Capítulo 2 - O Dia Seguinte
- Amandita, detesto te arrancar do seu maravilhoso mundo dos sonhos, mas se você continuar assim, vai acabar cortando o nosso amigo no lugar errado. - Gui comentou, divertido.
Amanda piscou duas vezes e então olhou com alguma atenção ao cadáver à sua frente.
- Desculpa, Gui. - ela falou e começou a abrir o corpo.
- O que houve com você, Amandita? Teve um fim de semana ruim?
- Não... não foi nada. Eu só não dormi muito essa noite.
- Pelas suas olheiras, eu diria que não dormiu nada.
- É, acho que tem razão.
- Não comeu nada também.
- Certo de novo.
- E posso saber o motivo?
- Nada de importante. Puxa a pele.
- Nada de importante? Você não tem vergonha de me mentir tão descaradamente?
- Não! Quero dizer, eu não estou mentindo pra você.
- Claro que não está...
- Não estou mesmo.
- Claro... não está mais aqui quem falou.
- Vou tirar o estômago.
- Vai em frente.
- Hum... melhor você fazer. Eu é que tô sem estômago pra isso hoje.
- Tudo bem então. Deixa que eu faço.
- Certo.
- Mas no intervalo a gente vai conversar!
- ...
******
- Toma. - Gui jogou uma lata de refrigerante pra amiga e sentou-se ao seu lado.
- Obrigada.
- E agora? Vai me falar o que aconteceu com você ou não?
- Eu já disse que...
- Amanda... você acha que eu sou idiota? É claro que você tá mentindo!
Amanda abaixou a cabeça.
- Desculpa... é que eu não quero mesmo falar sobre isso... na verdade, mesmo que eu tentasse eu não conseguiria muita coisa...
Gui franziu a testa.
- Amandita... quando você precisar de mim, sei lá, quando precisar falar sobre o que está acontecendo.... bem, me liga tá? Ao contrário do seu, o meu telefone tá sempre desocupado.
- Por que está dizendo isso?
- Bom, eu tentei te ligar ontem... - ele deu uma risada - a tarde toda.
- Eu tava na internet.
- Eu sabia. Olha o vício, menina.
- Ah, eu tenho sempre que estar estudando pra alguma prova. Tenho que aproveitar os meus raros dias livres de alguma forma, não é mesmo?
- Tem razão. Ainda mais ontem que não parou de chover um minuto.
- É... - ela sorriu - pena que você não tem computador...
- É verdade. Meu pai acha que isso tudo é besteira.
- Ele acha besteira tudo que é um pouco mais caro. - ela sorriu.
- Pão duro como sempre.... - Gui deu de ombros - já estou até acostumado.
- Bom, Gui... eu acho que eu vou para casa.
- Não vai assistir ao resto das aulas? Temos mais um tempo de Anatomia agora.
- Não... chega de formol por hoje. Além do mais, eu não estou mesmo com cabeça pra isso...
- Tudo bem. Vai lá que eu dou uma desculpa pro professor.
- Valeu, Gui.
- Amandita?
- Diga!
- Lembra o que eu falei, sobre o telefone.
- Tá, pode deixar. Até, Gui.
- Até.
******
- Cheguei!
- Já? - Maneco olhou pro relógio.
- Saí mais cedo hoje.
- Saiu? Por que?
- Dor de cabeça... - ela jogou a bolsa no sofá da sala e ligou o computador.
- Não vai comer nada?
- Não. Sem fome.
- Eu posso fazer um sanduíche....
- Já falei que não quero comer. Droga de computador... por que demora tanto pra carregar?
- Amanda, você tá bem?
- Estou.
Maneco deu de ombros.
- Se é o que diz. Ok. Tenho prova amanhã. Vou estudar no quarto.
- Maneco! - ela o chamou no momento em que se preparava pra sair da sala.
- Manda.
- Por acaso você já checou seus e-mails hoje?
- Ainda não. Acabei de chegar em casa.
- Tá.
- Por que você quer saber?
- Queria saber se aquela sua namoradinha virtual te escreveu.
Maneco inclinou a cabeça, por um instante e então falou:
- AAAHH!! A garota que eu encontrei no chat!!
Amanda olhou pro irmão, incrédula:
- Você tá tentando me dizer que já tinha se esquecido completamente dela?!
- É... acho que sim! - ele coçou a cabeça e começou a rir. - Foi mal...
- Mas ontem você pareceu sinceramente chateado com isso. Ou era mentira?
- Ih, mana! Qual é a tua? Você mesma disse que romance de internet é furada, não lembra não?
- Bem, não foi bem assim.... eu...
- E você tava coberta de razão. Afinal, só um idiota poderia pensar que se pode encontrar a nossa alma gêmea pela internet.
Maneco deu uma risada ainda mais gostosa, como se tivesse dito a coisa mais absurda do mundo.
- Maneco, vai logo estudar no seu quarto! Agora!
- Ih, garota! Deixa de ser grossa! Você não é a minha mãe não, sabia?
- Não sou mas serei eu mesma que vou me encarregar de você caso repita o seu último desempenho no próximo boletim.
- Eu daria tudo pra ser filho único! - ele resmungou, irritado antes de ir pro quarto.
Amanda passou a mão pelos cabelos e respirou fundo uma vez antes de se conectar.
- Só em horário caro que a internet funciona direito... - ela reclamou ao ver que não foi dificuldade nenhuma ver a página se abrindo, pronta para que ela inserisse a senha.
Mas foi aí que uma dúvida terrível lhe invadiu a alma.
" E se não tiver um e-mail? O que eu faço?"
- Ai. - ela colocou a mão na cabeça. - eu não tenho coragem! Não tenho coragem de abrir... eu não acredito nisso.... Eu não acredito nisso!!!
Amanda chutou a cadeira com tanta força que ela capotou pelo chão até bater na parede, do outro lado da sala, o que fez um violento estrondo. Quase que imediatamente, a voz do irmão se fez ouvir:
- O que você quebrou dessa vez?!
- Não é da sua conta!
- Aviso que se for coisa minha você vai pagar!
- Não é nada seu! Me deixa em paz uma vez na sua vida! - ela correu pro banheiro e bateu a porta.
- ... Amanda?
- ...
- Amanda, você tá legal?
- ...
- Amanda, você tá chorando? O que aconteceu? Abre a porta! Amanda!
- ...
- Se foi o que eu disse sobre querer ser filho único... pô, foi mentira! Você me conhece... eu sou idiota assim mesmo... falo as coisas da boca pra fora...
- ...
- É verdade! Eu não queria ser filho único, não! Não chora! Eu... eu... er... você quer que eu faça miojo com requeijão pra você?
- ...
- Eu faço... numa boa! Eu compro mais requeijão na padaria!
- ...
- Amanda!
Ele ia bater de novo mas ouviu o barulho da fechadura sendo destrancada e, segundos depois, sua irmã já o abraçava com força.
- Eu também amo você.
- Eu... eu... o que deu em você?
- Nada... só quero que você saiba disso. Quero que você saiba... que sempre terá a mim...
- Por...
Amanda o largou o irmão e voltou pro computador.
- Agora vai estudar, moleque!
Maneco coçou a cabeça, confuso. Mas, no instante seguinte sorriu largo:
- Tá, sua chata!
Ela sorriu de volta pro irmão e o acompanhou com o olhar até que fechasse a porta atrás de si e só então resgatou o que tinha sobrado da cadeira e voltou a se sentar diante do computador. Desta vez, com coragem suficiente para encarar a possibilidade de encontrar a caixa de mensagens vazia.
Mas não estava.
Amanda nem acreditou que seu coração fosse capaz de bater tão forte só com a visão do nome dele.
Júlio César Assunto: Minha foto
Com as mãos tremendo do jeito que estavam, foi especialmente difícil abrir o e-mail. Precisou de força de vontade para conseguir. E de mais força de vontade ainda pra esperar o seu computador abrir a página, para só então poder finalmente ler o que estava escrito.
****
Oi, Gui (posso te chamar assim, não é mesmo? eu já me sinto tão íntimo seu...) como é que você tá?
Não sei, acho que você vai achar o que eu vou dizer meio doido, na verdade, eu também acho isso, mas... você acredita que eu não consegui dormir essa noite? Eu fiquei o tempo todo pensando em você, na nossa conversa...
Aí eu me peguei arrependido por ter me desconectado daquele chat ontem, por não ter ficado mais conversando com você.
E agora você vai rir... eu tive muita vontade de voltar a ligar o meu computador... de voltar praquele chat... e eu acho que só não fiz isso porque pensei que era impossível te encontrar lá.
Caramba... eu ainda tinha tanta coisa pra te contar... tanta coisa que queria compartilhar com você. Não sei... eu me sinto um grande idiota, pode ter certeza... mas... esquece... deixa pra lá.
Este e-mail eu estou te mandando pra retribuir a foto que me mandou. Não sei porque não fiz isso ontem mesmo... talvez por insegurança mesmo, eu sei lá... não tô dizendo coisa com coisa mesmo...
De qualquer forma, taí a minha foto.
Um abração.
Júlio César
Anexo: julinho.jpg
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Amanda chorava e ria ao mesmo tempo. Teve de balançar a cabeça umas quatro vezes, como se tivesse se recuperando de uma pancada forte na cabeça porque aquele e-mail tinha sido muito mais do que ela poderia esperar. Era a confirmação clara de que, o que quer que estivesse acontecendo com ela, também acontecia com ele. De que era mútuo. E então, teve que enfrentar mais alguns tremores para clicar no anexo. Obstáculo superado, a foto foi lentamente se abrindo até revelar um rosto delicado, de uma beleza quase inocente. Lá estava um jovem louro de cabelos compridos, com um olhar risonho de um azul tão bonito que ela sentiu uma vertigem. Como um garoto tão bonito como esse poderia se sentir só? Como alguém como ele poderia entrar na sua vida? E da forma que tinha entrado.
Claro, uma voz desagradável lhe lembrou, de uma outra forma, uma pessoa como você sequer poderia se aproximar de uma pessoa como ele.
Não que ela fosse feia. Não, isso não era. Mas não era alta, era magra demais, sem muitos atrativos físicos. Não era feia mas também não tinha uma beleza que chegasse a chamar atenção, nem uma personalidade cativante demais, ao ponto de conquistar mais do que a amizade masculina. Mas, sem dúvidas, seu maior problema era a sua própria personalidade. Desde criança, quando percebeu que sua maior fraqueza era depender de outras pessoas, tratou de construir um muro em sua volta. Um muro que só três pessoas no mundo tiveram a capacidade de derrubar. Seu irmão, Gui e agora ele...
Ele que se tornava para ela, cada vez mais, uma certeza. Mas uma certeza ilhada por um mar de dúvidas. Ele era muito mais bonito do que ela. Ele era quase tão bonito quanto o Gui. Pior do que isso: ele era gay! E o pior de tudo mesmo: ela tinha mentido pra ele. tinha dito que era outra pessoa, tinha dito que era um garoto.
- Meu Deus!! Por que as coisas tiveram que ser assim? - ela se perguntou, sem tirar os olhos daquela foto - O que eu posso fazer? O que vai ser de mim?
Ficou uns bons trinta segundos nesse estado antes de finalmente salvar aquela fotografia em algum lugar seguro e, sem nem pensar direito no que estava fazendo, digitar o seu endereço de chat da tarde interior.
- Amanda, bote na sua cabeça de uma vez por todas que você não está sentindo nada por esse garoto a mais do que uma atração sem propósito. Você tem mesmo uma queda por romances complicados, veja só o seu histórico... e vamos esquecer também essa história de que você está ligada a ele. Você é você e ele é ele, ora bolas! - ela deu uma risada - se ele fosse mesmo sua alma gêmea, entraria nesse chat idiota no mesmo exato instante, no mesmo segundo que você. Mas como essa babaquice não existe e tudo é delírio da sua cabeça de maluca, nada vai acontecer. Quer apostar?
****
Rose entrou no chat.
Thorn entrou no chat.
****
- Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! - ela levantou da cadeira de tanto susto mas desabou no chão dois segundos depois. Estava tão nervosa que começou a chorar - isso não tá acontecendo! Isso é um pesadelo! Só pode ser um pesadelo!
****
Thorn: Gui?
Thorn: É vc?
Thorn: Será possível que entramos no mesmo segundo?
Thorn: Gui?!
****
Amanda secou as lágrimas rapidamente. Imagina só o que aconteceria se ele desistisse de ficar chamando e saísse do chat?
Não, isso não! Isso nunca! Ela precisava falar com ele. Só ele teria a cura, mesmo que provisória, pra todos os seus tormentos.
Levantou-se do chão e enquanto puxava a cadeira com a mão esquerda, tratava de digitar desajeitadamente com a direita.
****
Rose: César?!
Thorn: Pode me chamar de Julinho. É como todos me chamam.
Rose: Julinho... eu... como você tá?
Thorn: Recebeu meu e-mail?
Thorn: Eu tô legal agora. Agora tá tudo bem!
Rose: Recebi.
Rose: O que quer dizer com isso?
Thorn: Acho que você sabe o que eu quero dizer com isso.
Rose: É...
Rose: Eu acho que sei sim.
Rose: Eu sei.
Rose: Julinho... eu... tem uma coisa muito importante que eu preciso de contar.
Thorn: Eu também preciso te contar algo.
Thorn: Muito importante.
Rose: É?
Thorn: Acho que sim.
Rose: Então fala você primeiro.
Thorn: Não, você pode falar.
Rose: Eu faço questão. Fala.
Thorn: Bem...
Thorn: Nossa... isso é tão difícil...
Thorn:
Thorn: Mas vamos lá.
Thorn: Eu queria te dizer que não consegui parar de pensar em você e em tudo que a gente conversou ontem a noite.
Rose: É... eu também não...
Thorn: E que isso pode ser meio maluco... meio sem sentido... mas...
Thorn: Bom... por que a gente não se encontra? E não se conhece melhor?
Rose: Se encontrar?!
Thorn: É.
Thorn: Vc não quer?
Thorn: Não tá interessado?
Thorn: Se for isso, eu vou entender. Não esquenta.
Rose: Não!
Rose: Não é nada disso! Muito pelo contrário!
Thorn: Que bom! :)
Rose: Mas...
Thorn: Mas...?
Rose: Você tem certeza disso? Digo, você nem me conhece direito, sabe? Pode ser que eu não seja nada do que eu te falei... não vai se decepcionar depois?
Rose: O encanto pode quebrar...
Rose: Se a gente se encontrar pessoalmente... vc sabe?
Thorn: Eu sei disso... eu sei que o encanto pode se quebrar... se tentarmos transformar o virtual em realidade, mas...
Thorn: Eu estou disposto a enfrentar esse risco.
Thorn: Por que a minha vontade de conhecer, de estar com você...
Thorn: É ainda maior do que o medo de ter uma decepção.
Thorn: E vc? O que pensa disso tudo?
Thorn: Se quiser.... não sei... podemos adiar...
Rose: Eu... na verdade...
Rose: Não tenho palavras...
Thorn: Gui!
Thorn: O que você me falou... sobre não te conhecer direito...
Thorn: Não é verdade...
Thorn: Não há como não te conhecer direito, Gui.
Thorn: Você entende o que eu quero dizer?
Rose: Sim, eu entendo.
Rose: É claro que eu entendo.
Thorn: E então?
Thorn: Esse encontro
sai ou não?
*****
Amanda olhou pro teto, tentando colocar os pensamentos em ordem. Era lógico que o encontro era impossível. Afinal, ele veria que ela era uma garota e perceberia que ela tinha mentido pra ele... e pensaria que ela estava brincando com os sentimentos dele. Nunca acreditaria que ela também tinha caído, vítima da sua própria brincadeira e nem na sinceridade da culpa que estava sentindo naquele momento.
Mas se eles se encontrassem pessoalmente, pelo menos ela poderia ter a chance de falar com ele. De tentar fazer com que ele pelo menos ouvisse. Ela poderia lhe puxar pelo braço... insistir... argumentar... mesmo que fosse mais difícil falar olhando nos olhos dele, com certeza seria a coisa mais correta a se fazer.
Pelo menos uma coisa correta em meio a tantos
erros.
****
Rose: É só marcar um horário e um local. Eu vou estar lá.
Thorn: Ok.
Thorn: Eu vou estar te esperando amanhã, às 20:00. Naquele bar que tem na frente da sua Universidade. Sabe qual é?
Rose: Sei.
Thorn: Lá, no meio da semana é bem tranqüilo, você sabe... a gente vai poder conversar com calma. Ok?
Rose: Certo. Vou estar lá.
Thorn: Quer que eu te fale a roupa que eu vou usar?
Rose: Não é preciso. Ao menos que você esteja muito diferente da foto que me mandou.
Thorn: Não... essa é a minha foto mais recente.
Rose: Então pode confiar que a gente vai se encontrar, ok?
Thorn: Ok. Bom... agora eu tenho que ir... sabe como é... o horário... meu salário não consegue pagar. :)
Rose: Eu entendo. Tenho o mesmo problema.
Thorn: Bom... se a gente não voltar a se encontrar no chat... até lá...
Rose: Até.
Thorn: Bye!
Thorn saiu do chat
****
- No que eu fui me meter?
Amanda nem se preocupou em desligar o computador direito. Meteu o dedo no botão sem dó. O Scan Disc que se virasse depois. Se não fosse pela existência daquela máquina idiota, com certeza não estaria passando por toda essa confusão.
Levantou-se da cadeira, que gemeu, provavelmente avariada pelo chute, e foi até o quarto, desanimada.
A certeza de que aquele encontro acabaria de vez com todas as suas chances com ele lhe deixava tão triste, tão angustiada que doía. Queria poder resolver tudo de uma maneira diferente, queria que tivesse uma chance, alguma coisa que pudesse fazer para que tudo desse certo no final. Mas isso não passava de um sonho. A realidade era insolúvel. O mínimo que poderia fazer era enfrentá-la de cabeça erguida.
Jogou-se na cama e soltou um suspiro. De nada adiantaria ficar pensando em tudo isso. tinha que se concentrar em outras coisas, tirar isso da cabeça, se acostumar com a idéia de que, em breve, ele não faria mais parte da sua vida.
Mas...tudo poderia ser de outra forma... seria tão bom se...
Se... fosse possível...
Uma trovoada fez com que voltasse pra realidade de uma vez só, arrancando-a violentamente do seu mundo de sonhos. Foi nesse momento que ela passou a mão no rosto e sentiu que estava úmido.
Nem tinha percebido que tinha voltado a chorar.
Lá fora, a chuva tornou a desabar, exatamente como na véspera.
Amanda levantou-se da cama. Pegou a chave do carro e saiu de casa sem sequer despedir do irmão. Desceu até a garagem e tratou de abrir o portão pra sair. Não importava a chuva. Ela precisava sair, respirar um pouco. Não podia se entregar daquela forma à depressão.
- Vai sair sozinha nessa chuva?
- Gui?! - Amanda deixou as chaves caírem com o susto de ver seu melhor amigo, ainda vestido com o jaleco da anatomia, parado em pé com um guarda-chuva na mão, bem a sua frente.
- Você não se importa que eu vá com você? Assim eu posso te ajudar a segurar o volante se você dormir na direção... ou a gritar, se você derrapar em alguma curva e na direção de algum caminhão...
- Tudo bem. Mas ai de você se sujar o meu carro... - Amanda sorriu. Parte do seu bom humor tinha voltado só em ver seu melhor amigo ali.
- Não posso prometer nada. - ele sorriu de volta, enquanto esperava que Amanda abrisse o cadeado do portão para poder entrar. - Pra onde você vai me levar?
- Você vai ver...
- Já vou avisando que não gostei muito daquele motel da semana passada.
Amanda deu uma gostosa risada.
- Então vou ter que te comer no carro mesmo!
- Oba! Então abre logo a porta! - Gui pulou até o carro, fingindo a ansiedade em meio a risadas.
Amanda finalmente conseguiu abrir o portão e os dois foram pro carro.
- Vamos dar uma volta, preciso conversar com você.
- Você andou aprontando, certo? - ele perguntou, abrindo a janela ao seu lado.
- Certo. É difícil esconder as coisas de você.
- É porque eu te conheço bem demais. Quando você diz que precisa conversar e faz esse bico é porque lá vem coisa.
- Hum.... não sei de que bico você está falando.
- Exatamente esse que você tá fazendo agora.
- Vamos dar uma volta pela praia?
- Mas tá chovendo!
- E daí? Não vamos sair do carro. Eu só quero olhar o mar.
- Ih... o negócio tá brabo.
- É mesmo. Está.
- E depois?
- Paramos na frente de algum bar por ali, pedimos uma bebida e conversamos um pouco.
- Ok. Pra mim parece ótimo.
- Então vamos. - ela tratou de dirigir até a praia de Ipanema.
- Legal! Estamos bem perto de casa.
- Então ficamos por aqui. - ela falou, procurando um lugar pra estacionar - a nossa conversa vai ser um pouco longa e você tem que voltar cedo pra casa pra acordar amanhã pra aula.
- Você fala como se eu fosse o único que fosse pra aula amanhã.
- Não interessa o horário que eu vou chegar em casa hoje. Eu sei que não vou conseguir dormir, então...
- Amadita, eu tô começando a ficar muito preocupado!
- Pronto! Acho que vou estacionar aqui, na frente desse bar aqui.
Com uma destreza incomum, Amanda colocou o carro na vaga e os dois puderam sair.
- Aquele bar parece bem simpático. - Gui comentou.
- Então é pra lá mesmo que a gente vai.
- Ok.
Sentaram-se numa confortável mesa, perto da janela. O bar estava vazio graças à chuva que afastava as pessoas da praia. Cada um pediu uma bebida pra si e algum aperitivo para comerem.
- E aí? Pode começar. Sou todo ouvidos. - Gui estimulou assim que o atendente se afastou.
- Bom, aviso que você não vai gostar nem um pouquinho de ouvir o que eu vou dizer.
- Pensei que ia me dizer algo que eu não sabia ainda. - ele suspirou, conformado - vai, pode falar. Eu já estou acostumado.
Amanda até bateria nele se não estivesse na situação em que estava. Mas ao invés disso, preferiu respirar fundo e começar a contar.
*******
- Vo... vo...VOCÊ FEZ O QUÊ????!!!!!
- Calma, Gui!
- Calma, Gui? Calma, Gui?! CALMA, GUI?!!!
- Gui...
- Meu Deus! Eu disse que já estava acostumado, mas... agora você se superou! Eu não acredito que você fez isso! Eu não acredito que você mandou a minha foto pra esse cara! Eu não acredito que você se apaixonou por ele! Eu não acredito que você seja capaz de fazer tanta merda numa noite só!
- Desculpa, Gui... eu sei que foi infantil, que foi idiota da minha parte... mas, eu...
- Amanda! Pelo amor de Deus! Eleva esse infantil ao cubo! Só maluco entra em chat de gay fingindo ser um homem! E tudo isso pra divertir o seu irmão?! Eu não acredito!! E agora? O que você vai fazer? Me pedir pra me apresentar no seu lugar e fingir que eu sou a pessoa com quem aquele idiota conversou no chat?!
- Ele não é idiota!
- Claro que é! Ele e você! Os dois se merecem! São dois patetas! Já parou pra pensar que ele pode ter mentido tanto ou mais que você?!! Que essa foto linda que ele te mandou pode até não ser dele? Já parou pra pensar que ele pode ser até um maníaco?!
- Ele não é nada disso!!
- Como é que você pode ter tanta certeza?!!
- Escuta, Gui! Não foi assim! Por favor, tenta me escutar! E me entender!
- Amanda! Escutar? Entender?! Será que você não tem nenhuma noção do que está fazendo? Você perdeu a sanidade, por acaso?!
- Você tá sendo duro demais!
- Eu tô sendo duro demais?! Eu não acho! Se não fosse você, Amanda! Se fosse qualquer outra pessoa que tivesse usado o meu nome numa brincadeira dessas...
- Gui... não é mais brincadeira. É sério! Eu estou apaixonada por ele...
- Apaixonada?! Apaixonada! Mas vocês nem se conhecem! As coisas não são assim! Isso não existe!
- Então você pode explicar o que eu tô sentindo?!
Gui tomou o copo das mãos de Amanda e o virou inteirinho.
- Olha, Amanda! Vamos pensar... você se recusa a arranjar um namorado desde que a gente terminou... e quanto tempo isso já faz? Um ano? Um ano e meio?
- E daí? Isso não tem nada...
- Deixa eu terminar, tá? Pô, eu não sou idiota! Eu sei que tudo que aconteceu foi muito difícil pra você... eu entendo que tenha se isolado... mas... isso te deixou muito carente! E por isso tá confundindo os sentimentos. Você entende? É a mesma coisa com ele. Se ele tiver falando a verdade, claro. Você me disse que ele acabou de sair de um relacionamento de anos com outro cara. Pô, eles até moraram juntos! Pensa um pouco, Amanda! É lógico que ele também tava carente, tava triste... precisando de alguém pra conversar.... vocês dois confundiram tudo!
- Gui, você não tá entendendo nada! Você não tá entendendo nada! Não é nada disso! Não foi carência, não foi maluquice, não foi nada disso!
- Então você pode me dar uma explicação melhor?
- Gui.. presta atenção! Alguma vez na sua vida, você teve a sensação de que tinha encontrado a pessoa certa? Alguém com quem ficar o resto da sua vida? Essa sensação que vem com a certeza de que se você deixar passar essa pessoa, nunca mais terá outra chance?
- Você não tá falando mesmo coisa com coisa.
- Me responde!
- Sim! Eu já me senti assim. Ou quase assim!
- É mesmo?! - ela piscou
- Sim, é mesmo!
- E quem foi ele? Você nunca me falou a respeito.
- Sua idiota. Não foi nenhum garoto. Foi você!
Ela piscou de novo.
- Mas... nós não demos certo...
Gui encheu os copos mais uma vez e então respondeu:
- Como pode dizer que não deu certo? Não estamos aqui?
- Gui...
- Pode não ter dado certo da forma que tentamos primeiro... mas quem mais no mundo poderia me tirar de uma aula de anatomia pra vir até aqui numa segunda-feira em dia de chuva?
Amanda deu uma risada.
- Então você me perdoa?
- Eu sempre te perdôo... mas isso não quer dizer que eu tenha entendido... eu ainda não consegui entender. Pelo menos não da forma que deveria estar entendendo. Digo, tudo isso ainda me parece bastante absurdo.
- Eu sei. É absurdo pra mim também. Mas é o que eu estou sentindo. Não tem jeito. Foi como mágica.
- Você é uma cientista. Cientistas não acreditam em mágica. - ele sorriu.
- Então deixo de ser cientista e volto a ser artista! - ela devolveu o sorriso.
- Bom... seus desenhos ainda estão guardados lá em casa.
- Fique com eles. Hoje quando chegar em casa vou ver se desenho alguma coisa nova. Tô com saudades de desenhar.
- Ele também desenha, não é mesmo?
- É. Ele é a minha versão masculina.
- Cruzes! Duas Amandas eu não agüento não!
- Pára!- ela deu uma risada e tomou outro gole. - Nós combinamos de nos encontrar... depois de amanhã. No bar na frente da faculdade.
- Sei... e você vai?
- Eu acho que devo isso a ele. E a mim também. Mas tenho medo dele nem querer me ouvir.
- Não se preocupe com isso. Se ele for realmente a sua versão masculina, vai ouvir sim. E vai entender.
- Gostaria de poder ter essa mesma certeza. Por favor, pede outra garrafa?
- Outra? Você não vai voltar pra casa dirigindo? A gente já acabou com duas garrafas. Não acha que já chega?
- Você sabe que eu dirijo bem de qualquer jeito.
- E você sabe que dirigir bem não adianta quando os seus reflexos ficam prejudicados por conta do excesso de álcool no sangue.
- Pára de pensar como médico e pede outra garrafa logo!
- Tá... tudo bem... mas vai ser a última. Se continuar bebendo desse jeito, você pode até entrar em coma alcoólico.
- Eu não vou entrar em coma nenhum.
- Você não. Mas eu vou. Outra garrafa, por favor!
- É assim que se fala!
******
- Tem certeza de que vai dirigir assim?
- Tenho! Eu tô bem.
- Duvido! Deixa eu te examinar! - Gui se aproximou mas foi empurrado na mesma hora.
- Examinar nada! Você tá pior do que eu! Eu percebi que você tava bebendo muito mais rápido. Hahahahahahaha!! Aposto que era pra eu beber menos! Tolinho! Sua amiga aqui é fera no volante!
- Sei, sei... então vai logo embora que o melhor que eu tenho a fazer é ir pra minha casa. Até amanhã, na aula.
- Até amanhã! - Amanda deu um par de beijos desajeitado em Gui e tratou de entrar no carro o mais rápido que pôde. E então deu a partida, logo depois de dar um tchauzinho amistoso.
Gui ficou olhando o carro sumir pela rua.
Nem reparou na chuva, que começava a desabar com ainda mais força do que antes.
Continua...