava demais esse encontro. - seu sorriso se tornou um pouco tímido - eu pensei em você e em tudo que conversamos naquele chat o tempo todo, sabe? Aí fiquei imaginando o que eu diria a você quando nos encontrássemos pessoalmente...
Direto. Direto demais. Júlio sentou na cadeira e foi direto ao assunto, sem fazer um rodeio sequer.
Gui teve que fazer força pra não demonstrar o quanto estava estarrecido frente àquela figura... nunca pensaria em encontrar alguém tão direto com seus próprios sentimentos como Amanda.
Mas lá estava Júlio bem na sua frente.... e ele sem dúvida, era mais direto até mesmo do que Amanda.
O garçom se aproximou da mesa, interrompendo os pensamentos de Guilherme e a falação de Júlio por alguns instantes. Júlio pediu a mesma bebida de Gui, que foi servida rapidamente. O louro balançou o copo umas três vezes antes de tomar o primeiro gole e então deu uma risada:
- Hum!!! Muito bom! Isso aqui tá uma delícia! Hum!
Mesmo tenso do jeito que estava, Gui não teve como evitar um sorriso ao ver o entusiasmo com que Júlio falava até mesmo de uma simples bebida.
- Você tá calado... - Júlio comentou.
- Desculpa.... eu tava... observando você...
- Ah, é mesmo? Confesso que estou com um pouco de medo de te perguntar o resultado da observação.
- Não precisa ter medo de perguntar... mas não sei se vou poder encontrar as palavras certas pra te responder.
- Por que não? - desta vez, ele pareceu bastante curioso.
- Porque a sensação que eu tive só de colocar os olhos em você foi... indescritível... - taí uma frase que, mesmo sendo tão sincera, Gui jamais falaria... não de uma forma tão direta e depois de três minutos de conversação. Mas hoje ele era Amanda, tinha que pensar e agir como ela agiria. E foi esse mesmo pensamento que o fez prosseguir - Você tem uma beleza... desconcertante...
Júlio deu um sorriso tímido ao ouvir aquilo. Gui logo percebeu que ele não era tão bom pra receber elogios quanto era pra dar... Suas palavras tinham realmente lhe deixado envergonhado a ponto de deixá-lo um pouco corado.
- Er... - ele deu uma risada, tentando controlar o embaraço - que nada... você é muito mais bonito do que eu... não que isso seja o mais importante pra mim.... bem, é claro que é importante também... - mais uma risada - mas o principal é que eu pude te encontrar e que você realmente existe...
- Você pensou que eu não existia?
- Pensei... eu pensei... tá, confesso que é um pensamento meio estúpido, mas eu não pude deixar de pensar nisso. Tive um certo receio de que você não passava de um fruto da minha imaginação, de que não poderia existir uma pessoa com quem eu me desse tão bem, sem nem sequer conhecer pessoalmente, nesse mundo... você sabe, uma pessoa que me completasse da forma que eu me senti completo enquanto conversava com você naquele dia. Você entende?
- Entendo. - mas não entendia. Não conseguia compreender direito as dimensões do que Júlio lhe dizia. Mas sabia que só Amanda o entenderia porque tinha sido ela quem tinha dividido aqueles momentos no chat...
Naquele curto espaço de tempo, Guilherme não pôde deixar de pensar no quanto aquele encontro dos dois devia ter sido marcante. Mesmo sendo uma pessoa tão direta, Júlio não sentaria ali e falaria com ele como se fossem íntimos a anos se não tivesse sido de outra maneira.
Mas tudo que Guilherme podia fazer em relação a isso, era imaginar. Ele podia imaginar como seria mas nunca compreenderia a plenitude do que tudo aquilo significava.
Com um suspiro, Gui tentou afastar essas perturbações dos pensamentos e tratar de elaborar uma conversação convincente com Júlio antes que tudo fosse por água abaixo.
- Desculpa, Julinho... eu tenho uma péssima memória, tava aqui tentando lembrar a sua idade...
- Ah? Vinte e quatro... tô ficando meio velho, né?
Guilherme nem pôde acreditar que estava diante de uma pessoa mais velha do que ele. Olhando, dava mesmo pra jurar que tinha uns dezoito, dezenove anos no máximo.
- É mesmo.. eu tinha me esquecido... desculpa.
- Não tem importância.
- Não parece que você tem vinte e quatro anos. - Gui comentou.
- Você acha mesmo?
- Você parece ser mais jovem do que eu.
- Você tem vinte e dois não é mesmo?
- Isso.
- Sabe de uma coisa? Se eu tivesse que chutar uma idade pra você, acho que seria essa mesma. Vinte e dois. Hum... tô com fome... acho que vou pedir uns salgadinhos. Alguma coisa com queijo que eu sei que nós dois gostamos... você vai querer comer também, não é verdade?
- Não.. não tenho fome. - Gui se viu forçado a responder. Tinha alergia a leite e qualquer coisa que viesse dele. Jamais poderia botar nada com queijo na boca sobre o perigo de passar terrivelmente mal no dia seguinte. Mas Julinho nunca poderia saber disso porque Amanda, assim como ele, era alucinada por qualquer coisa que tinha queijo bem derretido.
- Sem fome? Já jantou?
- Já sim. Comi alguma coisa. - mentiu - mas já fico feliz em ver você comendo...
- Por que?
- Qualquer movimento que você faz é bonito. Duvido que vê-lo mastigando também não seja.
Dessa vez, Julinho corou pra valer.
- Er... que nada... imagina só...
- Viu? Tá lindo de novo... - Gui deu um sorriso sedutor, enquanto apoiava o queixo sobre as mãos.
Partir direto para a sedução. Esse era o plano. Se não tinha mesmo condições de se igualar a Amanda em espírito, mesmo conhecendo sua amiga profundamente, então agiria sobre o físico para conquistá-lo. E dessa parte ele entendia bem.
Julinho não demorou muito pra se recompor da cantada e demonstrando uma resistência tocante, tratou de chamar o garçom com um aceno animado. Pediu uma porção generosa de bolinhas de queijo e mais bebida para só então voltar a dar atenção a Gui novamente.
- Sabe, eu não me acho nada bonito... muito pelo contrário. Me considero frágil... feminino demais. Queria ser mais alto, mais forte... - ele riu - eu já até tentei, fiz meses de musculação e tal... mas não deu, não tenho mesmo muita paciência pra isso.... além do mais, o Paulo, meu ex, lembra?
- Lembro sim.
- Pois é, o Paulo sempre dizia que me preferia do jeito que eu era mesmo.. isso não é muito estimulante... principalmente quando você já está fazendo uma coisa de má vontade. Não concorda comigo?
- Sem dúvidas.
- Então, como eu dizia, eu tentei mas acabei desistindo e me conformando em ser esse tremendo filé de borboleta... mesmo porque, em todos os meses de musculação, não consegui nem chegar perto do resultado que eu tava imaginando. Eu sei que é bobeira, mas a gente sempre entra na musculação imaginando que vai se tornar capa daquelas revistas de alterofilismo... - ele deu uma risada, fazendo uma pose pra ilustrar a sua fala.
Gui apenas o observava, deslumbrado. Júlio então olhou pra ele com mais atenção e disse.
- Ai, me desculpe. Já estou falando demais... nem te deixo falar nada... você tá tão calado!
- Prefiro apenas ficar olhando você falar.
- Engraçado, eu tinha imaginado que íamos disputar pra ver quem ia falar e quem ia ouvir... hehehe... deve ter sido bobagem minha... deveria ter imaginado que ninguém no mundo seria capaz de falar como eu falo.
- Não é verdade. Eu tenho uma amiga que é exatamente assim... como você.
- Faladora?
- Eu não usaria essa palavra... - Guilherme sorriu - parece um pouco pejorativa, né?
- Você tem razão. Mas eu já ouvi tanto isso que nem me importo. Já assumi mesmo. - Júlio fez questão de fazer com que o tom de sua voz deixasse claro o trocadilho.
- É verdade... então vamos assumir mesmo. - Guilherme concordou - uma faladora, é isso que ela é.
- Sei. E ela é muito sua amiga?
- Muito.
- E o fato dela falar tanto... não aborrece você?
- Nem um pouco. Na verdade, eu gosto de ouvi-la tagarelar. Acho até admirável a facilidade com que ela passa de um assunto pro outro, nunca seria capaz disso.
- Ah, que nada. Você também tem essa facilidade. Eu percebi enquanto a gente conversava lá no chat. Por isso eu pensei que disputaríamos o direito da fala quando nos encontrássemos... você é tímido, né? Não imaginava que fosse...
- É... eu sou. Um pouquinho - Gui respondeu - você me fez lembrar dela quando falou que eu estava muito calado. Ela também costumava protestar sobre isso.
- Você parece gostar muito dessa sua amiga... dá pra sentir o carinho com que fala dela.
- É verdade. - ele deu um suspiro triste quando lembrou que esta amiga estava no momento, na cama de um hospital, ligada a um monte de máquinas. - ela é uma amiga muito querida.
- Assim fico com ciúmes. - foi a vez dele de provocar - e olha que eu já estava conformado em apenas sentir ciúmes daquele seu antigo namorado. Aquele que você disse que era seu melhor amigo...
- Ah... - Guilherme tremeu nas bases quando percebeu que era dele mesmo que Júlio estava falando. Então Amanda havia contado sobre ele? Isso ela não tinha lhe contado, claro. A espertinha... - não há razão pra ter ciúmes dele. É um grande amigo e é só.
- Mas você parece ser muito apegado a ele, não é mesmo? Bem, não posso dizer nada porque também sou bastante apegado ao Paulo até hoje também. Ele foi importante demais para eu simplesmente limpá-lo da minha vida.
- Hum.. Parece que quem precisa ter ciúmes aqui sou eu. - Gui fez piada, divertido.
- Que nada. Hoje não existe nada além de uma sólida amizade entre nós. Se não fosse assim, teríamos voltado... o que não aconteceu.
- E me diga, ele tem outra pessoa?
- Que eu saiba, agora ele tá sem ninguém. Mas desde que nós terminamos é um namorado novo por semana... - ele respondeu, em tom de gozação.
- Nossa! Tanto assim? Não está exagerando um pouquinho, não?
- Pior é que não...
- E isso chega a te incomodar?
- Incomoda no sentido de eu ter sempre que ter todo o cuidado do mundo pra não chamar o namorado da semana pelo nome do da semana passada....
- Seria constrangedor...
- Nada posso fazer... eu já sou péssimo pra guardar nomes e ainda tenho que passar por essa prova semanal? Mas eu já avisei a ele que qualquer dia desses ele vai perder um namorado graças a isso. Eu vou dizer o nome do namorado da semana retrasada e o cara, se não for completamente burro, dará no pé.
- Sem problemas. Se isso acontecer ele arranja outro namorado e problema resolvido.
- Foi o que ele me disse, o safado. Pode uma coisa dessas? Não sei como eu consegui prendê-lo por tantos anos...
- Com certeza porque ele amava você de verdade.
- É... com certeza. - ele sorriu, mas dessa vez foi um sorriso triste.
- Mas... o que o impede de arrumar o namorado dessa semana?
- Não sei. Sinceramente não sei. Talvez tenha se cansado.
- Difícil.
- Você acha?
- É... eu acho sim.
- Então não sei o motivo. Faz duas semanas que ele nem pensa em arranjar ninguém. Só quer saber de ficar atolado em trabalho o tempo todo. E mesmo quando não tem trabalho, ele trata de arrumar um.
- Que mistério. - Gui sorriu.
- É mesmo.
- Vai ver você tem razão e ele está mesmo cansado. Você o conhece, eu não.
- Não há como ter certeza de nada. Ele é fechado demais. Mesmo comigo. Não gosta muito de falar sobre problemas... pra dizer a verdade, quando você falou sobre o seu ex-namorado, eu não pude deixar de pensar que ele e o Paulo devem ser bastante parecidos.
- Pelo o que você o descreve... Sim, eles devem mesmo se parecer. - Guilherme teve que concordar.
- Mas não estamos aqui pra falar dos nossos antigos namorados, não é mesmo?
- Ah, isso é. Estamos aqui pra falar de nós.
Um curto instante de observação mútua se seguiu antes que fosse interrompida pela travessa cheia de bolinhas queijo.
- Hum... isso parece bem gostoso! Obrigado! - ele se dirigiu ao garçom antes que ele se afastasse - tem certeza de que não quer provar pelos menos uma?
- Tenho sim. comi tanto no jantar que se me meter a comer mais... acho que até passo mal.
- Ah.. que pecado... - ele colocou uma bolinha inteira na boca - Hum... tá quente... mas tá uma delícia. Huuum... hummm.... adorei as bolinhas de queijo desse bar. São mesmo espetaculares!
- Mas as coxinhas são horríveis.... - Gui lamentou.
- Ah, quem precisa de coxinhas quando se tem uma delícia como essa pra comer? Acho que eu não vou me contentar com uma porção só. Isso aqui tá gostoso demais! Huum!!
Gui olhou pra Julinho, divertido. Parecia uma criança comendo doces enquanto atacava aqueles salgados, sem nunca deixar a bebida de lado também. Sem dúvidas, Amanda não mentira ao afirmar que ele era a sua versão masculina. E isso podia se ver até no apetite.
- Er... bem - Julinho tentou falar entre uma bolinha de queijo e outra - onde estávamos mesmo?
- Falando sobre nós dois.
- Ah, sim... é verdade. - ele deu uma risada - logo se vê que não tenho a melhor memória do mundo mesmo... estávamos falando sobre nós...
- Você faz Artes Plásticas, não é mesmo?
- É sim. E você desenha, não é? Quando você me disse isso, fiquei com muita vontade de ver seus desenhos.
- Tenho muitos guardados lá em casa... - Gui jogou o convite pra Júlio, sem nem querer saber se ainda era cedo demais. - se você quiser...
- Ah, claro... por que não? Eu adoraria. Podemos combinar...
- Claro que sim. Mas eu também vou querer ver os seus.
- Ah, lá em casa tem desenho e pintura minha por todos os lados.... eu pintei as paredes.
- Pintou?
- Pintei sim. Foram onze meses de trabalho até ficar do jeito que eu queria. Cada cômodo da casa tem uma paisagem. É que eu sou muito ligado a natureza... viver numa cidade tão grande sempre me deixou um tanto oprimido. Não que eu não goste, mas... desde criança, sempre tenho a sensação de que falta alguma coisa muito importante na minha vida. Mas eu não sabia o que era. Isso até passar uns meses no sítio de uns amigos... era um lugar delicioso, sabe? Tinha um rio correndo atrás da casa, muitos passarinhos, flores, árvores... nossa, eu realmente fiquei encantado com tudo aquilo e pela primeira vez em toda minha vida... estava realizado, me sentindo completo, inteiro... em comunhão total com a natureza e todas as suas forças. Não sei se você consegue entender direito isso.
- Entendo sim. - mentiu de novo porque entendia parcialmente, não conseguia alcançar completamente o que aquilo significava pra ele.
- Sabia que entenderia. - ele sorriu - então, como eu estava falando, foi por causa disso que eu decidi trazer um pouco de natureza lá pra casa....e, bom... a gente pode comprar vasos de plantas, a gente pode comprar passarinhos pra cantar pela manhã, mesmo que o canto deles quando estão numa gaiola não se pareçam em nada com os que eles entoam em liberdade... mas... a paisagem... o verde... a água borbulhante, o clima gostoso... aquele friozinho que faz à noite e aquele barulhinho gostoso de água corrente que acorda a gente pela manhã.... aah... isso é tão bom!! Mas não dá pra trazer tudo isso pra dentro do nosso apartamento... o que é realmente uma pena...
- É verdade. - mesmo nunca tendo sentido falta dessa aproximação da natureza por um minuto da sua vida, só de ouvir o discurso de Júlio, Gui se sentiu um pouco como ele.
- Pois é, pra suprimir um pouco essa falta que eu sentia do convívio com a natureza, eu acabei pintando as paredes com essas paisagens que eu tanto gostava de ver. É claro que ainda fica longe de ser a mesma coisa mas... já me conforma um pouco mais.
- Ouvir você falando, me dá vontade de ver essas pinturas... - Gui comentou, mas dessa vez, foi sem segundas intenções. As palavras de Julinho tinham aguçado mesmo a sua curiosidade.
- Bom, não é aquela obra de arte, mas... talvez você goste do que vai ver.
- Tenho certeza que sim. Mas os seus salgados vão esfriar.
- Ops! Falei demais de novo, né? Quando for assim, por favor, pode me interromper... eu tenho consciência total do quanto eu sou tagarela.
- Te interromper? Jamais! É muito bom ouvir você falando...
- Ah, que nada. Eu só sei falar besteira.
- Não é verdade. E se fosse assim, eu não estaria aqui, nesse instante. Com você. Afinal, nós nos conhecemos num chat, lembre-se sempre.
- Você deve ter razão. - Julinho ponderou por alguns instantes - mesmo assim, eu ainda acho que sou tagarela demais.
- Mas isso é o que o torna tão irresistível. - Gui partiu pro ataque - o seu tom de voz, os seus gestos, as suas expressões... todo o seu corpo parece estar falando junto com você... você fica mais sexy quando fala a ponto de se esquecer do mundo...
A coloração vermelha do rosto de Julinho disse tudo que Gui queria saber sobre como os seus elogios eram recebidos.
- Você está me deixando muito sem-graça...
- Que ótimo.... - Gui deu um sorriso safado - era isso mesmo que eu queria.
- Pára com isso! Vai me deixar roxo de tanta vergonha.
- Você não precisa ter tanta vergonha. Eu estou falando só a verdade...
- Nossa... - Julinho estava cada vez mais constrangido - também não é pra tanto.
- É sim. - Gui sorriu enquanto, com um movimento quase imperceptível, conseguiu capturar uma mecha loura dos cabelos de Júlio - você tem o cabelo macio... me dá vontade de saber como é o cheiro...
- Se a gente se beijasse aqui... não seria...muito escandaloso? - Julinho sorriu, demonstrando no tom de voz que tinha sido seduzido pelas palavras suaves de Gui.
- Eu acho que seria... bastante... - ele largou a mecha fina de cabelo e sua mão direita deslizou suavemente até o rosto, sentindo a textura delicada daquela pele clara e tão suscetível ao toque e então, levantou-se um pouco da cadeira e se debruçou sobre a mesa, para alcançar aquela boca tentadora.
Ele sentiu Júlio estremecer quando as bocas se colaram, primeiro timidamente, apenas uma carícia de lábios, depois de uma forma mais íntima... Gui provou do gosto doce do álcool que era a saliva dele, se deliciando, como nunca antes, daquele beijo ousado e sentiu as mãos de Júlio entrarem pelos seus cabelos timidamente, numa carícia delicada, sem diminuir o ritmo do beijo nem sequer por um instante.
Gui detestou acabar com aquele beijo. Mas teve como consolo a visão daquele olhar brilhante e do rosto corado de excitação do companheiro. Só aquilo lhe deu tanto tesão que teve mesmo que sorrir largamente de alegria, ao mesmo tempo que acariciava com os dedos, aqueles lábios ainda úmidos e tão convidativos.
- Eu poderia ficar te beijando a vida inteira... - Gui falou.
Júlio apenas sorriu, mas sua respiração era tudo que Gui precisava pra saber que havia gostado daquele beijo tanto quanto ele. Era isso. Se não pudesse ter sua alma, pelo menos teria o seu corpo... por Amanda.
- Não posso deixar de pensar que todo o bar deve estar olhando pra nós dois... nesse exato instante. Acho que é por isso mesmo que não me sinto com coragem de olhar pro lado. morreria de vergonha...
- Estou chateado... é só por isso que você está olhando pra mim nesse minuto? - a mão esquerda de Gui passou para o seu queixo e depois deslizou para o pescoço furtivamente.
- Tolinho! Claro que não... é que eu me sinto como se estivesse num sonho... e se eu olhar pro lado... seria como se acordasse desse sonho bonito...
- Todo o bom sonho tem que ter um fim, não é mesmo?
- Ou não...
- Ou não... - ele tirou umas notas do bolso, sem deixar de olhar para Julinho nos olhos, e as atirou na mesa. Levantou-se dali, puxando-o pelo braço sem se importar muito com a própria delicadeza, até a saída do bar, se preocupando apenas em olhar somente pra ele e pra nada mais.
Julinho por sua vez, também mantinha seus olhos colados nos dele enquanto caminhavam até o estacionamento onde estava o carro. Fui um trajeto curto, que os dois percorreram em absoluto silêncio.
- Você mora muito longe daqui? - Gui quebrou o mutismo só quando entraram no carro.
- Não... muito pelo contrário... eu moro aqui mesmo... em Vila Isabel.
- Eu vou dar a volta então, ok? Te levo em casa.
- Tudo bem...
Gui ligou o motor do carro e deu a partida, ainda tentando recuperar algum controle sobre suas próprias sensações. Estava bem acostumado a desfrutar da companhia de garotos lindos, mas nenhum, por mais bonito que fosse, poderia se comparar a Júlio. Nunca nenhum beijo tinha conseguido acender um fogo de desejo tão poderoso, a ponto de se alastrar por todo seu corpo em segundos e fazê-lo pensar em uma única coisa: Possuí-lo. Com toda força, com toda vontade.
O carro deixou o estacionamento lentamente, ao mesmo tempo que a mão de Gui deslizava da marcha para a perna de Julinho numa carícia sensual. Julinho tomou sua mão e a conduziu para a boca, dando um rápido beijo, bem a tempo de permitir que Gui pudesse voltar sua atenção para a marcha do carro novamente.
Gui não falou mais nada durante o curto trajeto que separou o estacionamento da faculdade do prédio onde Júlio vivia. No fundo, ele tinha receio de que alguma coisa que dissesse de errado acabasse com aquele clima. O fato de que ele não era Amanda, e nunca poderia ser Amanda, não saia de sua cabeça de jeito nenhum.
- Você pode colocar o seu carro... na garagem... - Julinho falou, timidamente, quando o carro parou na porta do prédio e Gui se preparava pra desligar os motores.
- Colocar na garagem?
- Isso... não seria bom se... se o carro dormisse na rua... poderia ser roubado... não é?
Gui sorriu largo. Afinal, quem estava seduzindo quem ali?
Não tinha mais muita certeza...
- Tudo bem...
- Deixa eu sair do carro pra abrir o portão pra você.
- Tá. - ele respondeu, se contendo para não puxá-lo para um beijo antes que abrisse a porta. Sabia que se fosse beijá-lo agora, fariam amor ali mesmo, dentro do carro. Por isso, Gui se controlou um pouco mais e esperou o portão ser aberto. Resistiu até mesmo ao desejo que teve de abraça-lo dentro do elevador, enquanto subiam até o terceiro andar. Seu comportamento foi realmente exemplar... até o momento em que Júlio abriu a porta do apartamento. Foi o limite do controle. Gui nem sequer permitiu que seu companheiro alcançasse o interruptor e o tomou nos braços, apertando seu corpo com força contra a parede.
- Gui... - ele ainda sussurrou antes que sua boca fosse calada com um beijo selvagem. As respirações se tornaram mais pesadas, carregadas pelo desejo enquanto Julinho tentava se segurar de pé, puxando as roupas de Gui, já sem nenhuma força nas pernas para suportar seu próprio peso de tão desnorteado que aquele beijo estava lhe deixando.
E assim, os dois deslizaram pela parede, sem parar de se beijar nem por um instante. A boca de Gui ficava cada vez mais faminta a medida em que ia abandonando a de Júlio para partir pro pescoço numa mordida no limite da dor. Foi com custo que Gui conseguiu sustentar o corpo do amante em seus braços num abraço ainda mais apertado enquanto se ajoelhava no chão.
- Gui, espera! Eu... - Julinho tentou falar assim que teve seus lábios livres por um instante.
- Espera o quê? - ele deu um grunhido de desejo, voltando a atacar a pele convidativa do pescoço do belo louro e deixando que suas mãos se tornassem cada vez mais ousadas.
- Hum... - Julinho gemeu quando sentiu a mão invasora de Guilherme invadindo o interior de suas calças sem pedir licença - Gui...
A segunda tentativa de falar foi interrompida pelo ruído desconcertante do tecido da blusa branca de Júlio sendo rasgado para permitir o acesso da mão livre de Gui aos seus mamilos excitados, juntamente com a carícia constante na região do baixo ventre.
- Gui... aaah.... - Júlio gemeu um pouco mais alto quando sentiu o peso do seu companheiro lhe obrigar a deslizar ainda mais, até o chão frio. Sem conceber nenhum instante de trégua, Gui voltou ao início, tomando-lhe a boca com um desejo ainda mais exigente. As línguas se acariciaram, durante algum tempo, num ballet que era pura luxúria. Mas o ruivo não se deixou ficar ali por muito tempo. Tratou de voltar à sua intensa exploração ao corpo tentador de Júlio, enfeitiçado pelo cheiro do suor que se desprendia daquela pele tão macia e que parecia ser, em si só, um convite para o sexo. Cada pedaço de carne daquele belo louro era como um chamado, um pedido... quase uma ordem que Gui jamais poderia ignorar. Não havia mais controle, não havia mais Amanda, não havia mais nada. Só havia aquele corpo embaixo do seu, aquela respiração agitada, aquele suor quente... Só havia desejo. O mais puro e intenso.
Sem perceber, Júlio já estava estirado no chão, com as pernas abertas, ajudando Gui a tirar suas calças e sem poder mais respirar de tanto tesão. Ele nem poderia dizer em que momento que começou a corresponder, na mesma intensidade, a todos os beijos e mordidas, também não saberia dizer se antes alguém tinha conseguido incendiar seu corpo daquela forma tão selvagem. até aquele exato instante, não fazia a mínima idéia de que era capaz de se entregar a alguém daquela forma quase animal. Estava sendo traído pelos seu próprio corpo e mesmo assim aquela só podia ser a mais doce das traições.
A calça foi finalmente deixada de lado com um puxão mais brusco enquanto o próprio Júlio abria o zíper da calça do seu amante, impaciente. E se existia ainda alguma hesitação em Gui, ela se foi por completo assim que viu seu amante abrindo ainda mais as pernas, num pedido mudo que acabasse com aquele tormento logo de uma vez. Um pedido que o ruivo não demorou nem um segundo a mais pra atender. Ele o penetrou com muito mais ansiedade do que carinho e manteve um ritmo cheio de desejo em meio aos gemidos do amante. Mas aquilo não pareceu bom o bastante. Um tanto insatisfeito com a posição, se retirou rapidamente, provocando um choramingo de protesto que logo se transformou num grito quando foi colocado de quatro e penetrado novamente, desta vez de uma forma quase agressiva. Júlio deixou escapar mais uns três ou quatro gemidinhos de puro protesto antes dele próprio ser contaminado pelas sensações de prazer e pelo aumento do ritmo dos estímulos da mão de Gui em seu membro. E então, prazer foi tudo que ele passou a sentir. Até a dor era só prazer! Julinho ouviu seus próprios gritos de êxtase enquanto puxava os cabelos de Gui com toda a força que tinha. O orgasmo foi inevitável. A única coisa que o louro teve que fazer foi se entregar e gritar ainda mais alto.
Gui sorriu largo, deliciado com aquela imagem . O prazer que sentia era tanto que os gemidos do ruivo saíram como grunhidos que, por sua vez, foram se transformando em gritos mais e mais altos até que um orgasmo avassalador tomou conta do seu corpo como uma onda incontrolável. Gui pensou que ia perder os sentidos, tamanha a intensidade do prazer que sentiu. Já não enxergava, não ouvia e a única coisa que podia sentir era a sensação de estar derretendo, desmanchando, desfalecendo... morrendo de tanto prazer.
Desabaram no chão, tentando respirar um
pouco que fosse e ficaram parados, um em cima do outro, em completo silêncio.
Julinho mantinha os olhos fechados e um sorriso de uma criança que
tinha acabado de aprontar das suas. Gui sentiu a respiração
do lourinho ficando cada vez mais ritmada até que se deu conta de
que ele havia adormecido. Mesmo assim, ele ainda teve ânimo pra dar
três beijinhos nas costas suadas do seu amante antes de também
cair num sono profundo.
****
- Gui... Gui....
- Hum...
- Gui.... acorda... vamos...
- Não quero...
- Vamos, querido... você tem que acordar... - um beijo suave na orelha tentou lhe convencer a abrir os olhos.
- Eu tava tendo um sonho tão bom.... - ele protestou, ainda adormecido.
- Gui... eu sinto muito ter que te tirar dele, mas...você tem mesmo que acordar, meu amor... eu perdi a hora...
- E daí? Quem se importa com a hora?
- Você não tá entendendo... é que sempre que eu perco a hora... o Paulo vem até aqui me buscar... e ele já deve estar chegando... já passou o limite de atraso dele faz tempos.
Aquela frase foi o suficiente. Guilherme arregalou os olhos de susto e olhou pra todos os lados, confuso.
- O que você tá querendo dizer? E como eu vim parar na cama?
Júlio sorriu:
- Finalmente acordou. Você tem mesmo um sono pesado! Eu te carreguei até a cama no meio da madrugada e você nem abriu os olhos. E agora eu tive que te chamar uns quinze minutos até você acordar.
Gui olhou pra Júlio com um pouco mais de atenção. Ele continuava lindo como sempre. Só que agora, estava enfiado num robe vermelho, muito elegante e tinha prendido seus cabelos molhados num coque alto que o deixava com uma aparência ainda mais feminina do que o normal. Era tanta beleza que Gui sentiu vontade de fazer amor com ele na mesma hora. E não ficou só na vontade. Tratou de enlaçar o amante pela cintura, puxando-o para um beijo cheio de promessas.
- Gui... você não ouviu uma ... palavra ... do... do que eu disse...
- O que você disse, meu gostosinho? - ele perguntou, muito pouco interessado na resposta, enquanto lutava pra desatar o competente nó que prendia o robe.
- Eu... eu disse...
- Você disse...?
- Que o Paulo...
- Sim, o Paulo... o que tem ele?
- Deve estar batendo aqui....em cinco minutos... ou menos...
- Hum.... - a mão do ruivo já deslizava para as nádegas num apertão indecente.
- Gui? Você tá prestando... atenção?
- Claro... o Paulo... aqui... em.... O QUÊ?!
- Isso aí! Cinco minutos...
- Mas como? Por que? Como sabe?
- É o que eu tô tentando te explicar... Ele sempre vem me buscar quando eu me atraso... é que ele odeia muito atrasos, sabe?
- Hum... ele não é o único...
- Como?
- Nada.... esquece.
- Tá bom... - Julinho deu de ombros - então sempre que eu me atraso, ele vem me buscar em casa.
- Ele respeita a sua privacidade mesmo, né?
- Ele fez parte dela durante alguns anos, Gui. - Julinho sorriu.
- Bom, então acho melhor eu me contentar com um banho frio... - Gui falou, desanimado com a idéia.
- O banheiro é logo ali, Gui. Eu já deixei tudo preparado pra você.
- Sobrou alguma roupa de ontem?
- Das suas? Estão inteirinhas... só um pouco sujas... mas não posso dizer a mesma coisa das minhas....
- Foi mal... não deu pra segurar. - ele fez uma acariciou o peito de Julinho de uma forma provocante. - É que você é muito gostoso... pra resistir...
- Aaaah... Gui.... eu...
O ruído da campainha interrompeu de vez as tentativas de Gui.
- Você disse cinco minutos.
- Ou menos...
- É.... eu não prestei atenção nessa parte.
- Vai. Entra no chuveiro... - Júlio lhe deu um beijo estalado nos lábios.
- Mas ele vai perceber...
- Não tenho nada a esconder dele, Gui... ainda menos você... que é meu namorado.
- Sou?
- Não é?
- É... sou! - Gui sorriu e deu um beijo mais caprichado em Júlio antes de tomar coragem de sair da cama e encarar mesmo o prometido banho frio no preciso instante em que ouviu a campainha se tornar ainda mais impaciente.
- Já vou! Já estou indo... - ainda ouviu a voz de Júlio resmungando antes que fechasse a porta do banheiro atrás de si.
- Banho frio é o meu destino...
****
- Entra, Paulo.
Um homem bem alto, de aparência extremamente séria, enfiado num terno claro, bem cortado, cabelos pretos cuidadosamente penteados pra trás, entrou no apartamento.
- Nossa, Paulo! Não tá muito cedo pra você estar com essa cara, não? - Julinho fez piada ao ver que o mau humor do ex-namorado estava parecendo ainda pior do que o habitual.
- Você tem idéia de que horas são, Júlio? Será que você não tem mesmo a capacidade de ser pontual?
- Desculpa, mas desta vez eu tenho os meus motivos.
- Lógico que tem. Eu sei do seu encontro com aquele garoto que você conheceu no tal... chat...- Paulo pousou os olhos castanho esverdeados em Júlio, numa reprimenda - eu sabia que ia ficar até de madrugada de papo, bebendo até não poder mais e hoje não ia conseguir acordar na hora! Você não pensa que os compromissos lá na loja não podem esperar pela sua disponibilidade.
- Ah, Paulo... não exagera... você sabe que eu não apito nada lá. Você resolve todos os problemas numa boa. Não precisa da minha presença pra nada. - Júlio falou, sorridente - O pão tá quente?
- Hum? Está sim. Segura. - Paulo jogou o saco.
- Obrigado. - ele disse - aposto que você tinha tanta certeza de que ia perder a hora que nem tomou café, certo?
- Eu já te disse que detesto essa sua despreocupação?
- Acho que hoje não... pelo menos não diretamente.
- Pois então. Eu detesto.
- Senta vai. - Julinho falou enquanto arrumava a mesa. Uma arrumação bem desarrumada. - eu tô precisando conversar algumas coisas importantes com você.
- Julinho...
- Sim?
- Acho que você esqueceu o chuveiro ligado...
- Não esqueci não.
- Mas eu tô ouvindo o chuveiro!
- Eu não disse que ele não tá ligado. Eu disse que eu não esqueci.
- Não esqueceu? Ah? Oi, Gaspar! Seu dono ainda não deixou você morrer de fome, é? - Paulo fez um cafuné num gatinho branco de olhos verdes que se esfregava na sua calça.
- Ele tava com saudades.
- Que nada. Ele quer é comida. - Paulo jogou umas migalhas de pão pro gatinho que tratou de comer alegremente - Gato, idiota! Cercado de comida por todos os lados e sempre faminto...
- Ele não come pássaros! Você sabe que foi acostumado com eles desde que era filhotinho...
- Claro, claro... - Paulo fez outro cafuné no gato antes de se levantar.
- Onde você vai?
- Vou ao banheiro. Lavo minhas mãos pra tomar o café e depois aproveito e acabo com todo esse desperdício de água.
- Pensei que você tinha se esquecido do chuveiro...
- Eu nunca esqueço de nada.
- Lava as mãos no lavabo, Paulo... por favor.
A sobrancelha direita de Paulo se levantou, revelando a desconfiança. Mas essa expressão logo se transformou numa outra: Perplexidade.
- Júlio.... não me diga que ... você e aquele cara do chat...
- Bem...
- Não, não me diga!
- Sim! - Júlio deu um sorriso.
- Ah, merda! Seu idiota!
- Calma, Paulo... não é bem assim, eu...
- Eu não acredito! Não acredito! Nunca pensei que você fosse idiota a esse ponto!
- Eu não tenho culpa... é que.. aconteceu...
- Ah, que ótimo! Isso explica tudo! - Paulo bufou de raiva.
- Paulo... sabia que quando você fica nervoso assim, você parece muito assustador?
- A intenção é essa! - Paulo respondeu, fuzilando Julinho com o olhar.
- Paulo... eu já sou um cara crescido... faz tempo que deixei de ser aquele garoto inocente que você pegou na portaria da casa dos pais com o seu carro. Eu agradeço muito mas não há motivo para que você se preocupe com meu bem estar desse jeito...
- Pois eu acho que HÁ motivos! Muitos motivos! Milhares de motivos! Você conheceu aquele cara ontem!! E se ele fosse um assassino? E se ele fosse um maníaco? Você não sabe nada sobre ele! Como é que trás esse garoto pra cá, assim?!!! Você é louco!
- Eu sei me cuidar...
- Claro que sabe! Claro que sabe! E o que você ia fazer? Dar um cruzado de direita nele?
- Paulo...
- Tá, tudo bem... Eu tenho que parar com essa idéia de que você é feito de porcelana... mas assim fica difícil, você não acha? Assim você me enlouquece de preocupação.
- Não é nada disso, Paulo. Olha, daqui a pouco ele vai sair daquele banheiro e você vai poder conhece-lo, certo? Aí você vai ver que ele é um ótimo cara... e vai gostar dele, certo?
- Eu duvido MUITO disso!
- Paulinho.... Paulinho, meu querido! Também não fica de implicância com ele, né?
- Hunf!
- Promete que você vai se comportar direitinho?
- Não prometo nada!
- Paulo!
- Tá... tá... vou fazer o possível!
- Assim é melhor.
- Eu só espero que essa loucura toda tenha mesmo valido a pena...
- ...
- Eu vou lavar as mãos. E diga ao Gaspar que se ele subir na minha cadeira, vira instrumento musical.
- Tudo bem...
- Julinho? - Dessa vez foi a voz de Gui que o chamava pelo nome. Ele correu até a suíte, onde seu novo namorado estava acabando de sair do banheiro, vestido com uma bela roupa.
- Tudo bem se eu usar essas roupas?
- Tudo bem... eu acho.
- Essas roupas não são suas não é? - ele perguntou, mostrando a manga longa.
- É... bem, essa blusa é do Paulo...
- Espero que ele não seja do tipo que tenha ciúmes de suas coisas.
- Não se preocupe. Não com isso. Venha... o café está na mesa. - Júlio puxou Gui pela mão, muito animado - Você quer leite quente ou gelado?
- Sem leite, por favor. Tem chá? Café?
- Tem chá preto... culpa do Paulo... tô vendo que você tem os mesmo costumes aristocráticos dele.
- Não são costumes aristocráticos... é que eu não tenho opção.
- Como assim? - Júlio pareceu meio confuso enquanto colocava a água pra ferver.
- É que eu não gosto de leite...
- Nossa! Que surpresa! - uma voz irônica se fez ouvir pelas costas de Gui que se voltou, surpreso. - Julinho, o que você me disse sobre ele não era muito verdade...
- Paulo, por que diz isso?
- Ora bolas... ele não gosta de leite... mas você adora... então não são tão idênticos assim, não é mesmo? - Paulo deu uma olhada cruel pra Gui, que nem por isso abaixou a cabeça. Olhou pra ele da mesma forma desafiadora.
- Paulo... você me prometeu, né? - Julinho cobrou, chateado.
- Foi uma piada! Pra descontrair. Se ele não tiver o senso de humor de perceber isso, é sinal de que você estava mesmo enganado sobre ele...
- Pois eu achei a piada muito sem graça, tá bom? Olha, vocês nem se conhecem ainda... por favor, não fiquem se olhando como se fossem inimigos a gerações... isso é muito infantil. Apertem as mãos e sejam amigos, ok?
Falar era fácil. Mas aquela figura esmagadora que era Paulo não parecia alguém muito disposto a fazer amigos. Mas Gui jamais se deixaria intimidar por uma carinha feia. Pior. A expressão irritada de Paulo só lhe dava uma vontade ainda maior de desafiá-lo. Afinal, quem esse idiota pensava que era? Ele não passava de um EX! Tudo bem, ele era até pintoso... mas não deixava de ser um EX namorado. Parte do passado! Não se deixaria impressionar.
Quando já estava planejando o que diria caso o engomadinho soltasse mais uma de sua piadinhas se surpreendeu ainda mais, ao ver Paulo respirando fundo e estendendo a mão pra ele.
- Foi mal. Não queria ofender. É um prazer te conhecer...
Gui piscou, meio incrédulo. E por um momento passou pela sua cabeça a idéia louca de que Paulo devia estava tentando lhe enganar. Mas não estava. A cara contrariada ainda estava ali. Tudo indicava que ele só estava sendo gentil por causa do pedido de Julinho e nada mais do que isso.
Entendendo o recado, Gui tratou de apertar a mão de Paulo e acabar logo com aquilo.
- O prazer é meu.
- Isso. muito bem. Agora vamos tomar nosso café. A água do seu chá já está quente, Gui.
- Ah? Obrigado.
- Bem... é melhor eu ir... - Paulo falou, recolhendo sua pasta jogada em cima do sofá.
- Você não vai tomar café da manhã?
- Melhor não. gastei mais tempo do que eu pensava aqui e tenho uma reunião importante marcada. Julinho, vê se não se atrasa mais do que o meu limite, ok?
- Tudo bem, Paulo. A gente conversa melhor no trabalho.
- Certo. Até a próxima, Guilherme.
Gui deu um aceno desinteressado pra Paulo e viu Júlio acompanhando-o até a porta.
- Me desculpe por isso, Gui... é que o Paulo é muito mal humorado mesmo. - Júlio sorriu pra ele depois de fechar a porta.
- Não esquenta. - Gui respondeu, colocando um saquinho de chá preto na água quente. - Ei, seu gato tá pedindo comida. Posso dar?
- Pode sim. - Julinho sorriu enquanto finalmente se servia de um pouco de pão - que pena, tá frio...
- Toma gatinho. - Gui tratou de jogar algumas migalhas de pão pro gato que tratou de comer, muito contente.
- O Gaspar gostou de você...
- Ele parece ser do tipo de gato que gosta de qualquer pessoa que se senta nessa mesa.
- Não é bem assim... o Gaspar não se vende assim tão barato. - Julinho riu. - pelo menos é o que eu espero.
- É um gato bem bonitinho...
- Obrigado. Você acredita que eu o encontrei quase morto?
- Verdade?
- Verdade! Eu tava voltando do trabalho quando o encontrei. Pequenininho!!! Sem pelo, magrinho... parecia mais um ratinho do que um gato... - ele deu uma risada - então, eu não resisti e o levei pra casa. O bichinho nem leite tomava sozinho ainda. Eu tive que dar com uma seringa! Pra falar a verdade, é um milagre que ele esteja vivo e bonito desse jeito.
- Não acho que seja um milagre... é que você cuidou dele com amor... foi tudo.
Julinho deu um sorriso tímido como agradecimento. E então tratou de mudar o assunto:
- Ei! Você ainda não disse o que achou do meu mural... gostou?
Foi só nesse instante que Gui parou pra observar o apartamento de Júlio. Era exatamente do jeito que ele tinha descrito. As paredes eram pintadas com lindas paisagens, cheias de flores, plantas, pássaros, cachoeiras... realmente um trabalho impressionante. Gui se aproximou um pouco mais da pintura para poder observá-la melhor. Ficou ainda mais deslumbrado com o que viu. Ele pôde sentir a dedicação de Júlio em cada flor, em cada folha.
- Como conseguiu paciência pra fazer um painel desse? - ele acabou perguntando alto, sem nem se dar conta disso.
- Ah... foi ao contrário. Pintar me relaxa. Eu esqueço de tudo quando estou entretido com os meus pincéis.... e os problemas se tornam menores pra mim.
- É mesmo? - Gui perguntou, meio distraído, enquanto localizava um beija-flor escondido no meio das flores. - Julinho...
- Sim?
- Isso aqui é... é... tão lindo!
- Você gostou mesmo? - ele perguntou, animado.
- Muito... me parece... familiar... - ele comentou, tocando a pintura de leve, como se quisesse sentir toda a sua energia.
- Gui, só um minutinho, tá bom? Eu tenho que me arrumar pra ir pro trabalho senão o Paulo vai falar o resto do dia....
- Tudo bem. Eu te levo até o seu trabalho no me carro, tá bom?
- Obrigado.
Gui foi deixado sozinho por alguns instantes. Mas ele nem se deu conta disso direito. Estava bem mais preocupado em descobrir o quê, naquele enorme painel colorido, lhe parecia tão familiar. No primeiro instante, não soube definir o que estava lhe perturbando tanto naquele painel, só sabia que era algo muito próximo, quase íntimo. Mas a resposta que procurava não tardou. E assim que se deu conta dela, uma tristeza tão grande lhe dominou que ele teve que encostar a cabeça na parede, numa tentativa meio infantil de diminuir aquela sensação de solidão com aquele consolo mínimo.
- Amanda...
Continua...