Capítulo 1 - Os Perigos de um Domingo Chuvoso
- E aí? Achou algum programa interessante na TV? - um garoto de cerca de quatorze anos falou, sem realmente estar prestando muita atenção, enquanto olhava para a tela do computador.
- Nada... como sempre.. nem um único programa que preste nessa droga de TV.
Amanda jogou a revista com a programação de domingo no chão, desanimada. Passou as mãos pelos cabelos curtos e bocejou. Domingos eram quase sempre assim. Uma chatice. Ainda mais com a chuvinha insistente que não parava de cair. E com aquele tempo chato, era quase impossível não se entregar a preguiça. Amanda era a prova viva disso. De camisola às cinco horas da tarde e completamente entediada. Seu irmão mais novo percebeu seu estado e sugeriu:
- E por que você não sai de casa? Sei lá, vai ao cinema com o Gui-gui!- falou, dessa vez com uma voz zombeteira.
- Maneco! Deixa de ser bobo. Ninguém pode sair com essa chuva. E pára de chamar o Gui de Gui-gui! Eu nunca deveria ter contado sobre ele pra você. - Amanda protestou, atirando uma almofada no irmão.
- Ai! Como se fosse uma coisa muito difícil de se descobrir.
- Você nem suspeitou!
- Er... é que eu sou distraído pra essas coisas. Você sabe!
- Lógico. Do jeito que você é, tenho certeza que só ia perceber se o Gui tentasse te agarrar! - ela deu uma risada divertida.
- Pô, garota! Não fala isso nem de brincadeira!! Que nojo!! - ele gritou.
Amanda se dobrou no sofá de tanto dar gargalhada. Seu irmão era um tonto mesmo. Como se o Gui um dia fosse se interessar por um garotinho como ele.... nem em sonhos. Seu melhor amigo poderia ter todos que quisesse. E com certeza não escolheria aquele tremendo panaca encarnado na pele de seu irmão.
- Não se preocupe! Nem em pesadelos o Gui sequer pensaria em te agarrar.
- E como é que você sabe? Por acaso ele já tem alguém?
- Na verdade, não.
- Então como você pode ter tanta certeza disso?
- Bom... sabe como é... eu não quero mesmo te magoar e tal... mas ninguém em perfeitas condições de saúde pensaria em agarrar um cara feio como você! - ela soltou e começou a dar risada da expressão furiosa que o irmão fez.
- Ah, sua...
- Hehehe...
- Quando você me apresentar o seu namorado a gente conversa, ok?
Amanda parou de rir.
- Pelo menos eu já tive um namorado!
- É... O Gui!!! Hahahahhaha!
- E daí? Qual é o problema do Gui?
- Problema nenhum... problema nenhum... só que ele é meio... bem... polivalente.... quá, quá, quá!
- Por que não cala a boca, seu idiota?
- Vem calar!
- Criança!
- Merda de página que não abre!
- Tá tentando entrar aonde?
- Ah... tava tentando pegar meus e-mails... mas a página se recusa a abrir. Tô a minutos aqui.
- Tem certeza que você não caiu?
- Claro.. não sou mongol como você!
- Ih, calma aí! Eu só tava tentando ajudar.
- É quando eu tenho mais medo de você...
- Ah... deixa de ser bobo, Maneco! - Amanda se levantou do sofá e foi até o computador. - Você não caiu mas a sua conexão tá parada, olha só!
- Ih, é mesmo! Que porcaria! E agora?
- E agora? Desconecta e conecta de novo, ora bolas...
- O quê?! Você tem noção do tempo que eu tentei me conectar nessa merda até conseguir? Hoje é Domingo, sua demente! - o garoto se revoltou.
- Tudo bem... então não desconecta e fica aí se ferrando. Eu nem ligo.
- Ah! Droga! Quer saber de uma coisa? Pode ficar com essa merda de computador! - ele empurrou a cadeira com raiva.
- Muito obrigada! - Amanda não esperou que o irmão mudasse de idéia e tratou de ocupar seu lugar. - quer apostar quanto que eu consigo me conectar de primeira?
- Eu faço o seu jantar se você conseguir!
- Com sobremesa?
- Com sobremesa.
- Estamos apostados... - ela clicou em conectar - vamos, queridinho... me ajude a conseguir uma refeição quentinha pra mamãe aqui... vai... é!!! Consegui! Eu sabia!
- Maldita, você é sortuda demais! Não acredito!
- E você me deve um jantar.
- Ok... vou fazer miojo.
- Pô, miojo?
- Você não estipulou o cardápio...
- Veado...
- Eu e o Gui-gui!
- Pára com isso!
- Nunca! Agora que descobri a melhor forma de te tirar do sério? Nem por um milhão!
- Garoto chato!
- Pelo menos olha os meus e-mails, tá?
- Você vai colocar requeijão no meu miojo?
- Ah, não! Fica nojento demais! Me recuso a fazer miojo nojento!
- Então não vou ver seus e-mails droga nenhuma!
- Tá bom, tá bom! Coloco até o copo de requeijão inteiro se você quiser, ok? Agora vê os meus e-mails!
- Hum.. eu tô achando que você está ansioso demais pra ver esses e-mails... muito estranho...
- Ih, vai começar...
- O que você está me escondendo, irmãozinho? Lembre-se que é feio mentir pra sua própria irmã...
- Eu não tô escondendo nada! Deixa de ser chata, garota!
- Ah, é? Então você realmente não se importaria se eu, sem querer, claro, apagasse todos os seus e-mails, não é mesmo?
- Não faz isso!! Tá eu conto a verdade! É que eu conheci uma garota num chat ontem... e tô esperando um e-mail dela!
- Ah... não! Não acredito nisso! O meu próprio irmão, sangue do meu sangue, se envolvendo com garotas pela internet. O que a falta não faz a uma pessoa?!
- Ah, deixa de ser chata! A garota é legal! O que tem de mal? Quem sabe a gente não se encontra e a coisa não acaba dando certo.
- Duvido muito. Esse negócio de romance pela internet é fria.
- Como é que você pode ter tanta certeza disso?
- Simples, meu tolo irmãozinho. É que o fato de uma tela brilhante separar você da sua namoradinha virtual possibilita que os dois contem o que quiserem um ao outro. Conclusão: a sua gatinha com certeza se apaixonou pelo personagem que você criou pra ela e não pelo que você é realmente. E vice-versa...
- Pois fique sabendo desde já que eu não criei nenhum personagem, sua metida!
- Ah, não mesmo? Então me diga: quando ela perguntou como você era, o que respondeu?
- Ora, a verdade. Que eu sou alto, moreno, corpo atlético e tenho os cabelos compridos. - ele falou, cheio de orgulho.
- Nossa! Imagino qual será a cara dela quando se encontrar com você e descobrir que você é um pirralho, magricelo e que não corta o cabelo a mais de dois anos.
- Iiiiih! Lá vem você falar do meu cabelo de novo!
- Eu não falo mais nada. Pode ficar parecido com o Capitão Caverna o quanto quiser.
- Garota, você é completamente insuportável!
- Obrigada, sempre é bom receber elogios seus. Bom... tenho uma má notícia pra te dar.
- Qual?
- Sua caixa de entrada está vazia!
- Não é possível!
- Pode acreditar. Nem vírus te mandaram hoje.
- Droga! Ela disse que ia me escrever.
- Bom, eu te aviso e você nunca me ouve... dá nisso...
Amanda olhou pra cara desiludida do irmão. O molequinho tinha mesmo ficado decepcionado.
- Olha, cara... falando sério agora... não fica assim não. Vai que ela não conseguiu se conectar hoje por algum motivo... sei lá... nunca se sabe...
- Ah... tudo bem... não é nada importante. Eu vou sobreviver. - ele riu, mas estava claro que continuava chateado.
Amanda mordeu os lábios. O que poderia fazer para animar o seu irmão? Ficou quieta por uns instantes, pensando, até que uma idéia brilhante lhe ocorreu.
- Maneco... bem, já que a internet te sacaneou... vamos sacanear a internet!
- O quê?
- Meu irmão, eu vou me vingar por você.
- Como assim? O que você vai fazer?
- Vamos nos divertir um pouquinho... - Amanda deu uma risada e digitou o endereço de um bate-bapo.
- Você vai entrar num chat?
- Vou sim.
- Não estou entendendo nada! Você vai tentar encontrar a garota? Mas eu nem encontrei com ela nesse chat, foi em outro...
- Não é nada disso! Fica quietinho e observe! - Amanda falou, mais entretida em procurar uma sala boa pra entrar.
- Você clicou na sala errada!
- Não cliquei não.
- Claro que clicou. Isso é chat de gay! E você não é um garoto, sua maluca!
- Eu sei disso. Dá pra você ficar quieto um minuto? Preciso pensar num nome legal pra mim... ei, me ajuda! Me diz um nome bom pra um gay.
- Gui-gui!
- AAAH!!! Dá pra parar com essa droga?!
- Hehehe! Eu não resisti!
- Garoto chato! Que tal Maneco? É um bom nome.
- Se você fizer isso...
- Tá... tudo bem... vamos colocar outro nick, ok? Que tal... que tal Rose?
- Rose? Mas isso não é nome de mulher?
- Por isso mesmo... quanto mais gay melhor... vou me fazer de bicha e dar mole pra todo mundo... hehehe.
- Tenho uma irmã doida... - Maneco balançou a cabeça, desiludido. Mesmo assim, tratou de puxar uma cadeira e se sentar ao lado da irmã.
- Já vi que gostou da idéia...
- Cala a boca. Só estou aqui pra ver se você não faz nenhuma bobagem. Do jeito que você é tonta...
- Você é muito grosso, sabia?
- Sabia.
- ...
- Vai ser Rose mesmo?
- Vai. Pronto, vou entrar.
- Duvido que você tenha coragem.
- Você não conhece a sua irmã.
- Hunf!
- Pronto... entrei.
****
Rose entrou na sala.
Rose: Algum gatinho quer tc?
Rose: Algum gatinho quer tc?
Rose: Algum gatinho quer tc?
Rose: Algum gatinho quer tc?
Rose: Ninguém?!!!
****
- Mas que droga! Por que não respondem?
- Vai ver eles não se interessam por uma bicha chamada Rose... - o irmão falou em tom de zoação.
- Poxa... quantas pessoas estão nesse chat? Deixa eu ver... NENHUMA??!! Eu não acredito! Banquei a palhaça! - Amanda bateu na própria testa.
- Hahahahaha!!! Sua tonta! Eu sabia que você ia fazer alguma besteira! Hahahaha!
- Ei! Espera aí! Parece que alguém acabou de entrar no chat...
- Quê?!
****
Thorn entrou na sala.
Rose: Olá! :)
Rose: Quer tc?
Thorn: Vc tava sozinho aqui?
Rose: Acho que sim... mas agora não tô mais... ;)
Thorn: Legal!
Thorn: Nick diferente esse seu...
Rose: Não gosta?
Thorn: Não é isso...
Rose: Então tudo bem. :)
Rose: Mas o seu tb é...
Thorn: Vc acha?
Rose: Pq escolheu esse?
Thorn: Falta de criatividade mesmo.
Thorn: hehehe
Rose: Quantos anos você tem?
Thorn: 24
Rose: Eu sou um pouquinho mais novo... 22.
Thorn: Hum, que interessante! Todos os meus amigos costumam ser mais velhos do que eu. Eu já estava até conformado com isso. Tenho certeza de que vou gostar muito de conversar com você! :)
Rose: Eu tb tenho certeza disso! Além do mais... gosto mesmo de meninos mais velhos.
Thorn: *^^* sorte minha...
****
- Mandou bem, Maninha! Agora pergunta se ele topa um sexo virtual!
- Cala a boca, garoto!
****
Thorn: Daonde você tc?
****
- E agora?
- Ué? fala a verdade... pô, qual é a probabilidade dele ser do Rio também? Além do mais, ele nunca vai saber quem é você mesmo...
- Tá bom.
****
Rose: Do Rio.
Thorn: Que legal! Eu tb.
Rose: Sério??!!
Thorn: Sério!
Rose: que ótimo!
****
- Que droga! Última vez que sigo seus conselhos.
- Ah, não esquenta. Se a coisa começar a complicar desconecta, pô!
- É... acho que tem razão.
- Vai logo! Começa a cantar o cara!
- Calma, pô! Você acha que a coisa é assim?!
- Anda logo!
- Eu tô indo!! Garoto chato!
****
Rose: Você trabalha ou estuda?
Thorn: Os dois.
Thorn: Trabalho numa loja e faço faculdade de noite.
Rose: Qual faculdade?
Thorn: Artes Plásticas.
Rose: Jura? Eu sempre quis fazer Artes Plásticas! Sempre adorei desenhar!
Thorn: É mesmo? E por que não fez?
Rose: É que a minha família é toda de médicos, sabe como é...
Thorn: Tá brincando?! Vc é médico?
Rose: Ainda não... estou estudando ainda.
Thorn: Hum.... claro... que bobeira minha. Foi mal.
Rose: Não esquenta.
Thorn: Mas você gosta de medicina? Ou...
Rose: Ah! Gosto sim... não dá pra fazer Medicina sem gostar...
Thorn: Eu imagino... então você parou de desenhar?
Rose: Não! Isso não! até hoje eu desenho.
Thorn: Hum... Agora me deu vontade de ver seus desenhos...
Rose: Não são tão bons assim...
Thorn: Não costuma mostrar seus desenhos pra muita gente, não é mesmo?
Rose: É... é verdade....
Thorn: Eu entendo. Também era assim... mas tive que aprender a superar essa timidez.
Rose: Bom... é que eu realmente não acho que desenho bem... na verdade, eu só continuo a desenhar por diversão mesmo.
Thorn: Estou cada vez mais curioso...
****
- Canta logo ele! Não tá vendo que o moleque tá dando mole?!
- Dá pra parar de se meter?!
****
Thorn: Mudando um pouco de assunto... você acredita em astrologia?
Rose: Claro! Eu adoro!
Thorn: Então posso perguntar o seu signo?
Rose: Você vai se assustar...
Thorn: Nunca se sabe...
Rose: Escorpião.
Thorn: Mesmo? que interessante! Eu sou virginiano...
Rose: Compatíveis.
Thorn: É verdade... :)
Thorn: Viu só? Não me assustei.
Rose: Um milagre!
Thorn: Já namorei com um garoto do seu signo.
Rose: Mesmo?
Thorn: Sim. Foi um namoro bem sério... chegamos a morar juntos um tempo.
Rose: Então foi sério mesmo...
Thorn: Sim... enfrentei muitas barras por ele.
Rose: E por que se separaram? Posso perguntar?
Thorn: Difícil explicar... um dia, depois de três anos juntos, nós acordamos, nos olhamos e... não havia mais amor... não tínhamos mais nada em comum. Aí ele alugou outro apartamento.
Rose: Nossa.... e você ainda tem contato com ele?
Thorn: Claro! Somos muito amigos. Trabalhamos juntos na loja. Ele é meu melhor amigo, sem dúvidas...
Rose: Fico feliz com isso. Então valeu a pena, não é mesmo?
Thorn: É verdade...
Rose: Sabe que já passei pelo mesmo? Quer dizer... quase...
Thorn: É mesmo?
Rose: O meu melhor amigo já foi meu namorado.
Thorn: Hum...
Rose: Mas nós nos damos muito melhor como amigos. Como namorados não demos muito certo não. hehehe
Thorn: Acontece. Mas me diga: você ainda sente alguma coisa por ele? Digo, alguma coisa diferente?
Rose: Hum... acho que sim... ele não é como todos os meus amigos. Nunca será. Ele é especial. Não sei explicar bem isso.
Thorn: Você não gosta dele como homem... mas também não é a mesma coisa que um amigo, não é mesmo?
Rose: Isso!
Thorn: Ele é, mal comparando claro, mais ou menos como parte da sua família. É isso?
Rose: Isso mesmo!
Thorn: É o que eu sinto também. Mas sempre fiquei me perguntando se esse tipo de sentimento é normal, sabe?
Rose: Eu tb.
Rose: Mas vocês dois...
Rose: Estão separados faz muito tempo?
Thorn: Na verdade, não.... faz uns dois meses...
Rose: Só isso?
Thorn: É...
Rose: Você não deve estar muito bem, né? Mesmo que o sentimento tenha acabado... não sei.... deve ser muito difícil uma separação dessas.
Thorn: Você tem razão. é muito duro pra mim.
Thorn: Como explicar... foi por ele que eu enfrentei a minha família...
Thorn: Meus pais eram meio conservadores... sabe como é...
Rose: Sei sim...
Thorn: Eu acabei saindo de casa... deixando tudo de lado...
Thorn: Porque eu pensava que ele era o cara, entende?
Thorn: O cara com que eu passaria o resto da minha vida.
Thorn: Talvez eu tenha sido bobo... ou inocente demais...
Rose: Tenho certeza de que não foi nada disso.
Thorn: Obrigado. Mas mesmo assim... eu me sinto meio culpado, sabe?
Rose: Culpado?
Rose: Por que?
Thorn: Porque eu permiti que o meu amor morresse. Que o nosso amor morresse. E não fiz nada pra mudar as coisas... talvez...
Rose: Não! Não diga isso.
Rose: Você não tem culpa de nada. Sentimentos nascem e morrem sem que nós possamos controlá-los...
Rose: E eu acredito que se o de vocês morreu... foi por alguma boa razão...
Rose: Nada acontece por acaso, né?
Thorn: Sim... você
tem razão. Muito obrigado. Já estou me sentindo bem melhor...
****
- Vou vomitar!
- Ah, não fala assim.... eu tô achando ele tão legal! Tão sincero...
- Acontece que você não entrou nesse chat pra ficar batendo papo com esse...
- Pára com isso, Maneco!
- Viu? Já tá defendendo o garoto! Daqui a pouco vai acabar apaixonada...
- Não vou nada!
- Você não me engana! Tem uma tremenda queda por gays, que eu sei!
- Não tenho nada! E você só tá falando besteiras!
- Então porque você não vai direto ao assunto? Que droga!
- Me dá um pouco de tempo?
- Mais tempo?!!
- Não seja chato, Maneco!
- Hunf! Anda logo com isso!
****
Rose: Como vc é?
Thorn: Bem... eu sou normal.
Rose: Descreve p/ mim?
Thorn: Meio constrangedor isso, né?
Rose: :)
Thorn: Ah, sei lá... Eu tenho cabelos um compridos...
Rose: Cabelos compridos? Batem aonde?
Thorn: Na cintura...
Rose: Verdade, isso?
Thorn: Acho q sim! :)
Rose: Espero que não sejam como os do meu irmão.
Thorn: Por que?
Rose: Ele se recusa a cortar o cabelo... já tá parecendo uma juba!
Thorn: hehehe. É mesmo?
****
- EI!!!!!
- Desculpa, eu não resisti...
- Você me paga por essa, Amanda!!
- Fica quieto. Não foi você mesmo quem disse que ele nunca vai nos conhecer? Então? que diferença faz?
- Hunf!
****
Thorn: Mas pode ficar tranqüila... o meu maior problema não é o meu cabelo. Ele até que é legal...
Thorn: Bem... é que eu sou meio baixo... e pareço muito com uma menina... -_-
Rose: S/ problema. Eu tb.
Thorn: É baixo?
Thorn: Ou se parece c/ uma menina?
Rose: Acho que os dois.
Thorn: Nossa! Então já temos uma coisa em comum! Me diga: e vc? Como é?
****
- Vou desconectar!
- Por que? Agora que você tá enrolando o cara? Por acaso você tá amarelando?
- Não é nada disso! É que o negócio tá ficando complicado.
- Que nada. Descreve o Gui-gui e tudo beleza!
- Tá doido? Eu não posso fazer isso! Se o Gui souber disso...
- Ah, qual é? Ele nunca vai saber!
Amanda olhou pro irmão, desconfiada:
- Não mesmo?
- Claro que não! Eu juro! - Maneco cruzou os dedos e os beijou duas vezes.
- Tá.. tudo bem... vou descrever o Gui pra ele.
****
Thorn: Rose?
Thorn: Você ainda tá aí?
****
- Por que não manda logo a foto dele?
- O QUÊ?!!! - Amanda pulou na cadeira ao ouvir aquela proposta - VOCÊ PIROU??!!!
- Ah.. qual o problema... vai dar um clima maior de confiança....
- Mas o Gui...
- Ele não vai se importar.
- Como é que você pode ter tanta certeza disso??!!!
- Ele nunca fica chateado com você... não interessa o que você faz.
- Mas isso também é demais!
- Qual é maninha? Você disse que ia me divertir... eu não estou me divertindo... manda a foto do Gui pra ele logo.
- Mas... mas...
- Sabe de uma coisa? Eu acho que você não tem é coragem!
- O quê?
- Isso mesmo! Duvido que você mande a foto do Gui pra ele!
- Ora, seu.... você vai ver quem não tem coragem aqui!
Amanda não pensou duas vezes. Tratou de anexar a mais bonita foto que tinha do seu melhor amigo onde ele aparecia sentado num sofá branco, mostrando um sorriso encantador. Ela era louca por aquela foto. Principalmente porque os cachos de cabelo ruivo sedoso pareciam até brilhar e eles combinavam de tal forma com aqueles olhos verdes que dava a nítida impressão de que Gui tinha algo de divino.
- Ai... ai...
- Pára de babar e anda logo!
- Tô indo, tô indo! - ela respondeu, mal humorada.
****
Thorn: Vc tá vivo aí?!
Rose: Você quer ver uma foto minha?
Thorn: Claro! Por que não? pode me mandar por e-mail. Vou adorar ver a sua foto.
Rose: Me diz o seu e-mail?
Thorn: Claro! Anota aí.
Thorn: [email protected]
Rose: É este o seu nome? :)
Thorn: Pois é... mas não combina muito comigo... coisa do meu pai... sabe como é...
Rose: Sei sim.... estou te mandando a foto, ok?
Thorn: OK. A propósito...
Rose: Sim?
Thorn: Você pode me dizer o seu nome?
Rose: Bem...
Rose: É Guilherme.
Rose: Mas todo mundo me chama de Gui.
Thorn: Gui...
Thorn: Você tem um nome lindo. Quero muito ver a sua foto.
****
- Me perdoa, Gui.. - Amanda até fechou os olhos pra não ter que se ver clicando em "enviar"...
- Ah! Eu só queria ver a cara do Gui-Gui se ele soubesse o que você tá fazendo agora!
- Nem fala um negócio desses tá bom? E já vou avisando que eu usei o seu e-mail.
- COMO???!!! Não acredito que você teve coragem de fazer isso comigo.
- O meu e-mail tá no nome de Amanda Martins! Você quer que eu explique isso como? O seu tem o nome de um personagens desses desenhos idiotas que você vê na TV. É bem melhor.
- Não me interessa! Você não tinha é que me meter nessa! E os meus desenhos não são idiotas! E bem que você fica vendo de vez em quando!
- Isso não vem ao caso!
****
Rose: Já mandei.
Thorn: E já está chegando aqui. Vou abrir.
Rose: Respira fundo antes.
Thorn: hehehe
Thorn: ...
Thorn: Nossa!
Rose: O que foi? Não gostou do que viu?
Thorn: Não! Claro que não!
Rose: Não?
Thorn: Digo... bem... pra falar a verdade... nossa! Eu estou em choque aqui!
Rose: Também não é assim....
Thorn: Você parece um anjo.
Rose: ...
Thorn: É verdade! Nossa! Tem certeza de que é humano?
Rose: ... er... assim fico sem graça.
Thorn: Desculpa. Não foi a minha intenção... na verdade, eu nem entrei aqui pensando em alguma coisa nesse sentido, sabe?
Thorn: Vc pode não acreditar em mim, mas... eu... só tava querendo mesmo era bater um papo com alguém. Mas você... você... é tão parecido comigo... sei lá... eu me sinto bem conversando com você.
Rose: Eu tb.
Thorn: Acho que estou falando demais, né? Vc não sente o mesmo?
Rose: Sim.... pra falar a verdade.... só falta você me dizer que gosta de miojo com requeijão e me convencerei de que somos almas gêmeas! ;)
Thorn: Eu adoro!
Rose: O quê?
Thorn: Sem sacanagem! Pensei que era o único do mundo que gostava de miojo c/ requeijão!
Rose: Eu tb.
Rose: Estou impressionado!
Thorn: É....
eu acho que eu tb...
****
- HAHAHAHAHA!!! Ele se apaixonou pela foto do Gui-Gui!! Que engraçado!
- Fica quieto!
- Que demais! Eu sou um gênio!!
- Maneco!
- Fala!
- Vai preparar meu jantar.
- Mas... logo agora que o negócio tá ficando interessante?
- Não interessa! Eu estou com fome. Faz meu jantar. Você perdeu a aposta!
- Droga! Garota chata! Que raiva!
- Anda logo!
O garoto até chutou a cadeira onde estava sentado de tanta raiva mas acabou indo pra cozinha. Não antes de soltar uma boa dezena de palavrões.
Amanda respirou um pouco mais aliviada. Já
estava começando a se arrepender da sua mentira. O garoto parecia
ser muito legal. Sincero também. Não merecia ser enganado
daquele jeito. O certo seria mesmo que ela aproveitasse a ausência
do irmão pra desconectar e depois mentir que tinha caído.
E foi quase isso que ela fez. Mas não teve coragem de apertar aquele
botão. Mas algo em seu íntimo a obrigava a continuar ali,
conversando com ele. Mesmo que soubesse que aquilo não tinha como
dar certo. Que era uma completa loucura.
****
Rose: Hum.... posso te perguntar uma coisa?
Thorn: Vá em frente.
Rose: Por que você está aqui? Quero dizer, por que entrou nesse chat?
Rose: Parece uma pergunta meio estranha, né?
Thorn: Nem tanto...
Thorn: Quer a verdade?
Rose: Claro.
Thorn: Eu tava aqui em casa, sozinho, olhando a chuva cair e tal...
Thorn: E sei lá....
Thorn: Me senti muito só.
Thorn: Senti vontade de falar com alguém...
Thorn: Mas não tinha ninguém... não consegui pensar em ninguém....
Thorn: Com quem conversar...
Thorn: Aí entrei aqui... é a primeira vez, na verdade.
Thorn: Mas acho que dei sorte...
Rose: Sorte?
Rose: Por que sorte?
Thorn: Porque encontrei você logo de primeira.
Thorn: Não leve a mal. Você parece uma pessoa bem legal...
Rose: Você acha mesmo? Mas nem me conhece...
Thorn: Será mesmo que não?
Rose:...
Rose: Não sei o que dizer...
Rose: Não sei mesmo o que dizer...
Thorn: Então não diga nada! ;)
Rose: Não.. eu tenho que dizer! Você... você... pode estar enganado ao meu respeito...
Rose: Eu posso não ser a pessoa que você pensa que sou.
Thorn: Bom... eu posso até não saber de tudo...
Thorn: Mas acho que sei o suficiente.
Rose: Não, você...
Thorn: Mas se isso te faz sentir melhor... eu posso contar toda a minha vida pra você. Agora mesmo.
Rose: Você... faria mesmo isso?
Thorn: Com a condição de que fizesse o mesmo... sim.... eu faria. Quer?
Rose: Bem...
Rose: Sim... quero sim.
Thorn: Então prepare-se porque teremos uma longa noite pela frente...
****
E assim foi.
Ele lhe contou absolutamente tudo. Como tinha sido sua infância, como sua adolescência foi perturbada pela descoberta da própria sexualidade, dos problemas que isso lhe causou com sua família, com seus amigos. Contou sobre os momentos em que ficou encolhido na cama, com um travesseiro na cabeça, querendo desaparecer daquele mundo. Querendo viver outra vida, ser outra pessoa.
Contou como se sentiu triste quando seu pai rasgou todos os seus desenhos, como sofreu quando viu que sua mãe não ficaria ao seu lado e quando se deu conta de que seus pais eram incapazes de lhe amar do jeito que ele era.
Mas ele também disse como a chegada de Paulo mudou tudo em sua vida. E como ele transformou as incertezas e os medos em certezas e coragem de enfrentar todos os obstáculos que o impedissem de ser ele mesmo, de ser uma pessoa feliz. Descreveu como tinha sido especialmente doloroso quando saiu, com as malas prontas, da casa de seus pais. Como ele sentiu vontade de correr pros braços deles, da mesma forma que fazia quando era criança, até o último segundo antes da partida e como ele, ao mesmo tempo, não sentiu mais um pingo de dúvidas sobre o que estava fazendo a partir do momento que viu Paulo esperando ele de carro, na porta, com um sorriso de encorajamento do rosto.
E quando ele acabou de contar tudo isso. Foi a vez dela de contar tudo. E contou mesmo. Contou como se sentiu solitária durante a infância, quando cresceu cercada de babás e cuidados mas nunca teve a presença de seus pais, muito ocupados com seus plantões e cirurgias. Como sentiu pena do seu irmão menor quando o viu no berçário ao imaginar que ele seria tão sozinho como ela e como ela se prometeu que faria de tudo pelo irmão. E como ela se sentia meio que mãe dele até hoje.
Então ela contou do Gui... é claro que deu outro nome a ele... disse o quanto ela se sentia inferior a ele... como tanta beleza a oprimia, a diminuía. Não teve vergonha de dizer que esse sentimento fez com que se tornasse insuportavelmente ciumenta, possessiva, neurótica. De tal forma que acabou destruindo o namoro e por pouco a amizade dos dois. Claro que não tinha sido o principal motivo do término do namoro deles. Mas isso foi a única coisa de sua vida inteira que não pôde contar. Mas contou que tudo que lhe aconteceu durante o ano em que namorou com Gui tinha lhe abalado ao ponto de fazer com que perdesse quase todas as cadeiras da faculdade que estava cursando e como nem nesse momento ela pôde contar com a presença dos pais. E que por isso mesmo só dependeu da ajuda do irmão menor pra dar a volta por cima daquilo tudo e se recuperar.
E as horas se passaram. Seu irmão lhe desejou um boa noite muito mal humorado e logo Amanda percebeu que só podia ser porque ela nem sequer tinha se dado conta do prato de miojo que o garoto tinha preparado a horas e que estava em cima da TV, intocado, desde então, e com uma aparência ainda mais pegajosa do que o normal. Mas nem mesmo isso fez com que ela abandonasse o teclado e monitor.
As horas se passaram e ela só acordou do transe quando viu o dia raiar pela janela. Foi só aí que os dois finalmente se despediram, com uma sensação de vazio no peito e ela foi se arrastando pra cama como um zumbi, enquanto tentava calcular quantas horas ainda teria de sono até ter que se levantar novamente e se arrumar para a faculdade.
Mas no fim isso não fez nenhuma diferença. Ela sabia muito bem que não conseguiria pregar os olhos um minutos sequer.
Tinha se metido numa loucura que estava além de suas próprias forças. E não fazia idéia de como sairia dela.
A verdade era uma só e chegava a doer.
Ela estava apaixonada. Por mais que sua cabeça se negasse a aceitar uma coisa tão estúpida, tão absurda, tão sem propósito, seu coração gritava mais alto e abafava todo o resto.
E naquele momento, a única certeza que teve era a de sua vontade louca de ainda estar diante daquele computador. De estar conectada naquele chat.
De estar com ele.
Continua...