Capítulo 2 - Movimento incerto
Relia trechos da carta, ainda meio em transe ...
" (...)Dentro de dois dias estarei voltando ao Japão. Vou ficar na mesma casa de antes, então você sabe onde me encontrar(...) "
A chance que julgava perdida parecia cair dos céus ...
" (...)O motivo de minha volta explicarei quando nos encontrarmos (...)"
Qual seria o motivo? Mal tinha ido embora, e já voltaria?
" (...)Achei que seria bom te avisar, porque pretendo ir te ver
... e aos demais também.
Minhas saudações sinceras
Shaoran Li "
Era um final estranho. Pretendia vê-la, e aos "demais" também. Isso era bom, mas e o tal motivo?
Deixou pra lá.
Ele vinha, e isso era o mais importante.
Não importa o que ele fizesse, alguma coisa ela faria.
Levantou pela centésima vez, com a carta na mão, abriu a janela, olhou a paisagem (que nada tinha de fenomenal), fechou a janela, pensou, sonhou ...
Pegou o telefone. Tinha que contar a novidade a Tomoyo.
******
Fujitaka lia o jornal, Touya preparava a comida.
Nisso desceu Sakura, atravessando a cozinha como um foguete, falando com todos rapidamente, oferecendo sorrisos como já não se via há certo tempo, e saindo logo em seguida. O pai, satisfeito, sorriu de volta. Touya até deu um sorriso, mas não estava exatamente satisfeito.
A porta bateu, deixando pai e filho sozinhos, como antes...
- Você sabe o motivo disso?
- Sei ...
- Então ...?
- O garoto de Hong Kong ...
- Era dele a carta?
Touya só acenou com a cabeça, e o pai deu uma boa risada.
- Quem diria, não?
Sorriu pro filho, e deu-lhe um tapinha nas costas.
- E essa cara fechada? Não está feliz por sua irmã ter voltado ao normal?
Não respondeu ...
- Tudo isso é ciúmes?
Tornou a rir, e reclinando-se na cadeira, voltou ao jornal.
Entendeu como "ciúmes de irmão" aquela cara fechada.
Sequer suspeitava a real razão do mau humor de Touya.
******
Kero naturalmente sabia das novidades.
Tinha visto Sakura receber a carta, suas reações, ele próprio tinha lido a carta, e depois, sentado na estante, ouvira todo o relatório de Sakura a Tomoyo. Nesse ponto já não prestava mais atenção ... um pressentimento o invadia, pela segunda vez. Da primeira tinha acreditado que era bobagem, ou melhor, fingido que acreditava nisso.
Agora, com a carta e a imimente volta do garoto, voltava o mesmo pressentimento.
E não era nada bom ...
" Preciso ver Yue ... "
******
- Yukito! É um prazer vê-lo!
- O prazer é meu, senhor!
Estendeu a mão para o dono da casa, mas sem deixar de reparar a face fechada de Touya.
- Oi, Touya ... - arriscou timidamente.
- Oi, Yukito ... - não disfarçou o humor ...
- Vim numa má hora ...?
- Ao contrário ...
- Algo errado?
- O Touya está tendo uma crise de ciúmes de irmão! - disse isso rindo - Era de se esperar ...
Touya percebeu que seria conveniente deixar seu pai achar que estava certo, e que o problema se resumia a isso. Forçou o riso, enquanto se retirava com Yukito para a escada ...
- Hehehe... é ... parece que estou cismado com minha maninha
... Agora com licença, pai ... eu e o
Yukito vamos subir.
- Ok, filho. Fiquem à vontade.
Voltou ao jornal.
Os dois subiram, e Touya levou Yukito até o quarto. Chegando lá, fechou a porta, e sentou-se no chão. Yukito tomou lugar na cama, preocupado.
- Não me parece que seja só isso, Touya ...
- É, Yuki ... não é só isso ...
- E então?
- Bom ... você sabe que a Sakura andava deprimida desde que aquele moleque partiu ...
- Sim ...
- Pois bem, agora recebeu uma carta dele. Pela cara de ânimo dela, posso apostar que ele vai voltar.
Yukito ficou esperando ...
- Bem ... e daí? Oque tem demais ele voltar?
- Eu tenho um mau pressentimento ...
- Um mau pressentimento ... que tem a ver com o Li?
- Talvez ...
- Estranho, Touya ... não é muito fácil pra mim entender essas coisas ... - fez uma pausa, e acomodou-se no chão, ao lado do amigo aflito - Você está sempre com um pé no outro mundo. Essas coisas estranhas sempre te acontecem ...
Touya olhou por um momento Yukito ... com certeza ele não entenderia. Nada daquilo fazia sentido para ele. Preferiu ficar em silêncio.
- Mas como você sabe que ele vai voltar? Talvez seja só uma carta contando como estão as coisas, enfim ... você sabe ... as garotas dão muita importância a isso ...
- Ainda que fosse, não faria diferença ...
- Mas ... você não disse que tinha a ver com Li?
- E tem ... - estava cada vez mais confuso - Mas em primeiro lugar tem a ver com a Sakura. Sinto que algo vai acontecer com ela, independente do Li voltar ou não. Mas também sinto que ele vai ter algum papel no que vai acontecer ...
Parou de falar e observou Yukito. Sua expressão era a de quem tinha acabado de ouvir um complicado enigma. E como poderia ser de outra forma? Sem compreender toda aquela coisa de cartas e magia, Yukito não poderia saber que tipo de pressentimento era aquele.
- Bah! Esqueça ... - abraçou-se no "amigo", para a surpresa deste.
- Touya ...?
- Esqueça, Yuki ... vai ver é só paranóia minha.
- Tá certo ...
Ajeitou o corpo para que o outro se aconchegasse, e ficaram assim, em silêncio.
- Além do mais ...
- ...?
- Você não poderia diminuir minhas dúvidas ...
Ocorreu-lhe algo, mais que óbvio, que tinha esquecido até então.
- Talvez possa!!
- É ...??
Pôs-se de pé.
- Yue! Apareça!
E só Touya e as paredes testemunharam um silencioso abrir
de asas ...
******
- Eriol ...
Acenou para que ela se calasse. Depois, retomando a concentração, executou as notas finais da Ave Maria de Franz Liszt. Errou cinco ou seis notas, além do que a velocidade de sua execução era muito menor que a do grande Liszt. Resignado, tocou algumas teclas a esmo, e depois fechou o imenso piano, respeitosamente.
Só então virou-se para aquela que vinha chamar-lhe, e ofereceu seu sorriso típico.
- Esse corpo ainda é um grande obstáculo ...
- É ...?
- Claro. Minhas mãos são pequenas, meus braços curtos. O que quer? Ainda sou uma criança!
Os dois riram...
- Não sei porque faz tanta questão de tocar um piano tão grande ...
- Os imperiais são os mais lindos. O som deles é ... inigualável ...
- Hmm...
- Mas outra coisa que dificulta é você chamar meu nome no meio da música, bobinha.
Nakuru respondeu fazendo uma careta para o garoto de alma velha.
- É que temos visitas!
Eriol sorriu, como se já soubesse.
- Pois bem, mande-a entrar - falou cordialmente.
A visitante entrou devagar no imenso salão. Chamou-lhe a atenção o bom gosto dos móveis, todos à moda da França dos nobres.
Um pedaço da França na Inglaterra ...
Nakuru acompanhava dois passos atrás, despreocupada.
Pararam as duas a alguns metros de Eriol, que permanecia ao piano. Eriol cruzou um rápido olhar com sua visitante, e ofereceu-lhe um sorriso, mas um sorriso diferente do usual.
Sem dúvida, não era uma visitante qualquer.
Depois, sem cerimônia alguma, abriu o piano novamente e pôs-se a executar outra música.
Nakuru ficou olhando a mulher recém-chegada, como se questionando se ela não iria interromper a música para falar com Eriol. Porém, esta permaneceu parada onde estava, e logo cerrava os olhos, entregando-se à doce melodia da famosa "Valsa do Minuto".
Confusa, Nakuru sentou-se numa poltrona ...
"Par perfeito esses dois estranhos ..."
Ao contrário de Nakuru, ela sabia admirar a música, mesmo com todas as preocupações que trazia.
Uma mulher como Kaho Mizuki jamais interromperia uma melodia
de Chopin.
******
Despreocupada, Sakura caminhava em direção ao parque Pinguim, o simpático lugar que tantas lembranças trazia. Lá encontraria Tomoyo, para tagarelarem sobre a boa nova.
Enquanto caminhava, as notas de "La campanella" voltavam à sua cabeça, mas dessa vez soavam mais alegres, mais vivas. E enquanto se lembrava, balançava os braços devagar, um sorriso estampado no rosto ... não ligava se alguém a julgasse maluca. Só queria dar vazão à alegria que estava sentido.
- Sakura!
Tomoyo acenava de um banquinho.
- Oi, Tomoyo!
Se olharam por um tempo, e começaram a rir ...
- Parece que você está com sorte, amiga!
Sakura só riu, e se Tomoyo tivesse uma máquina a mão, teria filmado seu riso.
- Yes!
Sentaram-se num banco.
- Sabe ... é como eu disse ... não sei porque ele resolveu voltar ... isso me deixa um pouco preocupada ...
- Será que tem algo a ver com as cartas?
- Não ... - pensou um pouco - ... isso eu acho que é assunto encerrado.
- Então ...
- Mesmo assim ... por que ele voltaria logo depois de ter ido embora?
- Vai ver ele tem que dizer algo pra alguém ! Hihihihihhi... nem preciso dizer quem ...
- Nah, Tomoyo ... ele não ia voltar só pra isso ...
- Talvez, mas e se for pra isso também?
Sakura começou a avermelhar ...
- Que que tem?
- Você tem que saber o que dizer pra ele ...
- Err...tenho, é?
- Claro!! Você ainda não sabe?
Suspirou ...
- Não ...
- Hum...
- Acho que não vou conseguir dizer ... de novo ...
Antes que Sakura ficasse triste, Tomoyo abaixou-se na frente dela, pegou suas mãos, e disse sorrindo ...
- Nós vamos pensar em alguma coisa, amiga ... ok?
Sakura recobrou o ânimo.
- Ok!
******
- Você também não sabe, né ?
Touya deixou-se cair na cama, desanimado ... Yue também se sentou.
- Não. Tenho o mesmo pressentimento estranho, mas não sei dizer o que é ...
- Talvez o outro saiba?
- Kerberos?
- Isso! Aquele que se disfarça de boneco ...hehehe
Yue não riu, como era de se esperar.
- Nesse caso, vá até o quarto de Sakura e traga-o.
- Ok ...
Rapidamente Touya foi até o quarto. Lá, encontrou Kero num canto, e sem dizer nada, pegou-o e tomou o caminho de volta.
- Aí está ...
Kero ia reclamar do pouco cuidado de Touya, porém a presença de Yue o surpreendeu tanto que até esqueceu-se disso.
- Você aqui??
- Isso mesmo.
- Hmm ...
Que Touya conhecia Yue não era novidade. Mas, se ele estava ali, é porque também tinha certos presságios ... teria vindo conversar com Touya??
- Eu chamei o Yue ... - Touya interrompeu seus pensamentos - ... pra ver se ele sabia de alguma coisa ...
- Você também ?
- Também ... sei que algo vai acontecer, e estou preocupado com minha irmã.
- Hmm...
- E você?
- Eu oquê?
- Sabe me dizer algo?
Kero tinha apenas o mesmo que ele ... presságios... maus presságios...
- Não ... também me sinto estranho ... Yue ...
- Sim ?
- As cartas ... Sakura não poderá sozinha ...
- É ... eu sei ...
- Mas do que estão falando?!?
Touya queria uma explicação. Seja lá o que fosse acontecer com sua irmã, faria de tudo para evitar ...
Kero permaneceu calado ...
- Não podem ficar em silêncio !! Ela corre riscos!!
- Nós sabemos que corre !! - Kero perdeu a paciência.
- Então façam alguma coisa !!
- Não venha nos dizer o que fazer, moleque !!
Touya teria continuado a subir a voz, mas dois dedos vieram levemente de encontro a seus lábios
... Virou-se ...
Yue o encarava, uma expressão neutra ...
- Calma, Touya ... por favor ...
- Yue ... vocês não podem deixar nada acontecer com ela ...
Passou a mão em seu rosto, e formou-se um sorriso discreto .
- Não deixaremos ... eu prometo.
Olharam-se mais um tempo, e isso bastou para silenciar Touya, que sentou-se na cama...
Já com a voz calma, lançou a pergunta ...
- Há algo a ser feito ... ?
Silêncio.
******
Chegava a hora, enfim. De longe já sentia-se nervoso.
Acomodou-se na poltrona do avião, e fechou os olhos ...
"Sakura..."
Logo o jovem Shaoran estaria no Japão.
Se conseguiria resolver o que pretendia resolver, isso ainda era futuro.
Estava muito confuso sobre tudo que tinha feito. Sua decisão
súbita de voltar ao Japão não tinha sido contestada
por sua mãe. Concordou sem dificuldade ... soava estranho. Claro
que ela sabia que o filho tinha assuntos que transcendiam as bobagens dos
garotos comuns da sua idade. Porém, também deveria saber
que eram outros assuntos que o levavam ao Japão desta vez, esses
mais para garotos comuns que para férreos discípulos da magia.
Por que não se opôs, então?
Li tinha dúvidas sobre se conseguiria resolver o que vinha resolver, porque não tinha mais certeza sobre o que vinha resolver.
Vinha por Sakura ... ou não?
Nada tinha a ver com magia desta vez ... ou tinha?
Era muito afeito a essas coisas ... tinha medo de que sua decisão
de voltar fosse um passo induzido por alguma força oculta... Tinha
medo não de estar indo, mas de estar sendo levado sem perceber.
Como explicar algo assim? Agora, dentro do avião, nem
mesmo ele entendia. Está certo que gostava dela, mas voltar ...assim
? Por que essa pressa toda? Lembrou que não pôde conter-se
até fazer o que tinha feito, e isso só reforçou sua
sensação estranha.
Porém, num ímpeto, tentou varrer tudo aquilo da
cabeça, do contrário teria um surto ...
"Estou voltando por Sakura ... apenas por Sakura"
Mesmo ...?
Continua...
Leu? Gostou?
Odiou? E-mail pra mim.
(...)
Todo d`Preto