Yoko Hiyama
Capítulo 3 - Do Virtual pro Real
Trim! Trim! Trim! Trim!
- Ah?
Trim! Trim! Trim! Trim!
- Não...
Trim! Trim! Trim! Trim! Trim! Trim!
- Eu não tô! - Gui colocou o travesseiro na cabeça.
Trim! Trim! Trim! Trim!
- Eu morri! Mortos não entendem o telefone!
Trim! Trim! Trim! Trim!
- Por Deus! São cinco horas da manhã! - Gui olhou pro relógio ao seu lado, exasperado.
Trim! Trim! Trim! Trim! Trim! Trim! Trim! - o telefone continuava tocando, sem perdão.
- Aaah... seja quem for, vai pagar caro! - ele finalmente se convenceu de que teria mesmo que levantar, nem que fosse pra tirar o fio do telefone da parede. Passou a mão pelos cabelos, e esfregou os olhos, tentando enxergar melhor o caminho até o telefone.
- Hum... alô.
- Gui... é o Maurício!
- Quem é Maurício? - Gui não fazia o mínimo esforço pra esconder o péssimo humor.
- Tá dormindo ainda, é? É o Maneco!! Irmão da Amanda.
- Maneco? - ele arregalou os olhos, agora completamente acordado - O que aconteceu? Por que você tá me ligando essa hora?
- Nem eu não sei direito, cara! A Amanda não voltou pra casa!
- O quê?!
- É isso que você ouviu! Aí ligaram agora a pouco e falaram com o meu pai. E ele saiu correndo de casa. - a voz do garoto foi ficando cada vez mais nervosa - ele disse que a minha irmã tava internada... num hospital... e mais nada. Eu queria ir com ele, mas não me deixou!
- Internada?! Internada?! - Gui deu uma volta sobre si mesmo, desnorteado - Você tem o endereço do hospital?
- Não! Eu não sei de nada! Mas você pode ligar pro celular do papai. Eu não entendo! Por que o meu pai não me deixou ir?! Que merda! Eu não sou mais um bebê!
- Calma, cara! Não adianta nada ficar assim. Eu vou ligar pro Seu Marcos e ver o que está acontecendo direito. Não deve ter sido nada demais, pode ficar tranqüilo.
- Você me liga quando souber de alguma coisa?
- Ligo sim.
- Promete?
- Prometo.
- Valeu, Gui! Fico esperando.
- Valeu.
Gui desligou o telefone e se apoderou da agenda telefônica imediatamente. Por sorte tinha o telefone do pai da Amanda porque ela costumava pegar o celular dele emprestado antes de comprar o seu próprio. Mas teve que discar umas três vezes o número. A ansiedade fazia com que errasse as teclas.
"O que aconteceu com você, Amanda? Droga, por que eu a deixei voltar pra casa dirigindo? Onde eu tava com a cabeça, meu Deus?!" - era tudo que ele conseguia pensar durante os momentos em que esperou que o pai de sua melhor amiga atendesse. Não conseguia controlar o frio no estômago que estava sentindo, o medo do que poderia ouvir o dominava completamente. E logo ele que se considerava um cara tão calmo.
- Alô! - a voz do pai de Amanda se fez ouvir.
- Seu Marcos? Aqui é o Guilherme.
- Ah.... oi, Guilherme... você me desculpe mas eu estou dirigindo...
- Eu sei, seu Marcos. Mas eu preciso saber o que aconteceu com a Amanda.
- Parece que ela bateu com o carro ontem quando tava voltando pra casa.
- E qual é o estado dela?
- Isso eu ainda não sei... mas a mãe dela está lá.
- O senhor se incomoda de me dar o endereço?
- Ela ainda tá no "Pedro"*... a gente vai ver uma transferência hoje mesmo se tudo der certo.
- Ok. Eu tô indo pra lá agora.
- Então a gente se vê daqui a pouco. Tenho que desligar.
Guilherme desligou o telefone e correu para o banheiro, a cabeça cheia de pensamentos confusos, conflitantes entre si. Talvez fosse porque tinha acabado de acordar, mas não conseguia se convencer de que não estava no meio de um pesadelo horrível. Esteve com ela a poucas horas! Não podia ser real que agora estivesse internada num hospital. Nem fazia sentido!
Enfiou a cabeça ruiva na água fria como se ainda tivesse alguma esperança de que fosse realmente acordar na própria cama e, como um autômato, tratou de se ensaboar o mais rápido possível e então saiu do chuveiro aos tropeços para logo depois vestir a primeira roupa que viu pela frente e sair de casa.
Guilherme nem saberia explicar como conseguiu dirigir até o hospital. Talvez fosse porque já sabia de cor e salteado o caminho. Mas o fato é que chegou lá.
E a primeira pessoa que encontrou foi a mãe de Amanda. Uma mulher muito bonita apesar da idade que já começava a pesar. Todos os principais traços de sua melhor amiga poderiam ser encontrados nela. Até mesmo a baixa estatura. Mas a primeira impressão de fragilidade era imediatamente desmentida quando se olhava com um pouco mais de atenção pro seu rosto. A mãe de Amanda era uma mulher muito séria, fria ao extremo e bastante ponderada. Uma característica que Amanda não herdou. Ao contrário da mãe, e do próprio pai, Amanda despendia uma enorme energia, uma vontade de viver incrível, que era justamente a sua característica mais atraente.
Mas com certeza, aquela não era a hora de ficar perdido naquele tipo de pensamento. Ele precisava sim era ver o que tinha acontecido com ela. Saber se estava bem e quando poderia visitá-la. Com largas passadas, Guilherme alcançou a mãe de sua amiga e a cumprimentou.
- Bom dia, dona Othília.
- Ah? Bom dia, meu filho. - ela apertou a mão de Gui com um sorriso desanimado. - Obrigada por ter vindo. Sabe de alguma coisa do Marcos?
- Eu falei com ele pelo celular. Já está a caminho.
- Ele já deveria ter chegado... - ela comentou - quero ver a transferência da Amanda...
- E como ela está?
Ela repetiu o gesto que Amanda costumava fazer quando tinha alguma notícia desagradável pra dar. Era exatamente a mesma expressão de desamparo, que sua amiga fazia e que ele conhecia tão bem, mesmo com todo o controle que aquela senhora se forçava a ter. Bastou se dar conta disso para que Gui já soubesse o verdadeiro teor da resposta.
- Está viva. - ela estendeu uma plaqueta para Guilherme, onde ele pôde ler o resultado dos exames médicos.
Escoriações, fraturas.... perfurações de órgãos, traumatismo craniano, perda absurda de sangue, três cirurgias em oito horas... coma...
Era um pesadelo. Só podia ser um pesadelo! Estava acostumado a presenciar esse tipo de caso diariamente e naquele mesmo hospital, mas... agora a dona daquele ficha era justamente a sua melhor amiga. Era Amanda. Tudo naquela ficha dizia que era um milagre que estivesse viva. Por isso a frase da mãe.
- A gente pode vê-la?
- Vamos poder ver sim... mas só daqui a alguns minutos. Vamos ter que esperar o Marcos chegar também.
- Ele não deve demorar muito. Quando falei com ele, já estava a caminho. Já deveria estar aqui, não é mesmo, dona Othília?
- Ele deve ter aproveitado pra tratar da transferência pra outra clínica logo de uma vez. - ele respondeu, meio desatenta.
- É deve ter sido isso mesmo. Vamos esperar. - Guilherme concordou.
- Eu cheguei a ver o carro... - a doutora Othília comentou quando recebeu de volta a ficha da própria filha das mãos ainda trêmulas de Guilherme- ele está completamente destruído... destroçado. Nada sobrou. Eu também fiquei sabendo que o socorro demorou a chegar... demoraram pra nos avisar... eu mesma, ou o pai dela, poderíamos ter operado a nossa filha. E as coisas poderiam ter sido diferentes, eu não sei...
- A senhora sabe que isso não é muito aconselhável. - Gui tentou consolá-la de alguma forma.
- Eu sei. Eu sei. Me desculpe. Talvez eu já esteja falando algumas besteiras. - ela olhou pro teto e deu um suspiro doloroso, mas não chorou. E por isso mesmo, Gui não se sentiu no direito de chorar também. Mesmo que sua verdadeira vontade fosse a de gritar bem alto, de xingar Deus por ter permitido que uma coisa dessas acontecesse com ela. Por ter permitido que uma coisa dessas tivesse acontecido com ele. E mesmo tendo essa imensa revolta dentro de si, não falou uma palavra. Apenas se encaminhou para a primeira cadeira que encontrou e passou as mãos pelo rosto repetidas vezes, numa tentativa insana de recuperar algum controle sobre seus próprios sentimentos.
Mas não conseguiu. Tudo só piorava. Não podia se impedir de lembrar dela. De se torturar pensando em todos os bons momentos que tiveram juntos. No tempo que os dois chegaram a namorar, no primeiro beijo, na primeira vez dos dois, no sorriso dela... na amizade forte que brotou depois disso quando tudo parecia apontar para o ódio mútuo.... Nele a deixando entrar naquele carro... deixando que tudo isso acontecesse sem ter feito absolutamente nada pra impedir. Dele acabando com a vida dela.
Era como se sentia, enquanto ficava sentado ali. Como se tivesse falhado como amigo e como ser humano. Como se ele tivesse, ao permitir que a amiga voltasse pra casa dirigindo na véspera, assinado a sentença de morte de Amanda.
Não dava mais.
Ele tinha que chorar.
****
- Guilherme? - uma batida forte no ombro fez com que levantasse a cabeça, até então apoiada e convenientemente escondida entre as mãos. Ele levantou a cabeça, por um instante meio perdido da realidade em sua volta e olhou para o pai de Amanda, o doutor Marcos, que estava de pé ao seu lado, ainda com a mão apoiada em eu ombro. - Tudo bem?
- Tudo. - ele sabia que essa pergunta era do ponto de vista clínico. - E a Amanda? A gente já pode vê-la?
- Eu acabei de tratar da transferência. Eu a examinei e acho que ela vai agüentar bem a viagem.
- Ela continua em coma?
- Continua.
- E ... ela vai sair dele? - Guilherme se sentiu um idiota perguntando isso. Mas não teve como se conter.
- Guilherme... vamos lá na cantina... acho que todos nós estamos precisando de um café agora. A gente só vai poder transferir a Amanda daqui a duas horas no mínimo.
- Tudo bem. - ele respirou fundo, como se tivesse que juntar todas as suas forças para se levantar daquele lugar e acompanhou os pais da amiga até a cantina perto dali. Nossa, quantas vezes ele e Amanda estiveram naquele mesmo lugar, falando mal da comida, espantando o sono com um bom copo de café, tentando ler alguma coisa da matéria do dia seguinte... momentos tão simples que não voltariam a se repetir na sua vida. Não tão cedo.
Mas ele tentou sufocar esses pensamentos e prestar mais atenção na conversa com os pais de Amanda. Foi quando teve que contar tudo que tinha acontecido na véspera. A parte dele ter deixado que ela partisse mesmo estando bastante alcoolizada foi, claro, a mais difícil de todas. Mas nem por isso, ele tentou usar desculpas. Não teve ânimo algum para subterfúgios. Era culpa dele e pronto. Tinha mais é que assumir.
Os pais de Amanda ouviram todas as explicações em completo silêncio, ambos olhando para ele, muito atentos, como se analisando até que ponto suas palavras eram verdadeiras. Aqueles olhares o incomodavam mas nem por isso ele se deixou interromper. A única coisa que omitiu, foi o amor virtual de Amanda. Isso pertencia a ela somente. Nunca se daria o direito de contar a respeito, quaisquer as condições.
Ao final do relato, alguns instantes esmagadores de silêncio se seguiram. Guilherme logo percebeu pela expressão da mãe de Amanda, que ela não falaria nada. Por isso esperou a resposta do pai, que não demorou a vir.
- Guilherme, pare de se culpar tanto. Eu sei que a minha filha era uma pessoa adulta e, por isso mesmo, é a única responsável por suas atitudes. Culpá-lo por um erro cometido pela própria Amanda me parece extremamente injusto.
Ele teve que segurar o choro com muita força de vontade. Mas mesmo assim, conseguiu agradecer imensamente por aquelas palavras. Com certeza, elas tinham sido um enorme consolo pra ele.
- Muito obrigado. Agradeço muito.
- Guilherme... você quer açúcar no seu café? - A doutora Othília sorriu para ele - quantas colheres?
- Três, por favor. Obrigado, dona Othília.
- De nada, meu rapaz. Veja se come alguma coisa também. Ninguém aqui teve muito tempo pra comer hoje.
- É verdade... - ele concordou, desanimado.
Guilherme se forçou a bebericar o café durante alguns instantes antes de perguntar.
- O Maneco pediu pra ligar pra ele. Contar o que estava acontecendo...
Marcos e Othília trocaram olhares por alguns instantes antes dele comentar.
- Eu entendo. Ele deve estar bem preocupado. Eu saí de casa sem dar muitas explicações.
- Não seria bom que ele viesse pra cá? - Guilherme arriscou o palpite.
- Melhor não. A Amanda só pode ser vista por médicos, por enquanto. A presença do Maneco aqui só iria fazer mal a ele próprio. - Othília opinou.
- Bom... de qualquer forma, eu prometi a ele que ia ligar dando notícias da Amanda.
- Faça isso. Ele vai ter que saber, não é mesmo? - Marcos concordou, enquanto tomava o seu café, sem açúcar. - quer o meu celular emprestado?
- Não é necessário, seu Marcos. Eu trouxe o meu. Muito obrigado.- Guilherme levantou da mesa, deixando uma nota de real pra pagar o café e tratou de achar um lugar mais tranqüilo, daonde poderia falar com Maneco com toda calma possível.
O telefone não precisou dar mais de um toque. No mesmo segundo, Maneco já havia atendido.
- Gui?!
- Sou eu mesmo.
- Você demorou pra cacete pra ligar! - a voz do garoto estava mais nervosa do que nunca.
- Calma, cara.
- Calma nada! Não tem nada pior do que ter que ficar sentado esperando por notícias. Você sabia disso?
- Foi mal. Eu não tive como te ligar antes.
- Meus pais estão aí? Você falou com eles? O que aconteceu com a Amanda? Ela tá bem, não tá? Não tá?
- Maneco, você tá nervoso demais. Assim não vou poder conversar com você...
- Não! Não! Eu tô bem, eu tô bem. Fala. Pode falar.
- Maneco, é o seguinte. Sua irmã sofreu um acidente meio sério.... - Gui tentou escolher as melhores palavras que pôde para começar aquela difícil conversa.
- O que isso quer dizer?!
- Quer dizer que a Amanda se machucou muito no acidente e...
- Ela morreu? Ela morreu? Foi isso?
- Não! Ela tá viva!
- Verdade mesmo, Gui?! Você não tá mesmo mentindo, né?
- Claro que não, pô! Tira essa idéia da cabeça. Tua irmã tá viva, mas...
- Mas...
- Bem, todos os ferimentos que ela sofreu... bem...
- Fala de uma vez!
- A sua irmã entrou em coma, Maurício... - Guilherme decidiu falar de uma vez.
- O... o ... quê?
- Mas fica calmo. Ela está pra ser transferida prum hospital muito bom, vai ser tratada pelos melhores médicos do estado... ela vai se recuperar... temos que ter esperança.
- Você tá de sacanagem comigo, não tá?
- O quê? Maneco... como....
- Você tá me sacaneando, não é mesmo? Porra, Gui! Isso não é hora pra uma brincadeira dessas! Fala logo a verdade! É lógico que a minha irmã não tá em coma!
- Maneco, dá pra você me ouvir? Eu nunca brincaria com uma coisa dessas!
- Mentira! Mentira! A minha irmã está bem, eu sei disso! Ela não tá em coma merda nenhuma. Pára de mentir pra mim, sua bicha escrota! - o garoto gritava, completamente sem controle.
- Maneco, pára de ser criança e vê se me ouve, tá? É verdade! É a mais pura verdade! Eu sinto muito, essa é a última coisa que eu gostaria de te dizer, eu juro que preferiria mil vezes te dizer que eu tava mesmo tirando uma da sua cara, mas eu isso não é verdade! Você tá entendendo?! A realidade é essa e o que você tem que fazer agora é tentar se conformar com isso e ajudar os seus pais. Você entendeu?
- ...
- Você entendeu?
- Eu entendi... eu entendi...
- Agüenta firme aí, ok?
- Gui? - a voz do irmão de Amanda passou da revolta para o choro.
- Fala.
- Eu quero ver a minha irmã.
- Eu sei. E você vai ver. Assim que o estado dela ficar um pouco mais estável, ok?
- Por que eu não posso ver hoje?
- Porque ela ainda está no CTI. Nem eu ainda pude me aproximar... você precisa de um pouco mais de paciência. Assim que puder, você vai poder visitá-la.
- Você promete, Gui?
- É claro que eu prometo. Agora eu tenho que ir. Qualquer coisa pode me ligar, o celular tá ligado.
- Tá ok. Valeu, Gui. - a voz de Maneco agora estava definitivamente chorosa.
- Até mais. - ele se despediu e desligou o celular sem conter um suspiro de desalento.
Adoraria que ele próprio pudesse seguir alguma palavra do que tinha acabado de dizer ao irmão de Amanda...
Pela segunda vez naquela manhã, a mão pesada do doutor Marcos tirou Gui dos seus atormentados pensamentos.
- Vamos. Ganhamos permissão pra acompanhar a transferência de perto.
- Está certo, seu Marcos. Muito obrigado.
- Falou com o Maurício?
- Falei sim.
- Ele vai ficar bem. Agora vamos lá. A Othília já deve estar nos esperando.
- Vamos.
****
E foi isso.
Lá estava ela, cheia de fios, cheia de curativos, de cortes, de gesso... quase irreconhecível. A verdadeira Amanda quase desaparecia em meio a tudo aquilo.
Quando Gui poderia se imaginar vivendo uma cena dessas? E quando ele poderia cogitar que um dia se sentiria o maior culpado pelo que tinha acontecido com sua amiga?
Guilherme suspirou. O momento em que ele simplesmente acompanhou o carro dela partindo, sem nada fazer pra impedir não deixava de se repetir em sua cabeça nem por um segundo. Não tinha um momento de paz de espírito! Por mais que tentasse, não conseguia se livrar da idéia de que ele poderia ter feito alguma coisa pra impedir toda aquela tragédia... mas não fez nada..
E agora, lá estava ela. Numa maca, pronta pra ser transferida de hospital... e em coma.
Não se lembrava de algum momento mais doloroso do que esse em sua vida.
Simplesmente não podia se perdoar. Nunca seria capaz disso.
- Guilherme... ela vai ser levada pra clínica agora.- a doutora Othília falou - o Marcos vai com ela na ambulância...
- Sim... - ele respondeu com a voz apagada, sem conseguir tirar os olhos da ambulância.
- Por agora, é melhor irmos pra casa. Descansar um pouco... e pegar o horário de visitas amanhã de manhã.
- Sim, tem razão.... até amanhã, dona Othília.
- Até amanhã, filho. - ela respondeu, com um sorriso triste.
Guilherme andou todo trajeto até seu carro de cabeça baixa. Nem pensou na faculdade. Foi direto pra casa e lá, se jogou na cama, sem nem mesmo tirar as roupas e botou o som tocando no volume máximo.
- O que eu faço agora?
Foi nesse preciso instante que se lembrou do encontro marcado entre aquele garoto e Amanda. Faltavam poucas horas pra hora marcada entre os dois e ela não poderia aparecer. Certamente, ele a esperaria durante horas e horas por ela... e quando se desse conta de que não chegaria, o que será que ia pensar?
Se era verdade que Amanda e aquele desconhecido eram iguais, com certeza, ficaria extremamente magoado. E se era verdadeiro o sentimento que Amanda lhe descrevera na véspera, antes de toda a tragédia acontecer, sem dúvidas ele sofreria demais... se sentiria enganado, traído em seus sentimentos. Pensaria que Amanda tinha brincado com ele o tempo todo... e que tudo que tinha dito a ele era a mais pura mentira...
Guilherme se pegou extremamente angustiado com aquele pensamento. Lhe doeu imaginar que Amanda perderia a oportunidade de se encontrar com a pessoa que amava - o fato de ser um amor virtual não lhe importava mais nem um pouco - não teria a oportunidade de se explicar, de falar da sinceridade do seu amor, de pedir o perdão dele... ela não teria a chance de conhecer a pessoa que amava. Nunca poderiam se olhar, se tocar... nunca teriam a oportunidade de tornar o virtual em real, o sonho em realidade...
- Ah, Amanda... me desculpe... me desculpe... - ele soluçou - eu não posso fazer nada por você... me desculpe... se eu pudesse, ficava no seu lugar... se eu pudesse, juro que cedia o meu corpo pra você se encontrar com ele... se eu pudesse, eu seria você... eu seria você...
Então a idéia veio e percorreu o seu corpo inteiro, como um calafrio. Ele se sentiu tremer... a cabeça chegou a girar...
Guilherme não pensou duas vezes. Pulou da cama na mesma hora e correu pro banheiro, disposto a tomar o segundo banho do dia, bem mais caprichado e longo de que o primeiro. Quando sentiu o jato de água sobre o seu corpo, ele riu. Riu de uma forma neurótica...completamente diferente da forma que costumava rir normalmente, completamente diferente dele próprio. Mas ele nunca sentiu tanto prazer em rir na vida inteira. Levantou os braços, jogou a cabeça pra trás e riu e riu e riu. Riu tanto que acabou engolindo água. Mas mesmo engasgado, ele não conseguia parar de rir.
Sim, era isso! Era perfeito! Ele seria Amanda! Conheceria aquele garoto, levaria ele pra cama, faria ele morrer de tanto prazer... ele teria tudo, absolutamente tudo que Amanda teria dado a ele se tivesse oportunidade. Seria essa a sua forma de se desculpar com ela... Gui faria dele o homem mais feliz do mundo, sem nenhuma dúvida.
- Sem nenhuma dúvida... sem nenhuma dúvida...
Se vestiu com a melhor roupa, colocou o seu melhor perfume e partiu para o local de encontro como uma bala. Como não sabia como ele era, seria melhor que chegasse bem antes da hora marcada, assim, deixaria ao encargo dele o reconhecimento. Amanda tinha comentado que os dois se encontrariam num bar, bem na frente da faculdade. Era um local que costumava ficar cheio nos finais de semana... mas numa terça-feira isso não acontecia. O bar se tornava aconchegante, acolhedor, até discreto. Sem dúvidas, um belo lugar para um primeiro encontro. Era o bom gosto dos dois atuando.
Guilherme sorriu pensando em como teria que se comportar perante Júlio... nunca poderia esquecer de pensar como a Amanda pensaria. Mas, quem melhor do que ele poderia cumprir essa missão? Ele era simplesmente a pessoa que mais conhecia Amanda em todo mundo.
Na verdade, ele estava se sentindo cada vez mais como ela. A cada passo que dava entre o carro estacionado na garagem da faculdade e o local de encontro, ele tinha mais certeza de que não era mais ele quem ia pra aquele encontro e sim ela.
- Eu sou ela. Eu sou ela.... eu sou ela... - ele repetia baixando pra si mesmo, sem nem conseguir conter o sorriso de felicidade - eu sou Amanda! É quem eu sou...
Entrou no bar sem nem olhar em volta. Sabia que se ele fosse mesmo igual à Amanda, jamais, em tempo algum chegaria antes do horário marcado. Por isso, nem se preocupou. Encontrou uma mesa mais afastada e lá ficou esperando enquanto bebericava com gosto uma bebida que simplesmente detestava, mas que Amanda jamais dispensaria.
O horário marcado chegou e passou... vinte minutos se foram rapidamente, mas ele nem pensou em se mover daquele lugar. Esperou tranqüilo... nunca teve tanta certeza de alguma coisa na vida. Ele o esperaria o tempo que fosse preciso porque sabia que viria.
- Boa noite... - uma voz tímida se fez ouvir de repente, juntamente à visão de um balançar de mão bem na sua frente que o arrancou do transe em que tinha se enfiado. Guilherme olhou na direção daquela voz e o que viu fez com que se esquecesse de respirar por alguns segundos.
Lá estava ele. Não havia dúvidas. Um jovem de estatura média, quase baixa pros padrões masculinos, cabelos longos e dourados, olhos grandes, brilhantes, face delicada, quase feminina...
E um sorriso... inesquecível!
O conjunto era quase divino. Parecia mais um anjo descido do céu.
Como foi que Amanda tinha encontrado alguém como ele num chat?!
- Er.... desculpe... eu acho que me atrasei... você esperou muito, não esperou? - ele perguntou, parecendo um tanto constrangido.
- Não, eu também acabei de chegar. - Gui levantou da cadeira e deu um sorriso, estendendo a mão pra ele
Júlio sorriu aliviado ao ouvir aquelas palavras e tratou de apertar a mão estendida com entusiasmo.
- É um prazer... estar aqui com você... agora.
- O prazer é todo meu, Julinho... todo
meu...
Continua....